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8 de julho de 2022

Pleasure: o hedonismo e o estoicismo degladiando-se

Dirigido por uma diretora feminista, a sueca Ninja Thyberg, podemos afirmar que "Plesure" fica no limiar entre o filme denúncia e o fetichismo, cujas fronteiras estão cada vez mais tênues, ainda mais na pós-modernidade.

Sem se aprofundar nas motivações exatas da protagonista ("vim porque gosto de sexo"; "quero chupar pau"; "fui estuprada pelo meu pai", seguido de umas risadas que descredibilizam a fala), o filme funciona por acompanhar de perto uma aspirante à atriz pornô, mas também por mostrar os bsatidores das produções. E engana-se que a diretora demoniza o sexo em si. O projeto, inclusive, conta com grande parte do elenco proveninete do mundo pornô, o que confere um olhar menos moralista ao produto final, como por exemplo, algumas cenas em que os produtores de fato estavam sendo simpáticos e se importando com os atores e atrizes em cena. Mas óbcio que nem todos. A cena em que a moça, incialmente consentindo em fazer um sexo mais pesado, é obrigada a continuar, mostra o poder da coerção nesse mundo, e de como é difícil ver os limites daquilo que estamos dispostos a fazer.

Impressiona como a câmera de Thyberg torna tudo tão orgânico: do close no rosto da protagonista às cenas em que ela faz sexo oral, os cortes não são abruptos, não há uma mudança na tonalidade ou na trilha sonora, ponto para a produção que torna as cenas de sexo coesas com a vida da protagonista vivida por Sofia Kappel. Aliás, numa performance difícil, pois não sabemos ao certo até que ponto ela está gostando de viver aquele mundo, só sabemos que a jovem atravessou o oceano, da Suécia para os Estados Unidos, com uma questionável certeza, jogando-nos das incertezas e no universo pornô abruptamente, ainda que tudo isso faça parte dos conflitos internos da personagem.

A câmera também passeia incansavelmente pela relação dela com as amigas e os agentes, até chegar de forma totalmente verossímel nos filmes dentro do filme, o ato em si, e faz esse passeio de forma lúcida, embalada por uma trilha sacra que confere uma relação dualista à obra. Aliás, tudo aqui é meio antagônico, do olhar da protagonista (confusa, assustada, tentando sentir prazer ou verdadeiramente sentindo?) ao título, um prazer que é posto toda hora à prova. Não há uma trilha pop que confira diversão às cenas, tudo é feito para você questionar o que vê, e isso é mais um mérito para a película.

E a grande pergunta que o filme levanta é: vale à pena? E esta pergunta cabe tanto aos produotes, atores e atrizes quanto ao público que consome. No caso de quem se arrisca a viver disso, qual o limiar entre prazer e a obrigação? Até que ponto é desumano e até que ponto nada mais é do que uma necessidade humana? Afinal, o filme não condena o sexo em si, mas deixa pro espectador pensar até que ponto a busca pelo prazer (pleasure=prazer) é saudável ou nos torna livres, e isso vale para todos que, de alguma forma, alimentam essa indústria. É possível falar em liberdade aqui? Pois desconfio que essa crítica à suposta liberdade acabe por feitichizar ainda mais esse conceito de sexo enquanto mera reprodução das estruturas hierárquicas de submissão.

Por exemplo, o revanchismo entre as amigas deixa escapar o quanto se prende o roteiro a uma visão que negligencia o ponto de vista puramente feminino. Fora a última cena, meu deus, uma cena lésbica, há algo mais clichê para os machos sedentos por objetificação dos corpos femininos? E o fato da protagonista assumir de vez o papel do ativo dominador, fincar-se nos espaços VIPs (reservados às atrizes de maior sucesso), custou-lhe não apenas a amizade, mas até mesmo o desconforto consigo mesma.

A falta de um aprofundamento biográfico causou certa frieza quando ela se desculpa pelo sexo sujo feito com a sua companheira de cena. Ali havia um lampejo da sua humanidade e do caminho de degradação a que estava incorrendo, mas como o roteiro nos conduz sem julgar, o espectador de fato não sabe até que ponto a protagonista se vê, se num pedestal ou se no fundo do poço. Até que ela manda parar o carro para sair dali, fugindo do ambinete de claustrofobia e de tudo aquilo que lhe causava dor. Ainda é sobre prazer e liberdade?

