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16 de maio de 2022

Happening e o retrato da sociedade machista

8,5/10

Quando comecei a assstir a esse filme francês, não fazia ideia do que se tratava o roteiro, só sabia que figurava no topo da lista do Rotten Tomatoes. E o filme faz jus ao reconhecimento.

Baseado em um pequeno livro homônimo, conta a história real de um fragmento na vida de Anne na década de 1960, uma jovem estudante de Letras que engravida e decide realizar um aborto para que não atrapalhe seus planos profissionais.

Assim como em "Nunca, raramente, as vezes, Sempre", o filme não mostra a origem da gravidez, num acertado recorte de realidade. Alías, nada do que tenha acontecido deve justificar ou se sobrepôr à decisão da mulher (ou não deveria). Obviamente o filme parte de um lugar já pré-construído, portanto, trata-se de uma escolha política, mas francamente, o corpo das mulheres sempre foi objeto político, isso quando não era um objeto mais vulgar lapidado por nossas instituições misóginas. Então caberia ao roteiro cosntruir toda a argumentação para sustentar a escolha de Anne. Neste sentido, Audrey Diwan, a diretora do longa, consegue extrair o máximo de Anamaria Vartolomei, a jovem que protagoniza Anne, numa entrega aboslutamente arrebatadora. Arrisco a dizer, até aqui uma das melhores atuações femininas da década de 2020.

O enquadramento sempre muito próximo às vezes incomoda, mas é daqueles incômodos necessários para mergulharmos nas expressões e na dor de uma jovem que se vê desamparada do mundo. Se considerarmos a ambientação, o filme pode até ser uma reconstituição de mais de 50 anos, mas é impressionante como todo o tabu e hiprocrisia se mantém vivo até os dias atuais, sem contar que em muitos lugares, a situação chega a ser pior. Estamos falando da França, um lugar onde os médicos não tinham respaldo legal para realizar os procedimentos a que Anne recorre, mas não se chocavam a ponto de a denunciarem. Há, por óbvio, todo um moralismo em volta da família e dos profissionais de saúde que cercam Anne, mas fico imaginando qual teria sido seu destino se ela vivesse em um país subdesenvolvido, por exemplo. Vê-la tendo que se sujeitar à clandestinidade no berço da civilização chega a ser chocante, e mais chocante ainda é ver que, certamente, muitos ainda a culpariam pelo ato.

A legalização do aborto é questão de saúde pública, isso parece tão óbvio que chega a ser cruel que, em pleno século XXI, essa obviedade encontre barreiras ancoradas em um discurso que não se sustenta meio centímetro quando confrontado à realidade. Anne, estudada e inteligente, branca, de uma família boa, teve que recorrer à clandestinidade para poder decidir sobre si mesma. Uma dor que é subjetiva e social, individual e política, privada e pública: o machismo é quem decide quem são os detentores de direitos inalienáveis.

Apesar dos claros privilégios de Anne, o filme é universal, à medida que sua dor se estende em maior ou menor grau a todas as outras mulheres que vivem sempre à sombra do primeiro sexo. A conclusão a que chego é que nem precisava justificar a escolha de Anne pela opção à vida profissional, pois essa necessidade de explicação só pode ser compreendida num mundo em que as justificativas devem sempre ter o selo de aprovação externa quando o sujeito que a declara possui uma vagina. Até quando?

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