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20 de maio de 2022

Red: a Pixar entregando e se entregando

7,5/10

Traduzido no Brasil como "Red; crescer é uma fera", o filme da Pixar/Disney "Turning red" é mais um tiro certo do estúdio, com personagens bem construídos, visual belíssimo, universo gostoso de acompanhar e tabus cotidianos como principal elemento do roteiro. Mas também não é perfeito.

O filme conta a história de Meilin e sua passagem para a puberdade, com direito a cenas de referências fofas demais (nesse quesito, a Pixar não erra, realmente um achado toda a metáfora do Panda vermelho). Ela conta com mais três amigas de escola e uma mãe conservadora, que darão conta do conflito de gerações pelo qual a jovem passa, e de quebra uma boy band chamada "4-Town" e uma tradição milenar que prega o controle das emoções (para não fazer surgir o monstro interior, o tal panda vermelho) para apimentar os atritos. Toda a história se passa no início dos anos 2000.

Diferente de Valente, que retratou o poder feminino numa perspectiva clássica, aqui todo o universo é incrivelmente feminino, não se limitando, obviamente, às meninas, mas sim pelo fato de todo o núcleo principal girar em torno das mulheres, e de como há uma sobrecarga social muito grande sobre os ombros femininos. Só por isso o filme já valeria a conferida. Tal qual em Toy Story, crescer absolutamente deixa marcas profundas, e a personagem precisa equilibrar-se entre a tradição e o mundo secular, seguindo um ideal de liberdade e juventude. E foi aí que o filme me incomodou.

A título de comparação, gostaria de citar o "Viva: a vida é uma festa", filme da Pixar que consegue dialogar com a tradição e os problemas familiares sem descambar para aceitação mainstrem, respeitando as tradições mas revelando o que deve ser revelado, trazendo à tona problemas que estavam no subterfúgio. Em "Red", me incomoda essa exaltação ao universo teen pop de forma bem mais acrítica. Foi até estranho ver isso depois do mesmo estúdio ter criado algo a nível de "Soul".

Não sei se estou ficando velho, chato, ou os dois, mas não me agrada nem um pouco perceber que as ideias de liberdade se confundem em reverenciar, com certa fetichização, boy bands e afins, ou mesmo entregar-se à cultura pop, seja em roupas, linguagens ou gestos. Não digo que o filme deveria rejeitá-los, não se trata de extremos, mas a reconciliação com o mundo da tradição ficou muito superficial, podendo passar a ideia de aceitabilidade à moda, que nada mais é do que tão somente mais outra forma de dominação. A família de Meilin, por exemplo, cuidava de um templo, abrigo de toda a tradição na qual o roteiro gira, e com o desenrolar dos fatos, esse templo vira uma espécie de "Igreja Universal" pronta a recolher suas moedas a qualquer momento, embalada por músicas da cultura de massa. Não é bem esse tipo de ideal de liberdade ou de reflexão que a Pixar vem construindo ao longo dos seus filmes, dotados de um grau de imaginação bem melhor do que o visto aqui. Esse grau de entrega ao senso comum realmente me pegou, e talvez por isso, no filme, haja um certo vazio. De fato, não há um ápice sentimental ou reflexivo, como visto em "Divertidamente", que nos faz pensar fora da caixinha. Aqui a mensagem entra de cabeça no lugar confortável da caixinha, ficou rasa e superficial, inclusive perigosa a ponto de eu achar que pode ser um convite à rebeldia.

Mas essa interpretação não seria de toda honesta sem ressaltar as qualidades do longa, e em se tratando de retratar o universo feminino, ganha muitos pontos. Em uma cena onde Meilin rabisca efusivamente o desenho do crush platônico, podemos associar o ato à masturbação e descoberta do próprio corpo, além das claras referências à menstruação. É de fato gratificante ver os filmes feitos TAMBÉM para o público infantil, tal grau de permissividade. E embora eu esperasse mais do desfecho, não é algo que afete a experiência como um todo, sendo mais um exemplo da qualidade da Disney/Pixar em conduzir tramas cujos vilões provém do seio da sociedade conservadora. E isso é muito bom.

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