O olhar centrado
de Carlos era dirigido à porta trancada do banheiro, dentro do qual se ouviam
as gotas de água escorrer pelo ralo. Ele a aguardava pacientemente, ainda que
lhe faltasse o destemor dos fortes: apenas os dois dividiam aquele fétido
quarto de motel, palco de mais uma noite de sexo pago.
Era estranho
esperar por ela naquelas condições: estava sóbrio. Carlos queria rir da sua
condição, como se suspeitasse de sua coragem consciente. Mas estava lá,
esperando tranquilamente o sexo fortuito e descartável daquela moça.
Não havia o que
temer, mesmo sendo a primeira vez que alugava um quarto para tal ocasião. Desde
quando o seu ex-namorado o deixou, Carlos contava com inúmeras investidas
fugazes, trepadas rápidas e esquecíveis, mas nada se comparava àquilo; e, de
repente, quando o chuveiro foi fechado e o barulho da água escorrendo ia
cessando sobre o corpo de sua próxima amante, o silêncio lhe provocou um certo
grau de ansiedade.
Não poderia
escapar agora, quando já estava tão perto. O tênue nervosismo estava mais para
um desejo de que o ato rapidamente se consumasse.
Estava meio
excitado, embora nervoso, quando a jovem se revelou no quarto, asseada, inteiramente
nua. Ele sorriu para ela, já sabendo o que reservava aos dois. Ela se aproximou
da cama e elogiou o corpo moreno ali deitado. Ela foi se aproximando aos
poucos, sem cessar de balbuciar o quanto vê-lo nu a deixava demasiadamente
excitada, desejosa, insaciável.
Carlos adorava
ouvir elogios, e por um segundo pensou em retribuir. Mas a moça repentinamente
lhe tocou os lábios para que ele se calasse. Ela tomava as rédeas da situação,
não queria perder o comando.
Carlos
imaginou, por um instante, que essa sua submissão pudesse lhe prejudicar ao
revelar certa fraqueza, mas logo a insegurança se dissipou: era seu dever ser
submisso em tal ocasião. Ela lhe beijou docemente os lábios, e mesmo que Carlos
fantasiasse algo mais selvagem, o ritmo daquela formosa mulher lhe pareceu mais
estimulante. Ele cedera a seus encantos, aos seus beijos e toques, às carícias
ritmadas. Ela lhe tocava a nuca como se fosse a tutora daquele corpo, e ele se
deixava levar. Preliminares transcorriam suavemente, feito nuvens de algodão.
Foi então que a
moça, delicadamente, lhe pôs de bruços, e ele já não se importava com mais nada,
já estava completamente relaxado. Ela encostou seu órgão por trás dele e lhe
penetrou com vontade. Ele sentia um pouco de dor, mas ser penetrado por uma
mulher cujos cabelos lhe batiam nas costas era de uma sensação incomparável.
E foi assim a
noite dos dois, Carlos deixando a mulher ejacular ao lhe penetrar, domado não
pela força, mas pelo desejo. Ela se sentiu extremamente satisfeita em possuir
aquele homem tão másculo e viril. Mas sabia que tudo não passava de uma ilusão,
de algo momentâneo.
Após esbanjar
seus prazeres, ela novamente tomou uma ducha e pagou pelos serviços. Carlos jamais
imaginava que a vida de garoto de programa lhe fosse pregar tal surpresa: uma
cliente inusitada, e por isso mesmo, um sexo revigorante.
Carlos quis lhe
perguntar o nome, mas ficou com receio de ofender: nome de batismo ou nome
social? Até porque, isso pouco importava. A partir daquela noite, os dois nunca
mais se viram.
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