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8 de julho de 2022

Pleasure: o hedonismo e o estoicismo degladiando-se

Dirigido por uma diretora feminista, a sueca Ninja Thyberg, podemos afirmar que "Plesure" fica no limiar entre o filme denúncia e o fetichismo, cujas fronteiras estão cada vez mais tênues, ainda mais na pós-modernidade.

Sem se aprofundar nas motivações exatas da protagonista ("vim porque gosto de sexo"; "quero chupar pau"; "fui estuprada pelo meu pai", seguido de umas risadas que descredibilizam a fala), o filme funciona por acompanhar de perto uma aspirante à atriz pornô, mas também por mostrar os bsatidores das produções. E engana-se que a diretora demoniza o sexo em si. O projeto, inclusive, conta com grande parte do elenco proveninete do mundo pornô, o que confere um olhar menos moralista ao produto final, como por exemplo, algumas cenas em que os produtores de fato estavam sendo simpáticos e se importando com os atores e atrizes em cena. Mas óbcio que nem todos. A cena em que a moça, incialmente consentindo em fazer um sexo mais pesado, é obrigada a continuar, mostra o poder da coerção nesse mundo, e de como é difícil ver os limites daquilo que estamos dispostos a fazer.

Impressiona como a câmera de Thyberg torna tudo tão orgânico: do close no rosto da protagonista às cenas em que ela faz sexo oral, os cortes não são abruptos, não há uma mudança na tonalidade ou na trilha sonora, ponto para a produção que torna as cenas de sexo coesas com a vida da protagonista vivida por Sofia Kappel. Aliás, numa performance difícil, pois não sabemos ao certo até que ponto ela está gostando de viver aquele mundo, só sabemos que a jovem atravessou o oceano, da Suécia para os Estados Unidos, com uma questionável certeza, jogando-nos das incertezas e no universo pornô abruptamente, ainda que tudo isso faça parte dos conflitos internos da personagem.

A câmera também passeia incansavelmente pela relação dela com as amigas e os agentes, até chegar de forma totalmente verossímel nos filmes dentro do filme, o ato em si, e faz esse passeio de forma lúcida, embalada por uma trilha sacra que confere uma relação dualista à obra. Aliás, tudo aqui é meio antagônico, do olhar da protagonista (confusa, assustada, tentando sentir prazer ou verdadeiramente sentindo?) ao título, um prazer que é posto toda hora à prova. Não há uma trilha pop que confira diversão às cenas, tudo é feito para você questionar o que vê, e isso é mais um mérito para a película.

E a grande pergunta que o filme levanta é: vale à pena? E esta pergunta cabe tanto aos produotes, atores e atrizes quanto ao público que consome. No caso de quem se arrisca a viver disso, qual o limiar entre prazer e a obrigação? Até que ponto é desumano e até que ponto nada mais é do que uma necessidade humana? Afinal, o filme não condena o sexo em si, mas deixa pro espectador pensar até que ponto a busca pelo prazer (pleasure=prazer) é saudável ou nos torna livres, e isso vale para todos que, de alguma forma, alimentam essa indústria. É possível falar em liberdade aqui? Pois desconfio que essa crítica à suposta liberdade acabe por feitichizar ainda mais esse conceito de sexo enquanto mera reprodução das estruturas hierárquicas de submissão.

Por exemplo, o revanchismo entre as amigas deixa escapar o quanto se prende o roteiro a uma visão que negligencia o ponto de vista puramente feminino. Fora a última cena, meu deus, uma cena lésbica, há algo mais clichê para os machos sedentos por objetificação dos corpos femininos? E o fato da protagonista assumir de vez o papel do ativo dominador, fincar-se nos espaços VIPs (reservados às atrizes de maior sucesso), custou-lhe não apenas a amizade, mas até mesmo o desconforto consigo mesma.

A falta de um aprofundamento biográfico causou certa frieza quando ela se desculpa pelo sexo sujo feito com a sua companheira de cena. Ali havia um lampejo da sua humanidade e do caminho de degradação a que estava incorrendo, mas como o roteiro nos conduz sem julgar, o espectador de fato não sabe até que ponto a protagonista se vê, se num pedestal ou se no fundo do poço. Até que ela manda parar o carro para sair dali, fugindo do ambinete de claustrofobia e de tudo aquilo que lhe causava dor. Ainda é sobre prazer e liberdade?

Como disse no começo, confundir a linha que separa a denúncia do feitiche é um perigo, ainda mais quando alguns elementos do roteiro e até mesmo a atuação ambígua de Kappel podem ser questionados. Mas ao menos o filme cumpre sua função: de fazer pensar. E se você, como eu, também se excitou em algumas cenas, cabe-nos refletir sobre como anda a fronteira dos nossos desejos. Talvez Freud ajude nessa empreitada. E se um filme nos faz revisitar a psicanálise, já valeu o ingresso.

The Janes e o retrocesso da suprema corte norte-americana

Há uma tendência de que os documentários produzidos nos EUA ganhem uma projeção pela crítica social contundente ao seu status quo, e olha que nem estamos falando de um Michael Moore da vida. "A 13ª emenda", "American factory", "Athlete A", "Margens de uma guerra", todos muito relevantes para mostrar o quanto o berço da democracia moderna ainda padece de direitos a suas populações minoritárias.

"The janes", dirigido por duas mulheres, Emma Pildes e Tia Lessin, conta a história de um grupo de mulheres que se organizaram para viabiliar procedimentos de aborto a mulheres, isso no final da década de 1960, quando a suprema corte norte-americana ainda não havia reconhecido o direito. Foi somente em 1973 que houve o reconhecimento jurídico do procedimento, tornando-o legal. Hoje em pleno 2022, é como se retroagíssimos uns 50 anos, dado que escrevo esta análise justamente no mês em que a suprema corte resolveu revogar a decisão, cabendo aos estados federados nos EUA decidir sobre o caso.

É interessante ver no filme o papel de outsiders, que recai bem mais forte sobre as mulheres, justamente numa época em que explodem revoltas de grupos minoritério: é o apogeu do movimento negro, hippie e do movimento gay, para ficar em alguns exemplos. Chicago, o caldeirão das identidades, ferve e pulsa as críticas sociais que norteariam o pensamento da esquerda pós-moderna, cuja ênfase identitária torna-se a bandeira maior das suas causas. As mulheres, inviabilizadas na retórica desses movimentos (salvo raras exceções), clamavam por maior organização e por uma luta mais específica, criticando aquilo que Nancy Frase vai chamar de política de reconhecimento; era necessário reforçar uma política de diferenças.

O documentário, no entanto, desliza naquele que também é o seu ponto forte. Ao trazer à tela o ponto de vista das mulheres que construíram o movimento, torna-se demasiadamente orgânico para o entendimento da questão, e isso é muito bom. De fato, ouví-las nos transportará àqueles anos (o trabalho de edição é sensacional, há muitas imagens que vão aparecendo de forma dinâmica e não muito cansativa); entrementes, peque por trazer visões unilaterais e homogêneas, quase não há contrapontos a serem tecidos.

Não sei se a falta de um antagonismo seja uma motriz essencial a essa espécie de documentário, pois de fato não precisou de muito para impactar. A linha conduzida pelo roteiro é bem transparente, acompanhamos o desenvolvimento da rede de apoio feminino sendo construída e crescendo, nos lugares inomináveis e nas metáforas esquivas a que se submetiam ("o lugar, "a fachada"). Tudo isso faz parte de um processo de invisibilidade cujos grupos minoritários sabem melhor do que ninguém como lidar, engajando uma estratégia de sobreviência dado o desamparo a que tais mulheres eram submetidas. Mas chamo a atenção para o fato de que, em alguns momentos, ter uma visão constra-argumentativa ao que se propõe pode ser enriquecedor, ao menos para desmascará-lo: por exemplo, na condescendência dos policiais, apenas trata-se superficialmente algo que poderia render ainda mais, já que o fato de muitos "passarem pano" para o aborto revela um traço da masculinidade perversa, tomada pela epistemologia do poder formal, com o mainstream vociferando o moralismo no público, mas abraçando a ilegalidade no privado. É aquela velha máxima, "homens são contra o aborto até o dia em que a amante engravidar". Numa sociedade tomada por simulacros, creio que essa máxima mereça especial atenção.

Para fechar, tivemos recentemente a retomada do caso "Roe contra Wade" em 2022, como dito anteriormente, um caso ocorrido no Texas em 1970. Na ocasião, a mulher queria ter o direito de abortar legalmente. Alguns fatos curiosos chamam a atenção nesse exemplo: não se tratava de uma mãe solteira, o casal estava lutando juntos na justiça. E or promoores, talvez inteligentemente, aguardaram as eleições de 1972 (Nixon, republicano, fora reeeleito) para decidir em janeiro de 1973 que a mulher teria sim o direito ao aborto, evocando as máximas já conhecidas do liberalismo clássico: proteção individual. De um lado, a estratégia. De outro, a força que o poder da pauta faminista tem para incendiar eleições. Não mudamos nada meio século depois.

