Há uma tendência de que os documentários produzidos nos EUA ganhem uma projeção pela crítica social contundente ao seu status quo, e olha que nem estamos falando de um Michael Moore da vida. "A 13ª emenda", "American factory", "Athlete A", "Margens de uma guerra", todos muito relevantes para mostrar o quanto o berço da democracia moderna ainda padece de direitos a suas populações minoritárias.
"The janes", dirigido por duas mulheres, Emma Pildes e Tia Lessin, conta a história de um grupo de mulheres que se organizaram para viabiliar procedimentos de aborto a mulheres, isso no final da década de 1960, quando a suprema corte norte-americana ainda não havia reconhecido o direito. Foi somente em 1973 que houve o reconhecimento jurídico do procedimento, tornando-o legal. Hoje em pleno 2022, é como se retroagíssimos uns 50 anos, dado que escrevo esta análise justamente no mês em que a suprema corte resolveu revogar a decisão, cabendo aos estados federados nos EUA decidir sobre o caso.
É interessante ver no filme o papel de outsiders, que recai bem mais forte sobre as mulheres, justamente numa época em que explodem revoltas de grupos minoritério: é o apogeu do movimento negro, hippie e do movimento gay, para ficar em alguns exemplos. Chicago, o caldeirão das identidades, ferve e pulsa as críticas sociais que norteariam o pensamento da esquerda pós-moderna, cuja ênfase identitária torna-se a bandeira maior das suas causas. As mulheres, inviabilizadas na retórica desses movimentos (salvo raras exceções), clamavam por maior organização e por uma luta mais específica, criticando aquilo que Nancy Frase vai chamar de política de reconhecimento; era necessário reforçar uma política de diferenças.
O documentário, no entanto, desliza naquele que também é o seu ponto forte. Ao trazer à tela o ponto de vista das mulheres que construíram o movimento, torna-se demasiadamente orgânico para o entendimento da questão, e isso é muito bom. De fato, ouví-las nos transportará àqueles anos (o trabalho de edição é sensacional, há muitas imagens que vão aparecendo de forma dinâmica e não muito cansativa); entrementes, peque por trazer visões unilaterais e homogêneas, quase não há contrapontos a serem tecidos.
Não sei se a falta de um antagonismo seja uma motriz essencial a essa espécie de documentário, pois de fato não precisou de muito para impactar. A linha conduzida pelo roteiro é bem transparente, acompanhamos o desenvolvimento da rede de apoio feminino sendo construída e crescendo, nos lugares inomináveis e nas metáforas esquivas a que se submetiam ("o lugar, "a fachada"). Tudo isso faz parte de um processo de invisibilidade cujos grupos minoritários sabem melhor do que ninguém como lidar, engajando uma estratégia de sobreviência dado o desamparo a que tais mulheres eram submetidas. Mas chamo a atenção para o fato de que, em alguns momentos, ter uma visão constra-argumentativa ao que se propõe pode ser enriquecedor, ao menos para desmascará-lo: por exemplo, na condescendência dos policiais, apenas trata-se superficialmente algo que poderia render ainda mais, já que o fato de muitos "passarem pano" para o aborto revela um traço da masculinidade perversa, tomada pela epistemologia do poder formal, com o mainstream vociferando o moralismo no público, mas abraçando a ilegalidade no privado. É aquela velha máxima, "homens são contra o aborto até o dia em que a amante engravidar". Numa sociedade tomada por simulacros, creio que essa máxima mereça especial atenção.
Para fechar, tivemos recentemente a retomada do caso "Roe contra Wade" em 2022, como dito anteriormente, um caso ocorrido no Texas em 1970. Na ocasião, a mulher queria ter o direito de abortar legalmente. Alguns fatos curiosos chamam a atenção nesse exemplo: não se tratava de uma mãe solteira, o casal estava lutando juntos na justiça. E or promoores, talvez inteligentemente, aguardaram as eleições de 1972 (Nixon, republicano, fora reeeleito) para decidir em janeiro de 1973 que a mulher teria sim o direito ao aborto, evocando as máximas já conhecidas do liberalismo clássico: proteção individual. De um lado, a estratégia. De outro, a força que o poder da pauta faminista tem para incendiar eleições. Não mudamos nada meio século depois.
Às mulheres, recai constantemente o peso da prova e do higienismo latente ao qual devem submeter-se. No Brasil, ainda se discute se uma gravidez pronvinda de um estupro de uma menina de 13 anos teria possibilidade de ser interrompida, ao mesmo tempo em que se massacram uma atriz quando ela decide por doar o filho indesejado (também por estupro) para adoção. É como se a todo instante tivessem que pôr à prova uma decisão que deveria ser pessoal e escolha da própria mulher. Isso nos leva a concluir que "The Janes" fez o correto ao dar voz altissonante às mulheres. já estigmatizadas por natureza, e toca o foda-se para os machos, que há muitos vem decidindo por elas. É reparação histórica, mas também é provocação. É preciso sempre, como diz Norbert Bobbio, vigiar, e nao apenas lutar para garantir os direitos, pois uma vez conquistados, podem, ao menor dos vacilos, sofrer um revés, logo, é necessário protegê-los.
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