Como disse no começo, confundir a linha que separa a denúncia do feitiche é um perigo, ainda mais quando alguns elementos do roteiro e até mesmo a atuação ambígua de Kappel podem ser questionados. Mas ao menos o filme cumpre sua função: de fazer pensar. E se você, como eu, também se excitou em algumas cenas, cabe-nos refletir sobre como anda a fronteira dos nossos desejos. Talvez Freud ajude nessa empreitada. E se um filme nos faz revisitar a psicanálise, já valeu o ingresso.

22 de maio de 2022

"You won't be alone": a influência da "Idade das trevas" para o feminismo

O filme "You won't be alone" foi lançado no dia 1º de abril de 2022, roteirizado e dirigido pelo estreante Goran Stolevski. A obra é um exemplar vindo da Macedônia, vizinha à Grécia, retratando em forma de horror (e muito lirismo) a influência da Idade Média, sobretudo nos corpos femininos. O filme tem como cenário uma aldeia que lembra bastante o cenário feudal da "Idade das trevas".

A história começa em torno de uma criança recém nascida que chama atenção de uma bruxa. A mãe, para proteger a criança, faz um pacto com a bruxa: poupar a vida dela pelo menos até os 16 anos. Só nesta introdução já dá para pensarmos como a Idade Média tratava as crianças: como seres incabados, mini adultos (nesta época, a infância e a juventude não eram vistas em suas peculiaridades). A bruxa atende o pedido da mãe, mas corta a língua da criança, mostrando que a menina não teria sequer o poder da fala, a possibilidade de ser alguém plena. Mostra o silenciamento a que alguns corpos são submetidos.

A mãe, então, tenta esconder a criança numa caverna, ao longo de 16 anos, mostrando a fragilidade da socialização da jovem, retirando-a do convívio dos demais. Mas a medida não basta para despistar a bruxa, que retorna na forma de uma águia para resgatar a adolescente. Ao sair da caverna, a menina no entanto, embora seguida pela bruxa, deve desbravar o mundo sozinha, a bruxa apenas a observa de longe. É como se ela estivesse saindo da caverna de Platão para desbravar o mundo, mas uma sombra ou uma maldição sempre a acompanhasse.

Sozinha, a moça começa a notar o seu corpo, a necessidade de se alimentar, a obrigação de ter que sobreviver. E aí a própria jovem comete assassinatos: inicialmente de um cabrito, para comer suas vísceras; após retornar à aldeia, ela se alimenta inclusive de uma outra mulher, come seus órgãos internos e assume a forma dela.

Tudo que acontece no filme tem muito sangue e as imagens são cheias de crueldade, no entanto, a estética do filme usa uma trilha poética, e acentua que a garota a faz por pura necessidade. Ao assumir o corpo da mulher que a devorou, ela terá que sobreviver a outras provações além da busca por alimentação, como controlar seus impulsos sexuais, seus desejos, não poder se impor num mundo onde homens mandam e as mulheres obedecem. Mesmo podendo falar, ela é silenciada.

Ao longo do filme, ela ainda toma o corpo de um cachorro e de um homem. Especialmente neste último, na forma masculina, quando ela se aproxima de uma boneca ela também sofre perseguição, como um ritual de exorcismo, mostrando como a sociedade expurga os traços afeminados e os maltrata. No filme ainda há cenas de mulheres sendo queimadas vivas, mulheres que são forçadas a casar e fazer sexo, a epós ter uma filha, vive atormentada para que a bruxa não pegue a própria filha.

O filme no entanto, termina com uma mensagem de esperança ao perceber nas crianças, em especial nas meninas, uma certa pureza, qua protagonista nunca teve pois teve sua infância roubada ao cresccer numa caverna. Ou seja, o filme passa a mensagem de que nascemos puros e sem crualdade, mas a sociedade é que nos corrompe, mostrando que, se quisermos ter um mundo de paz, é preciso cuidar das crianças e do processo de socialização, pois todas as formas de violência e preconceito são cultivadas ao longo da vida, não são condições da natureza humana, especialmente a condição da mulher.