Às mulheres, recai constantemente o peso da prova e do higienismo latente ao qual devem submeter-se. No Brasil, ainda se discute se uma gravidez pronvinda de um estupro de uma menina de 13 anos teria possibilidade de ser interrompida, ao mesmo tempo em que se massacram uma atriz quando ela decide por doar o filho indesejado (também por estupro) para adoção. É como se a todo instante tivessem que pôr à prova uma decisão que deveria ser pessoal e escolha da própria mulher. Isso nos leva a concluir que "The Janes" fez o correto ao dar voz altissonante às mulheres. já estigmatizadas por natureza, e toca o foda-se para os machos, que há muitos vem decidindo por elas. É reparação histórica, mas também é provocação. É preciso sempre, como diz Norbert Bobbio, vigiar, e nao apenas lutar para garantir os direitos, pois uma vez conquistados, podem, ao menor dos vacilos, sofrer um revés, logo, é necessário protegê-los.

25 de maio de 2022

"The fallout" e a saúde mental da juventude: precisamos falar sobre isso

8,5/10

Quando dei o "play" para assistir ao filme "The fallout" (traduzido "a vida depois), a única informação que eu tinha era a do cartaz, sequer tinha lido a sinopse do filme. Ao iniciar mostrando o cotidiano dos amigos Vada (Jenna Ortega) e Nick (Will Ropp), embalados por sorrisos, descontração, música pop e piscadelas a um crush, logo entrei na vibe de "mais um típico filme de adolescente", e para o meu espanto, nos minutos seguintes todo meu mundo desmoronou, e numa cena primorosa vemos a protagonista Vada enclausurada no banheiro da sua escola com uma garota super popular, dividindo o box no banheiro para fugir dos tiroteios que assombravam o prédio. Só ouvimos os tiros, mas encarnamos toda a sensação de medo e insegurança, e quando um outro aluno entra, ficamos tão tensos quantos os personagens, como se o perigo estivesse tão próximo, numa sensação asfixiante

No momento em que escrevo isso (25/05/2022), quatro meses após o lançamento do filme no Brasil, as notícias de massacre em escolas norte-americanas novamente ocupam os noticiários, dessa vez no Texas. Crianças entre 7 e 11 anos mortas, além de professores. O atirador compartilhou fotos das armas em suas redes sociais. É absolutamente agoniante pensar que a escola pode ser o reduto de sentimentos tão díspares, e do quanto a educação está longe, na mente de algumas pessoas, de ser tão sedutora quanto o crime, os quais muitas vezes oferecem status e uma sensação de poder inebriantes.

Estamos longe, muito longe de entender a cabeça dos jovens, e isso sem considerar o quanto o fardo já é pesado demais: o excesso de informações das redes socias e a pressão social em ser visto e aceito (Vada, ao entrar no banheiro, queria se aproximar da popular influencer Mia, mas se sentia inferior; acabaram se aproximando pelo trauma), os conflitos internos com a sexualidade, o sentimento de impotência e de insegurança, a relação com os pais (tão próxima e tão perto). Numa cena de Vada com o pai, ambos gritam seus medos e inseguranças num ambiente aberto, com alguns palavrões, e embora um pouco apelativa a cena é clara: ninguém faz ideia do que tá acontecendo e de como podemos contornar a situação, nem mesmo os adultos.

A sempre carismática Shailene Woodley dá vida a uma psicóloga, mostrando a importância do trato profissional à nossa saúde mental. A jovem Vada está devastada, sofre sentimentos confusos e normais a adolescentes, mas tendo que lidar com a família, com os amigos (em determinado momento, seu melhor amigo Nick pretende agir politicamente, e ela, de perfil mais contido, sente que não o acompanha), e ainda tem a questão da sua sexualidade, experiências com drogas (de ácidos a bebidas) e... claro, a escola! Este lugar que poderia ser um refúgio, mas é palco onde a ansiedade parece fugir ao controle, onde os sentimentos entram em erupção.

Ao mesmo tempo em que o roteiro acertou em focar na tensão sibjetiva do psicológico de Vada, há de se destacar que haveria espaço para um melhor desenvolvimento dos demais personagens, como o próprio engajamento do Nick, as questões pertinentes sobre as consequências do uso das redes sociais no arco vivido pela Mia, a relação com os pais de Vada e sua irmã, que havia acabado de menstruar, e mesmo sua relação esporádica com o garoto Quinton (vivido pelo ótimo Niles Fitch). Infelizmente tudo soou superficial, mas ao menos é compensado com a entrega da Jenna Ortega.

Se você for pai ou mãe, certamente sentirá desejo de abraçar seus filhos e protegê-los numa caixinha. Quando você pensa que o filme caminha para a esperança, eis que o desfecho retorna você para a realidade e para o ciclo pernicioso que nos assola. A tensão não se esvai e de repente você pode se ver junto da personagem, deixando o medo e o trauma lhe invadirem.

Não é um filme fácil, mas por fugir dos clichês adolescentes, é absolutamente necessário. Acertadamente, ao focar nas consequências psicológicas, o filme não fetichiza a violência, no entanto, tenho receio de que esteja fetichizando a dor. É muito complicada essa ambiguidade: filme necessário, mas não sei até que ponto os jovens têm a maturidade de assistí-lo, e nem se trata de idade. De temática urgente e de digestão altamente complexa, o fato é que não poderemos apartar a juventude da realidade, tão cruel quanto as imagens não mostradas no filme. Num ano em que tivemos "Playground" e "The innocents" para falar sobre bullying na infância, ver que a escola definitivamente não é o lugar mais seguro do mundo é impactante. Seria necessário resgatar modelos mais repressivos? Seria necessário revolucionar nosso ensino? Qual, afinal, é o papel da escola? Estamos preparados para lidar com toda essa carga emocional? Aliás, até que ponto somos responsáveis pelo estado de desamparo em que se encontra a atual geração?

Queria deixar uma mensagem mais positiva, pois sinto que o filme ressaltou com tanto amargor os conflitos e medos, deixando o amor e a esperança parecerem tão distantes... Mas talvez a postura idealista, hoje, seja utópica demais. Talvez se esconder em um box de banheiro seja necessário somente em certo momento, como autodefesa, mas como Nick pretendia, seria preciso agir e fazer bem mais. Não sabemos exatamente como, mas dar valor ao caminho da mudança e fazer dos jovens mais protagonistas, pode ser o começo de um mundo melhor. Ou não.

"Compartment" nº 6 e o suspense pelo desconhecido

Tendo como base o livro homônimo da escritora finlandesa Rosa Liksom, o drama "Compartment nº 6" tem pegadas de suspense e ritmo meio tenso, pondo o expectador claustrofobicamente numa pequena cabine de trem para uma viagem de alguns dias, focando na estudante Laura.

O filme se inicia no partamento de Irina, a namorada de Laura, junto com amigos intelectuais e um tanto quanto soberbos. Ficaremos sabendo adiante que Irina é professora, sendo Laura uma estudante, o que já mostra certa hierarquia entre ambas, mas não apenas isso. Ao que parece, a relação que elas têm vagueia entre o idealismo construído por Laura e a toxicidade emanada por Irina, já que Laura se apega bem mais do que a outra, e Irina parece fazer o tipo mais indiferente. As duas planejam uma viajem para Murmansk, ao círculo polar ártico, a fim de conhecerem um famoso petrógrafo (a petrografia é uma espécie de ramo de estudo da geologia, sobre rochas), sendo o lugar algo que chama atenção de especialistas. Mas Laura acaba tendo que fazer a viagem sozinha.

Já é desolador demais ver que sua namorada não deu a devida importância, e o sentimento de solidão construído no olhar de Laura, na música triste, na sua apatia em interagir, é gritante. ao mesmo tempo, seu companheiro de cabine, Lyokha, vivido pelo ótimo Yuriy Borisov, passa aquela sensação de insegurança que talvez toda mulher conheça bem, primeiro pelo simples fato dele ser homem, e segundo pelo seu jeito meio rude e pitoresco. Ainda bem que o ator consiga equilibrar esse homem de trejeitos simples com o ar sisudo e grotesco sem cair no clichê, possibilitando, ao longo da projeção, desconstruí-lo em camadas que até então não eram possíveis deduzir, smepre ficamos com um pé atrás com o personagem, itensificado pela edição e direção do filme.

Assim, acompanhamos um exercício de desapego de Laura à namorada e também de desconstrução dos esteriótipos que a circundam, posta a necessidade de interação que ela deve ter com estranhos. À certa altura, ela também se envolve com um outro personagem, muito mais polido e educado do que Lyokha, porém, eticamente falando, muito mais ordinário. Sim, as aparências enganam, e é gostoso acompanhar a mudança gradual dos personagens, inicialmente mais contidos e fechados, para serem desnudas camadas cada vez mais fundas de suas personalidades.

