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25 de junho de 2013

FILME: Milk - A voz da Igualdade (crítica)



NOTA: 9/10

Polêmico sem ser apelativo, realista sem ser melodramático. O bom trabalho realizado pelo experiente diretor Gus Van Sant ganha toques jornalísticos em dose certa nas mãos do roteirista Dustin Lance Black, nesta que pode ser considerada a melhor biografia cinematográfica do século XXI até então.

“Milk- A voz da Igualdade”, estrelado brilhantemente por Sean Penn, no papel baseado em fatos reais do primeiro político norte-americano assumidamente gay, Harvey Milk, que chega a ocupar um cargo público importante nos EUA, parece, às primeiras cenas, tratar-se mais de um enaltecimento ao personagem principal, correndo o riso de torná-lo um “herói” ou superestimar suas qualidades pessoais. De fato, a história se desenrola ao estilo personagem narrador, entretanto, mas do que focalizar a subjetividade do protagonista, o filme nos brinda com uma excelente pesquisa histórica, imagens e eventos passados que se incorporam à narrativa sem deixá-la remendada. O filme, em nenhum momento, pareceu regredir no tempo, não se trata de um documentário. Essa linearidade conseguida pelo roteirista, bem como a realidade política do movimento gay lançada em imagens, é algo primoroso.




Alguns clichês não poderiam deixar de aparecer, como o conflito entre o pessoal e o profissional enfrentado pelo personagem principal, entretanto, a ótica que impera nesta produção se volta para o cenário político norte-americano à época das efervescências dos movimentos minoritários, no começo da década de 70, retratando principalmente o confronto político-ideológico que o movimento gay travou com setores conservadores da sociedade (em especial os religiosos). Com o roteiro bem estruturado e com o tom político adequado, o que vemos não é um desfile de personagens caricatos, nem de pieguices romanescas que, inevitavelmente, envolvem os personagens principais, muito embora tenhamos sempre claro as intenções e alma dos personagens, especialmente pela brilhante atuação de Sean Penn. Com isso, a torcida do espectador se faz principalmente contra o ato de revogação que a ala política conservadora pretende deferir sobre os direitos civis de homossexuais, além de retratar com competência o processo de construção democrática do sistema político americano.


Como o próprio Harvey Milk aponta em uma das suas falas, diante de uma situação emotiva que disputava espaço com seus afazeres políticos, “não havia tempo para chorar”. É nesse meio fio que poderíamos presenciar o trem descarrilar para os caminhos melodramáticos, mas a produção está de parabéns pela realização deste filme, não sobre um gay em particular, mas sobre o movimento gay em geral. Destaque também para os atores coadjuvantes, particularmente os desequilibrados Dan White (interpretado por Josh Brolin) e Jack Lira (interpretado por Diego Luna). Vale destacar que estes dois, embora não tenham realizado uma atuação brilhante, pricipalmente devido à complexidade dos seus personagens, conseguiram não passar uma imagem estereotipada (mesmo que, às vezes, tenham fugido um pouco do tom). Outro que se saiu muito bem e extremamente equilibrado foi o ator James Franco, interpretando o namorado de Harvey, o Scott.

O filme pode até parecer panfletário, mas mesmo essa acusação é vazia se levarmos em conta as verdadeiras aspirações políticas de Harvey Milk.

Enfim, o filme como um todo é um excelente retrato dos momentos áureos dos movimentos de contestação do século passado, e certamente merece ser visto!

Publicado no site CINEPLAYERS em 20/07/2009: http://www.cineplayers.com/comentario.php?id=18366

FILME: Como Esquecer


"Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem, não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado". (Karl Marx, na obra "Os 18 Brumários").

A frase acima, embora escrita sob uma perspectiva dos grandes acontecimentos históricos, referidos às revoluções da Idade Moderna, também pode ser muito bem empregada para nossas micro-relações, isto se tivermos o faro aguçado para percebermos esses sincronismos. Foi o que o competente roteiro (assinado a 12 mãos!) do filme "Como esquecer" me fez pensar, a ponto de fazer com que sua história, monótona na medida certa, nunca se passe por uma experiência esquecível, ao contrário do que poderia induzir seu título.


É um filme onde três amigos, atormentados pelo seus relacionamentos anteriores, terão de confortar-se entre si para poder superar suas angústias, mas o que poderia ser o ponto de apoio desta relação? Seria fácil fazer da amizade uma válvula de escape simplista, mas o filme é muito competente ao tratar sobre relacionamentos, sejam os velhos ou os novos, sejam entre os que se romperam, ou os que se formaram ou os que permaneceram no decorrer do filme, sejam as sombras das reminiscências que insistem em assombrar o presente ou mesmo algumas escolhas que fazemos no dia-a-dia, enfim, seja qualquer relacionamento entre seres humanos, tudo isso é mostrado sem jamais nos depararmos com clichês. Ao mesmo tempo em que os amigos se ajudam e se confortam, sentimos a toda hora o atrito destas relações, a forma humana como são conduzidas, as pertubações e invasões de privacidade, algumas brigas e desentendimentos, pessoas novas que entram e saem na vida deles e que provocam um mínimo de pertubação, nem que seja a mais singela das experiências, enfim, idas e vindas da vida mostradas de forma bela e real.




A estreante diretora Malu Di Martino entrega um bom trabalho, ainda que abuse da câmera fechada e do metodismo nas disposições dos corpos pela tela (ao meu ver, típicos da televisão). No entanto, o drama de Júlia (Ana Paula Arósio), Hugo (Murilo Rosa) e Lisa (Natália Lage) são passados com naturalidade e segurança, transmitem a emoção na medida exata, méritos de dois fatores principais: do roteiro incrível, que narra uma história extremamente simples de pessoas comuns e verossímeis; e da brilhante Ana Paula Arósio, que conseguiu o olhar mais triste e verdadeiro que eu tive o prazer de assitir em tela nos últimos tempos. Não há como negar seu talento, seu tom nas falas, sua verdade coberta de tristeza. Esqueça Hilda Furacão, seu trabalho mais conhecido. Júlia é uma professora universitária, complexa, profunda, e a Arósio convence, rouba a cena, chama para si o protagonismo, deixa saudades...

