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28 de janeiro de 2015

Crônica: Uma mulher

- Uma mulher!

Bee, vê se já aconteceu esta cena com você: corpos suados de um lado a outro na academia,mapôs com suas calças de lycra, o magrinho que passa mais tempo ao celular com fone de ouvido, o tiozinho que disputa os maiores pesos... e, de repente, um corpo de boy chama a atenção. E que corpo! Que boy! Morenaço, camiseta justa destacando o peitoral definido, gemido intenso na carga máxima do supino, cara de macho. Eis que surge aquele velho broto, colega de faculdade do boy-marombeiro-magia, que o cumprimenta entusiasticamente, mas não mais do que o próprio: “Amigooo! Nossa, quanto tempo! Arrasou com essa baby-look azul bebê, comprou onde?”

Pois é.

O Sr. Hulk da academia é, de perto, uma mulher maravilha! Obviamente esta sua surpresa lhe faz um tolo, e uma pena que talvez esta não seja a sua surpresa definitiva: sabe aqueles garotos, playboys, que você não dava nada e que fazem o treino se revezando com os amigos nos aparelhos mais disputados (o que, tecnicamente, dobre o tempo de permanência deles na academia, pois vivem em grupo, já que a sociabilidade é o foco, não o treino), ora falando sobre a última balada, ora sobre a balada seguinte? Então, nessa ternura de camaradagem jovem, já no vestiário, você os ouve comentando sobre a pintosa musculosa da academia, com ar de desdém, troçando daquele gênero deslocado. Imagina o que devem falar de travestis e transexuais! São os mesmos que fazem apologia a uma suposta discrição intimada: “Cara, uma mulher... nem acredito!”, “ridículo, né? E parece homem...”, “Devia ter vergonha na cara”. A verdade é que se são gays enrustidos, reprimindo internamente seus desejos, ou héteros recalcados, pouco importa. A ironia do dia é que você se iguala a eles em sua surpresa inconsciente sobre o bombadão de voz fina.

O que sua boca não diz, na tentativa de manter-se politicamente correto e com seu discurso pronto e inabalável sobre sexualidade, o seu pensamento em flash rápido o revela. Pensar para si mesmo: “Tô chocado com essa mulher num corpo de boy”, revela mais da sua personalidade internalizada do que parece. E aí você continua se chocando, mesmo diante de saídas de armários banais como ter um professor gay ou de simplesmente descobrir que seu padeiro é casado com outro homem.

Já na saída da academia, eis que o bonitão-machudo-feminino surge lhe oferecendo carona. Você aceita e descobre que ele mora no mesmo prédio que você, ouve MPB, é estudante de Odontologia, e trabalha como barman em uma boate. Tudo parecia bem, até você descobrir que ele não gosta de Woody Allen! “Como assim?”, você o pergunta, no que ele responde: “Um velho arrogante metido a comediante. Gosto do Adam Sandler!”. E você se espanta, entra em choque!


Ao chegar em casa, ri da situação. Pelo menos, dessa vez, você aprendeu a se chocar pelos motivos certos.

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