Pesquisar este blog

22 de junho de 2013

Crônica #04 - Uma questão normativa

Duas vizinhas conversavam à porta da casa de uma delas.
Adversativa: Eu amo meu filho, mas ele é gay.
Concessiva: Eu sempre desconfiei, apesar de nunca ter certeza.
Adversativa: Éramos muitos felizes, entretanto, gostaria que tudo fosse mais fácil.
Concessiva: O mundo é um lugar feliz, ainda que muito perigoso para quem é diferente da maioria!
Adversativa: Eu tento ser forte, porém, é mais complicado do que imaginei.
Concessiva: Eu entendo, se bem que estaria pirando se fosse comigo.
Adversativa: Eu também pirei no início, mas meu marido teve reação pior.
Concessiva: Sério? Eu realmente sabia que ele estava internado em um hospital, conquanto não tive tempo de visitá-lo.
Adversativa: Ele não suportou ver o nosso filho com o namorado: teve um infarto, contudo, espero que ele melhore.

Meses depois, a filha lésbica da concessiva se revela à mãe.
- Mamãe, eu gosto de outras meninas!
A mão toma um choque, não acredita.
Concessiva: Embora eu sempre tenha dito que te ame, não sei como reagir.
- Mãe, desculpa se não estou nos padrões, estou apenas sendo sincera com você, não quero perder sua amizade!
Concessiva: É difícil pra mim, minha filha, por mais que eu tente aceitar.
A mãe fica triste, procura a ajuda de um pastor para entender a situação.
Pastor alternativo: Ou a senhora aceita a vida da sua filha ou aceita a Palavra de Deus.
Concessiva: Não entendo, o senhor está dizendo para deixar de amá-la, ainda que seja difícil para mim menosprezá-la?
Pastor alternativo: Temos que ter fé na cura dela em Cristo, ou seu amor poderá salvá-la ou ela continuará nas trevas.
O marido da concessiva também não aceitava os fatos muito bem.
Senhor Comparativo: Isso é pior do que ter uma filha delinquente!
A tia Causal (irmã do senhor comparativo): Não vou mais passear, porque andam falando muito mal da nossa família.
E chovia comentários nas ruas daquela pequena vizinhança:
Condicional: Se não tivessem me contado, juro que não acreditaria.
Conformativa: Segundo dizem, ela até já se deitou com outra mulher! Sapatona!
Temporal: Quando Deus vier à Terra, a justiça será feita contra os pederastas.
Proporcional: À medida que envelheço, esse mundo fica mais perdido!

E o filho gay e a filha lésbica não aguentavam mais a pressão dos vizinhos, e decidiram fugir, juntos, à outra cidade:
- Não suportava mais, e ainda me sinto culpado pelo meu pai, que está no hospital. – disse o rapaz.
- Com meu pai também foi terrível, ele deixou de falar comigo e me azucrinava. – disse a jovem lésbica, com ar de ternura e compaixão.
- Eu sinceramente não entendo de onde vem tanto ódio.
- Eu também não, afinal, nós não pedimos pra nascer assim!
- E por um caso eles pediram para nascer héteros?
- É verdade! – exclamou a moça.
E conversaram a tarde toda, querendo compreender o motivo pelo qual provocavam a ira de tantos.
- Ainda bem que somos livres de normas. – suspirou o garoto.
- É mesmo – disse a jovem – ainda que, algum dia, eu pretenda voltar para rever minha família. Mas até lá espero que eles já tenham processado a ideia, para encontrá-los com outra cabeça.
- E o que faremos até esse dia? – perguntou o jovem.
- Eu não sei. – respondeu a moça firmemente. – Mas viver enquadrada em normas é que eu não vou!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Pleasure: o hedonismo e o estoicismo degladiando-se

Dirigido por uma diretora feminista, a sueca Ninja Thyberg, podemos afirmar que "Plesure" fica no limiar entre o filme denúncia e ...