Aliás, isso acaba prejudicando um pouco o filme, pois "Como esquecer" relata justamente os passados dos relacionamentos vividos pelo trio de personagens, mas somente a Arósio consegue garantir e acertar o tom com o seu personagem. Murilo Rosa, vivendo um personagem gay, apenas diverte em alguns momentos, sendo somente um "razoável coadjuvante". É seu personagem que, do começo ao término do filme, ampara emocionalmente a Júlia, mas esta, mesmo quando demonstra fraqueza, foi tão bem encarnada, que a atuação firme de Arósio "engole" quem deveria ser seu ombro amigo. Tanto é verdade que, quando se exige de Murilo uma atuação mais dramática, numa repentina cena em que seu personagem se confronta com uma dessas memórias atordoantes, percebemos o quão limitado é o ator; para alguns mais exigentes, soa constrangedor.

O mesmo se fala de Natálie Lage, embora um pouco mais segura do que Murilo, mas sua personagem jamais é atuada com toda a carga necessária, embora o roteiro tenha se esforçado (um pouco) para torná-la interessante: quando ela resolve sair da casa onde os três passaram a morar, por exemplo, nos preocupamos mais com a reação da Júlia do que propriamente com a Lisa.

Resolvi não comentar antes, mas agora cabe a ressalva: Júlia é uma professora universitária e lésbica. Deixei somente para agora este comentário, pois o filme trata a questão de uma forma tão natural, que não lembro de ter visto um filme de temática homoerótica tão universal. Qualquer pessoa, de qualquer orientação sexual e de gênero se identifica com a trama. Mesmo nos momentos em que vemos as cenas de sexo entre mulheres, a mensagem a ser transmitida é muito mais profunda do que qualquer demarcação identitária. Aliás, é um filme que fala de sexualidade sem caminhar pelo terreno do preconceito, tal qual a proposta de outro grande filme nacional, "Do começo ao fim", que trata do relacionamento homoafetivo entre dois irmãos. No entanto, este "Como esquecer" tem como proposta apresentar um drama bem próximo da realidade, e mesmo sem abordar diretamente o preconceito, consegue atingir seu objetivo, o que é realmente maravilhoso.

Lésbicas e gays podem se orgulhar. O cinema nacional pode sim criar personagens que estão em paz com sua orientação sexual, que convivem muito bem com ela, porém, são muito mais do que isso. Apesar de algumas cenas desnecessárias e do elenco não manter-se nivelado, "Como esquecer" é uma obra contundente, onde a homossexualidade é vista para além da aparência e é competentemente naturalizada, o que a torna simplesmente espetacular. 

Publicado em 05/05/2011 no site CINEPLAYERS: http://www.cineplayers.com/comentario.php?id=29657

22 de junho de 2013

Crônica #06 - A primeira vez

A primeira vez, de fato, é inesquecível. Mas não estou falando desses lugares comuns, como o primeiro beijo, o primeiro namorado, a primeira transa... Na verdade, isso pouco importa aos “gays masculinos” (desculpem-me o reducionismo), especialmente se estes viveram a experiência de assumir-se, o que pressupõe uma fase anterior de preparação, de intensas e significativas descobertas, e uma fase posterior, dessa vez de liberdade. Vejamos então do que se trata...

Meu primeiro filme de temática gay, posso dizer que foi um bonitinho romance americano, embora agraciado com um leve tempero europeu. Ainda era uma criança na época, e pensava estar diante de um filme perigosamente adolescente, o que não era mentira. Do diretor Andrew Fleming, “As três formas de amar”, conta a história de um típico triângulo amoroso, entre dois rapazes e uma garota, a qual acaba engravidando de um deles. Tão típico e tão lírico. E lá estava o universitário loirinho, cujo nome não me recordo, dissecando em corpo e alma o seu colega de quarto machista e pegador. Fiquei encantado com a possibilidade de se amarem, porque, até então, nunca tinha lido sequer um conto de fadas entre príncipe e príncipe, ou entre princesa e princesa.

Quando eu vi a primeira performance do Ney Matogrosso também fiquei muito impressionado. Cresci ouvindo MPB das antigas, associando os cantores a um certo ícone inatingível. Aí, de repente, em um programa de televisão, aquele magrelo que aparece no palco trajando roupas bizarras está na minha estante, ao lado de Chico Buarque, Elis Regina, Gal Costa. E depois vem o Veloso, a Betânia, e pareço naturalizar ainda mais as coisas. Mas não há como ser indiferente; nem Cazuza tira o impacto de Ney em seus tempos de glória.

O primeiro site pornô é uma experiência que requer maior atenção. Você não sabe se você invade a tela ou se é a tela que invade você. Walter Benjamin talvez pudesse enriquecer sua análise de uma sociedade choqueiforme se ainda estivesse vivo para apreciar esse espetáculo. Imagens e imagens, de vários ângulos, e você não entende, se perde. Negros, asiáticos, grupais, militares e até com animais! Tipos e estereótipos a um link! E o mais interessante é que você não consegue se excitar, já prestou atenção? Se formos levar ao pé da letra, o primeiro site pornô que você visita é brochante, porque você, na verdade, não está trabalhando com a cabeça de baixo. É muita informação, muitas janelas, você deve saber se organizar, e de repente há uma série de propagandas no site, desde filmes, revistas e animes a objetos de fetiche. 

E depois vem o primeiro conto erótico, que geralmente é virtual, onde você descobre uma literatura viva, totalmente clandestina, sem falsos pudores. É aí que você definitivamente pode enriquecer o seu vocabulário, com tantos sinônimos para as variantes “vagina” e “pênis” (o que daria um dicionário extra, principalmente se levarmos em conta os regionalismos à brasileira).

E há o primeiro filme verdadeiramente pornô, onda talvez, aí sim, você pode dar mais atenção à cabeça de baixo. Mas se você for muito neurótico, também não funcionará, já que você fica muito impaciente, vigiando constantemente à porta do quarto. Nesta ocasião, o volume é mínimo, o suficiente para ouvir alguns gemidos.

E o que dizer da primeira conversa virtual? Certamente não seria marcante se alguém tivesse me ensinado que “O que você curte?” não exige a resposta idiota de “Homens”. 