"Não se deve julgar o livro pela capa" talvez seja uma das lições a que o filme se propõe, mas também é sobre a fluidez da vida, a necessidade de ligação mesmo em ambientes improváveis para ver o desabrochar de relações mais profundas. Afinal, é um risco se abrir para estranhos, ao mesmo tempo, por que não? A vida passa como um sopro, e de repente uma companhia boa em uma conversa despretensiosa sobre projetos profissionais de vida pode ser interessante. O ar episódico marca o filme até o seu desfecho, e conta com algumas passagens que a produção tentou marcar visualmente, como a chegada dos personagens ao tal petrógrafo. Não há nada de tão grandioso lá, mas a jornada (a forma como Laura finalmente chegou ao destino, tendo que vencer a barreira do inverno intenso na região e as dificuldades de percurso) e, principalmente, a companhia, trazem significados mais intensos, deixando tudo mais nteressante e belo.

Talvez tenha me incomado esse tom de uma crônica despretensiosa (fica a sensação de que os personagens nem voltarão a se ver), mas é impossível não arrancar um sorriso, nem que seja tímido, pela simples possibilidade de ver poesia na vida onde menos se espera. Um desconhecido é uma porta que pode se abrir, e apesar dos riscos, como sabê-los? Apenas vivendo. Afinal, também podemos nos decepcionar com pessoas próximas (a exemplo da namorada de Laura). Não estamos seguros, e um compartimento de trem ou uma singela viagem apenas são fragmentos de tantos mundos e sensações possíveis.

22 de maio de 2022

"You won't be alone": a influência da "Idade das trevas" para o feminismo

O filme "You won't be alone" foi lançado no dia 1º de abril de 2022, roteirizado e dirigido pelo estreante Goran Stolevski. A obra é um exemplar vindo da Macedônia, vizinha à Grécia, retratando em forma de horror (e muito lirismo) a influência da Idade Média, sobretudo nos corpos femininos. O filme tem como cenário uma aldeia que lembra bastante o cenário feudal da "Idade das trevas".

A história começa em torno de uma criança recém nascida que chama atenção de uma bruxa. A mãe, para proteger a criança, faz um pacto com a bruxa: poupar a vida dela pelo menos até os 16 anos. Só nesta introdução já dá para pensarmos como a Idade Média tratava as crianças: como seres incabados, mini adultos (nesta época, a infância e a juventude não eram vistas em suas peculiaridades). A bruxa atende o pedido da mãe, mas corta a língua da criança, mostrando que a menina não teria sequer o poder da fala, a possibilidade de ser alguém plena. Mostra o silenciamento a que alguns corpos são submetidos.

A mãe, então, tenta esconder a criança numa caverna, ao longo de 16 anos, mostrando a fragilidade da socialização da jovem, retirando-a do convívio dos demais. Mas a medida não basta para despistar a bruxa, que retorna na forma de uma águia para resgatar a adolescente. Ao sair da caverna, a menina no entanto, embora seguida pela bruxa, deve desbravar o mundo sozinha, a bruxa apenas a observa de longe. É como se ela estivesse saindo da caverna de Platão para desbravar o mundo, mas uma sombra ou uma maldição sempre a acompanhasse.

Sozinha, a moça começa a notar o seu corpo, a necessidade de se alimentar, a obrigação de ter que sobreviver. E aí a própria jovem comete assassinatos: inicialmente de um cabrito, para comer suas vísceras; após retornar à aldeia, ela se alimenta inclusive de uma outra mulher, come seus órgãos internos e assume a forma dela.

Tudo que acontece no filme tem muito sangue e as imagens são cheias de crueldade, no entanto, a estética do filme usa uma trilha poética, e acentua que a garota a faz por pura necessidade. Ao assumir o corpo da mulher que a devorou, ela terá que sobreviver a outras provações além da busca por alimentação, como controlar seus impulsos sexuais, seus desejos, não poder se impor num mundo onde homens mandam e as mulheres obedecem. Mesmo podendo falar, ela é silenciada.

Ao longo do filme, ela ainda toma o corpo de um cachorro e de um homem. Especialmente neste último, na forma masculina, quando ela se aproxima de uma boneca ela também sofre perseguição, como um ritual de exorcismo, mostrando como a sociedade expurga os traços afeminados e os maltrata. No filme ainda há cenas de mulheres sendo queimadas vivas, mulheres que são forçadas a casar e fazer sexo, a epós ter uma filha, vive atormentada para que a bruxa não pegue a própria filha.

O filme no entanto, termina com uma mensagem de esperança ao perceber nas crianças, em especial nas meninas, uma certa pureza, qua protagonista nunca teve pois teve sua infância roubada ao cresccer numa caverna. Ou seja, o filme passa a mensagem de que nascemos puros e sem crualdade, mas a sociedade é que nos corrompe, mostrando que, se quisermos ter um mundo de paz, é preciso cuidar das crianças e do processo de socialização, pois todas as formas de violência e preconceito são cultivadas ao longo da vida, não são condições da natureza humana, especialmente a condição da mulher.

A Idade Média cultivou o medo e o adestramento, especialmente dos corpos femininos. Trata-se porém, de semear a liberdade e a fraternidade para vivermos melhor, e o diálogo e respeito entre os gêneros. A bruxa nada mais é do que a maldição do padrão social que recai aos corpos femininos, que eram obrigadas a servir e a se adequar, não podendo expressar-se livremente. Mostra como as mulheres eram subjugadas pelo patriarcado, e como essa concepção ainda vigora até nossos dias.

20 de maio de 2022

Linklater e suas fábulas de amadurecimento a partir do Zeitgeist dos anos 1960

9/10

Eu amo absolutamente TUDO que o Richard Linklater entrega, sempre com muito carinho e com muito conteúdo a mostrar. Ele tem a melhor trilogia do cinema pela regularidade dos filmes (Antes do amanhecer, Antes do pôr do sol, Antes da meia noite), e tem um dos projetos mais ambiciosos em Boyhood, ocasião em que tentou domar o tempo em um único filme, com cenas do cotidiano de um garoto em várias etapas de sua vida, que mais parecem nossas queridas crônicas (um estilo literário bem rico no Brasil). Em "Apollo 10 e meio", Linklater retoma a ideia de amadurecimento, mas dessa vez se fixa no ano de 1969, quando o homem foi à lua, e de quebra passeia pelos costumes da época.

Bem, não exatamente ele se fixa no ano de 1969, pois o filme regride anos antes para contar a vida do protagonista Stanley, um menino comum que cursava a quarta série, quando é abordado por agentes da Nasa para que cumpra a inusitada proposta de viajar ao espaço, precedendo a preparação à famosa missão Apollo 11. O nome do filme, portanto, refere-se a um número entre 10 e 11, pelo fato da missão ser ultrassecreta (segundo os agentes misteriosos, houve um erro de construção na cabine, por isso precisavam de alguém "menor"), além de remeter à idade do garoto.

Claro que tudo isso é uma desculpa para o diretor reviver os anos 1960, e o filme descamba para uma espécie de documentário, mas para nossa sorte, um retrato muito engraçado de Houston, da cultura americana e daquela família em específico, conseguindo uma proeza: dá um aula de história ao mesmo tempo que consegue criar uma conexão sentimental com os personagens.

Com vários recortes do cotidiano, o filme tinha tudo para se perder em uma colcha de retalhos enfadonha, mas estamos falando de alguém que dirigou Boyhood, e sabe do potencial que tem uma biografia, mesmo com diversos elementos contribuindo para o insucesso da história (como o risco de perder o fio condutor da narativa, o excesso de situações e personagens, a falta de ligação sentimental etc). Stanley conta com muitos irmãos, e embora o filme não tenha espaço para construí-los em camadas mais fundas, ao menos criou algo coeso e intimista a ponto de se divertir com o clima familiar. Todos tem suas personalidades, embora nem sempre isso seja evidente (repare, por exemplo, na irmã mais velha, sempre com um olhar crítico mais aguçado).

Mesmo em um trabalho voltado ao streaming, Linklater consegue, em comentários rápidos, tecer críticas seja à Guerra do Vietnã ou aos movimentos identitários emergentes, ou à cobertura midiática, enfim, vários temas surgem, sem muito aprofundamento, mas considerando a narração da perspectiva de uma criança, essa falta de um mergulho mais profundo nos temas não deixou o filme superficial, ao contrário, tornou-se verossímil, e definitivamente escapou da verborragia.

Particularmente achei o clímax extraordinário, mesclando cenas da "Apollo 10 e meio" com a da "Apollo 11", num trabalho de edição muito bem feito. E além disso, ao tomar como certo a histpriciade dos acontecimentos, o filme dá um toque de leve spbre a importância de nossas memórias, do quanto a história tem um peso na nossa formação identitária.

Linklater demonstrou que continua inspirado, e ainda contou com uma boa produção, designer, edição de som, enfim, uma equipe técnica que entrega um bom ritmo e confere agilidade ao roteiro, com destaque para aparição e homenagem a vários artistas da época (o que inclui cantores, bandas, cineastas, atores, mas também os próprios astronautas, que eram como estrelas pops àquela época).