A Idade Média cultivou o medo e o adestramento, especialmente dos corpos femininos. Trata-se porém, de semear a liberdade e a fraternidade para vivermos melhor, e o diálogo e respeito entre os gêneros. A bruxa nada mais é do que a maldição do padrão social que recai aos corpos femininos, que eram obrigadas a servir e a se adequar, não podendo expressar-se livremente. Mostra como as mulheres eram subjugadas pelo patriarcado, e como essa concepção ainda vigora até nossos dias.

18 de maio de 2022

"X" e a relação entre sexo, terror e religião

8,5/10

Uma grata surpresa de 2022 é ver um slasher verdadeiramente bem produzido como "X", que mistura uma boa dose de pornografia (poderia até ser mais explícita), com terror, suspense e ainda um discurso religioso, mesmo que meio vago. Dirigido por Tim West, a trama central gira em torno de personagens que esbanjam beleza, juventude e hormônios, que vão a um lugar mais isolado para gravar cenas pornôs de um filme B, e obviamente as coisas irão fugir do controle em determinado momento.

A grande sacada do filme, além da primorosa ambientação, é ter consciência do material que tem em mãos. O filme já inicia com os policiais chegando na casa e se deparando com a cena de horror, que a câmera não mostra, mas já sabemos não se tratar de nada agradável, e ao fundo, uma televisão sintonizada na pregação de um pastor, vociferando palavras típicas do moralismo do "cidadão de bem". O filme se passa em 1979, mas poderia muito bem estar sintonizada num "Show da fé" gringo.

Os jovens, na flor da idade, carregam aquela aura inocente de que estão aproveitando e ganhando a vida, sendo 3 casais, formados por: 2 atrizes e 1 cinegrafista, mulheres, e 1 ator, 1 produtor e 1 diretor, sendo que o diretor namora a cinegrafista e os outros dois fazem par com as atrizes. O filme dentro do filme é o mais canalha possível: roteiro barato e desculpa para treparem, típica pornografia para uma época em que nem existia internet, será mesmo que a geração de nossos avôs não tinham essa "indecência" toda?

Os vizinhos são os casais de idosos mais bem construídos dos últimos anos, cuja presença e misteriosidade invadem a tela a cada aparição. O velho carrega o ar sisudo, pois foi ele quem alugou a casa ao lado para a equipe, já deixando logo de cara que não gostou deles, e ela, mais contida, vamos percebendo que se trata de uma mulher desiludida com a vida, sedenta por sexo e desejo mas sabotada pela passagem dos anos. O conflito de gerações aqui não apenas é claro, mas fio condutor da narrativa: o carpe diem estaria restrito à juventude e aos vícios próprios da idade? O sexo descontrolado se restringe a que tipo de pessoa ou parcela da população? O cristianismo contribui ou atrapalha na construção dos desejos?

Perguntas e mais perguntas sem uma resposta fácil. Mas o sexo e o fluir dos corpos não param, a tal ponto da própria cinegrafista, que era a jovem mais tímida, querer fazer sexo e participar do filme. Seu namorado reluta, mas cede, é necessário viver, deixar agir. A certo ponto, discutem a flexibilidade das relações ("é tudo profissinal", "não é amor, é apenas sexo") com as famosas frases prontas de quem clama a liquidez nas relações. É a geração pós-Woodstock, cheia de hormônios e vagando a esmo.

Mas o filme não é moralista. O casal de velhinhos, especialmente a senhora idosa, procura a equipe por sentir-se reprimida em seus desejos, e é desse impulso não controlado que vem a potência, seja para o sexo, seja para a morte, ambas em grau de equidade para efeito de comparação. Atirar em alguém, passar por cima da cebeça com o pneu da caminhonete, pode ser tão excitante quanto dar de quatro para o negão dotado. A perversão pode estar contida nos sermões cristãos, mas parafraseando um dos personagens, "se for reprimir, o desejo surgirá em outros lugares, piores ainda".

