Confesso que tenho uma ligeira desconfiança com os trabalhos de Clint
Eastwood. Não que seus filmes sejam ruins, mas o histórico deles,
classificados como “duros” ou algo do tipo (veja-se, por exemplo, seus
filmes de faroeste), são dos tipos que particularmente não me agradam, à
exceção de “Menina de ouro”. No entanto, temos aqui um filme tocante,
diferente dos outros filmes da carreira deste eminente diretor, e talvez
por isso tenha causado tanta estranheza. Eu gostei.
O que primeiramente salta aos olhos é o tom escuro, que permanece ao
longo da projeção. Também praticamente não há ação, mesmo nas cenas
ágeis em que o nascente FBI age. Aqui, temos um filme-biografia feito
para emocionar, centrado em J. Edgar Hoover, um dos homens mais
influentes da história dos Estados-Unidos, vivido por Leonardo DiCaprio,
o qual, diga-se de passagem, já teve atuações bem melhores. Naomi
Watts, que interpreta a secretária de Edgar, está excelente, assim como o
companheiro de Edgar, Clyde Tolson, vivido pelo jovem ator Armie
Hammer. Mas a atuação mais memorável é a da mãe do protagonista, vivida
por Judi Dench, praticamente perfeita.
A maquiagem também não ajuda tanto, muito diferente do roteiro, o qual
passeia pelos acontecimentos e oferece uma aula de história sem ser
didático, além de mesclar fatos presentes e passados de forma
competente. O filme mostra como nasceu o FBI, sendo J. Hoover Edgar o
primeiro presidente desta organização, a qual foi comandada por ele em
48 anos. Começou perseguindo comunista, mas veja a ironia: o Estado,
para tal, precisava de poder centralizado, controlar as identidades dos
cidadãos, reforçar o poder das instituições, criar arquivos secretos,
armar-se, contratar cientistas, deter informação e conhecimento, não se
ligar a partidos, ter disciplina, ser, de certa forma conservadora.
Seria exagero, então, perceber semelhanças entre a democracia mais
famosa do mundo e o regime comunista? Este filme consegue passar essa
mensagem com inteligência, o que o torna simplesmente delicioso e
surpreendente de ser assistido. Nunca a História (com H maiúsculo) foi
mostrada de forma tão reveladora.
No geral, o homem é formado pelas instituições e estas o formam. Não há
heróis, nem vilões, nem um sistema que se faz de forma autônoma. Não há
uma figura emblemática. É tipicamente um filme contemporâneo: a moral
nacionalista está em tela, mas não há preenche como um todo, pois é
redesenhada com indivíduos, paixões, escolhas e sentimentos, além de
muita fantasia no sentido de haver histórias feitas para se promover, ou
seja, histórias que não são necessariamente verdade.
A relação homossexual que Edgar vivia é mostrada de forma delicada,
assim como todo o resto. Definitivamente, não parece um filme de
Eastwood, e também seria surpresa a academia indicá-lo: joga na cara que
os americanos não têm memória, e que seus heróis foram construídos com
base, prioritariamente, em discursos, e não em fatos. Quando Edgar, em
determinado momento do filme, questiona o papel do indivíduo numa
sociedade democrática, temos a sensação de que este ser “transcendente”,
socialmente construído, apesar de ainda ser muito mal compreendido,
está no cerne da nossa cultura, e toda essa complexidade em torno de tal
imagem é o que torna a vida mais sublime. Esse, na verdade, é o grande
mérito do filme: fala de um indivíduo influente sem nunca tornar-se um
filme “egocentrado”; fala de instituições sem nunca esquecer-se dos
indivíduos que a criaram.
E a cena final, linda de dor, coroa esta excelente obra, filmada de forma tênue e sofisticada. Um filme altamente recomendado.

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