Temos o primeiro amigo, o primeiro desabafo explícito de nossa sexualidade. Com certeza as reações variam desde uma resposta como “Mas é claro que eu sabia, tá na cara, bicha!”, resposta para a qual você pode até se sentir mais aliviado, mas dá uma vontade enorme de esganar a pessoa (já que foram dias se preparando para esse momento), ou você pode ouvir um “Caramba! Prometo que não vou falar pra ninguém!”, onde você também pode se sentir um pouco mais aliviado, mas só um pouco, porque todo gay que chega a este nível, no fundo, não quer esconder sua orientação. Essa primeira vez é, de fato, especial, porque não estou falando da primeira vez que alguém soube que você é gay, nem da primeira vez que você “deu bandeira”. Não, essa primeira vez se refere aquela que você, conscientemente, “confidenciou” sua preferência a alguém. Lembro-me de como foi a minha. Eu já estava na Universidade, e foi junto a uma rodada de amigos. Eram três: um casal de héteros e uma garota evangélica. A última ficou chocada, e afirmou que eu estava brincando com ela. O casal teve uma reação pela qual não esperava, pois a garota achou um máximo, e a partir daquele dia nos tornamos mais amigos, ao passo que o garoto passou o resto do dia se desculpando, dizendo, em tom de lamento, que não sabia. Até hoje não compreendi suas desculpas e seu lamento.

A primeira vez em uma boate também não deixa nada a desejar. Se você, além disso, não for urbano, a noite na cidade lhe parece coisa de outro mundo. É incrível ver tantos gays reunidos, e você, na verdade, não está interessado em um deles em particular, mas no conjunto. O grupo chama mais atenção do que aquele moreno gatíssimo que estava na sua frente para comprar o ingresso na entrada da boate. Nossa!! Bem... e o som? Você, que nunca esteve nesse ambiente antes, de repente descobre que você sabe dançar tão bem quanto metade daquelas pessoas, e que não entende como nunca esteve naquele lugar antes. E ao ver, pela primeira vez, de tão perto, aqueles lindos go-go boys, lembra-se de como era patético apreciar esses corpos em revistas ou sites, quando poderia apreciá-los a alguns metros.

Na primeira Parada Gay, seu cérebro passa por um exercício evolutivo interessante. Primeiro, você está preocupado consigo, “e se meu vizinho me ver?”. Depois, quando você finalmente toma consciência de que seu vizinho só pode lhe ver se ele também estiver lá (e, nesse caso, tenho certeza que você imediatamente se lembra daquele vizinho que você tanto desconfia, será que ele também está nesta Parada?), seu cérebro muda: agora, é você que procura por alguém na multidão, e não mais se sente como “o procurado”. Depois, quando o ambiente já lhe envolve, você finalmente desloca o pensamento de ser encontrado ou encontrar conhecidos para se jogar e aproveitar a Parada com seu grupinho de amigos ou mesmo com os desconhecidos. E sabe Deus onde sua noite vai acabar!

Enfim, a primeira vez fritando em praça pública, a primeira vez encarando um desconhecido, o primeiro banheirão... às vezes me pergunto se viveríamos essas experiências de forma tão profunda se o mundo deixasse de ser tão heteronormativo. Depois, ao levar em conta que todos têm uma primeira vez, independentemente de orientação, desconsidero esse pensamento tolo, por dois motivos. O primeiro é porque infelizmente há muitas outras “primeiras vezes” não tão felizes assim: primeira agressão por ser gay, primeiro emprego que você perde por ser gay, primeira amizade que se distancia, e por aí vai. Mas isso pode levar a um segundo motivo: força e motivação para encarar a primeira vez em uma ONG militante, ou a primeira vez num movimento social atuante... Daí, quem sabe, eu possa fazer com que a primeira vez de muitas pessoas possa ser realmente inesquecível, e muito menos traumática.

Crônica #05 - Apenas cinco centavos

“Poderia ser mais do que cinco centavos”, pensei eu.

Gente, pára tudo. Não sei se começo descrevendo a situação caótica do transporte coletivo de Belém ou se dou maior atenção aos olhos verdes do cobrador-moreno-gostoso-sexy-tudo-de-bom do Ufpa-Pedreira. Sinceramente, os quase trinta minutos de espera na parada de ônibus valeram à pena.

Quando aquele ônibus parou, e uma pilha de gente teve que disputar a entrada do ônibus para assomar-se a mais uma pilha de gente lá dentro, senti que não deveria esperar mais nada exceto o mau humor do motorista e o mal-estar draconiano que impera no interior dos ônibus da capital. Mas basta eu me aproximar da catraca, de posse da minha carteira de meia-passagem (a qual, nesse instante, quase vai ao chão), que percebo que o dia nem está tão ruim assim.

Dois faróis num corpo monumental, gelzinho nos cabelos morenos, um brinquinho rubi na orelha esquerda e, em pleno verão, a camisa da empresa semi-aberta, revelando um peito liso, malhado e levemente suado; com certeza ele não devia ter mais de 30 anos.

“Boa tarde, tudo bem?”

Estou apenas sendo cordial.

“Boa tarde”, me respondeu, com um sorriso.

Espero que não seja somente por educação, penso eu.

“Você tem dez centavos?”, ele me pergunta.

Putz, sinto um aperto. Sei que não tenho!

“Claro, só um momento”

Quantos minutos posso fazê-lo esperar? Ah, eu esperei uma vida por esse ônibus, mereço ganhar um pouco mais de tempo na presença desse semideus.

Reviro minha carteira à toa. Jamais pensei que pudesse fingir tão bem procurar uma simples moeda. Canso de encenar.

“Poxa, não tenho”

“Tudo bem”

Soa um apito; a catraca já está liberada, já posso passar. Nem percebi!

Ao passar, recebo o troco. Faltam cinco centavos.

Apenas o olho.

“Espera um pouco que ainda não tenho troco”.

Bom, foi ele quem me mandou esperá-lo.

