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17 de maio de 2022

"Paris, 13º distrito", e a pós-modernidade líquida

7,5/10

Não se assuste caso tenha percebido um roteiro que ainda precisa se encontar, um certo vazio de uma trama circular que dá voltas e voltas sem sair do lugar, pois definitivamente, aqui, esse nada veio bem a calhar.

Com uma fotografia em preto e branco, exceto durantes cenas mais "carnais" em alguns momentos, "Paris, 13º distrito" (Olympiades, 2022), o filme de Jacques Audiard se inicia focando no relacionamento entre a oriental Émile Wong (vivida por Lucie Zhang) e o doutorando afrodescendente Camille (vivido por Makita Samba), com os dois tendo dificuldades em estreitar os laços, se limitando a serem colegas de quarto, regados, claro, a sexo, mas sem sentimentos.

Ao contrário do filme contemporâneo "Volta pra mim", que se utiliza de dois términos de relacionamentos para passar a ideia do desapego, com os personagens que levaram o pé na bunda se juntando para bolar um plano e estragar os relacionamentos dos seus ex namorados, ou seja, armando um circo com 3 casais e ainda firmando uma mensagem conservadora, em "Paris" tudo é mais contido, porque a questão é que os relacionamentos não precisam de amantes para se mostrar frágeis, afinal, vivemos a era pós-moderna, na qual nossas subjetividades passam por cima da solidez afetiva e de quebra ganhamos as inseguranças desse mundo líquido. O indivíduo é a sua própria angústia, nem precisa de terceiros.

Camille tem várias aventuras sexuais, assim como Émile (que chega até a baixar um aplicativo de relacionamento), para espanto do primeiro, pois mesmo que ele também tenha certos relacionamentos casuais, é muito mais racional e equilibrado que ela. Inclusive, ele se permite um ano sabático para trabalhar e focar em concluir um doutorado, algo típico de quem tenta controlar as rédeas, e ela, vagando incerta nos desejos, vai se deitar com vários, sem um aprofundamento sentimental.

No meio do filme surge uma terceira pessoa que acaba se aproximando de Camille, incialmente por questões profissionais, mas obviamente a capa não dura muito. Os sentimentos andam a galope. Trata-se da Nora (Noémie Merlant), uma personagem que acaba sofrendo bullying por ser confundida com uma influencer digital do ramo pornô (uma espécie de câmera privê), sendo que Nora procura a tal influencer nas redes, e acabam virando bem mais que amigas.

Não há respostas, não há certezas. No filme "Volta pra mim", os personagens querem os pares que não possuem, e se juntam para se vingar, até que em dado momento percebem que estão apaixonados um pelo outro e num toque de mágica, deixam de lado os desejos e se entregam um ao outro. Já em "Paris", não há essa chave. Não há conclusões. Nem se fala em casamento. Embora termine com um "eu te amo", a questão que fica é: até quando?

Os personagens vão se descobrindo e se abrindo ao público durante a projeção. Nora e Émille têm evoluções visíveis quanto ao apetite sexual, cada vez mais livres para explorar as possibilidades de seus corpos, e isso é muito positivo num mundo cheio de dispositivos biopolíticos.

Não é o filme perfeito, talvez falte um traço da criatividade de um Woody Allen para tornar as situações mais interessantes, porém, o mero vazio do cotidiano daquelas pessoas, mergulhados na mediocridade, aproxima-os do público de uma forma cativante. Mesmo formando os pares em sua conclusão, ficamos com a sensação de que tudo é muito volátil, como um fogo que arde sem se ver, eterno enquanto durar.

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