- Seu gayzista!
- Não vamos nos acovardar, querem criar a ditadura gay no Brasil? Nunca!
- É livre o pensamento de expressão, a liberdade, e por isso posso clamar por uma sociedade limpa e moral! Fora a ditadura gay!
- Os direitos são humanos e não direitos homossexuais. Não são de um grupo específico que querem gritar mais alto do que a maioria!
“Belas palavras”, “inteligentes”, isso sem contar as de cunho religioso, que prefiro não comentar. O neologismo “gayzismo” e suas variantes se alastram feito praga, a uma velocidade absurdamente fascinante. Será mesmo? Tudo isso porque o pensamento político não conseguiu, ainda, se dissociar do pensamento totalitário.
Antes de tudo, é preciso compreender o sentido cultural do termo, o que se entende por “ditadura gay”. Apesar de ser um termo demasiado complexo, basta assinalar, aqui, a aproximação, em termos de mentalidade, com o que seria um pensamento totalitário. Totalitarismo é aquela ideia de pensamento total, de um Estado que tudo abrange, e surgiu no começo do século XX para designar os novos arranjos políticos do Estado, que não mais estariam preocupados apenas com direitos civis. Mussolini, entre outras coisas, era um grande teórico do Estado.
Quando Hitler escreveu Mein Kampf, sabe-se que fora baseado especialmente em outra influente obra, Os protocolos dos sábios de Sião. Todo o discurso antissemita se baseia numa ideia que por muitos é considerada inventada: o fato de que os judeus queriam assumir o poder político e religioso da Europa, de que queriam um governo totalitário, abrangente e judaico. Ocorre que, sendo verdade ou não, estamos impregnados de tal cultura, e isso não envolve o terror, o medo e a perseguição. Envolve o pensamento globalizante, o nunca estar parcialmente certo ou errado, nem em cima do muro: você é um rótulo, um estigma, para ser mais preciso. A ideia completamente ultrapassada de que “princípios” se grifa no singular. Ou pelo menos, de que um indivíduo deve ser coerente com seu princípio (!).
O pensamento político começa assim: da esquerda para a direita. Sabemos que o mundo não é dividido binariamente de forma minuciosa, mas para início de conversa, é daí que devemos partir, e depois podemos refinar o duelo. Aliás, é o duelo de titãs que impera: anjos e demônios, confrontando-se. O eterno duelo entre o Bem e o Mal (em pensar que filósofos do século XIX já nos alertavam para irmos além desse confronto, mas ainda não conseguimos ultrapassar esse pensamento medieval).
Quando alguém defende o casamento gay, portanto, dada a cultura totalitária, o que vem às mentes desavisadas é a ideia de extensão, de tentáculos agarrando a tudo e todos, e a ideia de que tal pensamento se confronta com o direito consagrado (quase canônico) de heterossexuais. “Querem acabar com a família (sic)!”, “querem construir uma ditadura gay”, “querem corromper nossas crianças”, como se os gays, lésbicas e pessoas trans quisessem a exclusividade da fala, como se fossem os únicos no espetáculo da vida. Esse ranço equivocado não consegue dissociar a defesa de um ponto de vista da sua imagem totalitária, tomados estão por tal cultura milenar.
E isso acontece em muitas esferas da vida. Por exemplo, quanto a professar uma religião: parece muito impossível, ou deslocado, professar mais de uma. No sincretismo, tendemos a eleger uma oficial. Também não nos é permitido, com indiferença, torcer para mais de um time de futebol em uma mesma localidade (por exemplo, para o Flamengo e o Vasco, ao mesmo tempo), nem pertencermos a duas nações. Sexo, gênero, orientação sexual, só um. E que relações mais recônditas poderíamos supor entre tal pensamento e a necessidade da monogamia? Sempre se vislumbra o pensamento Uno, Indivisível, Exclusivo. Deus é a representação máxima do totalitarismo, tudo vê, tudo percebe, senhor de tudo, dono de tudo.
Mas centremos na questão gay. É muito difícil, para milhares de pessoas, dissociar o discurso a favor dos direitos homossexuais de um pensamento totalitário, como se estes fossem naturalmente acoplados. Acham que levantar a bandeira do arco-íris é defender que todos querem ser gay, lésbica, travesti, transexual, não-héteros. Pensam que defender direitos de minoria é suplantar outro grupo, chamado de maioria. Pensam que a voz dos que há muitos foram jogados ao limbo, significa calar os que desde sempre tiveram o direito da fala.
É por isso que, hoje, é urgente defender a PLURALIDADE e a DIVERSIDADE, em suas mais diversas correntes, não apenas quanto à sexualidade. Temos um ranço totalitário muito forte, e o machismo e o heterossexismo apenas são partes de tal cultura. Se há alguma ditadura, esta é pulverizada em mais diversas áreas, e certamente o discurso qualificado LGBT está longe de ser visto enquanto tal, já que não se pretende universal, único, exclusivo. O grande desafio é criar mecanismo que, ao mesmo tempo em que estimulem a diversidade, não sejam permissivos. O Estado Laico é um deles, já que não se trata de destruir determinada fé, mas impedir que grupos hegemônicos se tornem porta-vozes em um espaço público de poder.
Totalitarismo tem muita relação com a taxonomia, com o biopoder, com a regulação. Assim como não há discurso gay, não há discurso evangélico ou religioso puro, neutro, uno. A pluralidade como princípio é muito difícil, pois nossas mentes sempre procuram a origem da origem, o axioma, a Gênese mais singular. E enquanto houver essa busca, é bem capaz de que “gayzistas”, “machistas” e “heterossexistas” continuem como um forte ranço, forjado ou não, de nossa mentalidade mesquinha.
Nenhum comentário:
Postar um comentário