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16 de maio de 2022

Playground: um estudo sobre bullying

8,5/10

Um pequeno filme belga chamou atenção em Cannes na premiação de 2021, ganhando o Prêmio FIPRESCI na seção Un Certain Regard. Trata-se de "Playground", um trabalho realmente muito bem feito e dirigido pelas mãos de Laura Wandel.

O longa é intimista e acompanha as crianças numa mise-en-scene que se restringe ao ambiente escolar, inclusive com a câmera focando nas crianças bem mais que nos adultos. Lembra, por exemplo, os quadrinhos do Calvin, os adultos sempre em terceiro plano.

É interessante o trabalho de direção das crianças, extremamente competentes em passar a emoção e a carga dramática necessária para viver toda a situação: o filme foca na irmã mais nova e sua transição entre a solidão provocada pela sensação de não pertencimento e o conflito quando tenta se juntar ao irmão mais velho, que a ignora, pois ele próprio tem seu círculo de amizades.

Mas a resposta não é tão simples: em meio à violência como símbolo de pertencimento (ou não) a determinado grupo, não sabemos se a rejeição do irmão era para protegê-la ou se atuava como código de fronteiras entre os grupos. O fato é que o próprio irmão é vítima e algoz das situaçãoes de bullyng, e quando a irmã percebe essa dualidade, ela própria começa a questionar a situação, até o momento em que o jogo" vira, e é ela quem o rejeita.

Na verdade, as crianças buscam uma identidade em construção e o filme não é conclusivo, pois o desfecho não é nada palatável: ainda estão em processo de (des)construção, sendo a violência a motriz condutora dos subgrupos aos quais pertencem. As relações de poder entre as crianças estão tão desnudas, que parecem óbvias quando pensamos como não nos damos conta de que qualquer forma de sociabilidade constrói muros e pontes, constrói laços horizontais ou verticais, e de como tudo é tão demasiadamente humano.

Há de se destacar, mais uma vez, o fato de que toda a encenação não ultrapassa os muros da escola, além da clara sensação claustrofóbica, fica a mensagem que, de fato, a personalidade dos irmãos devem tudo àquele espaço, que é de conhecimento, crescimento, mas também de muita dor. E a direção dos meninos está num nível absurdo de realismo, aliás tudo ali é muito crível, mesmo os atores secundários cumprem bem o papel.

É interessante perceber como o cinema vem "infantilizando" as situações, mas somente no sentido da idade mesmo: cada vez mais o ambiente escolar vem discutindo temas pesados e urgentes. Na década de 1990, tínhamos saído do cenário onde adultos interpretam adolescentes para que os próprios adolescentes interpretem a si mesmos, e assistimos no século XXI as crianças atuarem. E o roteiro não economiza: a cena final, onde estão expostos à violência, sem exatamente um porquê, ou melhor, como fio condutor e constante das identidades, é mais do que angustiante, é um retrato de que precisamos de mais cinema como esse, que mergulhem na mente dos jovens para compreendermos a origem de tanto deslocamento.

Sem respostas, somos obrigados somente a aplaudir a obra, pois mesmo tentando se desvencilhar dos apriorismos morais, o abraço angustiado dos irmãos é o abraço de todos nós em nossas crianças, tão perdidas quanto qualquer um que esteja respirando num mundo pós-pandêmico, dotado de incertezas, de perguntas, de potência e de fragilidades.

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