Nossa, que sorte, tudo está dando certo! Sei que vou chegar atrasado na aula da professora mais caxias da faculdade, atraso que valeu um belo cobrador sem o troco certo. E eu ali, ajudando a enriquecer em cinco centavos os ávidos empresários do transporte público de Belém, rezando para que ninguém subisse no ônibus com uma moeda de cinco centavos.

Mas será que esses míseros cinco centavos pagam o momentâneo contato com um belo par de olhos verdes?

“Troco difícil, né?”, puxo uma conversa, e ele não parecia de mau humor.

De repente, sou eu quem sorri. “Poderia ser mais do que cinco centavos”, pensei eu. E eu ali, me deleitando com uma simples presença masculina, à espera de um troco, um corpo, ou sei lá o quê.

“O que foi?”, ele me pergunta.

Droga, eu estava rindo sozinho, que idiotice. Mas ele parecia estar sendo muito mais do que gentil ao parecer se importar.

“São só cinco centavos...”, respondi. “O que você compra com cinco centavos?”

Ele pareceu interessado em me ver resmungar, mas logo se virou para a câmera no canto do ônibus. Pareceu preocupado.

Entendia como as coisas funcionavam. Vigilância para os cofres da empresa, controle sobre os trabalhadores, câmera estrategicamente no cobrador, o operador do caixa.

“Essa câmera consegue registrar esse troco errado?”, perguntei.

“Não é com isso que estou preocupado”, respondeu.

Senti seus olhos verdes me invadirem completamente, e de repente meu cérebro se acendeu de vez.

“Você malhava lá na Corpo e Vida, não é?”, perguntei.

Isso! Sabia que o conhecia! Ele respondeu positivamente. Pronto, sem mais superegos e entraves. A viagem transcorreu numa conversa amistosa.

Quando desci do ônibus, já carregava comigo seu número de telefone, com um turbilhão de emoções e expectativas, embora cinco centavos mais pobre.

Crônica #04 - Uma questão normativa

Duas vizinhas conversavam à porta da casa de uma delas.
Adversativa: Eu amo meu filho, mas ele é gay.
Concessiva: Eu sempre desconfiei, apesar de nunca ter certeza.
Adversativa: Éramos muitos felizes, entretanto, gostaria que tudo fosse mais fácil.
Concessiva: O mundo é um lugar feliz, ainda que muito perigoso para quem é diferente da maioria!
Adversativa: Eu tento ser forte, porém, é mais complicado do que imaginei.
Concessiva: Eu entendo, se bem que estaria pirando se fosse comigo.
Adversativa: Eu também pirei no início, mas meu marido teve reação pior.
Concessiva: Sério? Eu realmente sabia que ele estava internado em um hospital, conquanto não tive tempo de visitá-lo.
Adversativa: Ele não suportou ver o nosso filho com o namorado: teve um infarto, contudo, espero que ele melhore.

Meses depois, a filha lésbica da concessiva se revela à mãe.
- Mamãe, eu gosto de outras meninas!
A mão toma um choque, não acredita.
Concessiva: Embora eu sempre tenha dito que te ame, não sei como reagir.
- Mãe, desculpa se não estou nos padrões, estou apenas sendo sincera com você, não quero perder sua amizade!
Concessiva: É difícil pra mim, minha filha, por mais que eu tente aceitar.
A mãe fica triste, procura a ajuda de um pastor para entender a situação.
Pastor alternativo: Ou a senhora aceita a vida da sua filha ou aceita a Palavra de Deus.
Concessiva: Não entendo, o senhor está dizendo para deixar de amá-la, ainda que seja difícil para mim menosprezá-la?
Pastor alternativo: Temos que ter fé na cura dela em Cristo, ou seu amor poderá salvá-la ou ela continuará nas trevas.
O marido da concessiva também não aceitava os fatos muito bem.
Senhor Comparativo: Isso é pior do que ter uma filha delinquente!
A tia Causal (irmã do senhor comparativo): Não vou mais passear, porque andam falando muito mal da nossa família.
E chovia comentários nas ruas daquela pequena vizinhança:
Condicional: Se não tivessem me contado, juro que não acreditaria.
Conformativa: Segundo dizem, ela até já se deitou com outra mulher! Sapatona!
Temporal: Quando Deus vier à Terra, a justiça será feita contra os pederastas.
Proporcional: À medida que envelheço, esse mundo fica mais perdido!

E o filho gay e a filha lésbica não aguentavam mais a pressão dos vizinhos, e decidiram fugir, juntos, à outra cidade:
- Não suportava mais, e ainda me sinto culpado pelo meu pai, que está no hospital. – disse o rapaz.
- Com meu pai também foi terrível, ele deixou de falar comigo e me azucrinava. – disse a jovem lésbica, com ar de ternura e compaixão.
- Eu sinceramente não entendo de onde vem tanto ódio.
- Eu também não, afinal, nós não pedimos pra nascer assim!
- E por um caso eles pediram para nascer héteros?
- É verdade! – exclamou a moça.
E conversaram a tarde toda, querendo compreender o motivo pelo qual provocavam a ira de tantos.
- Ainda bem que somos livres de normas. – suspirou o garoto.
- É mesmo – disse a jovem – ainda que, algum dia, eu pretenda voltar para rever minha família. Mas até lá espero que eles já tenham processado a ideia, para encontrá-los com outra cabeça.
- E o que faremos até esse dia? – perguntou o jovem.
- Eu não sei. – respondeu a moça firmemente. – Mas viver enquadrada em normas é que eu não vou!

Crônica #03 - Sobre ditadura gay

- Seu gayzista!
- Não vamos nos acovardar, querem criar a ditadura gay no Brasil? Nunca!
- É livre o pensamento de expressão, a liberdade, e por isso posso clamar por uma sociedade limpa e moral! Fora a ditadura gay!
- Os direitos são humanos e não direitos homossexuais. Não são de um grupo específico que querem gritar mais alto do que a maioria!

“Belas palavras”, “inteligentes”, isso sem contar as de cunho religioso, que prefiro não comentar. O neologismo “gayzismo” e suas variantes se alastram feito praga, a uma velocidade absurdamente fascinante. Será mesmo? Tudo isso porque o pensamento político não conseguiu, ainda, se dissociar do pensamento totalitário.