Não sei ao certo até que ponto essas memórias confundem-se com as do próprio Linklater, mas o fato é que o filme convence na sua função de levar à tela o que Hegel chamava de Zeitgeist, o espírito de um tempo. Somos transportados àquela época onde a viagem à Lua trazia esperanças, discussões políticas, projeções futuras. Referências a 2001 e outros filmes de época são apenas a ponta do iceberg que mostram a fragilidade de nossa condição e o quanto verdadeiramente não sabemos para onde caminhamos. Mais de 50 anos depois, até mesmo defensores da Terra plana habitam este planeta. Definitivamente, não podemos reclamar de filme sobre amadurecimento, quando nossa própria espécie vive em eterno porvir.

Red: a Pixar entregando e se entregando

7,5/10

Traduzido no Brasil como "Red; crescer é uma fera", o filme da Pixar/Disney "Turning red" é mais um tiro certo do estúdio, com personagens bem construídos, visual belíssimo, universo gostoso de acompanhar e tabus cotidianos como principal elemento do roteiro. Mas também não é perfeito.

O filme conta a história de Meilin e sua passagem para a puberdade, com direito a cenas de referências fofas demais (nesse quesito, a Pixar não erra, realmente um achado toda a metáfora do Panda vermelho). Ela conta com mais três amigas de escola e uma mãe conservadora, que darão conta do conflito de gerações pelo qual a jovem passa, e de quebra uma boy band chamada "4-Town" e uma tradição milenar que prega o controle das emoções (para não fazer surgir o monstro interior, o tal panda vermelho) para apimentar os atritos. Toda a história se passa no início dos anos 2000.

Diferente de Valente, que retratou o poder feminino numa perspectiva clássica, aqui todo o universo é incrivelmente feminino, não se limitando, obviamente, às meninas, mas sim pelo fato de todo o núcleo principal girar em torno das mulheres, e de como há uma sobrecarga social muito grande sobre os ombros femininos. Só por isso o filme já valeria a conferida. Tal qual em Toy Story, crescer absolutamente deixa marcas profundas, e a personagem precisa equilibrar-se entre a tradição e o mundo secular, seguindo um ideal de liberdade e juventude. E foi aí que o filme me incomodou.

A título de comparação, gostaria de citar o "Viva: a vida é uma festa", filme da Pixar que consegue dialogar com a tradição e os problemas familiares sem descambar para aceitação mainstrem, respeitando as tradições mas revelando o que deve ser revelado, trazendo à tona problemas que estavam no subterfúgio. Em "Red", me incomoda essa exaltação ao universo teen pop de forma bem mais acrítica. Foi até estranho ver isso depois do mesmo estúdio ter criado algo a nível de "Soul".

Não sei se estou ficando velho, chato, ou os dois, mas não me agrada nem um pouco perceber que as ideias de liberdade se confundem em reverenciar, com certa fetichização, boy bands e afins, ou mesmo entregar-se à cultura pop, seja em roupas, linguagens ou gestos. Não digo que o filme deveria rejeitá-los, não se trata de extremos, mas a reconciliação com o mundo da tradição ficou muito superficial, podendo passar a ideia de aceitabilidade à moda, que nada mais é do que tão somente mais outra forma de dominação. A família de Meilin, por exemplo, cuidava de um templo, abrigo de toda a tradição na qual o roteiro gira, e com o desenrolar dos fatos, esse templo vira uma espécie de "Igreja Universal" pronta a recolher suas moedas a qualquer momento, embalada por músicas da cultura de massa. Não é bem esse tipo de ideal de liberdade ou de reflexão que a Pixar vem construindo ao longo dos seus filmes, dotados de um grau de imaginação bem melhor do que o visto aqui. Esse grau de entrega ao senso comum realmente me pegou, e talvez por isso, no filme, haja um certo vazio. De fato, não há um ápice sentimental ou reflexivo, como visto em "Divertidamente", que nos faz pensar fora da caixinha. Aqui a mensagem entra de cabeça no lugar confortável da caixinha, ficou rasa e superficial, inclusive perigosa a ponto de eu achar que pode ser um convite à rebeldia.

Mas essa interpretação não seria de toda honesta sem ressaltar as qualidades do longa, e em se tratando de retratar o universo feminino, ganha muitos pontos. Em uma cena onde Meilin rabisca efusivamente o desenho do crush platônico, podemos associar o ato à masturbação e descoberta do próprio corpo, além das claras referências à menstruação. É de fato gratificante ver os filmes feitos TAMBÉM para o público infantil, tal grau de permissividade. E embora eu esperasse mais do desfecho, não é algo que afete a experiência como um todo, sendo mais um exemplo da qualidade da Disney/Pixar em conduzir tramas cujos vilões provém do seio da sociedade conservadora. E isso é muito bom.

The innocents e o cinema com atores mirins no ápice

8/10

"The innocents" é um filme norueguês dirigido e roteirizado por Eskil Vogt, focado em duas irmãs que se mudam para um prédio, cenário no qual várias cenas bizarras irão acontecer, mesclando supense e um horror contido, mas que impressiona pelo trato ao núcleo infantil.

Em primeiro lugar, queria destacar a forma como foi conduzida a direção dos atores mirins, espetacular. No rol dos melhores do ano, além de "Playground" com seu estudo sobre o bullying, temos em "The innocents" uma camada mais sobrenatural, porém tão assustadora quanto. Os dois filmes citados têm como pano de fundo a violência e os desejos mais escondidos dos personagens infantis, que podem, por exemplo, esmagar a cabeça de um gatinho com tanta frieza, ou provocar a morte da própria mãe. Sim, não espere resoluções e cenas dóceis aqui.

O filme consegue apresentar muito bem a relação das irmãs, Anna (Alva Brynsmo) e Ida (Rakel Lenora Flottum), sendo Anna uma pessoa com deficiência intelectual (autismo). Percebe-se, no olhar da outra, todo incômodo e insegurança que a presença da irmã provoca, desde o desvio de atenção dos pais ou mesmo a paciência que todos devem ter com a irmã. Ida então, para escapar daquele ambiente que lhe sufoca, faz amizade com Ben, vivido pelo excelente Sam Ashraf, num olhar e postura que várias vezes me deram arrepios. O garoto tem poderes de controlar objetos e a mente das pessoas, de modo que, obviamente, tais capacidades logo sairão do controle.

Em que pese todo a limitação de Anna, ela também arruma uma amiga mais próxima, a doce Aisha (Mina Yasmin Bremseth), uma garota com vitiligo. É interessante perceber que temos duas garotas com problemas (Anna com o autismo e Aisha com vitiligo), além do menino Ben com traços orientais, pele mais morena, e a própria Ida, iramã de Anna, uma garota perturbada por não reter a atenção dos pais, mas o filme não gira em torno de suas identidades mais explícitas: é na relação entre essas quatro crianças que o enredo se desenvolve, especialmente após Aisha, o garoto, exarcebar o seu poder paranormal.

Em maior ou menor grau, todas as crianças terão latente uma potência sobrenatural nas mãos, algo que precisam lidar. Mortes ocorrem com certa frequência, não poupando o expectador e causando a todo instante uma sensação de vulnerabilidade, o que é ótimo em se tratando de expectativas provocadas por produções assim. De fato, chega uma hora em que não sabemos até onde tudo vai parar.

É muito angustiante ver corpos tão jovens em um projeto pesado como esse. O filme não é fácil de assistir. Contudo, nos faz refletir sobre a desnaturalização da pureza das crianças que, afinal, ainda estão em fase de amadurecimento. O próprio Aisha, que realiza açõe terríveis, em determinada cena chora aos prantos na sua casa, solitário, como se consumido pela culpa e pelo medo. No fundo, é uma criança com conflitos internos muito intensos à sua idade.

O filme é demasidamente incômodo, lento algumas vezes (mas isso ajuda na ambientação). O roteiro é meio estranho, uma edição que vacila entre episódica ou concisa demais, e mostra uma economia na argumentação, mas isso não estraga a experiência, pois a exploração dos poderes sobrenaturais dos meninos, de fato, é incômoda, mas consegue passar a sensação de crueldade esperada. Portanto, se for assistir, prepare-se para cenas não muito agradáveis de ver, porém, caprichadas demais para deixar de conferir.

18 de maio de 2022

"X" e a relação entre sexo, terror e religião

8,5/10

Uma grata surpresa de 2022 é ver um slasher verdadeiramente bem produzido como "X", que mistura uma boa dose de pornografia (poderia até ser mais explícita), com terror, suspense e ainda um discurso religioso, mesmo que meio vago. Dirigido por Tim West, a trama central gira em torno de personagens que esbanjam beleza, juventude e hormônios, que vão a um lugar mais isolado para gravar cenas pornôs de um filme B, e obviamente as coisas irão fugir do controle em determinado momento.

