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1 de março de 2020

POR LUGARES INCRÍVEIS

7/10

GATILHO? Não. DEPENDÊNCIA EMOCIONAL? Sim.


Não sou um grande entusiasta dos filmes e das séries adolescentes da Netflix. A começar que são, no geral, demasiadamente estridentes, irritantes, pouco inovadores e apelativos de um jeito bobo. Não é uma linguagem coloquial ou o fato de falar de sexo e de diversidade (necessário) que vai dar qualidade à determinada obra. Deste modo, fui conferir "Por lugares incríveis" sem grandes expectativas, ainda mais já tendo lido o livro, e, diga-se, não é uma literatura grandiosa, apesar de ser um best-seller.

Para minha surpresa, a obra cinematográfica de Brett Haley é sim bem digna. A começar pela trilha e ambientação. Esqueça aquelas piadas fáceis de um "American Pie" ou de qualquer outra comédia norte-americana. O filme se agarra a um cinema de gênero, com alta carga emocional e dramática, muitas vez silencioso e arrastado. Puro sentimento.

Inclusive, às vezes poderia ser mais ágil, como por exemplo a ótima montagem de "Meninas malvadas", mas isso não tira o mérito da obra, realmente tocante, embora possa ter comprometido um pouco o desenvolvimento dos personagens.

O roteiro contou também com a contribuição de Jennifer Niven, a escritora do romance original. Conta a história de Violet Markey (Elle Fanning) e Theodore Finch (Justice Smith), ambos jovens secundaristas com claros problemas psicológicos. Ela, por ter perdido a irmã num acidente de carro. Ele, pelo comportamento instável e agressivo, cuja origem remonta à sua infância conturbada devido às agressões do pai.

É de se estranhar que algumas passagens difiram do livro, e embora eu tenha gostado de quase todas as adaptações, a construção de Finch ficou meio prejudicada. No livro, por exemplo, é retratada bem mais a relação dele com o pai, e isso é essencial para compreendê-lo a fundo. Aliás o estranhamento ocorreu já nas cenas iniciais, em que Violet tenta se matar e Finch a salva: no filme é um momento particular dos dois, mas no livro é uma cena em que toda a escola vê e acaba achando que Violet salva Finch. Pode parecer um mero detalhe, mas essa diferença pública do comportamento dos jovens é essencial para entender o tipo de desenvolvimento e característica que marca cada um, da garota popular ao garoto "aberração", mas no filme este contraste acaba sendo muito mais diluído.

No entanto, é sobre a personalidade de ambos que o filme se constrói e acerta no alvo. Finch, por exemplo, gosta de correr, é extrovertido muitas vezes, não passa despercebido na escola, ainda que o chamem de "aberração", dado um episódio de violência que protagonizara com outro jovem na escola (aliás, o filme poderia ter reproduzido em flashback a cena, mas se limita a apenas citar). Violet também vai a festas, inclusive é mais sociável que ele, ainda que esteja em estado depressivo, sofrendo pela falta da irmã. Em suas redes sociais, ela continua a sorrir.

Isso serve para estarmos em alerta com as pessoas em volta. Sorrisos nas fotos, estar em festas, ter amigos, muita coisa pode mascarar nosso verdadeiro estado interior. Ter alguém que nos enxergue para além da superfície, é muito raro hoje em dia, e é por isso que a química do casal funciona perfeitamente bem: enxergam a alma um do outro. Violet em nenhum momento deixa de tentar compreender Finch por dentro, inclusive há uma cena em que implora para o garoto se abrir mais. Finch então, além de enxergar a humanidade de Violet, passa a primeira metade do filme tentando animá-la, conseguindo com êxito tal proeza. Ambos se aproximam mais devido um trabalho da escola em que devem visitar lugares turísticos da cidade (Indiana), daí o título da história, "Por lugares incríveis".

Detalhe aqui que o roteiro é bem sutil ao sugerir que Finch sabe muito bem o que está fazendo perante Violet, insistindo para que formem a dupla para realizar as visitas, forçando a amizade e tentando a todo instante reacender a luz na vida da garota, afinal, ele próprio também precisa de ajuda. Embora ele muitas vezes suba o tom e se mostre inclusive abusivo (como na cena em que a force a entrar no carro), não se pode simplesmente julgar o ato com um certo "machismo" da parte dele, ainda que, sim, ele tenha atitudes machistas. Deve-se no entanto, perceber que sua autoridade perante ela fora construída num momento de fragilidade de Violet e num momento em que o próprio Finch via a si mesmo nesta fragilidade. Seu tom a mais com ela, era também um reflexo a si próprio. Ambos eram frágeis emocionalmente, e isso não é nada bom, daí está a limitação do roteiro em reforçar isso, pois do jeito como ficou apresentado, parecia que inclusive tal dependência ganhava força romântica.

"Você foi, sob todos os aspectos, tudo o que alguém poderia ser. [...] Se existisse alguém capaz de me salvar, seria você" (Woolf, Virgínia).

Essa frase e outras de Virgínia Woolf são usados pelos protagonistas, na tentativa de deixar o filme mais cult. O bom é que não ficou tão forçado, mas a citação em especial revela a romantização da DEPENDÊNCIA EMOCIONAL, o que pode levar aos mais desavisados a olhar tudo de forma positiva, romantizada. 

Em determinado momento, Finch procura um grupo de apoio, mas é muito pouco para um filme que ao final mostra um alerta sobre saúde mental. Os pais de Violet, por exemplo, são tão passíveis diante do problema da garota, não há um profissional de saúde a acompanhando, e ainda mostra a complacência da postura da mãe ao simplesmente incentivar a jovem a sair, como se tal escapismo fosse o suficiente.

No entanto, este defeito do filme é mais proveniente da escrita de Jennifer Niven mesmo. Não há como revolucionar a partir de um material já meio frágil. Por isso destaco aqui a competência de Elle Fanning, que consegue entender a mensagem da obra e com um simples olhar, por exemplo, mostrar a força da personagem, por si. 

O final, ainda que arranque lágrimas, trás uma importante mensagem de esperança, do seguir em frente, de passar por cima das dificuldades e traumas, e seguir o seu caminho, ainda que cheio de dificuldades. Os "lugares incríveis", se não são tão incríveis assim, é até, em parte, um acerto, já que torna mais poderosa a ideia de que lugares banais podem tornar-se realmente incríveis se envoltos de esperança. Os protagonistas visitaram os lugares para uma pesquisa da escola, e assim o filme se encerra, com a leitura arrebatadora do relatório produzido da experiência em visitar tais lugares. Uma cena extremamente boa, com uma trilha feita puramente para emocionar.

Não achei que o filme incentiva um gatilho ao suicídio. Até porque, uma mente frágil pode se servir de qualquer pretexto, afinal. Embora entenda as críticas sobre o gatilho, e de certa forma concorde que faça sentido sob certo ponto de vista. Afinal, DEPENDÊNCIA EMOCIONAL pode ser visto sim como um gatilho, e isso infelizmente mostra um desiquilíbrio do material. Faz sentido, quando vemos que o filme poderia explorar melhor, de forma mais educativa, os sérios problemas dos jovens.

No entanto, a discussão está posta, e surpreendentemente o filme não apela ao humor bobo para mostrar a construção da relação da dupla, muito menos a voltas mirabolantes, e nem em cenas apelativas com as vistas em "13 reasons why". É um drama que se sustenta nas imagens, na trilha (acertadamente silenciosa no início) e na interpretação dos jovens, e isso, para uma produção da Netflix, já é um grande passo a frente.














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