Antes de tudo, é preciso compreender o sentido cultural do termo, o que se entende por “ditadura gay”. Apesar de ser um termo demasiado complexo, basta assinalar, aqui, a aproximação, em termos de mentalidade, com o que seria um pensamento totalitário. Totalitarismo é aquela ideia de pensamento total, de um Estado que tudo abrange, e surgiu no começo do século XX para designar os novos arranjos políticos do Estado, que não mais estariam preocupados apenas com direitos civis. Mussolini, entre outras coisas, era um grande teórico do Estado.

Quando Hitler escreveu Mein Kampf, sabe-se que fora baseado especialmente em outra influente obra, Os protocolos dos sábios de Sião. Todo o discurso antissemita se baseia numa ideia que por muitos é considerada inventada: o fato de que os judeus queriam assumir o poder político e religioso da Europa, de que queriam um governo totalitário, abrangente e judaico. Ocorre que, sendo verdade ou não, estamos impregnados de tal cultura, e isso não envolve o terror, o medo e a perseguição. Envolve o pensamento globalizante, o nunca estar parcialmente certo ou errado, nem em cima do muro: você é um rótulo, um estigma, para ser mais preciso. A ideia completamente ultrapassada de que “princípios” se grifa no singular. Ou pelo menos, de que um indivíduo deve ser coerente com seu princípio (!).

O pensamento político começa assim: da esquerda para a direita. Sabemos que o mundo não é dividido binariamente de forma minuciosa, mas para início de conversa, é daí que devemos partir, e depois podemos refinar o duelo. Aliás, é o duelo de titãs que impera: anjos e demônios, confrontando-se. O eterno duelo entre o Bem e o Mal (em pensar que filósofos do século XIX já nos alertavam para irmos além desse confronto, mas ainda não conseguimos ultrapassar esse pensamento medieval).

Quando alguém defende o casamento gay, portanto, dada a cultura totalitária, o que vem às mentes desavisadas é a ideia de extensão, de tentáculos agarrando a tudo e todos, e a ideia de que tal pensamento se confronta com o direito consagrado (quase canônico) de heterossexuais. “Querem acabar com a família (sic)!”, “querem construir uma ditadura gay”, “querem corromper nossas crianças”, como se os gays, lésbicas e pessoas trans quisessem a exclusividade da fala, como se fossem os únicos no espetáculo da vida. Esse ranço equivocado não consegue dissociar a defesa de um ponto de vista da sua imagem totalitária, tomados estão por tal cultura milenar.

E isso acontece em muitas esferas da vida. Por exemplo, quanto a professar uma religião: parece muito impossível, ou deslocado, professar mais de uma. No sincretismo, tendemos a eleger uma oficial. Também não nos é permitido, com indiferença, torcer para mais de um time de futebol em uma mesma localidade (por exemplo, para o Flamengo e o Vasco, ao mesmo tempo), nem pertencermos a duas nações. Sexo, gênero, orientação sexual, só um. E que relações mais recônditas poderíamos supor entre tal pensamento e a necessidade da monogamia? Sempre se vislumbra o pensamento Uno, Indivisível, Exclusivo. Deus é a representação máxima do totalitarismo, tudo vê, tudo percebe, senhor de tudo, dono de tudo.

Mas centremos na questão gay. É muito difícil, para milhares de pessoas, dissociar o discurso a favor dos direitos homossexuais de um pensamento totalitário, como se estes fossem naturalmente acoplados. Acham que levantar a bandeira do arco-íris é defender que todos querem ser gay, lésbica, travesti, transexual, não-héteros. Pensam que defender direitos de minoria é suplantar outro grupo, chamado de maioria. Pensam que a voz dos que há muitos foram jogados ao limbo, significa calar os que desde sempre tiveram o direito da fala.

É por isso que, hoje, é urgente defender a PLURALIDADE e a DIVERSIDADE, em suas mais diversas correntes, não apenas quanto à sexualidade. Temos um ranço totalitário muito forte, e o machismo e o heterossexismo apenas são partes de tal cultura. Se há alguma ditadura, esta é pulverizada em mais diversas áreas, e certamente o discurso qualificado LGBT está longe de ser visto enquanto tal, já que não se pretende universal, único, exclusivo. O grande desafio é criar mecanismo que, ao mesmo tempo em que estimulem a diversidade, não sejam permissivos. O Estado Laico é um deles, já que não se trata de destruir determinada fé, mas impedir que grupos hegemônicos se tornem porta-vozes em um espaço público de poder.

Totalitarismo tem muita relação com a taxonomia, com o biopoder, com a regulação. Assim como não há discurso gay, não há discurso evangélico ou religioso puro, neutro, uno. A pluralidade como princípio é muito difícil, pois nossas mentes sempre procuram a origem da origem, o axioma, a Gênese mais singular. E enquanto houver essa busca, é bem capaz de que “gayzistas”, “machistas” e “heterossexistas” continuem como um forte ranço, forjado ou não, de nossa mentalidade mesquinha.

Crônica #02 - Marco Feliciano não me representa

(Escrita em 17/03/2013)
“Sou gay, advogado, cristão, e Marco Feliciano não me representa”.

Esse foi um dos gritos que bradava nas ruas, em pleno sábado ensolarado. O que esse pessoal faz que não vai pegar uma praia ou um cinema?

Para início de conversa, não gosto de política. É tudo a mesma coisa, só muda a sigla e a cor. Vez ou outra eu acompanho alguma coisa pela televisão ou pela revista Veja, porque também não vivo na Lua! Mas me interesso mesmo é pelo andamento do campeonato brasileiro, ou por algum caso nas páginas policiais.

Nunca entendi esse negócio de protesto, de onde saem esses temas e nem quem os inventa. De qualquer forma, a rua estava lotada, gente de todas as idades, mesmo que em sua maioria jovem. Antes era o “fora Renan”, e agora estavam bradando contra um deputado outrora desconhecido, que faz chapinha e tem a pele singularmente corada, mesmo que se diga racista e homofóbico.

- Moça, por favor. – eu chamava uma entusiasmada jovem que segurava um cartaz com os dizeres: “Sou mulher, negra, universitária, e Marco Feliciano não me representa”.