A grande sacada do filme, além da primorosa ambientação, é ter consciência do material que tem em mãos. O filme já inicia com os policiais chegando na casa e se deparando com a cena de horror, que a câmera não mostra, mas já sabemos não se tratar de nada agradável, e ao fundo, uma televisão sintonizada na pregação de um pastor, vociferando palavras típicas do moralismo do "cidadão de bem". O filme se passa em 1979, mas poderia muito bem estar sintonizada num "Show da fé" gringo.

Os jovens, na flor da idade, carregam aquela aura inocente de que estão aproveitando e ganhando a vida, sendo 3 casais, formados por: 2 atrizes e 1 cinegrafista, mulheres, e 1 ator, 1 produtor e 1 diretor, sendo que o diretor namora a cinegrafista e os outros dois fazem par com as atrizes. O filme dentro do filme é o mais canalha possível: roteiro barato e desculpa para treparem, típica pornografia para uma época em que nem existia internet, será mesmo que a geração de nossos avôs não tinham essa "indecência" toda?

Os vizinhos são os casais de idosos mais bem construídos dos últimos anos, cuja presença e misteriosidade invadem a tela a cada aparição. O velho carrega o ar sisudo, pois foi ele quem alugou a casa ao lado para a equipe, já deixando logo de cara que não gostou deles, e ela, mais contida, vamos percebendo que se trata de uma mulher desiludida com a vida, sedenta por sexo e desejo mas sabotada pela passagem dos anos. O conflito de gerações aqui não apenas é claro, mas fio condutor da narrativa: o carpe diem estaria restrito à juventude e aos vícios próprios da idade? O sexo descontrolado se restringe a que tipo de pessoa ou parcela da população? O cristianismo contribui ou atrapalha na construção dos desejos?

Perguntas e mais perguntas sem uma resposta fácil. Mas o sexo e o fluir dos corpos não param, a tal ponto da própria cinegrafista, que era a jovem mais tímida, querer fazer sexo e participar do filme. Seu namorado reluta, mas cede, é necessário viver, deixar agir. A certo ponto, discutem a flexibilidade das relações ("é tudo profissinal", "não é amor, é apenas sexo") com as famosas frases prontas de quem clama a liquidez nas relações. É a geração pós-Woodstock, cheia de hormônios e vagando a esmo.

Mas o filme não é moralista. O casal de velhinhos, especialmente a senhora idosa, procura a equipe por sentir-se reprimida em seus desejos, e é desse impulso não controlado que vem a potência, seja para o sexo, seja para a morte, ambas em grau de equidade para efeito de comparação. Atirar em alguém, passar por cima da cebeça com o pneu da caminhonete, pode ser tão excitante quanto dar de quatro para o negão dotado. A perversão pode estar contida nos sermões cristãos, mas parafraseando um dos personagens, "se for reprimir, o desejo surgirá em outros lugares, piores ainda".

O filme não poupa a vida de seus personagens, e há mortes repentinas, regadas a um enquadramento às vezes lento demais, e sexy demais também. O corpo tomado pela idade clama em participar da suruba e da porra toda, e somos obrigados a ter empatia por uma senhora que queria apenas sentir-se mulher outra vez, ao mesmo tempo em que nos aterrorizamos com as consequências do desejo desenfrado. É estranho, pois tudo é muito excitante e pervertido, sendo fácil sentir um sentimento de culpa por saborear o que há em tela. O cristianismo, mais do que qualquer outra ideologia, talvez saiba que o dispositivo de poder repressivo, como diria Foucault, é mais positivo do que nunca, não no sentido valorativo, mas no sentido de criar mecanismos onde esse poder é interditado, e por isso mesmo mais excitante de usufruí-lo.

O que fica é um filme B muito bem arquitetado, lotado de sangue e orgasmo, que poderia até ser mais explícito na sua nudez, mas é escrachado no que há de melhor: os sentimentos humanos na sua mais perfeita crueza, de como recorremos ao abrigo de nossos corpos ou de nossa insegurança para extravasar nosso lado mais irracional. No fundo, o animal mais racional é o jacaré que mora no lago, que apenas espera sua presa no seu ambiente pacato, silencioso, não recorre a estridências com uma Bíblia na mão, muito menos fetichiza seus impulsos em filmes pornográficos: ele apenas vive a sua natureza. Pensando bem, todos nós somos jacarés, só não somos tão silenciosos assim.

Great freedom e a liberdade aprisionada

Embora a temática da autoaceitação ainda seja um elo importante na consituição do cinema com personagens LGBTQIA+, é notável a aproximação com temas mais universais, o que faz de "Great freedom" um filme mais próximo daqueles que são e daqueles que não são portadores de uma sexualidade dissidente. O longa se passa em 3 períodos próximos do pós-guerra, décadas de 1940, 1950 e 1960, cujo recorte serviu apenas para mostrar a recorrência de Hoffman (Franz Rogowski) em ser preso pelo artigo 175, que considerava crime as relaçoes homoeróticas na Alemanha, e de como ele lida com sua sexualidade reprimida mais pelo sistema do que por ele próprio.

Com um desenvolvimento lento, acompanhamos os amores e desejos do nosso encarcerado, cuja trama não se desenrola sobre a autoaceitação, mas sim sobre o poder das instituições em marcar os nossos corpos (literalmente, pois a Alemanha nazista levou Hoffman aos campos de concentração e ainda lhe pôs uma tatuagem no braço). Ao recortar o filme em 3 períodos distintos, mostra que Hoffman não conteve sua natureza, pois suas detenções, de penas que variaram de 12 a 24 meses, mostravam o poder repressivo do Estado mas era incapaz de conter o indivíduo, o desejo bruto de amar. Em dado momento se fala que participou da guerra, e é estranho pensar que aceitamos mais naturalmente homens se matando em prol de um ideário político disforme, mas há um peso moral muito maior quando homens se amam.

O filme é letárgico em vários momentos, e à exceção do seu companheiro de cela que vive durante os três períodos citados, os demais personagens que entram e saem da vida de Hoffman carregam a beleza da juventude e o prazer carnal, tão típicos da construção da identidade homoerótica. Na prisão, os personagens têm que ser criativos para ter momentos de encontro, como, por exemplo, se deixarem sofrer uma punição, ocasião em que são levados a uma cela especial para passar a noite, e onde foram rodados os momentos mais poéticos do filme: no meio da frieza da repressão, onde menos se espera, há toque e encontro com o outro. Haveria amor?

Hoffman é preso, mas por dentro busca a liberdade de si mesmo. As grades não contem seus desejos, que vão além do prazer puramente carnal. Em uma cena onde Hoffman fura letras numa Bíblia para se comunicar com seu amado de outra cela, vemos não apenas a inventividade pela necessidade de se comunicar, mas a ironia fina do cristianismo sempre presente em ambientes inóspitos, servindo como base irônica para "religar" ao outro: a palavra de Deus serviu para os amantes gays transporem a barreira das grades, religião é religamento.

Em uma cena de doer o coração, que se passa no período da década de 1960, durante o qual Hoffman se encontra com um jovem professor que fazia "banheirão" com ele no mesmo local, e que também fora preso pelo mesmo artigo, o jovem professor confessa a Hoffman que, para se defender de tal crime de perversão, criou uma narrativa onde fora forçado a fazer sexo. Hoffman, então, não pensa duas vezes: na primeira oportunidade, faz uma declaração às autoridades de que forçou o professor a fazer sexo com ele, de modo que, assim, pode dar a liberdade a seu amante ("você não pertence a esse lugar, você é professor", diz Hoffman), confimando a ideia de que alguns corpos transitam com status diferente, cabendo-lhe um julgamento de adequação. Hoffman, afinal, merecia estar ali?

Mas o roteiro acertadamente foca na relação entre Hoffman e Viktor, um homofóbico que aos poucos vai se desconstruindo, o tal preso que dividira a cela com Hoffman durante a primeira prisão e durante a última de Hoffman, ou seja, que não conseguia a liberdade. A carência e a falta de contato com mulheres permitiu que Viktor, aos poucos fosse se abrindo, se permitindo. Foi Viktor quem fez a ponte da Bíblia citada anteriormente (em troca de um boquete, claro). Um machão que se deixou envolver por sentimentos. Ele não se apaixonou, não espere aqui um romance improvável. O filme é inteligente demais para se entregar a soluçãos fáceis. Viktor vai aos poucos se (des)construindo, a edição do filme é lenta e torna tudo muito crível, até o ponto onde ele sofre uma punição por simplesmente ter empatia a dor de Hoffman quando um dos seus amantes se mata, chama os guardas de "bastardos sem coração". Ele se tornou o que mais temia: humanizado.

Viktor se entrega às drogas, e Hoffman tenta ser o suporte emocional necessário para que seu "amigo" de cela não sucumba de vez, pois isso estava atrasando a liberdade de Viktor (em uma de suas audiências, Viktor não conteve o impulso e se injetou, estendendo mais uma vez sua pena). Assim, vemos que o coração de Hoffman, que chora pelo luto, que se deixa ser chamado de estuprador, que se preocupa com a liberdade de um homofóbico desconstruído, é muito maior do que se supunha, um desejo que vai além do sexo. Quando o artigo 175 é abolido, Hoffman hesita, pois estava ajudando Viktor a se controlar com as drogas, ajudando-o na sua liberdade. Hoffman não estava preso, estava exercendo todo o seu potencial enquanto indivíduo de sexualidade dissidente.