O filme não poupa a vida de seus personagens, e há mortes repentinas, regadas a um enquadramento às vezes lento demais, e sexy demais também. O corpo tomado pela idade clama em participar da suruba e da porra toda, e somos obrigados a ter empatia por uma senhora que queria apenas sentir-se mulher outra vez, ao mesmo tempo em que nos aterrorizamos com as consequências do desejo desenfrado. É estranho, pois tudo é muito excitante e pervertido, sendo fácil sentir um sentimento de culpa por saborear o que há em tela. O cristianismo, mais do que qualquer outra ideologia, talvez saiba que o dispositivo de poder repressivo, como diria Foucault, é mais positivo do que nunca, não no sentido valorativo, mas no sentido de criar mecanismos onde esse poder é interditado, e por isso mesmo mais excitante de usufruí-lo.

O que fica é um filme B muito bem arquitetado, lotado de sangue e orgasmo, que poderia até ser mais explícito na sua nudez, mas é escrachado no que há de melhor: os sentimentos humanos na sua mais perfeita crueza, de como recorremos ao abrigo de nossos corpos ou de nossa insegurança para extravasar nosso lado mais irracional. No fundo, o animal mais racional é o jacaré que mora no lago, que apenas espera sua presa no seu ambiente pacato, silencioso, não recorre a estridências com uma Bíblia na mão, muito menos fetichiza seus impulsos em filmes pornográficos: ele apenas vive a sua natureza. Pensando bem, todos nós somos jacarés, só não somos tão silenciosos assim.

17 de maio de 2022

"Paris, 13º distrito", e a pós-modernidade líquida

7,5/10

Não se assuste caso tenha percebido um roteiro que ainda precisa se encontar, um certo vazio de uma trama circular que dá voltas e voltas sem sair do lugar, pois definitivamente, aqui, esse nada veio bem a calhar.

Com uma fotografia em preto e branco, exceto durantes cenas mais "carnais" em alguns momentos, "Paris, 13º distrito" (Olympiades, 2022), o filme de Jacques Audiard se inicia focando no relacionamento entre a oriental Émile Wong (vivida por Lucie Zhang) e o doutorando afrodescendente Camille (vivido por Makita Samba), com os dois tendo dificuldades em estreitar os laços, se limitando a serem colegas de quarto, regados, claro, a sexo, mas sem sentimentos.

Ao contrário do filme contemporâneo "Volta pra mim", que se utiliza de dois términos de relacionamentos para passar a ideia do desapego, com os personagens que levaram o pé na bunda se juntando para bolar um plano e estragar os relacionamentos dos seus ex namorados, ou seja, armando um circo com 3 casais e ainda firmando uma mensagem conservadora, em "Paris" tudo é mais contido, porque a questão é que os relacionamentos não precisam de amantes para se mostrar frágeis, afinal, vivemos a era pós-moderna, na qual nossas subjetividades passam por cima da solidez afetiva e de quebra ganhamos as inseguranças desse mundo líquido. O indivíduo é a sua própria angústia, nem precisa de terceiros.

Camille tem várias aventuras sexuais, assim como Émile (que chega até a baixar um aplicativo de relacionamento), para espanto do primeiro, pois mesmo que ele também tenha certos relacionamentos casuais, é muito mais racional e equilibrado que ela. Inclusive, ele se permite um ano sabático para trabalhar e focar em concluir um doutorado, algo típico de quem tenta controlar as rédeas, e ela, vagando incerta nos desejos, vai se deitar com vários, sem um aprofundamento sentimental.

No meio do filme surge uma terceira pessoa que acaba se aproximando de Camille, incialmente por questões profissionais, mas obviamente a capa não dura muito. Os sentimentos andam a galope. Trata-se da Nora (Noémie Merlant), uma personagem que acaba sofrendo bullying por ser confundida com uma influencer digital do ramo pornô (uma espécie de câmera privê), sendo que Nora procura a tal influencer nas redes, e acabam virando bem mais que amigas.

Não há respostas, não há certezas. No filme "Volta pra mim", os personagens querem os pares que não possuem, e se juntam para se vingar, até que em dado momento percebem que estão apaixonados um pelo outro e num toque de mágica, deixam de lado os desejos e se entregam um ao outro. Já em "Paris", não há essa chave. Não há conclusões. Nem se fala em casamento. Embora termine com um "eu te amo", a questão que fica é: até quando?

