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10 de junho de 2015

Dia das Namoradas


Ela estava encostada à porta da frente, solitária e pensativa. Um rabo de cavalo preso com a graciosidade de quem outrora ousava em tal visual para chamar a atenção. Era só um arremedo na tentativa de se sentir bem consigo mesma: estava no limite, prestes a desabar. Deu um bom dia arrastado ao porteiro do prédio, como se o sol ainda não tivesse lhe tocado a face, como se seu sorriso jovial fosse tudo menos a verdade que gostaria de carregar consigo. Na verdade, por mais meiga que fosse por fora, sua alma conseguia se esconder de forma impávida, mas com esforço. Era realmente necessário ter força.

Dia das namoradas. Ela mal conseguia lembrar-se do ano anterior. Foram seis anos uma ao lado da outra. Lembrou-se do primeiro dia das namoradas em que passaram juntas, em que foram jantar num restaurante italiano e tiveram que contar as moedas para poder, em paz, fazer o pedido do prato mais barato do menu. E estavam alegres, compartilhando os até então três meses de namoro, que logo se transformariam em um noivado, numa promessa que fizeram mais aos pais do que a si mesmas. Lembrou-se de como o garçom sorria para a sua namorada, como se a estivesse paquerando, e de como decidiram, naquele momento, sem dizer uma palavra, mas apenas com o olhar mútuo, dar o primeiro beijo em público. A cara do garçom misturava surpresa com um certo desejo velado, mas elas não se importavas. Tinham conseguido se interpretar em sinais.

E em três anos de convívio e relação mútua, onde uma simples respiração descompassada já lhe indicava um mínimo de sensibilidade, “hoje você não está bem”, relatavam com frequência, foram mais do que suficientes para decidirem compartilhar o mesmo espaço. Passaram a morar juntas.

Ah, conviver... Lembrou-se também das inúmeras taças de vinho. Era comum, às sextas-feiras, serem embaladas por iguarias suculentas e adiposas, como pizzas de bacon, embora saboreadas com um vinho portenho doce e suave. Desta vez, já empregadas,professora de literatura e nutricionista, planejavam oficializar a relação assim que a primeira terminasse o mestrado. Ideias e ideias. Nada disso vingou.

Agora ela estava ali, com o diploma na mão e com o coração vazio, esperando sua ex-noiva visitar (talvez pela última vez) o apartamento em que ambas compartilharam mais do que segredos: compartilharam seus melhores anos de juventude e vigor.

A tarde, ainda que ensolarada, se inebriava de um ar nublado e de rubros corações em bexigas esvoaçantes, deslizando pelos transeuntes na praça em frente ao prédio. Tanto riso fácil e tantas palavras de otimismo serão trocados neste dia 12 de junho, que a vontade que ela tem é de correr pelas ruas e fazer desacreditá-los. “Não dura para sempre”, berrava seu coração. E ela ali, consciente de que era objeto de desejo de alguns vizinhos, que poderia simplesmente soltar os cabelos ao vento, lisos e sedosos, e transfigurar-se na mulher que sempre fora. Mas preferia manter-se menina, recatada, vítima de um destino sobre o qual não se preparara.

Era muito duro receber a visita de sua ex justamente no dia das namoradas. Mas era a data em que ambas estariam disponíveis. Já fazia uma semana que não se viam, soubera por uma amiga em comum que a clínica de orientação nutricional da sua ex estaria prestes a inaugurar, em parceria com diversas academias que pipocavam na cidade. Não saberia ao certo como ela poderia ser tão competente em prescrever dicas dietéticas, em como ela era eficiente em cuidar do corpo, embora fosse um desastre para cuidar da alma.

Desgaste talvez não fosse a palavra certa, nem rotina. Era o que mais queriam, afinal! Aquele cheiro de café durante a correria da manhã, os discos da Adriana Calcanhoto em um fim de tarde chuvoso, a receita mais fajuta em dia de visitas, tudo isso num clima harmonioso, que simplesmente some. Desaparece. Tanto que, por mais que fizesse um esforço, não conseguia se lembrar do ano anterior, talvez aquele dia das namoradas fora esquecível pela viagem programada que não acontecera. Talvez.