Ao ganhar a liberdade e viver numa Alemanha Ocidental pós Woodstock, Hoffman vê que a liberdade não apenas tem um preço, mas ela própria é indecifrável. Ele passeia nos subsolos de uma boate gay típica, entre corpos nus de caras explicitamente se pegando e se masturbando, e nada disso parece fazer sentido. Estava preso a um ideal padronizado de liberdade, que delimita corpos sem precisar recorrer a um código jurídico. É aí que ele tem uma ideia: assalta uma joalheria e aguarda pacientemente retornar à "prisão", no sentido formal do termo, claro, pois poderia, quem sabe, estar livre em voltar para perto de Viktor e concluir a missão de servir-lhe.

Mas o trunfo do filme é que não sabemos o que se passara com Viktor, nem ao menos se foi a melhor escolha de Hoffman. Não sabemos se foi um surto, ou um susto pela realidade excplícita, ou se ele ama Viktor. Não sabemos. E que bom. Reitero que o filme não é um romance. Trata-se de mergulhar a fundo no nosso ideal de liberdade sexual, ver o quanto somos presos a desejos e paixões não resolvidas. Não importa a repressão, o amor surgirá onde menos se espera, pois não se trata somente de garantir direitos fundamentais. É, acima de tudo, um projeto coletivo, cujos corpos oscilam em ser meros fantoches das instituições ou ser joguetes dos nossos desejos mais fundos.

Hoffman desloca-se pela nova Alemanha Ocidental sem um sentimento de pertencimento, um sentimento que brotara numa cela hostil, com um cara hostil. Falta de autoestima? Desejo? Ou amor? É muito difícil controlar desejos e impulsos, mas é mais complicado ainda quando se dá a liberdade de fazê-lo, pois se pararmos para pensar, não há liberdade: somos seres em relações sociais constantes, presos ao nosso contexto histórico, com formas limitadas de viver. De onde brota a infinitudade? Como ser autêntico? Não sabemos ao certo. Uma prisão certamente é um ambiente devastador, mas fora dela será que também não estamos construindo grades? O filme nos faz pensar uma série de questões sobre o limite de nossas asas. Hoffman, assumidamente gay e entregue até demais aos demais corpos masculinos, entre anular-se e viver em plenitude, fica a sensação de que ele somos todos nós, desbravando nossos desejos mais escondidos.

17 de maio de 2022

"Paris, 13º distrito", e a pós-modernidade líquida

7,5/10

Não se assuste caso tenha percebido um roteiro que ainda precisa se encontar, um certo vazio de uma trama circular que dá voltas e voltas sem sair do lugar, pois definitivamente, aqui, esse nada veio bem a calhar.

Com uma fotografia em preto e branco, exceto durantes cenas mais "carnais" em alguns momentos, "Paris, 13º distrito" (Olympiades, 2022), o filme de Jacques Audiard se inicia focando no relacionamento entre a oriental Émile Wong (vivida por Lucie Zhang) e o doutorando afrodescendente Camille (vivido por Makita Samba), com os dois tendo dificuldades em estreitar os laços, se limitando a serem colegas de quarto, regados, claro, a sexo, mas sem sentimentos.

Ao contrário do filme contemporâneo "Volta pra mim", que se utiliza de dois términos de relacionamentos para passar a ideia do desapego, com os personagens que levaram o pé na bunda se juntando para bolar um plano e estragar os relacionamentos dos seus ex namorados, ou seja, armando um circo com 3 casais e ainda firmando uma mensagem conservadora, em "Paris" tudo é mais contido, porque a questão é que os relacionamentos não precisam de amantes para se mostrar frágeis, afinal, vivemos a era pós-moderna, na qual nossas subjetividades passam por cima da solidez afetiva e de quebra ganhamos as inseguranças desse mundo líquido. O indivíduo é a sua própria angústia, nem precisa de terceiros.

Camille tem várias aventuras sexuais, assim como Émile (que chega até a baixar um aplicativo de relacionamento), para espanto do primeiro, pois mesmo que ele também tenha certos relacionamentos casuais, é muito mais racional e equilibrado que ela. Inclusive, ele se permite um ano sabático para trabalhar e focar em concluir um doutorado, algo típico de quem tenta controlar as rédeas, e ela, vagando incerta nos desejos, vai se deitar com vários, sem um aprofundamento sentimental.

No meio do filme surge uma terceira pessoa que acaba se aproximando de Camille, incialmente por questões profissionais, mas obviamente a capa não dura muito. Os sentimentos andam a galope. Trata-se da Nora (Noémie Merlant), uma personagem que acaba sofrendo bullying por ser confundida com uma influencer digital do ramo pornô (uma espécie de câmera privê), sendo que Nora procura a tal influencer nas redes, e acabam virando bem mais que amigas.

Não há respostas, não há certezas. No filme "Volta pra mim", os personagens querem os pares que não possuem, e se juntam para se vingar, até que em dado momento percebem que estão apaixonados um pelo outro e num toque de mágica, deixam de lado os desejos e se entregam um ao outro. Já em "Paris", não há essa chave. Não há conclusões. Nem se fala em casamento. Embora termine com um "eu te amo", a questão que fica é: até quando?

Os personagens vão se descobrindo e se abrindo ao público durante a projeção. Nora e Émille têm evoluções visíveis quanto ao apetite sexual, cada vez mais livres para explorar as possibilidades de seus corpos, e isso é muito positivo num mundo cheio de dispositivos biopolíticos.

Não é o filme perfeito, talvez falte um traço da criatividade de um Woody Allen para tornar as situações mais interessantes, porém, o mero vazio do cotidiano daquelas pessoas, mergulhados na mediocridade, aproxima-os do público de uma forma cativante. Mesmo formando os pares em sua conclusão, ficamos com a sensação de que tudo é muito volátil, como um fogo que arde sem se ver, eterno enquanto durar.

16 de maio de 2022

Hellbender e o vazio do grotesco

4/10

A criatividade tem um pé na genialidade e um pé no pitoresco, para não dizer mau gosto. Embora Hellbender não seja de todo descartável, passa a sensação de ser uma grande colcha de retalhos para provocar estranheza em cenas de gosto duvidoso.

A dupla principal de mãe e filha até ques estão bem em seus respectivos papéis, no sentido de se entregarem com absoluta credibilidade à autação, mas o roteiro poderia ter sido mais bondoso com as duas. O ar de filme B não incomoda nem um pouco, é até um charme. Também não há erotização, aqui o sangue é usado bem mais do que as curvas dos corpos das duas, e isso é positivo. Mas ainda assim o que era para ser aterrorizante ou reflexivo, so ganha contornos bizarros mesmo, e por vezes enfadonhos.

Hellbender acaba por ser um filme sobre o processo de socialização a que todos nós passamos, seja para conhecer a realidade ou mesmo para transpor a socialização primária, aquela do seio familiar, para ganhar as ruas. A dupla assume essa capa de possuir comportamentos estranhos, mas acaba acertando na "Família Adams" e provoca uns risos involuntários. Aliás, ao pesquisar pelo filme, fiquei sabendo que o filme é dirigido por pai, mãe e filha, sendo as duas as protagonistas, e incusive são chamados de "Família Adams". Ao menos a química entre mãe e filha é ótima, realmente transparece na tela, o que mostra um certo talento frente às câmeras.

Trata-se, no geral, de uma adolescente buscando entender-se no mundo, e pelo menos aí o filme traça contornos universais, uma vez que o desabrochar para a vida adulta, apesar das bizarrices, é genuíno. O fato de viverem isoladas cerca as pesonagens de um ar claustrofóbico, mas estranhamente inverossímel.

Talvez o roteiro não tenha percebido o quanto as cenas de intereação com outros personagens eram potentes, e focou mais na relação enter mãe e filha. Tudo bem, passado a estranheza inicial, as maquiagens pesadas, o rock meio gratuito (rock ainda é sinônimo de rebeldia?), as cenas intimistazzzz... bem, restaram um punhado de cenas meio sem sentido ou desinteressantes mesmo, ou que simplesmente mostram o cotidiano delas (veja o quanto somos esquisitas), sem qualquer frio na espinha, mais parecendo um documentário da discovery sobre alguma espécia perdida numa floresta... ao final só resmungamos o quanto o isolamento social da pandemia foi longe demais.

