A primeira vez, de fato, é inesquecível. Mas não estou falando desses lugares comuns, como o primeiro beijo, o primeiro namorado, a primeira transa... Na verdade, isso pouco importa aos “gays masculinos” (desculpem-me o reducionismo), especialmente se estes viveram a experiência de assumir-se, o que pressupõe uma fase anterior de preparação, de intensas e significativas descobertas, e uma fase posterior, dessa vez de liberdade. Vejamos então do que se trata...
Meu primeiro filme de temática gay, posso dizer que foi um bonitinho romance americano, embora agraciado com um leve tempero europeu. Ainda era uma criança na época, e pensava estar diante de um filme perigosamente adolescente, o que não era mentira. Do diretor Andrew Fleming, “As três formas de amar”, conta a história de um típico triângulo amoroso, entre dois rapazes e uma garota, a qual acaba engravidando de um deles. Tão típico e tão lírico. E lá estava o universitário loirinho, cujo nome não me recordo, dissecando em corpo e alma o seu colega de quarto machista e pegador. Fiquei encantado com a possibilidade de se amarem, porque, até então, nunca tinha lido sequer um conto de fadas entre príncipe e príncipe, ou entre princesa e princesa.
Quando eu vi a primeira performance do Ney Matogrosso também fiquei muito impressionado. Cresci ouvindo MPB das antigas, associando os cantores a um certo ícone inatingível. Aí, de repente, em um programa de televisão, aquele magrelo que aparece no palco trajando roupas bizarras está na minha estante, ao lado de Chico Buarque, Elis Regina, Gal Costa. E depois vem o Veloso, a Betânia, e pareço naturalizar ainda mais as coisas. Mas não há como ser indiferente; nem Cazuza tira o impacto de Ney em seus tempos de glória.
O primeiro site pornô é uma experiência que requer maior atenção. Você não sabe se você invade a tela ou se é a tela que invade você. Walter Benjamin talvez pudesse enriquecer sua análise de uma sociedade choqueiforme se ainda estivesse vivo para apreciar esse espetáculo. Imagens e imagens, de vários ângulos, e você não entende, se perde. Negros, asiáticos, grupais, militares e até com animais! Tipos e estereótipos a um link! E o mais interessante é que você não consegue se excitar, já prestou atenção? Se formos levar ao pé da letra, o primeiro site pornô que você visita é brochante, porque você, na verdade, não está trabalhando com a cabeça de baixo. É muita informação, muitas janelas, você deve saber se organizar, e de repente há uma série de propagandas no site, desde filmes, revistas e animes a objetos de fetiche.
E depois vem o primeiro conto erótico, que geralmente é virtual, onde você descobre uma literatura viva, totalmente clandestina, sem falsos pudores. É aí que você definitivamente pode enriquecer o seu vocabulário, com tantos sinônimos para as variantes “vagina” e “pênis” (o que daria um dicionário extra, principalmente se levarmos em conta os regionalismos à brasileira).
E há o primeiro filme verdadeiramente pornô, onda talvez, aí sim, você pode dar mais atenção à cabeça de baixo. Mas se você for muito neurótico, também não funcionará, já que você fica muito impaciente, vigiando constantemente à porta do quarto. Nesta ocasião, o volume é mínimo, o suficiente para ouvir alguns gemidos.
E o que dizer da primeira conversa virtual? Certamente não seria marcante se alguém tivesse me ensinado que “O que você curte?” não exige a resposta idiota de “Homens”.
Temos o primeiro amigo, o primeiro desabafo explícito de nossa sexualidade. Com certeza as reações variam desde uma resposta como “Mas é claro que eu sabia, tá na cara, bicha!”, resposta para a qual você pode até se sentir mais aliviado, mas dá uma vontade enorme de esganar a pessoa (já que foram dias se preparando para esse momento), ou você pode ouvir um “Caramba! Prometo que não vou falar pra ninguém!”, onde você também pode se sentir um pouco mais aliviado, mas só um pouco, porque todo gay que chega a este nível, no fundo, não quer esconder sua orientação. Essa primeira vez é, de fato, especial, porque não estou falando da primeira vez que alguém soube que você é gay, nem da primeira vez que você “deu bandeira”. Não, essa primeira vez se refere aquela que você, conscientemente, “confidenciou” sua preferência a alguém. Lembro-me de como foi a minha. Eu já estava na Universidade, e foi junto a uma rodada de amigos. Eram três: um casal de héteros e uma garota evangélica. A última ficou chocada, e afirmou que eu estava brincando com ela. O casal teve uma reação pela qual não esperava, pois a garota achou um máximo, e a partir daquele dia nos tornamos mais amigos, ao passo que o garoto passou o resto do dia se desculpando, dizendo, em tom de lamento, que não sabia. Até hoje não compreendi suas desculpas e seu lamento.
A primeira vez em uma boate também não deixa nada a desejar. Se você, além disso, não for urbano, a noite na cidade lhe parece coisa de outro mundo. É incrível ver tantos gays reunidos, e você, na verdade, não está interessado em um deles em particular, mas no conjunto. O grupo chama mais atenção do que aquele moreno gatíssimo que estava na sua frente para comprar o ingresso na entrada da boate. Nossa!! Bem... e o som? Você, que nunca esteve nesse ambiente antes, de repente descobre que você sabe dançar tão bem quanto metade daquelas pessoas, e que não entende como nunca esteve naquele lugar antes. E ao ver, pela primeira vez, de tão perto, aqueles lindos go-go boys, lembra-se de como era patético apreciar esses corpos em revistas ou sites, quando poderia apreciá-los a alguns metros.
Na primeira Parada Gay, seu cérebro passa por um exercício evolutivo interessante. Primeiro, você está preocupado consigo, “e se meu vizinho me ver?”. Depois, quando você finalmente toma consciência de que seu vizinho só pode lhe ver se ele também estiver lá (e, nesse caso, tenho certeza que você imediatamente se lembra daquele vizinho que você tanto desconfia, será que ele também está nesta Parada?), seu cérebro muda: agora, é você que procura por alguém na multidão, e não mais se sente como “o procurado”. Depois, quando o ambiente já lhe envolve, você finalmente desloca o pensamento de ser encontrado ou encontrar conhecidos para se jogar e aproveitar a Parada com seu grupinho de amigos ou mesmo com os desconhecidos. E sabe Deus onde sua noite vai acabar!
Enfim, a primeira vez fritando em praça pública, a primeira vez encarando um desconhecido, o primeiro banheirão... às vezes me pergunto se viveríamos essas experiências de forma tão profunda se o mundo deixasse de ser tão heteronormativo. Depois, ao levar em conta que todos têm uma primeira vez, independentemente de orientação, desconsidero esse pensamento tolo, por dois motivos. O primeiro é porque infelizmente há muitas outras “primeiras vezes” não tão felizes assim: primeira agressão por ser gay, primeiro emprego que você perde por ser gay, primeira amizade que se distancia, e por aí vai. Mas isso pode levar a um segundo motivo: força e motivação para encarar a primeira vez em uma ONG militante, ou a primeira vez num movimento social atuante... Daí, quem sabe, eu possa fazer com que a primeira vez de muitas pessoas possa ser realmente inesquecível, e muito menos traumática.