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18 de maio de 2022

"X" e a relação entre sexo, terror e religião

8,5/10

Uma grata surpresa de 2022 é ver um slasher verdadeiramente bem produzido como "X", que mistura uma boa dose de pornografia (poderia até ser mais explícita), com terror, suspense e ainda um discurso religioso, mesmo que meio vago. Dirigido por Tim West, a trama central gira em torno de personagens que esbanjam beleza, juventude e hormônios, que vão a um lugar mais isolado para gravar cenas pornôs de um filme B, e obviamente as coisas irão fugir do controle em determinado momento.

A grande sacada do filme, além da primorosa ambientação, é ter consciência do material que tem em mãos. O filme já inicia com os policiais chegando na casa e se deparando com a cena de horror, que a câmera não mostra, mas já sabemos não se tratar de nada agradável, e ao fundo, uma televisão sintonizada na pregação de um pastor, vociferando palavras típicas do moralismo do "cidadão de bem". O filme se passa em 1979, mas poderia muito bem estar sintonizada num "Show da fé" gringo.

Os jovens, na flor da idade, carregam aquela aura inocente de que estão aproveitando e ganhando a vida, sendo 3 casais, formados por: 2 atrizes e 1 cinegrafista, mulheres, e 1 ator, 1 produtor e 1 diretor, sendo que o diretor namora a cinegrafista e os outros dois fazem par com as atrizes. O filme dentro do filme é o mais canalha possível: roteiro barato e desculpa para treparem, típica pornografia para uma época em que nem existia internet, será mesmo que a geração de nossos avôs não tinham essa "indecência" toda?

Os vizinhos são os casais de idosos mais bem construídos dos últimos anos, cuja presença e misteriosidade invadem a tela a cada aparição. O velho carrega o ar sisudo, pois foi ele quem alugou a casa ao lado para a equipe, já deixando logo de cara que não gostou deles, e ela, mais contida, vamos percebendo que se trata de uma mulher desiludida com a vida, sedenta por sexo e desejo mas sabotada pela passagem dos anos. O conflito de gerações aqui não apenas é claro, mas fio condutor da narrativa: o carpe diem estaria restrito à juventude e aos vícios próprios da idade? O sexo descontrolado se restringe a que tipo de pessoa ou parcela da população? O cristianismo contribui ou atrapalha na construção dos desejos?

Perguntas e mais perguntas sem uma resposta fácil. Mas o sexo e o fluir dos corpos não param, a tal ponto da própria cinegrafista, que era a jovem mais tímida, querer fazer sexo e participar do filme. Seu namorado reluta, mas cede, é necessário viver, deixar agir. A certo ponto, discutem a flexibilidade das relações ("é tudo profissinal", "não é amor, é apenas sexo") com as famosas frases prontas de quem clama a liquidez nas relações. É a geração pós-Woodstock, cheia de hormônios e vagando a esmo.

Mas o filme não é moralista. O casal de velhinhos, especialmente a senhora idosa, procura a equipe por sentir-se reprimida em seus desejos, e é desse impulso não controlado que vem a potência, seja para o sexo, seja para a morte, ambas em grau de equidade para efeito de comparação. Atirar em alguém, passar por cima da cebeça com o pneu da caminhonete, pode ser tão excitante quanto dar de quatro para o negão dotado. A perversão pode estar contida nos sermões cristãos, mas parafraseando um dos personagens, "se for reprimir, o desejo surgirá em outros lugares, piores ainda".

O filme não poupa a vida de seus personagens, e há mortes repentinas, regadas a um enquadramento às vezes lento demais, e sexy demais também. O corpo tomado pela idade clama em participar da suruba e da porra toda, e somos obrigados a ter empatia por uma senhora que queria apenas sentir-se mulher outra vez, ao mesmo tempo em que nos aterrorizamos com as consequências do desejo desenfrado. É estranho, pois tudo é muito excitante e pervertido, sendo fácil sentir um sentimento de culpa por saborear o que há em tela. O cristianismo, mais do que qualquer outra ideologia, talvez saiba que o dispositivo de poder repressivo, como diria Foucault, é mais positivo do que nunca, não no sentido valorativo, mas no sentido de criar mecanismos onde esse poder é interditado, e por isso mesmo mais excitante de usufruí-lo.

O que fica é um filme B muito bem arquitetado, lotado de sangue e orgasmo, que poderia até ser mais explícito na sua nudez, mas é escrachado no que há de melhor: os sentimentos humanos na sua mais perfeita crueza, de como recorremos ao abrigo de nossos corpos ou de nossa insegurança para extravasar nosso lado mais irracional. No fundo, o animal mais racional é o jacaré que mora no lago, que apenas espera sua presa no seu ambiente pacato, silencioso, não recorre a estridências com uma Bíblia na mão, muito menos fetichiza seus impulsos em filmes pornográficos: ele apenas vive a sua natureza. Pensando bem, todos nós somos jacarés, só não somos tão silenciosos assim.

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