The duke e a força do diálogo

8/10

Roger Mitchell dirige um filme baseado em fatos reais cujo roteiro é aparentemente simples: um simpático taxista, aspirante a dramaturgo, é acusado de roubar um quadro de arte, retrato do Duque de Wellington, de Goya, que estava na Galeria Nacional em Londres, tendo como principal motivação angariar fundos para ajudar aposentados e veteranos de guerra a possuir licença para TV (esta licença só foi regulamentada na Inglaterra nos anos 2000). Evocando ideais classistas e citando Robin Hood em sua empreitada, com ríspidas falas anti-conservadoras, o que tinha tudo para ser um filme baseado em fatos genéricos ganhou ares acima da média, não apenas pelo tom ideológico acertado (não é estridente), mas também pelo humor e pela empatia que temos com Jim Broadbent, quem dá vida ao taxista, Kempton Bunton.

Sem nunca esquecer a sua condição de classe, a típica classe média falida, que vive entre os escombros do pós-guerra e recorrendo às migalhas do estado de bem estar social (que seria colpasado de vez com Tatcher), temos aqui a relação entre a classe trabalhadora e o poder da arte, mas não exatamente como um sujeito produtor, mas entregando-se de vez à lógica da barganha e do poder de troca, sem, contudo, imiscuir-se completamente ao sistema excludente: Bunton, um personagem real, encanta por carregar a inocência e, ao mesmo tempo, proferir as frases prontas da esquerda que deixariam em êxtase qualquer plenária estudantil da UNE, afinal, um absurdo o governo gastar 140 milhões de libras em um quadro.

Mas tudo não passa de uma fina ironia: o quadro pode ser visto como o fetiche de uma população burguesa, que ainda conseguia preservar a aura de Walter Benjamim sob suas molduras, mas o seu roubo tinha como sustentáculo capitanear o ideal de uma população ávida pela cultura de massa, e de quebra proteger o filho e preservar o casamento (quer insituição mais burquesa que o casamento tradicional?). Na década de 1960 os televisores ganhavam popularidade, mas muitos não tinham acesso aos canais devido terem que pagar as respectivas licenças. O direito à alienação, entao, consagra-se como direito humano fundamental.

Bunton carrega em si o patriotismo próprio das nações desenvolvidas, mesmo que guarde suas críticas ao sistema (de deixar um Clint Eastwood orgulhoso). É pai de uma família tradicional, esperando o mesmo de seu filho (em certa passagem com a namorada, o filho salta um "desde quando o senhor se tornou conservador?"), mostrando que, sim, é capaz de sermos críticos e mainstream ao mesmo tempo, o que uns diriam reformistas. Mas talvez esse reducionismo não capte a beleza da graciosidade de conviver com Bunton, sempre sagaz em suas falas empáticas (a cena em que é despedido por contrariar o patrão em favor de um colega de trabalho estrangeiro, mostra como o filme é um discurso de hoje, um tapa na xenofobia latente, pelo direito de todos participarmos da encenação capitalista). Aliás, por ele ser um aspirante a dramaturgo (suas peças nunca foram publicadas), a metáfora da encenação e de como exercemos papéis socias muitas vezes contraditórios é clara, por exemplo, no tribunal, o juiz, os promotores e a defesa precisam, de fato, roteirizar suas atuações e as falas.

No fundo, "The duke" é um filme sobre o poder do diálogo e da vida encenada, capaz de criar empatia e romper a fronteira do óbvio. Não é que o crime compense, mas sim que somos demasiadamente humanos para sermos separados entre inocentes e culpados, simplesmente, como se presos a um eterno binarismo vulgar. Logo, o sistema não está posto, e sim em movimento. É impossível escapar dele, ao mesmo tempo em que é limitante simplesmente se entregar a ele.

Mesmo que o filme peque por um início apressado, é possível se envolver com o personagem lá pelas tantas, e a partir daí torcer por ele, mesmo que muitos já saibam o final, mas não importa. Aqui, todo o processo desencadeado, as conversas, o poder de convencimento, os diálogos caprichados no tribunal, são tão feel good que fica impossível não arrancar um ligeiro sorriso. Não sei até que ponto me deixei manipular pela trama, se foi realmente assim que aconteceu (o tribunal, à certa altura, mais parecia um stand-up), mas basta proclamar o direito à alienação para ficar tudo certo.

Happening e o retrato da sociedade machista

8,5/10

Quando comecei a assstir a esse filme francês, não fazia ideia do que se tratava o roteiro, só sabia que figurava no topo da lista do Rotten Tomatoes. E o filme faz jus ao reconhecimento.

Baseado em um pequeno livro homônimo, conta a história real de um fragmento na vida de Anne na década de 1960, uma jovem estudante de Letras que engravida e decide realizar um aborto para que não atrapalhe seus planos profissionais.

Assim como em "Nunca, raramente, as vezes, Sempre", o filme não mostra a origem da gravidez, num acertado recorte de realidade. Alías, nada do que tenha acontecido deve justificar ou se sobrepôr à decisão da mulher (ou não deveria). Obviamente o filme parte de um lugar já pré-construído, portanto, trata-se de uma escolha política, mas francamente, o corpo das mulheres sempre foi objeto político, isso quando não era um objeto mais vulgar lapidado por nossas instituições misóginas. Então caberia ao roteiro cosntruir toda a argumentação para sustentar a escolha de Anne. Neste sentido, Audrey Diwan, a diretora do longa, consegue extrair o máximo de Anamaria Vartolomei, a jovem que protagoniza Anne, numa entrega aboslutamente arrebatadora. Arrisco a dizer, até aqui uma das melhores atuações femininas da década de 2020.

O enquadramento sempre muito próximo às vezes incomoda, mas é daqueles incômodos necessários para mergulharmos nas expressões e na dor de uma jovem que se vê desamparada do mundo. Se considerarmos a ambientação, o filme pode até ser uma reconstituição de mais de 50 anos, mas é impressionante como todo o tabu e hiprocrisia se mantém vivo até os dias atuais, sem contar que em muitos lugares, a situação chega a ser pior. Estamos falando da França, um lugar onde os médicos não tinham respaldo legal para realizar os procedimentos a que Anne recorre, mas não se chocavam a ponto de a denunciarem. Há, por óbvio, todo um moralismo em volta da família e dos profissionais de saúde que cercam Anne, mas fico imaginando qual teria sido seu destino se ela vivesse em um país subdesenvolvido, por exemplo. Vê-la tendo que se sujeitar à clandestinidade no berço da civilização chega a ser chocante, e mais chocante ainda é ver que, certamente, muitos ainda a culpariam pelo ato.

A legalização do aborto é questão de saúde pública, isso parece tão óbvio que chega a ser cruel que, em pleno século XXI, essa obviedade encontre barreiras ancoradas em um discurso que não se sustenta meio centímetro quando confrontado à realidade. Anne, estudada e inteligente, branca, de uma família boa, teve que recorrer à clandestinidade para poder decidir sobre si mesma. Uma dor que é subjetiva e social, individual e política, privada e pública: o machismo é quem decide quem são os detentores de direitos inalienáveis.

Apesar dos claros privilégios de Anne, o filme é universal, à medida que sua dor se estende em maior ou menor grau a todas as outras mulheres que vivem sempre à sombra do primeiro sexo. A conclusão a que chego é que nem precisava justificar a escolha de Anne pela opção à vida profissional, pois essa necessidade de explicação só pode ser compreendida num mundo em que as justificativas devem sempre ter o selo de aprovação externa quando o sujeito que a declara possui uma vagina. Até quando?

Playground: um estudo sobre bullying

8,5/10

Um pequeno filme belga chamou atenção em Cannes na premiação de 2021, ganhando o Prêmio FIPRESCI na seção Un Certain Regard. Trata-se de "Playground", um trabalho realmente muito bem feito e dirigido pelas mãos de Laura Wandel.

O longa é intimista e acompanha as crianças numa mise-en-scene que se restringe ao ambiente escolar, inclusive com a câmera focando nas crianças bem mais que nos adultos. Lembra, por exemplo, os quadrinhos do Calvin, os adultos sempre em terceiro plano.

É interessante o trabalho de direção das crianças, extremamente competentes em passar a emoção e a carga dramática necessária para viver toda a situação: o filme foca na irmã mais nova e sua transição entre a solidão provocada pela sensação de não pertencimento e o conflito quando tenta se juntar ao irmão mais velho, que a ignora, pois ele próprio tem seu círculo de amizades.

Mas a resposta não é tão simples: em meio à violência como símbolo de pertencimento (ou não) a determinado grupo, não sabemos se a rejeição do irmão era para protegê-la ou se atuava como código de fronteiras entre os grupos. O fato é que o próprio irmão é vítima e algoz das situaçãoes de bullyng, e quando a irmã percebe essa dualidade, ela própria começa a questionar a situação, até o momento em que o jogo" vira, e é ela quem o rejeita.

Na verdade, as crianças buscam uma identidade em construção e o filme não é conclusivo, pois o desfecho não é nada palatável: ainda estão em processo de (des)construção, sendo a violência a motriz condutora dos subgrupos aos quais pertencem. As relações de poder entre as crianças estão tão desnudas, que parecem óbvias quando pensamos como não nos damos conta de que qualquer forma de sociabilidade constrói muros e pontes, constrói laços horizontais ou verticais, e de como tudo é tão demasiadamente humano.

