"The innocents" é um filme norueguês dirigido e roteirizado por Eskil Vogt, focado em duas irmãs que se mudam para um prédio, cenário no qual várias cenas bizarras irão acontecer, mesclando supense e um horror contido, mas que impressiona pelo trato ao núcleo infantil.
Em primeiro lugar, queria destacar a forma como foi conduzida a direção dos atores mirins, espetacular. No rol dos melhores do ano, além de "Playground" com seu estudo sobre o bullying, temos em "The innocents" uma camada mais sobrenatural, porém tão assustadora quanto. Os dois filmes citados têm como pano de fundo a violência e os desejos mais escondidos dos personagens infantis, que podem, por exemplo, esmagar a cabeça de um gatinho com tanta frieza, ou provocar a morte da própria mãe. Sim, não espere resoluções e cenas dóceis aqui.
O filme consegue apresentar muito bem a relação das irmãs, Anna (Alva Brynsmo) e Ida (Rakel Lenora Flottum), sendo Anna uma pessoa com deficiência intelectual (autismo). Percebe-se, no olhar da outra, todo incômodo e insegurança que a presença da irmã provoca, desde o desvio de atenção dos pais ou mesmo a paciência que todos devem ter com a irmã. Ida então, para escapar daquele ambiente que lhe sufoca, faz amizade com Ben, vivido pelo excelente Sam Ashraf, num olhar e postura que várias vezes me deram arrepios. O garoto tem poderes de controlar objetos e a mente das pessoas, de modo que, obviamente, tais capacidades logo sairão do controle.
Em que pese todo a limitação de Anna, ela também arruma uma amiga mais próxima, a doce Aisha (Mina Yasmin Bremseth), uma garota com vitiligo. É interessante perceber que temos duas garotas com problemas (Anna com o autismo e Aisha com vitiligo), além do menino Ben com traços orientais, pele mais morena, e a própria Ida, iramã de Anna, uma garota perturbada por não reter a atenção dos pais, mas o filme não gira em torno de suas identidades mais explícitas: é na relação entre essas quatro crianças que o enredo se desenvolve, especialmente após Aisha, o garoto, exarcebar o seu poder paranormal.
Em maior ou menor grau, todas as crianças terão latente uma potência sobrenatural nas mãos, algo que precisam lidar. Mortes ocorrem com certa frequência, não poupando o expectador e causando a todo instante uma sensação de vulnerabilidade, o que é ótimo em se tratando de expectativas provocadas por produções assim. De fato, chega uma hora em que não sabemos até onde tudo vai parar.
É muito angustiante ver corpos tão jovens em um projeto pesado como esse. O filme não é fácil de assistir. Contudo, nos faz refletir sobre a desnaturalização da pureza das crianças que, afinal, ainda estão em fase de amadurecimento. O próprio Aisha, que realiza açõe terríveis, em determinada cena chora aos prantos na sua casa, solitário, como se consumido pela culpa e pelo medo. No fundo, é uma criança com conflitos internos muito intensos à sua idade.
O filme é demasidamente incômodo, lento algumas vezes (mas isso ajuda na ambientação). O roteiro é meio estranho, uma edição que vacila entre episódica ou concisa demais, e mostra uma economia na argumentação, mas isso não estraga a experiência, pois a exploração dos poderes sobrenaturais dos meninos, de fato, é incômoda, mas consegue passar a sensação de crueldade esperada. Portanto, se for assistir, prepare-se para cenas não muito agradáveis de ver, porém, caprichadas demais para deixar de conferir.
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