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25 de junho de 2013

FILME: Como Esquecer


"Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem, não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado". (Karl Marx, na obra "Os 18 Brumários").

A frase acima, embora escrita sob uma perspectiva dos grandes acontecimentos históricos, referidos às revoluções da Idade Moderna, também pode ser muito bem empregada para nossas micro-relações, isto se tivermos o faro aguçado para percebermos esses sincronismos. Foi o que o competente roteiro (assinado a 12 mãos!) do filme "Como esquecer" me fez pensar, a ponto de fazer com que sua história, monótona na medida certa, nunca se passe por uma experiência esquecível, ao contrário do que poderia induzir seu título.


É um filme onde três amigos, atormentados pelo seus relacionamentos anteriores, terão de confortar-se entre si para poder superar suas angústias, mas o que poderia ser o ponto de apoio desta relação? Seria fácil fazer da amizade uma válvula de escape simplista, mas o filme é muito competente ao tratar sobre relacionamentos, sejam os velhos ou os novos, sejam entre os que se romperam, ou os que se formaram ou os que permaneceram no decorrer do filme, sejam as sombras das reminiscências que insistem em assombrar o presente ou mesmo algumas escolhas que fazemos no dia-a-dia, enfim, seja qualquer relacionamento entre seres humanos, tudo isso é mostrado sem jamais nos depararmos com clichês. Ao mesmo tempo em que os amigos se ajudam e se confortam, sentimos a toda hora o atrito destas relações, a forma humana como são conduzidas, as pertubações e invasões de privacidade, algumas brigas e desentendimentos, pessoas novas que entram e saem na vida deles e que provocam um mínimo de pertubação, nem que seja a mais singela das experiências, enfim, idas e vindas da vida mostradas de forma bela e real.




A estreante diretora Malu Di Martino entrega um bom trabalho, ainda que abuse da câmera fechada e do metodismo nas disposições dos corpos pela tela (ao meu ver, típicos da televisão). No entanto, o drama de Júlia (Ana Paula Arósio), Hugo (Murilo Rosa) e Lisa (Natália Lage) são passados com naturalidade e segurança, transmitem a emoção na medida exata, méritos de dois fatores principais: do roteiro incrível, que narra uma história extremamente simples de pessoas comuns e verossímeis; e da brilhante Ana Paula Arósio, que conseguiu o olhar mais triste e verdadeiro que eu tive o prazer de assitir em tela nos últimos tempos. Não há como negar seu talento, seu tom nas falas, sua verdade coberta de tristeza. Esqueça Hilda Furacão, seu trabalho mais conhecido. Júlia é uma professora universitária, complexa, profunda, e a Arósio convence, rouba a cena, chama para si o protagonismo, deixa saudades...

Aliás, isso acaba prejudicando um pouco o filme, pois "Como esquecer" relata justamente os passados dos relacionamentos vividos pelo trio de personagens, mas somente a Arósio consegue garantir e acertar o tom com o seu personagem. Murilo Rosa, vivendo um personagem gay, apenas diverte em alguns momentos, sendo somente um "razoável coadjuvante". É seu personagem que, do começo ao término do filme, ampara emocionalmente a Júlia, mas esta, mesmo quando demonstra fraqueza, foi tão bem encarnada, que a atuação firme de Arósio "engole" quem deveria ser seu ombro amigo. Tanto é verdade que, quando se exige de Murilo uma atuação mais dramática, numa repentina cena em que seu personagem se confronta com uma dessas memórias atordoantes, percebemos o quão limitado é o ator; para alguns mais exigentes, soa constrangedor.

O mesmo se fala de Natálie Lage, embora um pouco mais segura do que Murilo, mas sua personagem jamais é atuada com toda a carga necessária, embora o roteiro tenha se esforçado (um pouco) para torná-la interessante: quando ela resolve sair da casa onde os três passaram a morar, por exemplo, nos preocupamos mais com a reação da Júlia do que propriamente com a Lisa.

Resolvi não comentar antes, mas agora cabe a ressalva: Júlia é uma professora universitária e lésbica. Deixei somente para agora este comentário, pois o filme trata a questão de uma forma tão natural, que não lembro de ter visto um filme de temática homoerótica tão universal. Qualquer pessoa, de qualquer orientação sexual e de gênero se identifica com a trama. Mesmo nos momentos em que vemos as cenas de sexo entre mulheres, a mensagem a ser transmitida é muito mais profunda do que qualquer demarcação identitária. Aliás, é um filme que fala de sexualidade sem caminhar pelo terreno do preconceito, tal qual a proposta de outro grande filme nacional, "Do começo ao fim", que trata do relacionamento homoafetivo entre dois irmãos. No entanto, este "Como esquecer" tem como proposta apresentar um drama bem próximo da realidade, e mesmo sem abordar diretamente o preconceito, consegue atingir seu objetivo, o que é realmente maravilhoso.

Lésbicas e gays podem se orgulhar. O cinema nacional pode sim criar personagens que estão em paz com sua orientação sexual, que convivem muito bem com ela, porém, são muito mais do que isso. Apesar de algumas cenas desnecessárias e do elenco não manter-se nivelado, "Como esquecer" é uma obra contundente, onde a homossexualidade é vista para além da aparência e é competentemente naturalizada, o que a torna simplesmente espetacular. 

Publicado em 05/05/2011 no site CINEPLAYERS: http://www.cineplayers.com/comentario.php?id=29657

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