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22 de junho de 2013

Crônica #05 - Apenas cinco centavos

“Poderia ser mais do que cinco centavos”, pensei eu.

Gente, pára tudo. Não sei se começo descrevendo a situação caótica do transporte coletivo de Belém ou se dou maior atenção aos olhos verdes do cobrador-moreno-gostoso-sexy-tudo-de-bom do Ufpa-Pedreira. Sinceramente, os quase trinta minutos de espera na parada de ônibus valeram à pena.

Quando aquele ônibus parou, e uma pilha de gente teve que disputar a entrada do ônibus para assomar-se a mais uma pilha de gente lá dentro, senti que não deveria esperar mais nada exceto o mau humor do motorista e o mal-estar draconiano que impera no interior dos ônibus da capital. Mas basta eu me aproximar da catraca, de posse da minha carteira de meia-passagem (a qual, nesse instante, quase vai ao chão), que percebo que o dia nem está tão ruim assim.

Dois faróis num corpo monumental, gelzinho nos cabelos morenos, um brinquinho rubi na orelha esquerda e, em pleno verão, a camisa da empresa semi-aberta, revelando um peito liso, malhado e levemente suado; com certeza ele não devia ter mais de 30 anos.

“Boa tarde, tudo bem?”

Estou apenas sendo cordial.

“Boa tarde”, me respondeu, com um sorriso.

Espero que não seja somente por educação, penso eu.

“Você tem dez centavos?”, ele me pergunta.

Putz, sinto um aperto. Sei que não tenho!

“Claro, só um momento”

Quantos minutos posso fazê-lo esperar? Ah, eu esperei uma vida por esse ônibus, mereço ganhar um pouco mais de tempo na presença desse semideus.

Reviro minha carteira à toa. Jamais pensei que pudesse fingir tão bem procurar uma simples moeda. Canso de encenar.

“Poxa, não tenho”

“Tudo bem”

Soa um apito; a catraca já está liberada, já posso passar. Nem percebi!

Ao passar, recebo o troco. Faltam cinco centavos.

Apenas o olho.

“Espera um pouco que ainda não tenho troco”.

Bom, foi ele quem me mandou esperá-lo.

Nossa, que sorte, tudo está dando certo! Sei que vou chegar atrasado na aula da professora mais caxias da faculdade, atraso que valeu um belo cobrador sem o troco certo. E eu ali, ajudando a enriquecer em cinco centavos os ávidos empresários do transporte público de Belém, rezando para que ninguém subisse no ônibus com uma moeda de cinco centavos.

Mas será que esses míseros cinco centavos pagam o momentâneo contato com um belo par de olhos verdes?

“Troco difícil, né?”, puxo uma conversa, e ele não parecia de mau humor.

De repente, sou eu quem sorri. “Poderia ser mais do que cinco centavos”, pensei eu. E eu ali, me deleitando com uma simples presença masculina, à espera de um troco, um corpo, ou sei lá o quê.

“O que foi?”, ele me pergunta.

Droga, eu estava rindo sozinho, que idiotice. Mas ele parecia estar sendo muito mais do que gentil ao parecer se importar.

“São só cinco centavos...”, respondi. “O que você compra com cinco centavos?”

Ele pareceu interessado em me ver resmungar, mas logo se virou para a câmera no canto do ônibus. Pareceu preocupado.

Entendia como as coisas funcionavam. Vigilância para os cofres da empresa, controle sobre os trabalhadores, câmera estrategicamente no cobrador, o operador do caixa.

“Essa câmera consegue registrar esse troco errado?”, perguntei.

“Não é com isso que estou preocupado”, respondeu.

Senti seus olhos verdes me invadirem completamente, e de repente meu cérebro se acendeu de vez.

“Você malhava lá na Corpo e Vida, não é?”, perguntei.

Isso! Sabia que o conhecia! Ele respondeu positivamente. Pronto, sem mais superegos e entraves. A viagem transcorreu numa conversa amistosa.

Quando desci do ônibus, já carregava comigo seu número de telefone, com um turbilhão de emoções e expectativas, embora cinco centavos mais pobre.

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