(Escrita em 17/03/2013)
“Sou gay, advogado, cristão, e Marco Feliciano não me representa”.
Esse foi um dos gritos que bradava nas ruas, em pleno sábado ensolarado. O que esse pessoal faz que não vai pegar uma praia ou um cinema?
Esse foi um dos gritos que bradava nas ruas, em pleno sábado ensolarado. O que esse pessoal faz que não vai pegar uma praia ou um cinema?
Para início de conversa, não gosto de política. É tudo a mesma coisa, só muda a sigla e a cor. Vez ou outra eu acompanho alguma coisa pela televisão ou pela revista Veja, porque também não vivo na Lua! Mas me interesso mesmo é pelo andamento do campeonato brasileiro, ou por algum caso nas páginas policiais.
Nunca entendi esse negócio de protesto, de onde saem esses temas e nem quem os inventa. De qualquer forma, a rua estava lotada, gente de todas as idades, mesmo que em sua maioria jovem. Antes era o “fora Renan”, e agora estavam bradando contra um deputado outrora desconhecido, que faz chapinha e tem a pele singularmente corada, mesmo que se diga racista e homofóbico.
- Moça, por favor. – eu chamava uma entusiasmada jovem que segurava um cartaz com os dizeres: “Sou mulher, negra, universitária, e Marco Feliciano não me representa”.
Ela se virou pra mim.
- Quem é esse tal Feliciano? – perguntei.
- Ora, você não sabe? Ele é um deputado ridículo.
- Feio?
- Não. Quer dizer, um pouco. – disse ela, meio confusa. - Ele é racista e contra a população LGBT!
- LGBT?
- Lésbica, gays, bissexuais, transexuais, travestis e transgêneros! – disse ela, firme.
Eu havia me perdido logo no terceiro nome, mas não ia me intimidar:
-Ah, tá. Quer dizer, ele e os outros 90% dos deputados... mas por que ele?
A moça ficou indignada.
- Ora, você não acompanha os noticiários? Ele está presidindo a comissão de Direitos Humanos na Câmara, um absurdo!
Ao longe se ouvia: “Sou transexual, artista de boate, defensora dos animais, e Marco Feliciano não me representa”!
Fiquei aturdido. Não me lembro de noticiarem tal fato no Jornal Nacional.
- E o que faz essa Comissão de Direitos Humanos?
- Ora essa! Precisa saber?
“Sou cantor de forró universitário, saí do armário, sou feliz, e Marco Feliciano não me representa”!
Um jovenzinho que ouvia nossa conversa logo nos interrompeu e começou a falar das competências da tal comissão, dos trâmites da produção legislativa, da composição das principais comissões na Câmara e outras mil informações que eu não fazia ideia de onde ele havia tirado. Pra mim, trabalho de deputado federal se resumia a não perder o voo pra Brasília, a programar festas regadas a prostitutas e vinho caro, bancadas com dinheiro público, e a mostrar fidelidade nas Plenárias quando recebesse mensalão.
“Sou atriz pornô aposentada, nordestina, uso dentadura, e Marco Feliciano não me representa”!
Não que eu não ache importante fazer política, mas agora a coisa estava se especializando! No meio da balbúrdia, encontrei um amigo meu que estava na faculdade, chamava-se Pedro. Talvez ele pudesse me explicar melhor todo esse movimento.
Não que eu não ache importante fazer política, mas agora a coisa estava se especializando! No meio da balbúrdia, encontrei um amigo meu que estava na faculdade, chamava-se Pedro. Talvez ele pudesse me explicar melhor todo esse movimento.
- Ora, meu amigo, sei que há outras Comissões a reclamar, mas essa, sei lá, mexe com a gente. O cara é uma anta!
- Não entendo... estão o promovendo!
- Claro que não, estamos mostrando nosso repúdio! – ele me dizia, em tom didático.
“Sou rato de academia, bombado, assisto BBB, pego jovenzinhos, e Marco Feliciano não me representa”!
- Acontece que nunca ninguém tinha ouvido falar dessa Comissão! – dizia eu, tentando entender – sei lá, não seria melhor derrubar um presidente, como antes?
- Acontece que nunca ninguém tinha ouvido falar dessa Comissão! – dizia eu, tentando entender – sei lá, não seria melhor derrubar um presidente, como antes?
- Ora, meu caro, a Dilma está com a popularidade nas nuvens. E a política é muito mais complexa, não se resume ao presidente da República!
- Sei. Mas é preciso ser alguma coisa pra protestar contra esse tal Feliciano?
- Como assim, ser alguma coisa?
Aí, apontei para um simpático casal de homens: “Somos uma família, ouvimos Madonna, usamos meia-calça, e Marco Feliciano não nos representa!”.
Meu amigo riu, e disse que não precisava ser nada. Então ele teve uma grande ideia. Pedro foi até seu grupo de amigos, composto por estudantes que ajudavam a organizar o evento. Ele prontamente fez um cartaz pra mim.
No começo, eu relutei. Achava essa história de sair nas ruas gritando palavras de ordem, coisa de gente que não tem o que fazer; poderiam melhor ajudar o país se estivessem trabalhando ou se fossem para suas casas estudar.
- Vamos, meu amigo! – Pedro insistia. – Não se preocupe que você não será visto como comunista!
Foi o fim. Tudo bem que eu sempre suspeitava desses partidos de esquerda, mas o que ele pensa, que eu não tenho consciência política? Ora, eu sabia muito bem criticar ligeiramente a esquerda deixada por Hugo Chávez, também sabia dizer alguma coisa contra o imperialismo norte-americano e não achava os sem-terra um bando de vagabundos! Esquerda, direita, comunista, pequeno-burguês, neoliberal, ultraconservador... tudo gente pequena que adora rótulos, que adora definições fáceis, que adora esses adjetivos. Coisa do passado!
“Sou pansexual, vascaíno, adestrador de cães, e Marco Feliciano não me representa”!
- Escuta aqui, você pensa que eu resumo a minha visão política entre esquerda e direita? – disse para meu amigo Pedro, indignado por ele me achar politicamente inferior.
- Escuta aqui, você pensa que eu resumo a minha visão política entre esquerda e direita? – disse para meu amigo Pedro, indignado por ele me achar politicamente inferior.
- Ora, mas foi você mesmo que disse que Cuba representava o atraso e preferia viver num país livre. Aliás, você continua lendo a Veja?
- Sobre Cuba, isso foi no passado, e eu sei ler criticamente! – vociferei, não queria ficar por baixo - Pra sua informação, eu evoluí, já não vejo a política nesses termos maniqueísta! Os tempos são outros, ser contra o socialismo é coisa do passado!
- Você entende o que você está dizendo? – perguntou-me Pedro, desconfiado.
- Me respeite, rapaz! – disse eu, já me irritando, afinal, essa história de gente metida a ser bem informada me dava nos nervos.
Esse pessoal que se acha revolucionário e superior a quem não gosta e não entende muito de política, por opção, como eu, se acham deuses na Terra. Mas eu poderia provar, para o bem de todos aqueles que odeiam política, que a gente sabe, sim, protestar!
Meu amigo sorriu, e eu percebi que ele finalmente tinha me convencido a usar o cartaz que ele havia feito para mim. Resignado, e me sentindo, enfim, antenado com os novos tempos, empunhei o cartaz: “Sou alienado, não gosto de política, não sei o que um deputado faz, e Marco Feliciano não me representa”!
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