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25 de maio de 2022

"The fallout" e a saúde mental da juventude: precisamos falar sobre isso

8,5/10

Quando dei o "play" para assistir ao filme "The fallout" (traduzido "a vida depois), a única informação que eu tinha era a do cartaz, sequer tinha lido a sinopse do filme. Ao iniciar mostrando o cotidiano dos amigos Vada (Jenna Ortega) e Nick (Will Ropp), embalados por sorrisos, descontração, música pop e piscadelas a um crush, logo entrei na vibe de "mais um típico filme de adolescente", e para o meu espanto, nos minutos seguintes todo meu mundo desmoronou, e numa cena primorosa vemos a protagonista Vada enclausurada no banheiro da sua escola com uma garota super popular, dividindo o box no banheiro para fugir dos tiroteios que assombravam o prédio. Só ouvimos os tiros, mas encarnamos toda a sensação de medo e insegurança, e quando um outro aluno entra, ficamos tão tensos quantos os personagens, como se o perigo estivesse tão próximo, numa sensação asfixiante

No momento em que escrevo isso (25/05/2022), quatro meses após o lançamento do filme no Brasil, as notícias de massacre em escolas norte-americanas novamente ocupam os noticiários, dessa vez no Texas. Crianças entre 7 e 11 anos mortas, além de professores. O atirador compartilhou fotos das armas em suas redes sociais. É absolutamente agoniante pensar que a escola pode ser o reduto de sentimentos tão díspares, e do quanto a educação está longe, na mente de algumas pessoas, de ser tão sedutora quanto o crime, os quais muitas vezes oferecem status e uma sensação de poder inebriantes.

Estamos longe, muito longe de entender a cabeça dos jovens, e isso sem considerar o quanto o fardo já é pesado demais: o excesso de informações das redes socias e a pressão social em ser visto e aceito (Vada, ao entrar no banheiro, queria se aproximar da popular influencer Mia, mas se sentia inferior; acabaram se aproximando pelo trauma), os conflitos internos com a sexualidade, o sentimento de impotência e de insegurança, a relação com os pais (tão próxima e tão perto). Numa cena de Vada com o pai, ambos gritam seus medos e inseguranças num ambiente aberto, com alguns palavrões, e embora um pouco apelativa a cena é clara: ninguém faz ideia do que tá acontecendo e de como podemos contornar a situação, nem mesmo os adultos.

A sempre carismática Shailene Woodley dá vida a uma psicóloga, mostrando a importância do trato profissional à nossa saúde mental. A jovem Vada está devastada, sofre sentimentos confusos e normais a adolescentes, mas tendo que lidar com a família, com os amigos (em determinado momento, seu melhor amigo Nick pretende agir politicamente, e ela, de perfil mais contido, sente que não o acompanha), e ainda tem a questão da sua sexualidade, experiências com drogas (de ácidos a bebidas) e... claro, a escola! Este lugar que poderia ser um refúgio, mas é palco onde a ansiedade parece fugir ao controle, onde os sentimentos entram em erupção.

Ao mesmo tempo em que o roteiro acertou em focar na tensão sibjetiva do psicológico de Vada, há de se destacar que haveria espaço para um melhor desenvolvimento dos demais personagens, como o próprio engajamento do Nick, as questões pertinentes sobre as consequências do uso das redes sociais no arco vivido pela Mia, a relação com os pais de Vada e sua irmã, que havia acabado de menstruar, e mesmo sua relação esporádica com o garoto Quinton (vivido pelo ótimo Niles Fitch). Infelizmente tudo soou superficial, mas ao menos é compensado com a entrega da Jenna Ortega.

Se você for pai ou mãe, certamente sentirá desejo de abraçar seus filhos e protegê-los numa caixinha. Quando você pensa que o filme caminha para a esperança, eis que o desfecho retorna você para a realidade e para o ciclo pernicioso que nos assola. A tensão não se esvai e de repente você pode se ver junto da personagem, deixando o medo e o trauma lhe invadirem.

Não é um filme fácil, mas por fugir dos clichês adolescentes, é absolutamente necessário. Acertadamente, ao focar nas consequências psicológicas, o filme não fetichiza a violência, no entanto, tenho receio de que esteja fetichizando a dor. É muito complicada essa ambiguidade: filme necessário, mas não sei até que ponto os jovens têm a maturidade de assistí-lo, e nem se trata de idade. De temática urgente e de digestão altamente complexa, o fato é que não poderemos apartar a juventude da realidade, tão cruel quanto as imagens não mostradas no filme. Num ano em que tivemos "Playground" e "The innocents" para falar sobre bullying na infância, ver que a escola definitivamente não é o lugar mais seguro do mundo é impactante. Seria necessário resgatar modelos mais repressivos? Seria necessário revolucionar nosso ensino? Qual, afinal, é o papel da escola? Estamos preparados para lidar com toda essa carga emocional? Aliás, até que ponto somos responsáveis pelo estado de desamparo em que se encontra a atual geração?

Queria deixar uma mensagem mais positiva, pois sinto que o filme ressaltou com tanto amargor os conflitos e medos, deixando o amor e a esperança parecerem tão distantes... Mas talvez a postura idealista, hoje, seja utópica demais. Talvez se esconder em um box de banheiro seja necessário somente em certo momento, como autodefesa, mas como Nick pretendia, seria preciso agir e fazer bem mais. Não sabemos exatamente como, mas dar valor ao caminho da mudança e fazer dos jovens mais protagonistas, pode ser o começo de um mundo melhor. Ou não.

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