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4 de janeiro de 2015

Crônica: Um programa inusitado


O olhar centrado de Carlos era dirigido à porta trancada do banheiro, dentro do qual se ouviam as gotas de água escorrer pelo ralo. Ele a aguardava pacientemente, ainda que lhe faltasse o destemor dos fortes: apenas os dois dividiam aquele fétido quarto de motel, palco de mais uma noite de sexo pago.

Era estranho esperar por ela naquelas condições: estava sóbrio. Carlos queria rir da sua condição, como se suspeitasse de sua coragem consciente. Mas estava lá, esperando tranquilamente o sexo fortuito e descartável daquela moça.

Não havia o que temer, mesmo sendo a primeira vez que alugava um quarto para tal ocasião. Desde quando o seu ex-namorado o deixou, Carlos contava com inúmeras investidas fugazes, trepadas rápidas e esquecíveis, mas nada se comparava àquilo; e, de repente, quando o chuveiro foi fechado e o barulho da água escorrendo ia cessando sobre o corpo de sua próxima amante, o silêncio lhe provocou um certo grau de ansiedade.

Não poderia escapar agora, quando já estava tão perto. O tênue nervosismo estava mais para um desejo de que o ato rapidamente se consumasse.

Estava meio excitado, embora nervoso, quando a jovem se revelou no quarto, asseada, inteiramente nua. Ele sorriu para ela, já sabendo o que reservava aos dois. Ela se aproximou da cama e elogiou o corpo moreno ali deitado. Ela foi se aproximando aos poucos, sem cessar de balbuciar o quanto vê-lo nu a deixava demasiadamente excitada, desejosa, insaciável.

Carlos adorava ouvir elogios, e por um segundo pensou em retribuir. Mas a moça repentinamente lhe tocou os lábios para que ele se calasse. Ela tomava as rédeas da situação, não queria perder o comando.

Carlos imaginou, por um instante, que essa sua submissão pudesse lhe prejudicar ao revelar certa fraqueza, mas logo a insegurança se dissipou: era seu dever ser submisso em tal ocasião. Ela lhe beijou docemente os lábios, e mesmo que Carlos fantasiasse algo mais selvagem, o ritmo daquela formosa mulher lhe pareceu mais estimulante. Ele cedera a seus encantos, aos seus beijos e toques, às carícias ritmadas. Ela lhe tocava a nuca como se fosse a tutora daquele corpo, e ele se deixava levar. Preliminares transcorriam suavemente, feito nuvens de algodão.

Foi então que a moça, delicadamente, lhe pôs de bruços, e ele já não se importava com mais nada, já estava completamente relaxado. Ela encostou seu órgão por trás dele e lhe penetrou com vontade. Ele sentia um pouco de dor, mas ser penetrado por uma mulher cujos cabelos lhe batiam nas costas era de uma sensação incomparável.

E foi assim a noite dos dois, Carlos deixando a mulher ejacular ao lhe penetrar, domado não pela força, mas pelo desejo. Ela se sentiu extremamente satisfeita em possuir aquele homem tão másculo e viril. Mas sabia que tudo não passava de uma ilusão, de algo momentâneo.

Após esbanjar seus prazeres, ela novamente tomou uma ducha e pagou pelos serviços. Carlos jamais imaginava que a vida de garoto de programa lhe fosse pregar tal surpresa: uma cliente inusitada, e por isso mesmo, um sexo revigorante.


Carlos quis lhe perguntar o nome, mas ficou com receio de ofender: nome de batismo ou nome social? Até porque, isso pouco importava. A partir daquela noite, os dois nunca mais se viram.

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