Tendo como base o livro homônimo da escritora finlandesa Rosa Liksom, o drama "Compartment nº 6" tem pegadas de suspense e ritmo meio tenso, pondo o expectador claustrofobicamente numa pequena cabine de trem para uma viagem de alguns dias, focando na estudante Laura.
O filme se inicia no partamento de Irina, a namorada de Laura, junto com amigos intelectuais e um tanto quanto soberbos. Ficaremos sabendo adiante que Irina é professora, sendo Laura uma estudante, o que já mostra certa hierarquia entre ambas, mas não apenas isso. Ao que parece, a relação que elas têm vagueia entre o idealismo construído por Laura e a toxicidade emanada por Irina, já que Laura se apega bem mais do que a outra, e Irina parece fazer o tipo mais indiferente. As duas planejam uma viajem para Murmansk, ao círculo polar ártico, a fim de conhecerem um famoso petrógrafo (a petrografia é uma espécie de ramo de estudo da geologia, sobre rochas), sendo o lugar algo que chama atenção de especialistas. Mas Laura acaba tendo que fazer a viagem sozinha.
Já é desolador demais ver que sua namorada não deu a devida importância, e o sentimento de solidão construído no olhar de Laura, na música triste, na sua apatia em interagir, é gritante. ao mesmo tempo, seu companheiro de cabine, Lyokha, vivido pelo ótimo Yuriy Borisov, passa aquela sensação de insegurança que talvez toda mulher conheça bem, primeiro pelo simples fato dele ser homem, e segundo pelo seu jeito meio rude e pitoresco. Ainda bem que o ator consiga equilibrar esse homem de trejeitos simples com o ar sisudo e grotesco sem cair no clichê, possibilitando, ao longo da projeção, desconstruí-lo em camadas que até então não eram possíveis deduzir, smepre ficamos com um pé atrás com o personagem, itensificado pela edição e direção do filme.
Assim, acompanhamos um exercício de desapego de Laura à namorada e também de desconstrução dos esteriótipos que a circundam, posta a necessidade de interação que ela deve ter com estranhos. À certa altura, ela também se envolve com um outro personagem, muito mais polido e educado do que Lyokha, porém, eticamente falando, muito mais ordinário. Sim, as aparências enganam, e é gostoso acompanhar a mudança gradual dos personagens, inicialmente mais contidos e fechados, para serem desnudas camadas cada vez mais fundas de suas personalidades.
"Não se deve julgar o livro pela capa" talvez seja uma das lições a que o filme se propõe, mas também é sobre a fluidez da vida, a necessidade de ligação mesmo em ambientes improváveis para ver o desabrochar de relações mais profundas. Afinal, é um risco se abrir para estranhos, ao mesmo tempo, por que não? A vida passa como um sopro, e de repente uma companhia boa em uma conversa despretensiosa sobre projetos profissionais de vida pode ser interessante. O ar episódico marca o filme até o seu desfecho, e conta com algumas passagens que a produção tentou marcar visualmente, como a chegada dos personagens ao tal petrógrafo. Não há nada de tão grandioso lá, mas a jornada (a forma como Laura finalmente chegou ao destino, tendo que vencer a barreira do inverno intenso na região e as dificuldades de percurso) e, principalmente, a companhia, trazem significados mais intensos, deixando tudo mais nteressante e belo.
Talvez tenha me incomado esse tom de uma crônica despretensiosa (fica a sensação de que os personagens nem voltarão a se ver), mas é impossível não arrancar um sorriso, nem que seja tímido, pela simples possibilidade de ver poesia na vida onde menos se espera. Um desconhecido é uma porta que pode se abrir, e apesar dos riscos, como sabê-los? Apenas vivendo. Afinal, também podemos nos decepcionar com pessoas próximas (a exemplo da namorada de Laura). Não estamos seguros, e um compartimento de trem ou uma singela viagem apenas são fragmentos de tantos mundos e sensações possíveis.
Nenhum comentário:
Postar um comentário