Roger Mitchell dirige um filme baseado em fatos reais cujo roteiro é aparentemente simples: um simpático taxista, aspirante a dramaturgo, é acusado de roubar um quadro de arte, retrato do Duque de Wellington, de Goya, que estava na Galeria Nacional em Londres, tendo como principal motivação angariar fundos para ajudar aposentados e veteranos de guerra a possuir licença para TV (esta licença só foi regulamentada na Inglaterra nos anos 2000). Evocando ideais classistas e citando Robin Hood em sua empreitada, com ríspidas falas anti-conservadoras, o que tinha tudo para ser um filme baseado em fatos genéricos ganhou ares acima da média, não apenas pelo tom ideológico acertado (não é estridente), mas também pelo humor e pela empatia que temos com Jim Broadbent, quem dá vida ao taxista, Kempton Bunton.
Sem nunca esquecer a sua condição de classe, a típica classe média falida, que vive entre os escombros do pós-guerra e recorrendo às migalhas do estado de bem estar social (que seria colpasado de vez com Tatcher), temos aqui a relação entre a classe trabalhadora e o poder da arte, mas não exatamente como um sujeito produtor, mas entregando-se de vez à lógica da barganha e do poder de troca, sem, contudo, imiscuir-se completamente ao sistema excludente: Bunton, um personagem real, encanta por carregar a inocência e, ao mesmo tempo, proferir as frases prontas da esquerda que deixariam em êxtase qualquer plenária estudantil da UNE, afinal, um absurdo o governo gastar 140 milhões de libras em um quadro.
Mas tudo não passa de uma fina ironia: o quadro pode ser visto como o fetiche de uma população burguesa, que ainda conseguia preservar a aura de Walter Benjamim sob suas molduras, mas o seu roubo tinha como sustentáculo capitanear o ideal de uma população ávida pela cultura de massa, e de quebra proteger o filho e preservar o casamento (quer insituição mais burquesa que o casamento tradicional?). Na década de 1960 os televisores ganhavam popularidade, mas muitos não tinham acesso aos canais devido terem que pagar as respectivas licenças. O direito à alienação, entao, consagra-se como direito humano fundamental.
Bunton carrega em si o patriotismo próprio das nações desenvolvidas, mesmo que guarde suas críticas ao sistema (de deixar um Clint Eastwood orgulhoso). É pai de uma família tradicional, esperando o mesmo de seu filho (em certa passagem com a namorada, o filho salta um "desde quando o senhor se tornou conservador?"), mostrando que, sim, é capaz de sermos críticos e mainstream ao mesmo tempo, o que uns diriam reformistas. Mas talvez esse reducionismo não capte a beleza da graciosidade de conviver com Bunton, sempre sagaz em suas falas empáticas (a cena em que é despedido por contrariar o patrão em favor de um colega de trabalho estrangeiro, mostra como o filme é um discurso de hoje, um tapa na xenofobia latente, pelo direito de todos participarmos da encenação capitalista). Aliás, por ele ser um aspirante a dramaturgo (suas peças nunca foram publicadas), a metáfora da encenação e de como exercemos papéis socias muitas vezes contraditórios é clara, por exemplo, no tribunal, o juiz, os promotores e a defesa precisam, de fato, roteirizar suas atuações e as falas.
No fundo, "The duke" é um filme sobre o poder do diálogo e da vida encenada, capaz de criar empatia e romper a fronteira do óbvio. Não é que o crime compense, mas sim que somos demasiadamente humanos para sermos separados entre inocentes e culpados, simplesmente, como se presos a um eterno binarismo vulgar. Logo, o sistema não está posto, e sim em movimento. É impossível escapar dele, ao mesmo tempo em que é limitante simplesmente se entregar a ele.
Mesmo que o filme peque por um início apressado, é possível se envolver com o personagem lá pelas tantas, e a partir daí torcer por ele, mesmo que muitos já saibam o final, mas não importa. Aqui, todo o processo desencadeado, as conversas, o poder de convencimento, os diálogos caprichados no tribunal, são tão feel good que fica impossível não arrancar um ligeiro sorriso. Não sei até que ponto me deixei manipular pela trama, se foi realmente assim que aconteceu (o tribunal, à certa altura, mais parecia um stand-up), mas basta proclamar o direito à alienação para ficar tudo certo.
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