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25 de junho de 2013

FILME: Milk - A voz da Igualdade (crítica)



NOTA: 9/10

Polêmico sem ser apelativo, realista sem ser melodramático. O bom trabalho realizado pelo experiente diretor Gus Van Sant ganha toques jornalísticos em dose certa nas mãos do roteirista Dustin Lance Black, nesta que pode ser considerada a melhor biografia cinematográfica do século XXI até então.

“Milk- A voz da Igualdade”, estrelado brilhantemente por Sean Penn, no papel baseado em fatos reais do primeiro político norte-americano assumidamente gay, Harvey Milk, que chega a ocupar um cargo público importante nos EUA, parece, às primeiras cenas, tratar-se mais de um enaltecimento ao personagem principal, correndo o riso de torná-lo um “herói” ou superestimar suas qualidades pessoais. De fato, a história se desenrola ao estilo personagem narrador, entretanto, mas do que focalizar a subjetividade do protagonista, o filme nos brinda com uma excelente pesquisa histórica, imagens e eventos passados que se incorporam à narrativa sem deixá-la remendada. O filme, em nenhum momento, pareceu regredir no tempo, não se trata de um documentário. Essa linearidade conseguida pelo roteirista, bem como a realidade política do movimento gay lançada em imagens, é algo primoroso.




Alguns clichês não poderiam deixar de aparecer, como o conflito entre o pessoal e o profissional enfrentado pelo personagem principal, entretanto, a ótica que impera nesta produção se volta para o cenário político norte-americano à época das efervescências dos movimentos minoritários, no começo da década de 70, retratando principalmente o confronto político-ideológico que o movimento gay travou com setores conservadores da sociedade (em especial os religiosos). Com o roteiro bem estruturado e com o tom político adequado, o que vemos não é um desfile de personagens caricatos, nem de pieguices romanescas que, inevitavelmente, envolvem os personagens principais, muito embora tenhamos sempre claro as intenções e alma dos personagens, especialmente pela brilhante atuação de Sean Penn. Com isso, a torcida do espectador se faz principalmente contra o ato de revogação que a ala política conservadora pretende deferir sobre os direitos civis de homossexuais, além de retratar com competência o processo de construção democrática do sistema político americano.


Como o próprio Harvey Milk aponta em uma das suas falas, diante de uma situação emotiva que disputava espaço com seus afazeres políticos, “não havia tempo para chorar”. É nesse meio fio que poderíamos presenciar o trem descarrilar para os caminhos melodramáticos, mas a produção está de parabéns pela realização deste filme, não sobre um gay em particular, mas sobre o movimento gay em geral. Destaque também para os atores coadjuvantes, particularmente os desequilibrados Dan White (interpretado por Josh Brolin) e Jack Lira (interpretado por Diego Luna). Vale destacar que estes dois, embora não tenham realizado uma atuação brilhante, pricipalmente devido à complexidade dos seus personagens, conseguiram não passar uma imagem estereotipada (mesmo que, às vezes, tenham fugido um pouco do tom). Outro que se saiu muito bem e extremamente equilibrado foi o ator James Franco, interpretando o namorado de Harvey, o Scott.

O filme pode até parecer panfletário, mas mesmo essa acusação é vazia se levarmos em conta as verdadeiras aspirações políticas de Harvey Milk.

Enfim, o filme como um todo é um excelente retrato dos momentos áureos dos movimentos de contestação do século passado, e certamente merece ser visto!

Publicado no site CINEPLAYERS em 20/07/2009: http://www.cineplayers.com/comentario.php?id=18366

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