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21 de junho de 2013

Crítica #01 - J. Edgar

(Publicado no Cineplayers: http://www.cineplayers.com/comentario.php?id=32349)

Confesso que tenho uma ligeira desconfiança com os trabalhos de Clint Eastwood. Não que seus filmes sejam ruins, mas o histórico deles, classificados como “duros” ou algo do tipo (veja-se, por exemplo, seus filmes de faroeste), são dos tipos que particularmente não me agradam, à exceção de “Menina de ouro”. No entanto, temos aqui um filme tocante, diferente dos outros filmes da carreira deste eminente diretor, e talvez por isso tenha causado tanta estranheza. Eu gostei.

O que primeiramente salta aos olhos é o tom escuro, que permanece ao longo da projeção. Também praticamente não há ação, mesmo nas cenas ágeis em que o nascente FBI age. Aqui, temos um filme-biografia feito para emocionar, centrado em J. Edgar Hoover, um dos homens mais influentes da história dos Estados-Unidos, vivido por Leonardo DiCaprio, o qual, diga-se de passagem, já teve atuações bem melhores. Naomi Watts, que interpreta a secretária de Edgar, está excelente, assim como o companheiro de Edgar, Clyde Tolson, vivido pelo jovem ator Armie Hammer. Mas a atuação mais memorável é a da mãe do protagonista, vivida por Judi Dench, praticamente perfeita.

A maquiagem também não ajuda tanto, muito diferente do roteiro, o qual passeia pelos acontecimentos e oferece uma aula de história sem ser didático, além de mesclar fatos presentes e passados de forma competente. O filme mostra como nasceu o FBI, sendo J. Hoover Edgar o primeiro presidente desta organização, a qual foi comandada por ele em 48 anos. Começou perseguindo comunista, mas veja a ironia: o Estado, para tal, precisava de poder centralizado, controlar as identidades dos cidadãos, reforçar o poder das instituições, criar arquivos secretos, armar-se, contratar cientistas, deter informação e conhecimento, não se ligar a partidos, ter disciplina, ser, de certa forma conservadora. Seria exagero, então, perceber semelhanças entre a democracia mais famosa do mundo e o regime comunista? Este filme consegue passar essa mensagem com inteligência, o que o torna simplesmente delicioso e surpreendente de ser assistido. Nunca a História (com H maiúsculo) foi mostrada de forma tão reveladora.

No geral, o homem é formado pelas instituições e estas o formam. Não há heróis, nem vilões, nem um sistema que se faz de forma autônoma. Não há uma figura emblemática. É tipicamente um filme contemporâneo: a moral nacionalista está em tela, mas não há preenche como um todo, pois é redesenhada com indivíduos, paixões, escolhas e sentimentos, além de muita fantasia no sentido de haver histórias feitas para se promover, ou seja, histórias que não são necessariamente verdade.

A relação homossexual que Edgar vivia é mostrada de forma delicada, assim como todo o resto. Definitivamente, não parece um filme de Eastwood, e também seria surpresa a academia indicá-lo: joga na cara que os americanos não têm memória, e que seus heróis foram construídos com base, prioritariamente, em discursos, e não em fatos. Quando Edgar, em determinado momento do filme, questiona o papel do indivíduo numa sociedade democrática, temos a sensação de que este ser “transcendente”, socialmente construído, apesar de ainda ser muito mal compreendido, está no cerne da nossa cultura, e toda essa complexidade em torno de tal imagem é o que torna a vida mais sublime. Esse, na verdade, é o grande mérito do filme: fala de um indivíduo influente sem nunca tornar-se um filme “egocentrado”; fala de instituições sem nunca esquecer-se dos indivíduos que a criaram.

E a cena final, linda de dor, coroa esta excelente obra, filmada de forma tênue e sofisticada. Um filme altamente recomendado.

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