Eu amo absolutamente TUDO que o Richard Linklater entrega, sempre com muito carinho e com muito conteúdo a mostrar. Ele tem a melhor trilogia do cinema pela regularidade dos filmes (Antes do amanhecer, Antes do pôr do sol, Antes da meia noite), e tem um dos projetos mais ambiciosos em Boyhood, ocasião em que tentou domar o tempo em um único filme, com cenas do cotidiano de um garoto em várias etapas de sua vida, que mais parecem nossas queridas crônicas (um estilo literário bem rico no Brasil). Em "Apollo 10 e meio", Linklater retoma a ideia de amadurecimento, mas dessa vez se fixa no ano de 1969, quando o homem foi à lua, e de quebra passeia pelos costumes da época.
Bem, não exatamente ele se fixa no ano de 1969, pois o filme regride anos antes para contar a vida do protagonista Stanley, um menino comum que cursava a quarta série, quando é abordado por agentes da Nasa para que cumpra a inusitada proposta de viajar ao espaço, precedendo a preparação à famosa missão Apollo 11. O nome do filme, portanto, refere-se a um número entre 10 e 11, pelo fato da missão ser ultrassecreta (segundo os agentes misteriosos, houve um erro de construção na cabine, por isso precisavam de alguém "menor"), além de remeter à idade do garoto.
Claro que tudo isso é uma desculpa para o diretor reviver os anos 1960, e o filme descamba para uma espécie de documentário, mas para nossa sorte, um retrato muito engraçado de Houston, da cultura americana e daquela família em específico, conseguindo uma proeza: dá um aula de história ao mesmo tempo que consegue criar uma conexão sentimental com os personagens.
Com vários recortes do cotidiano, o filme tinha tudo para se perder em uma colcha de retalhos enfadonha, mas estamos falando de alguém que dirigou Boyhood, e sabe do potencial que tem uma biografia, mesmo com diversos elementos contribuindo para o insucesso da história (como o risco de perder o fio condutor da narativa, o excesso de situações e personagens, a falta de ligação sentimental etc). Stanley conta com muitos irmãos, e embora o filme não tenha espaço para construí-los em camadas mais fundas, ao menos criou algo coeso e intimista a ponto de se divertir com o clima familiar. Todos tem suas personalidades, embora nem sempre isso seja evidente (repare, por exemplo, na irmã mais velha, sempre com um olhar crítico mais aguçado).
Mesmo em um trabalho voltado ao streaming, Linklater consegue, em comentários rápidos, tecer críticas seja à Guerra do Vietnã ou aos movimentos identitários emergentes, ou à cobertura midiática, enfim, vários temas surgem, sem muito aprofundamento, mas considerando a narração da perspectiva de uma criança, essa falta de um mergulho mais profundo nos temas não deixou o filme superficial, ao contrário, tornou-se verossímil, e definitivamente escapou da verborragia.
Particularmente achei o clímax extraordinário, mesclando cenas da "Apollo 10 e meio" com a da "Apollo 11", num trabalho de edição muito bem feito. E além disso, ao tomar como certo a histpriciade dos acontecimentos, o filme dá um toque de leve spbre a importância de nossas memórias, do quanto a história tem um peso na nossa formação identitária.
Linklater demonstrou que continua inspirado, e ainda contou com uma boa produção, designer, edição de som, enfim, uma equipe técnica que entrega um bom ritmo e confere agilidade ao roteiro, com destaque para aparição e homenagem a vários artistas da época (o que inclui cantores, bandas, cineastas, atores, mas também os próprios astronautas, que eram como estrelas pops àquela época).
Não sei ao certo até que ponto essas memórias confundem-se com as do próprio Linklater, mas o fato é que o filme convence na sua função de levar à tela o que Hegel chamava de Zeitgeist, o espírito de um tempo. Somos transportados àquela época onde a viagem à Lua trazia esperanças, discussões políticas, projeções futuras. Referências a 2001 e outros filmes de época são apenas a ponta do iceberg que mostram a fragilidade de nossa condição e o quanto verdadeiramente não sabemos para onde caminhamos. Mais de 50 anos depois, até mesmo defensores da Terra plana habitam este planeta. Definitivamente, não podemos reclamar de filme sobre amadurecimento, quando nossa própria espécie vive em eterno porvir.
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