Ela se virou pra mim.
- Quem é esse tal Feliciano? – perguntei.
- Ora, você não sabe? Ele é um deputado ridículo.
- Feio?
- Não. Quer dizer, um pouco. – disse ela, meio confusa. - Ele é racista e contra a população LGBT!
- LGBT?
- Lésbica, gays, bissexuais, transexuais, travestis e transgêneros! – disse ela, firme.
Eu havia me perdido logo no terceiro nome, mas não ia me intimidar:
-Ah, tá. Quer dizer, ele e os outros 90% dos deputados... mas por que ele?
A moça ficou indignada.
- Ora, você não acompanha os noticiários? Ele está presidindo a comissão de Direitos Humanos na Câmara, um absurdo!

Ao longe se ouvia: “Sou transexual, artista de boate, defensora dos animais, e Marco Feliciano não me representa”!

Fiquei aturdido. Não me lembro de noticiarem tal fato no Jornal Nacional.
- E o que faz essa Comissão de Direitos Humanos?
- Ora essa! Precisa saber?

“Sou cantor de forró universitário, saí do armário, sou feliz, e Marco Feliciano não me representa”!

Um jovenzinho que ouvia nossa conversa logo nos interrompeu e começou a falar das competências da tal comissão, dos trâmites da produção legislativa, da composição das principais comissões na Câmara e outras mil informações que eu não fazia ideia de onde ele havia tirado. Pra mim, trabalho de deputado federal se resumia a não perder o voo pra Brasília, a programar festas regadas a prostitutas e vinho caro, bancadas com dinheiro público, e a mostrar fidelidade nas Plenárias quando recebesse mensalão.

“Sou atriz pornô aposentada, nordestina, uso dentadura, e Marco Feliciano não me representa”!

Não que eu não ache importante fazer política, mas agora a coisa estava se especializando! No meio da balbúrdia, encontrei um amigo meu que estava na faculdade, chamava-se Pedro. Talvez ele pudesse me explicar melhor todo esse movimento.

- Ora, meu amigo, sei que há outras Comissões a reclamar, mas essa, sei lá, mexe com a gente. O cara é uma anta!
- Não entendo... estão o promovendo!
- Claro que não, estamos mostrando nosso repúdio! – ele me dizia, em tom didático.

“Sou rato de academia, bombado, assisto BBB, pego jovenzinhos, e Marco Feliciano não me representa”!

- Acontece que nunca ninguém tinha ouvido falar dessa Comissão! – dizia eu, tentando entender – sei lá, não seria melhor derrubar um presidente, como antes?
- Ora, meu caro, a Dilma está com a popularidade nas nuvens. E a política é muito mais complexa, não se resume ao presidente da República!
- Sei. Mas é preciso ser alguma coisa pra protestar contra esse tal Feliciano?
- Como assim, ser alguma coisa?

Aí, apontei para um simpático casal de homens: “Somos uma família, ouvimos Madonna, usamos meia-calça, e Marco Feliciano não nos representa!”.

Meu amigo riu, e disse que não precisava ser nada. Então ele teve uma grande ideia. Pedro foi até seu grupo de amigos, composto por estudantes que ajudavam a organizar o evento. Ele prontamente fez um cartaz pra mim.
No começo, eu relutei. Achava essa história de sair nas ruas gritando palavras de ordem, coisa de gente que não tem o que fazer; poderiam melhor ajudar o país se estivessem trabalhando ou se fossem para suas casas estudar.

- Vamos, meu amigo! – Pedro insistia. – Não se preocupe que você não será visto como comunista!

Foi o fim. Tudo bem que eu sempre suspeitava desses partidos de esquerda, mas o que ele pensa, que eu não tenho consciência política? Ora, eu sabia muito bem criticar ligeiramente a esquerda deixada por Hugo Chávez, também sabia dizer alguma coisa contra o imperialismo norte-americano e não achava os sem-terra um bando de vagabundos! Esquerda, direita, comunista, pequeno-burguês, neoliberal, ultraconservador... tudo gente pequena que adora rótulos, que adora definições fáceis, que adora esses adjetivos. Coisa do passado!

“Sou pansexual, vascaíno, adestrador de cães, e Marco Feliciano não me representa”!

- Escuta aqui, você pensa que eu resumo a minha visão política entre esquerda e direita? – disse para meu amigo Pedro, indignado por ele me achar politicamente inferior.
- Ora, mas foi você mesmo que disse que Cuba representava o atraso e preferia viver num país livre. Aliás, você continua lendo a Veja?
- Sobre Cuba, isso foi no passado, e eu sei ler criticamente! – vociferei, não queria ficar por baixo - Pra sua informação, eu evoluí, já não vejo a política nesses termos maniqueísta! Os tempos são outros, ser contra o socialismo é coisa do passado!
- Você entende o que você está dizendo? – perguntou-me Pedro, desconfiado.
- Me respeite, rapaz! – disse eu, já me irritando, afinal, essa história de gente metida a ser bem informada me dava nos nervos.

Esse pessoal que se acha revolucionário e superior a quem não gosta e não entende muito de política, por opção, como eu, se acham deuses na Terra. Mas eu poderia provar, para o bem de todos aqueles que odeiam política, que a gente sabe, sim, protestar!

Meu amigo sorriu, e eu percebi que ele finalmente tinha me convencido a usar o cartaz que ele havia feito para mim. Resignado, e me sentindo, enfim, antenado com os novos tempos, empunhei o cartaz: “Sou alienado, não gosto de política, não sei o que um deputado faz, e Marco Feliciano não me representa”!

Crônica #01 - Depressivo

É estranho chegar aos 25 anos, no auge da vida, morto e consciente.

Não se trata de tristeza, muito menos de estar alegre. Sem risos, música, amigos, um copo de cerveja aos finais de semana. Durante esses anos todos, minha maior transgressão em público foi ficar louco e solitariamente bêbado na sala de estar. De resto, já fiquei bêbado de forma típica, sem perder a linha. Tudo inócuo, sem loucura, repetitivo, padrão: beber, passar mal e ir para casa, em segurança.

Nada e mais nada. Um vegetal poderia transmitir maior emoção.