Os personagens vão se descobrindo e se abrindo ao público durante a projeção. Nora e Émille têm evoluções visíveis quanto ao apetite sexual, cada vez mais livres para explorar as possibilidades de seus corpos, e isso é muito positivo num mundo cheio de dispositivos biopolíticos.

Não é o filme perfeito, talvez falte um traço da criatividade de um Woody Allen para tornar as situações mais interessantes, porém, o mero vazio do cotidiano daquelas pessoas, mergulhados na mediocridade, aproxima-os do público de uma forma cativante. Mesmo formando os pares em sua conclusão, ficamos com a sensação de que tudo é muito volátil, como um fogo que arde sem se ver, eterno enquanto durar.

4 de janeiro de 2015

Crônica: Um programa inusitado


O olhar centrado de Carlos era dirigido à porta trancada do banheiro, dentro do qual se ouviam as gotas de água escorrer pelo ralo. Ele a aguardava pacientemente, ainda que lhe faltasse o destemor dos fortes: apenas os dois dividiam aquele fétido quarto de motel, palco de mais uma noite de sexo pago.

Era estranho esperar por ela naquelas condições: estava sóbrio. Carlos queria rir da sua condição, como se suspeitasse de sua coragem consciente. Mas estava lá, esperando tranquilamente o sexo fortuito e descartável daquela moça.

Não havia o que temer, mesmo sendo a primeira vez que alugava um quarto para tal ocasião. Desde quando o seu ex-namorado o deixou, Carlos contava com inúmeras investidas fugazes, trepadas rápidas e esquecíveis, mas nada se comparava àquilo; e, de repente, quando o chuveiro foi fechado e o barulho da água escorrendo ia cessando sobre o corpo de sua próxima amante, o silêncio lhe provocou um certo grau de ansiedade.

Não poderia escapar agora, quando já estava tão perto. O tênue nervosismo estava mais para um desejo de que o ato rapidamente se consumasse.

Estava meio excitado, embora nervoso, quando a jovem se revelou no quarto, asseada, inteiramente nua. Ele sorriu para ela, já sabendo o que reservava aos dois. Ela se aproximou da cama e elogiou o corpo moreno ali deitado. Ela foi se aproximando aos poucos, sem cessar de balbuciar o quanto vê-lo nu a deixava demasiadamente excitada, desejosa, insaciável.

Carlos adorava ouvir elogios, e por um segundo pensou em retribuir. Mas a moça repentinamente lhe tocou os lábios para que ele se calasse. Ela tomava as rédeas da situação, não queria perder o comando.

Carlos imaginou, por um instante, que essa sua submissão pudesse lhe prejudicar ao revelar certa fraqueza, mas logo a insegurança se dissipou: era seu dever ser submisso em tal ocasião. Ela lhe beijou docemente os lábios, e mesmo que Carlos fantasiasse algo mais selvagem, o ritmo daquela formosa mulher lhe pareceu mais estimulante. Ele cedera a seus encantos, aos seus beijos e toques, às carícias ritmadas. Ela lhe tocava a nuca como se fosse a tutora daquele corpo, e ele se deixava levar. Preliminares transcorriam suavemente, feito nuvens de algodão.

Foi então que a moça, delicadamente, lhe pôs de bruços, e ele já não se importava com mais nada, já estava completamente relaxado. Ela encostou seu órgão por trás dele e lhe penetrou com vontade. Ele sentia um pouco de dor, mas ser penetrado por uma mulher cujos cabelos lhe batiam nas costas era de uma sensação incomparável.

E foi assim a noite dos dois, Carlos deixando a mulher ejacular ao lhe penetrar, domado não pela força, mas pelo desejo. Ela se sentiu extremamente satisfeita em possuir aquele homem tão másculo e viril. Mas sabia que tudo não passava de uma ilusão, de algo momentâneo.

Após esbanjar seus prazeres, ela novamente tomou uma ducha e pagou pelos serviços. Carlos jamais imaginava que a vida de garoto de programa lhe fosse pregar tal surpresa: uma cliente inusitada, e por isso mesmo, um sexo revigorante.


Carlos quis lhe perguntar o nome, mas ficou com receio de ofender: nome de batismo ou nome social? Até porque, isso pouco importava. A partir daquela noite, os dois nunca mais se viram.

Pleasure: o hedonismo e o estoicismo degladiando-se

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