É como se meu mundo todo tivesse ruído. E, de repente, as
frias calçadas de concreto não conseguissem segurar meu corpo, já devastado.
Estou sozinho nas ruas, no feriado da quarta-feira de cinzas. Talvez,
anteriormente minha vida fosse carnaval, ao passo que agora já se desfez.
Triste.
Ouvi de uma senhora anônima que ela planejava passar as bodas
de ouro com o marido em Nova York, mas ele se recusava a viajar à Terra do Tio
Sam (mas também do Woody Allen, pensei!), de modo que o impasse do casal se
resumia a escolher entre a cidade do jazz
e uma tal de Amsterdã. Não sei se choro de comoção, do quanto queria viver um
casamento tradicional, regado a discussões sobre qual carimbo marcar no meu
passaporte.
Estava num banco de praça. Latido de cães passeando com seus
donos, crianças correndo, vendedores de água de coco, sorvetes e refrigerantes
tentavam, cada um à sua maneira, chamar a atenção dos transeuntes, ainda que o
mais radiante no meio dessa balbúrdia, o seu Zé, fosse o vendedor de suco de
laranja natural mais brejeiro de todos. Mas não estava com sede, nem fome, nem
me sentia vivo. Eu só queria um sentido para toda essa alegria espontânea dos
outros.
Estava a caminho de casa, mas tive que parar neste banco de
praça. Desconectei a Internet de meu smartphone,
e fiquei por alguns minutos a contemplar a paisagem. Daqui pra frente nada será
a mesma coisa. O algodão-doce cor-de-rosa, ainda que permanecesse doce e rosa,
teria outro gosto e outra cor. E o pior de tudo, que mal consigo me lembrar das
palavras da assistente social, quando ela finalmente revelou o resultado que
não esperava escutar. Sim, o teste de HIV deu POSITIVO.
Tive de conter as lágrimas naquele instante. Eu precisava me
mostrar forte, aguerrido. Mas as pernas já estavam pesando, ao mesmo tempo em
que minha cabeça rodava a uma velocidade incalculável. Estava em minhas mãos
continuar me arriscando ou simplesmente continuar vivendo.
Namorávamos há oito meses. E durante todo esse tempo, jamais
transamos sem preservativo. Até porque, não foram muitas às vezes em que
precisávamos usar. Havia noites em que o vinho ou os filmes de terror nos
acompanhavam, e outras em que uma pizza gordurosa ou rodadas de videogame com
os amigos nos preenchiam. Tínhamos o tempo necessário para valorizar a presença
um do outro das mais diferentes formas. Às vezes, quando eu tinha um dia
difícil na faculdade, queria apenas um breve sorriso dele, nem que fosse por
alguns segundos, o suficiente para valer pelo dia todo. Era incrível a
capacidade dele de sempre estar bem humorado, e bom humor contagia.
Meu namorado trabalha como vendedor em uma grande loja de
conveniências. Apesar de estressante para os meus padrões, considerando que
minha rotina se resume aos compromissos da faculdade, era ele quem me
reconfortava, me reanimava, introjetava aquela lasca de vigor tão necessária ao
cotidiano de cada ser humano. Não se preocupava com dietas, nem com academia. Era
amante de Virgínia Woolf e de filmes japoneses de animação. Francamente, onde
se encontra hoje um homem nerd
feminista? Ele queria fazer letras, mas tirando a literatura, não se saía bem
em todas as outras disciplinas. Talvez arranhasse na Gramática e na História.
Talvez.
Mas agora, não sabia o que fazer. Não sei dizer se o amo. Oito
meses parecem muito pouco para tal definição. Só sabia dizer que ainda não era
o momento para me afastar dele sem provocar o mais intenso dos sofrimentos. Mas
eu precisava me decidir.
Foi escurecendo. Alguns garis da prefeitura ainda limpavam a
rua. Eu me levantei do banco com o choro preso. Não conseguia derramar as
lágrimas, ainda que parecesse prestes a desabar. Voltei pra casa.
Não tive como encarar meus pais, mesmo sabendo que eles
poderiam ser a força de que precisava. A única coisa que queria era adormecer
num travesseiro mágico, daqueles que, ao repousar, fizessem apagar da sua
memória todo o dia vivido, de modo que o amanhecer trouxesse uma nova chance,
como se o dia anterior jamais tivesse existido. Obviamente não foi o que
aconteceu. Depois de uma noite pessimamente dormida, a única vontade que tinha
era de correr aos braços do meu namorado. Foi o que eu fiz.
Saí de casa e mal tomei café. Queria encontrá-lo antes dele
iniciar sua jornada de trabalho, ainda que tivéssemos combinado de nos ver
somente depois do expediente. Na verdade, estávamos juntos quando recebemos o
resultado do teste, no dia anterior, e desde então, de forma instintiva se fez
um silêncio tácito entre nós.
Passei rapidamente na farmácia para lhe comprar um presente.
Fui até o trabalho dele, mas ainda restavam alguns minutos para que ele
começasse a trabalhar, até que o avistei.
Ele usava um óculos escuro, provavelmente para esconder os
olhos vermelhos. Poderia, inclusive, ser dispensado do trabalho, mas não queria
se entregar. Demo-nos um forte abraço um no outro, sem saber calcular o quanto
o movimento rotacional da Terra deve ter parado para nós.
- Estou aqui. – eu disse.
Foi a única coisa que conseguir dizer naquele momento. Sabia
que poderia cometer um erro, mas não poderia abandoná-lo naquele momento: meu
namorado descobrira ser soropositivo, ao passo que eu não comportava tal
condição. Apesar de ele ter jogado as responsabilidades na minha costa, se
queria continuar ou não, e de eu não estar completamente seguro se deveria ir
adiante, lhe dei o presente que havia comprado: uma caixa de preservativos,
para usarmos.
Foi quando rimos e choramos ao mesmo tempo. E eu, que até
então não havia derramado lágrimas, e que sempre recebia seu afago, estava,
agora, lhe reconfortando, lhe devolvendo aquele belo sorriso no rosto pelo qual
me apaixonei. Se vai dar certo, eu não sei. A única coisa que sabia era que, no
final do dia, quando eu voltar da faculdade e quando ele sair do trabalho,
iremos nos encontrar na praça, na mesma praça em que, ontem, havia passado
horas a fio, mas desta vez iríamos tentar rir da vida, e decidir se mataríamos
o tempo com sorvete, água de coco ou com o suco de laranja do mais simpático
vendedor do bairro. Ou quem sabe comeríamos algodão-doce, daquele rosa, para
enfim descobrir se seu gosto e sua cor permanecem tão doce e tão rosa, tão
saborosos e tão vivos quanto antes...
Olá, tem alguém que se infectou e passou pelos sintomas da soroconversão do HIV ? gostaria de saber como são os sintomas. porque fiz um teste com 42 dias após um pequeno acidente com a camisinha,deu negativo , o teste, porém com 45 dias apresentei sintomas semelhantes como garganta inflamada e dor de cabeça,sem febre !! tou aguardando fazer 60 dias para repetir o teste , alguém pode me ajudar ?! tem como passar pela soroconversão sem febre ?
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