Sem vontade de gritar, sussurrar ou amar. Tão fácil dizer “eu te amo” quando se tem medo, assim como fica impossível dizer “eu me amo”. Sem sentido.

Não quero sair do conforto da caverna escura, ao mesmo tempo em que queria sumir do mundo. Mas preciso assinar o ponto, ser burocrático, seguir em frente, em linha reta. Tão certo e alinhado. A minha vida se resume à burocracia, e não consigo sequer sentir o tédio, somente indiferença. Vazio. Sem sonhos e inquietações, sem nada que me faça indignar. Queria a indignação, a surpresa, a revolta, mas sou o nada. Meu ser é o nada.

Morto em um quarto de século, e a doença chegando, bem-vinda. Um verdadeiro Brás Cubas do subúrbio e moderno, sem amores ou filosofias.

Inerte, inútil, sem oração ou religião que me salve. Talvez sem alma. E tudo tão perfeito, e correto, e no lugar. Nada de vício, nem de apontar os dedos. Estou só no mundo, cheio de estranhos, querendo ser consumido por uma dor que insiste em não me arrebatar: a solidão e a existência frias são minhas fiéis companheiras.

Vou definhando, sem apetite, fraco, e só sinto que é destino, traçado, sem liberdade. E pra quê?

Já vivi demais, 25 longos anos de espera e de agonia. A lápide é feita de todas as máscaras que carrego, na obrigação de ser feliz. Mas não estou triste. Só estou morto. E em plena consciência dos sentidos.

Poesia #01 - Sobre sexo e poesia

Suba
Cubra
Cuba.

Suruba.

Incubado.
Ingrato.
Insensato.

Só palavras mortas
Siglas intermináveis
Linguagem sem sentido.

Suba para o altar
Cubra o céu de estrelas,
Cuba não é o único sonho.

Suruba de corpos e pensamentos.

Incubado feito animal enjaulado
Ingrato feito menino rico sem mel
Insensato feito um louco foragido.

Só palavras mortas parecem resistir à moral,
Ao corpo, ao beijo, ao sexo, à suruba...
Não é pra resistir, nem desistir, mas pra se despir!
Não se cubra! Suba! Monte! Se doe!
Foder a noite, foder meu corpo, foder meu homem...

Siglas intermináveis insistem em definir
O indefinível.
O tom político no embargo desalmado.
É Cuba? Não, é incubado!
E a vida rodando o próprio filme insensato.

Linguagem sem sentido e sem força
Viver por viver
O cheiro do banheiro público como o bálsamo mais ingrato
E mais inebriante.
Fico reduzido ao amor sobre privadas.

Suba para o altar
E grite até jorrar sangue!
Jorre o sêmen na face dos moralistas,
E chupe suas ferramentas ocultas!
Cubra o céu de estrelas,
Crie seu próprio verão,
Seja a andorinha irmã,
Recriando seu próprio presente,
Na esperança de presentear o futuro.
Pois nossos sonhos são todos utópicos
Por definição.
Cuba não é o único sonho.
Suba!
Suruba!
Incubado?
São só palavras mortas
Siglas intermináveis
Linguagem sem sentido.
Não quero dizer quem eu sou.
Sou o poeta das não-palavras.
Quero apenas fazer o que sou
Viver da carne
Da orgia
Do gozo
E da arte.

Ser poesia viva,
Ser o Ser completo
E não apenas
Palavras mortas
Siglas intermináveis
Linguagem sem sentido...

21 de junho de 2013

Artigo #02 - Povo brasileiro: Povo massa

Imagem do site: www.mundodastribos.com
É com extrema indignação e perplexidade que escrevo isso, e vou ser sucinto. Já havia escrito sobre a palhaçada da “Cura Gay” e agora vou falar sobre essa PEC-37/2011.

Sinto informar, mas a elite política ri alto da cara do povo brasileiro. Somos burros, nem precisa ir à rua com máscara, já está estampada nossa mediocridade.

A PEC, amigos, acrescenta à Constituição a competência para investigação criminal pelas polícias federais e civis. Atenção: ACRESCENTA.

Em nenhum momento RETIRA do Ministério Público tal competência, pelo contrário.

Acompanhem estes trechos: “Preliminarmente devemos ressaltar que as demais competências ou atribuições definidas em nossa carta Magna, como, por exemplo, a investigação criminal por comissão parlamentar de inquérito [CPI], não estão afetadas” ou ainda, “muitas das provas colhidas nesta fase [inquérito criminal], são insuscetíveis de repetição em juízo, razão pela qual, este procedimento compete aos profissionais e investidos para o efeito, além do necessário CONTROLE JUDICIAL E DO MINISTÉRIO PÚBLICO”.

Entenderam??

Enfim, povo brasileiro, vamos ler, vamos nos informar!! Se é pra lutar, que seja para repensar os procedimentos investigativos do Ministério Público e PROPOR mecanismos mais eficazes de CONTROLE, inclusive para o CIDADÃO, e não ficar bradando a torto e a direita como alienados, que, infelizmente estamos nos mostrando ser. Tá difícil, hein!!

Crítica #01 - J. Edgar

(Publicado no Cineplayers: http://www.cineplayers.com/comentario.php?id=32349)

Confesso que tenho uma ligeira desconfiança com os trabalhos de Clint Eastwood. Não que seus filmes sejam ruins, mas o histórico deles, classificados como “duros” ou algo do tipo (veja-se, por exemplo, seus filmes de faroeste), são dos tipos que particularmente não me agradam, à exceção de “Menina de ouro”. No entanto, temos aqui um filme tocante, diferente dos outros filmes da carreira deste eminente diretor, e talvez por isso tenha causado tanta estranheza. Eu gostei.

O que primeiramente salta aos olhos é o tom escuro, que permanece ao longo da projeção. Também praticamente não há ação, mesmo nas cenas ágeis em que o nascente FBI age. Aqui, temos um filme-biografia feito para emocionar, centrado em J. Edgar Hoover, um dos homens mais influentes da história dos Estados-Unidos, vivido por Leonardo DiCaprio, o qual, diga-se de passagem, já teve atuações bem melhores. Naomi Watts, que interpreta a secretária de Edgar, está excelente, assim como o companheiro de Edgar, Clyde Tolson, vivido pelo jovem ator Armie Hammer. Mas a atuação mais memorável é a da mãe do protagonista, vivida por Judi Dench, praticamente perfeita.

