8/10
“Namoro ou liberdade” (That Awkward Moment, 2014) pode não ser uma das melhores comédias do gênero, aliás, na verdade, está longe disso. Também fica ligeiramente atrás, no quesito diversão, das mesmas produções do gênero, como as franquias “Se beber não case” ou “Quero matar meu chefe”. Entretanto, colocando na análise outros critérios além das piadas, este exemplar está surpreendentemente à frente dos filmes aqui citados.
Para começar, os três protagonistas estão todos ótimos. Obviamente o roteiro apela para a história do galã Zac Efron, vivendo o papel do simpático Jason, e o rapaz se sai dignamente bem. No entanto, em nenhum momento os outros dois parceiros deixam de aparecer e ter suas cenas bem encaixadas. Aliás, este entrosamento é percebido de forma tão natural nos créditos finais, que toda a sintonia da equipe durante o filme logo é confirmada. Que Miles Teller tem belo time para comédia é inegável, porém, foi extremamente gratificante ver o amigo negro da turma, Mikey, vivido por Michael B. jordan, adotar a linha mais introspectiva, sem perder o bom humor. Isto é, ele fugiu daquele padrão do negro como válvula de escape e palhaço da turma, e é dele as falas mais inspiradas em termos de reflexão, e que não soaram clichês.
O filme trata de relacionamentos, o eterno dilema entre o momento de dizer “sim” (ou não) a uma parceria estável ou curtir a vida de solteirice, assim como o momento tenso entre romper ou não um relacionamento. Talvez o filme tenha pecado em não ser tão adulto em alguns momentos, ocasião em que o poderia ser, por exemplo, se explorasse mais a vida profissional dos rapazes, e se explorasse menos algumas piadas de mau gosto. Entretanto, tentando atingir um público mais jovem, essa escolha pode até funcionar, pois ainda assim lembrou um “American Pie” menos escrachado e mais clean.
O interessante é que a película poderia muito bem enveredar por esse lado mais maduro, pois os rapazes não adotam sentimentos infantis, nem foram idiotizados pelo roteiro, além de demonstrar certo equilíbrio e talento nos seus papéis. Mesmo porque, o dilema de passar de uma vida de liberdade a uma vida de compromissos demarca muito bem a passagem para esse amadurecimento. Aliás, o mais próximo que ocorreu em relação a essa vivência mais adulta foi com o personagem de Mikey, igualmente tocante a forma como o protagonista vivia um casamento e como se deu o seu desfecho.
Para completar a grata surpresa, a escalação das parceiras dos respectivos amigos soou não apenas natural, mas perfeitamente enquadradas às personalidades dos marmanjos. Todas elas aparecem em suas vidas e foram sutilmente construídas, não estão no lugar comum e apagado, pois da relação com cada um deles, há uma troca de sinergia estupenda, o que faz com que os rapazes acabem mudando ou se adaptando em função da experiência trocada com elas. E, afinal, a relação construída é sempre bidimensional, nunca o ponto de vista masculino se sobressai nessa construção.
Por essas e outras, contando com personagens excelentes e com a possibilidade de ter ido mais adiante (sim, pode parecer frustrante que o roteiro não tenha saído do superficial em alguns momentos) que considero este o melhor exemplar das, digamos, “comédias românticas protagonizadas por amigos héteros” dos últimos anos. Para a juventude que ainda tem um certo romantismo, tem mente aberta e pensa na estabilidade (ou não) dos relacionamentos, esta é uma boa pedida. Ainda que fique atrás de trabalhos mais reflexivos, afinal ainda carrega aquele tom de ser uma comédia enlatada, este filme pode sim apresentar boas sacadas, especialmente pra quem vive tal dilema. E sem perder o romantismo, ou seja, sem deixar de ser clichê. E que bom! Afinal, não se trata de idealizar o porvir dos relacionamentos, não é essa a proposta: o grande dilema do filme, o momento crucial mesmo, é o do início, é o do começar o relacionamento, e não seu desenrolar. Esta foi sua grande sacada, este momento tenso entre o romper, iniciar ou nem engatar um relacionamento, ou seja, That Awkward Moment.
Publicado também em: http://www.cineplayers.com/comentario/namoro-ou-liberdade/39155
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