Há de se destacar, mais uma vez, o fato de que toda a encenação não ultrapassa os muros da escola, além da clara sensação claustrofóbica, fica a mensagem que, de fato, a personalidade dos irmãos devem tudo àquele espaço, que é de conhecimento, crescimento, mas também de muita dor. E a direção dos meninos está num nível absurdo de realismo, aliás tudo ali é muito crível, mesmo os atores secundários cumprem bem o papel.

É interessante perceber como o cinema vem "infantilizando" as situações, mas somente no sentido da idade mesmo: cada vez mais o ambiente escolar vem discutindo temas pesados e urgentes. Na década de 1990, tínhamos saído do cenário onde adultos interpretam adolescentes para que os próprios adolescentes interpretem a si mesmos, e assistimos no século XXI as crianças atuarem. E o roteiro não economiza: a cena final, onde estão expostos à violência, sem exatamente um porquê, ou melhor, como fio condutor e constante das identidades, é mais do que angustiante, é um retrato de que precisamos de mais cinema como esse, que mergulhem na mente dos jovens para compreendermos a origem de tanto deslocamento.

Sem respostas, somos obrigados somente a aplaudir a obra, pois mesmo tentando se desvencilhar dos apriorismos morais, o abraço angustiado dos irmãos é o abraço de todos nós em nossas crianças, tão perdidas quanto qualquer um que esteja respirando num mundo pós-pandêmico, dotado de incertezas, de perguntas, de potência e de fragilidades.

28 de fevereiro de 2022

A sombra de Stálin - A herança cultural das Fake News e a importância da verdade

Seria a verdade algo único e livre de interpretações? Possivelmente não. Mas até que ponto é possível esconder um fato completamente tangível em prol de um ideal ou de uma justificativa muito maior do que o próprio fato? Aliás, até que ponto o fato pode ser relativizado?

"A sombra de Stálin", filme da polonesa Agnieszka Holland, conta a história de um jornalista que viveu alguns dias o Holodomor, a fome na Ucrânia provocada pela exploração russa naquele território, tendo inspirado o escritor George Orwell e divulgado ao Ocidente os horrores do socialismo.

Certamente o mundo ainda não se livrará tão fácil de governos tiranos e opressores. E aqui, sabemos que a exploração pode ter diversas vertentes ideológicas, infelizmente. Aliás, mais do que o socialismo, o próprio capitalismo experiencia uma naturalização das barbaridades e das narrativas sanguinárias, e se formos parar para pensar, o capitalismo matou mais do que qualquer regime que se diga socialista (em doses homeopáticas, claro).

É estranho viver na Era da Informação e ter as "Fake News" como problema de Estado, capaz de derrubar e sustentar governos, dos mais tiranos aos mais inocentes. Mas cabe a pergunte: é possível pensar em governos inocentes no mundo de hoje? Difícil. Mas exemplos de governos tenebrosos não faltam. O Fato é que o filme "A sombra de Stálin" se debruça naquele que pode ser considerado um dos governos mais tiranos e antidemocráticos que já existiu... no século XX (e talvez perca para o nazismo, para os regimes militares sulamericanos, para Cuba...). É absolutamente assustador perceber que as práticas russas em 1933 não apenas permanecem mais vivas do que nunca, mas foram potencializadas por algoritmos, bolhas e todo um movimento de pós-verdade, que pode confundir-se muito com a "não-verdade" ou com o poder das narrativas (simulacro?) provocado pela sociedade em redes. Até que ponto nos desvencilhamos da verdade?

O Kremlim, em Moscou, nada mais é do que uma "bolha real" capaz de apreender jornalistas, políticos opositores, artistas, intelectuais, submetendo-os a uma narrativa de redenção difícil de digerir. O jornalista galês Gareth Jones, que atuava no governo londrino do primeiro ministro Lioyd George, e já tendo entrevistado Hitler (e percebido nele uma faceta nascente do novo autoritarismo europeu, sutentado pela mídia e pela burocracia), decide por entrevistar Stálin, em especial vai em busca da pergunta de milhões: de onde vem o dinheiro que está erguendo a nação russa? Qual a base econômica do regime soviético?

Naturalmente, há todo um clima de cinema investigativo, para ficar claro ao telespectador que as respostas não parecem simples, ainda que o porta-voz da Rússia, Walter Duranty, ganhador de um pulitzer, tenha deixado claro que tudo se trata de uma rica produção de grãos. Jones, não satisfeito, e já instalado em Moscou, começa a querer investigar melhor as bases do regime, principalmente após seu amigo jornalista, Paul Scheffer, ser assassinado a balas (qualquer semelhança com a jornalista anti-Putin russa Anna Politkóvskaia, assassinada em 2006 na Rússia, não é mera coincidência).

O título em inglês, Mr. Jones, centraliza a história no protagonista, no entanto, é notório perceber como a narrativa se interlaça à obra seminal de George Orwell, "A revolução dos bichos". As cenas do filme são enriquecidas com citações e imagens idílicas sobre o que acontece na fazenda ficcional mais pertubadora do mundo, contribuindo para qualificar a narrativa. Como há um clima de desconfiança muito bem construído, o suspense se instaura sem grande dificuldades, méritos totais da direção de arte e da produção, realmente impecáveis, capazes de nos transportar para a Rússia de 1933 sem grandes dificuldades.

Contando com a ajuda da também jornalista Ada Brooks, uma desconfiada e iludida socialista pró-Stalin (que, aos poucos, vai compreendendo o que é verdadeiramente o regime), Jones consegue ligar o "ouro de Stálin" à Ucrânia, e decide ir até o país para investigar. Aliás, são nos diálogos entre Jones e Ada que acontecem as mais inspiradas tiradas, como quando discutem se há somente uma verdade, ou se alguns fatos justificam-se em função de um ideal mais nobre.

Jones sabe muito bem que se trata de vidas. Como falar em narrativas quando se está diante dos horrores provocados pela fome, chamado historicamente de "Holodomor"? O governo já era bastante criticado pelos acontecimentos na Xexênia, mas absolutamente nada se comparava ao que Jones estava prestes a ver e vivenciar: ao escapar do trem que o levava em "linhas oficias" à Ucrânia, ele chega às comunidades populares, depara-se com a exploração do povo trabalhador, com a fome e o frio extensos, em passagens sufocantes e até mesmo vertiginosas, filmadas sempre com um tom escuro, mesmo na neve. É o socialismo em sua faceta mais cruel (ou seria no seu apogeu?).

De todo o modo, o que Jones estaria a relatar mudaria para sempre as perspectivas do Ocidente ao regime socialista. A fome, tal qual no regime capitalista, era programada e escandalosamente posta em silêncio na versão oficial do governo. Evidentemente ele não conseguiu sua tão sonhada entrevista com Stálin, no entanto, saiu da Rússia com um material mais devastador. Claro que o jornalista foi pego e só não foi morto prontamente devido ter sido chantageado para que mentisse sobre a realidade russa (em troca, havia 6 engenheiros britânicos feitos reféns que seriam libertos caso Jones compactuasse com a versão oficial do governo soviético). No entanto, poucos anos depois Jone fora morto na Mongólia, um dia antes de completar 30 anos.

O relato de Jones foi desmoralizado publicamente, e ainda, o governo russo libertou os britânicos, tudo em troca de se criar uma boa imagem externa. Além disso, as relações com os EUA provocam o telespectador no sentido de descaracterizar os fundamentos da ideologia e do velho maniqueísmo que surgiria na Guerra Fria, em prol de um comércio internacional que está além das bandeiras partidárias: o lucro, não importa se provém de meios de produção coletivos ou não, é sempre privatizado. O The New York Times desmente Jones publicamente, pondo as relações econômicas com a Rússia acima de qualquer tratado internacional de direitos humanos. Aliás, a cena em que Jones se encontra com Orwell em um restaurante londrino, comendo carne de porco (que remete à fazenda da literatura), cuja carne foi posta na mesa por "proletariados livres" (na cena em que chegam ao restaurante, a câmera faz questão de passear ao lado de fora do restaurante, captando os trabalhadores descarregando a comida que serviriam aos burgueses ou à classe média privilegiada), apenas mostra a semelhança entre os sistemas de exploração: há quem serve e há quem é servido. "Mudam-se as estações, mas nada mudou".

Ainda assim, Jones conseguiu publicar seus resultados em diversos outros veículos, entre os quais o The Guardian. Para nós, em uma época marcada por Fake News e uma mídia que pode sim envolver-se em interesses espúrios, levar a sério um jornalismo investigativo deste quilate se faz extremamente necessário. Não à toa, governos dos mais variados expectros políticos descredibilizam a mídia como um todo, e ainda adotam medidas de sigilo de suas ações. Mais uma vez, usam a justificativa de que seria tudo por uma causa maior: seja para conter o avanço socialista ou ainda para promovê-lo. Mas o fato é que tanto o capitalismo quanto o socialismo real fazem enriquecer uns poucos mediante o trabalho de muitos. Até quando?

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