A maquiagem também não ajuda tanto, muito diferente do roteiro, o qual passeia pelos acontecimentos e oferece uma aula de história sem ser didático, além de mesclar fatos presentes e passados de forma competente. O filme mostra como nasceu o FBI, sendo J. Hoover Edgar o primeiro presidente desta organização, a qual foi comandada por ele em 48 anos. Começou perseguindo comunista, mas veja a ironia: o Estado, para tal, precisava de poder centralizado, controlar as identidades dos cidadãos, reforçar o poder das instituições, criar arquivos secretos, armar-se, contratar cientistas, deter informação e conhecimento, não se ligar a partidos, ter disciplina, ser, de certa forma conservadora. Seria exagero, então, perceber semelhanças entre a democracia mais famosa do mundo e o regime comunista? Este filme consegue passar essa mensagem com inteligência, o que o torna simplesmente delicioso e surpreendente de ser assistido. Nunca a História (com H maiúsculo) foi mostrada de forma tão reveladora.

No geral, o homem é formado pelas instituições e estas o formam. Não há heróis, nem vilões, nem um sistema que se faz de forma autônoma. Não há uma figura emblemática. É tipicamente um filme contemporâneo: a moral nacionalista está em tela, mas não há preenche como um todo, pois é redesenhada com indivíduos, paixões, escolhas e sentimentos, além de muita fantasia no sentido de haver histórias feitas para se promover, ou seja, histórias que não são necessariamente verdade.

A relação homossexual que Edgar vivia é mostrada de forma delicada, assim como todo o resto. Definitivamente, não parece um filme de Eastwood, e também seria surpresa a academia indicá-lo: joga na cara que os americanos não têm memória, e que seus heróis foram construídos com base, prioritariamente, em discursos, e não em fatos. Quando Edgar, em determinado momento do filme, questiona o papel do indivíduo numa sociedade democrática, temos a sensação de que este ser “transcendente”, socialmente construído, apesar de ainda ser muito mal compreendido, está no cerne da nossa cultura, e toda essa complexidade em torno de tal imagem é o que torna a vida mais sublime. Esse, na verdade, é o grande mérito do filme: fala de um indivíduo influente sem nunca tornar-se um filme “egocentrado”; fala de instituições sem nunca esquecer-se dos indivíduos que a criaram.

E a cena final, linda de dor, coroa esta excelente obra, filmada de forma tênue e sofisticada. Um filme altamente recomendado.

Artigo #01 - Esclarecendo o "cura gay", a piada da semana

Não há o que temer. Esse Decreto Legislativo apelidado de "cura gay" é uma piada. Sinceramente, não estou nem um pouco inseguro quanto ao fato de que NÃO terá sucesso nenhum, mas vamos lá. 


Primeiramente, esclareço que não sou da área jurídica, mas há um peso "simbólico" quando se conta essa piada de CURA GAY promovida por certos parlamentares. No entanto, do pouco que eu entendo do nosso processo legislativo, em uma análise rápida, posso afirmar de antemão a inviabilidade deste circo.


Pra começar, não se trata de um PROJETO, mas de um DECRETO LEGISLATIVO. Sendo assim, ele não revoga e nem inova em nada. A ideia é SUSTAR um artigo do Resolução do Conselho Federal de Psicologia que proíbe a patologização de práticas homoeróticas, com a justificativa, pasmem, de que o Conselho extrapola o seu poder regulamentar!! Ou seja, os Conselhos não podem mais fazer aquilo que foram incumbidos de fazer!!!

Foi isso que a cúpula que está na Comissão liderada pelo Feliciano entendeu. Agora pergunto: quem tem mais autonomia e competência para regular as práticas dos psicólogos: os líderes fundamentalistas ou o próprio Conselho? Pois é. Na cabeça deles, o Poder Legislativo deve regular tudo, e o que não passar por eles pode ser qualificado como extrapolação. Incluindo medidas de um Conselho!! É provável que morra na Comissão de Justiça esse troço, mas adiante...

Evocar a incompetência de X ou Y não é de hoje. Essa piada realmente não é nova. O que mais se fala é que o Judiciário, por exemplo, não tem competência para definir novos arranjos familiares, ou que CNJ não pode decretar que está errado se contrapor ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo, não pode fazer isso, nem aquilo, etc etc mimimimi... As questões de competência aparecem com as mesmas justificativas furadas, e se o Judiciário regula certas medidas, é porque foi provocado, devido a completa OMISSÃO dos nossos legisladores em garantir os direitos LGBTs. 

Por falar no Judiciário, aqui vem a grande sacada: a competência do Congresso Nacional é apenas a de sustar o ato normativo que supostamente extrapola a competência do Conselho de Psicologia. Não lhe compete anulá-lo ou retirá-lo do mundo jurídico. Posteriormente, portanto, o judiciário poderá questionar o ato de sustação. Aí eu pergunto: acompanhando as últimas decisões dos nossos juristas, será mesmo que eles entrarão na onda conservadora??? DUVIDO.

Por tudo isso esse decreto é uma piada. É provável até que nem o Feliciano acredite nele, isso apenas dá força pro discurso homofóbico, como se esses piadistas vestidos de deputados estivessem a brincar com nossa cara. Portanto, fiquemos tranquilos, mas nem tanto. Afinal, a piada é de muito mau gosto, e a comunidade LGBT, sinceramente, cansou dessa palhaçada!!

Welcome!

Tomei vergonha na cara e criei esse espaço, apesar de ainda ser muito zerado  na internet heheheh

O BLOG contemplará textos meus sobre o mundo social de forma geral, em especial minhas reflexões críticas sobre política, em geral, e sobre a diversidade sexual e de gênero, em particular, além de literatura e cinema, que eu adoro!! Prometo críticas, crônicas e poesias!!

Sejam bem-vindos

Pleasure: o hedonismo e o estoicismo degladiando-se

Dirigido por uma diretora feminista, a sueca Ninja Thyberg, podemos afirmar que "Plesure" fica no limiar entre o filme denúncia e ...