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18 de maio de 2022

Great freedom e a liberdade aprisionada

Embora a temática da autoaceitação ainda seja um elo importante na consituição do cinema com personagens LGBTQIA+, é notável a aproximação com temas mais universais, o que faz de "Great freedom" um filme mais próximo daqueles que são e daqueles que não são portadores de uma sexualidade dissidente. O longa se passa em 3 períodos próximos do pós-guerra, décadas de 1940, 1950 e 1960, cujo recorte serviu apenas para mostrar a recorrência de Hoffman (Franz Rogowski) em ser preso pelo artigo 175, que considerava crime as relaçoes homoeróticas na Alemanha, e de como ele lida com sua sexualidade reprimida mais pelo sistema do que por ele próprio.

Com um desenvolvimento lento, acompanhamos os amores e desejos do nosso encarcerado, cuja trama não se desenrola sobre a autoaceitação, mas sim sobre o poder das instituições em marcar os nossos corpos (literalmente, pois a Alemanha nazista levou Hoffman aos campos de concentração e ainda lhe pôs uma tatuagem no braço). Ao recortar o filme em 3 períodos distintos, mostra que Hoffman não conteve sua natureza, pois suas detenções, de penas que variaram de 12 a 24 meses, mostravam o poder repressivo do Estado mas era incapaz de conter o indivíduo, o desejo bruto de amar. Em dado momento se fala que participou da guerra, e é estranho pensar que aceitamos mais naturalmente homens se matando em prol de um ideário político disforme, mas há um peso moral muito maior quando homens se amam.

O filme é letárgico em vários momentos, e à exceção do seu companheiro de cela que vive durante os três períodos citados, os demais personagens que entram e saem da vida de Hoffman carregam a beleza da juventude e o prazer carnal, tão típicos da construção da identidade homoerótica. Na prisão, os personagens têm que ser criativos para ter momentos de encontro, como, por exemplo, se deixarem sofrer uma punição, ocasião em que são levados a uma cela especial para passar a noite, e onde foram rodados os momentos mais poéticos do filme: no meio da frieza da repressão, onde menos se espera, há toque e encontro com o outro. Haveria amor?

Hoffman é preso, mas por dentro busca a liberdade de si mesmo. As grades não contem seus desejos, que vão além do prazer puramente carnal. Em uma cena onde Hoffman fura letras numa Bíblia para se comunicar com seu amado de outra cela, vemos não apenas a inventividade pela necessidade de se comunicar, mas a ironia fina do cristianismo sempre presente em ambientes inóspitos, servindo como base irônica para "religar" ao outro: a palavra de Deus serviu para os amantes gays transporem a barreira das grades, religião é religamento.

Em uma cena de doer o coração, que se passa no período da década de 1960, durante o qual Hoffman se encontra com um jovem professor que fazia "banheirão" com ele no mesmo local, e que também fora preso pelo mesmo artigo, o jovem professor confessa a Hoffman que, para se defender de tal crime de perversão, criou uma narrativa onde fora forçado a fazer sexo. Hoffman, então, não pensa duas vezes: na primeira oportunidade, faz uma declaração às autoridades de que forçou o professor a fazer sexo com ele, de modo que, assim, pode dar a liberdade a seu amante ("você não pertence a esse lugar, você é professor", diz Hoffman), confimando a ideia de que alguns corpos transitam com status diferente, cabendo-lhe um julgamento de adequação. Hoffman, afinal, merecia estar ali?

Mas o roteiro acertadamente foca na relação entre Hoffman e Viktor, um homofóbico que aos poucos vai se desconstruindo, o tal preso que dividira a cela com Hoffman durante a primeira prisão e durante a última de Hoffman, ou seja, que não conseguia a liberdade. A carência e a falta de contato com mulheres permitiu que Viktor, aos poucos fosse se abrindo, se permitindo. Foi Viktor quem fez a ponte da Bíblia citada anteriormente (em troca de um boquete, claro). Um machão que se deixou envolver por sentimentos. Ele não se apaixonou, não espere aqui um romance improvável. O filme é inteligente demais para se entregar a soluçãos fáceis. Viktor vai aos poucos se (des)construindo, a edição do filme é lenta e torna tudo muito crível, até o ponto onde ele sofre uma punição por simplesmente ter empatia a dor de Hoffman quando um dos seus amantes se mata, chama os guardas de "bastardos sem coração". Ele se tornou o que mais temia: humanizado.

Viktor se entrega às drogas, e Hoffman tenta ser o suporte emocional necessário para que seu "amigo" de cela não sucumba de vez, pois isso estava atrasando a liberdade de Viktor (em uma de suas audiências, Viktor não conteve o impulso e se injetou, estendendo mais uma vez sua pena). Assim, vemos que o coração de Hoffman, que chora pelo luto, que se deixa ser chamado de estuprador, que se preocupa com a liberdade de um homofóbico desconstruído, é muito maior do que se supunha, um desejo que vai além do sexo. Quando o artigo 175 é abolido, Hoffman hesita, pois estava ajudando Viktor a se controlar com as drogas, ajudando-o na sua liberdade. Hoffman não estava preso, estava exercendo todo o seu potencial enquanto indivíduo de sexualidade dissidente.

Ao ganhar a liberdade e viver numa Alemanha Ocidental pós Woodstock, Hoffman vê que a liberdade não apenas tem um preço, mas ela própria é indecifrável. Ele passeia nos subsolos de uma boate gay típica, entre corpos nus de caras explicitamente se pegando e se masturbando, e nada disso parece fazer sentido. Estava preso a um ideal padronizado de liberdade, que delimita corpos sem precisar recorrer a um código jurídico. É aí que ele tem uma ideia: assalta uma joalheria e aguarda pacientemente retornar à "prisão", no sentido formal do termo, claro, pois poderia, quem sabe, estar livre em voltar para perto de Viktor e concluir a missão de servir-lhe.

Mas o trunfo do filme é que não sabemos o que se passara com Viktor, nem ao menos se foi a melhor escolha de Hoffman. Não sabemos se foi um surto, ou um susto pela realidade excplícita, ou se ele ama Viktor. Não sabemos. E que bom. Reitero que o filme não é um romance. Trata-se de mergulhar a fundo no nosso ideal de liberdade sexual, ver o quanto somos presos a desejos e paixões não resolvidas. Não importa a repressão, o amor surgirá onde menos se espera, pois não se trata somente de garantir direitos fundamentais. É, acima de tudo, um projeto coletivo, cujos corpos oscilam em ser meros fantoches das instituições ou ser joguetes dos nossos desejos mais fundos.

Hoffman desloca-se pela nova Alemanha Ocidental sem um sentimento de pertencimento, um sentimento que brotara numa cela hostil, com um cara hostil. Falta de autoestima? Desejo? Ou amor? É muito difícil controlar desejos e impulsos, mas é mais complicado ainda quando se dá a liberdade de fazê-lo, pois se pararmos para pensar, não há liberdade: somos seres em relações sociais constantes, presos ao nosso contexto histórico, com formas limitadas de viver. De onde brota a infinitudade? Como ser autêntico? Não sabemos ao certo. Uma prisão certamente é um ambiente devastador, mas fora dela será que também não estamos construindo grades? O filme nos faz pensar uma série de questões sobre o limite de nossas asas. Hoffman, assumidamente gay e entregue até demais aos demais corpos masculinos, entre anular-se e viver em plenitude, fica a sensação de que ele somos todos nós, desbravando nossos desejos mais escondidos.

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