É angustiante quando não se consegue apontar motivos, ainda que tal situação enseje um número desordenado de acusações. Se pelo menos houvesse uma terceira pessoa, o foco estaria ali, mais claro, mais nítido, e perfeitamente mais vulnerável. Ocorre que os fantasmas assustam bem mais. O que não se sabe, o que está por trás de um relacionamento que se esgota sem um motivo aparente, é muito mais assombroso. Torna as duas, vítimas e algozes de seus próprios destinos e sentimentos.

Perdeu a conta dos litros chorados, não pela partida ou pelo fim, mas pela certeza de que não haveria mais volta. Tudo isso é pesado demais, uma tonelada que se forma inicialmente depois de ter ficado claro que não existia mais nada a aquecer o coração, a não ser a saudade e a vontade de voltar a ser aquecida. Afinal, não é sobre não ter a pessoa em si, mas sobre o medo de ter somente a solidão. Nessas alturas, é como você se indignasse por dentro, pensando o quão pode ser tão pessimista, porque de fato é uma sensação de derrota que precisa ser superada. E vai sendo superada, aos poucos, em doses homeopáticas.

Neste meio tempo, construíram um patrimônio juntas. Precisavam agora, friamente, exercer o dom da contabilidade e separar os pertences. Os objetos pessoais já não se restavam no apartamento. E, de repente, deu um riso nervoso, quando veio em sua mente o quão fragilizáveis estavam quando nem uma e nem outra assumiram a posse do DVD “Como esquecer”, protagonizado por uma Ana Paula Arósio em seu épico do cotidiano para esquecer um amor. Não, o orgulho as intimava para empurrar para a outra a dor que era de ambas.

Já meio cansada e com os olhinhos fechando, ela finalmente a avista. Alguns minutos se passam até que elas possam cumprimentar-se friamente no hall, não com medo das retaliações a que possam ser objetos, mas com a falta de entusiasmo que finalmente sentem que as condenou.

Ao entrarem no elevador, só se ouve um “Como vai o Hulk?”, “Vai bem”. E só. Hulk, o cachorrinho que fora levado do apartamento, talvez fosse o mais próximo que tiveram de uma cria. Elas entraram no apartamento e se deram conta de que não havia nenhum tapete à porta de entrada. Talvez tenha ido na caixa junto com os discos de vinil. Nada mais fazia sentido, nem tinha o porquê de ser coerente.

Então, quando trancou a porta, finalmente ela ouviu um “Como você está?”.

Engraçada a percepção, a pergunta veio no momento em que estavam compelidas a sentir o subterfúgio daquele apartamento, palco de juras e de planejamentos mútuos. Possuía certo rigor mítico, como se à espera de um futuro não concretizado, mas delineado.

Trocaram trivialidades, “eu estou bem”, obviamente como se diz a uma velha tia quarentona que não se veem há anos. Não sabiam nem o que sentir, muito menos verbalizar essa emotividade. O jeito era canalizar uma para a outra, que eram, afinal, a fonte de toda essa profusão de sensibilidade. Ora, elas estavam ali! Fortes e imponentes, aparentemente. Deveriam transparecer a segurança que sabiam não ter. E foi o que fizeram, com um bloco de anotações a listar móveis e eletrodomésticos que seriam retirados por um amigo em comum, dono de uma empresa transportadora.

Obviamente que ela não aceitou ficar para jantar, embora falsamente tenha emendado com o típico “adoraria”. Reparou como esse “adoraria” sempre vem acompanhado do “mas”? “Eu adoraria ficar para jantar, mas ainda tenho que resolver umas pendências da clínica”. E você percebe que algo mudou quando esta resposta, que evita prolongar o contato, é a que mais satisfaz.

Então, chegam até o quarto. Não há controvérsias quanto a penteadeira, embora não tenham como avançar mais. Era melhor deixar a cama e o guarda-roupa fora de cogitação. Mas então acontece o inevitável. Sua ex desaba na cama, como se estivesse, desde o princípio, a retrair aquele choro que vem como um dilúvio, e com sonoros pedidos de desculpa!

O que estaria acontecendo com aquele choro? Que confusão é essa em que terão que rever o pacto firmado para o término? Por que dificultar as coisas em momentos que pareciam tão derradeiros?

“Desculpa por isso, estou me sentindo péssima! Queria que fosse diferente. Queria que hoje fosse diferente.”

Ela deu ênfase ao “hoje” como se precisasse realmente desse esforço. A anfitriã, então, quebra a regra estabelecida do contato e a abraça. Mas não com aqueles braços maliciosos que esperam sempre o roçar dos seios. Não, foi um abraço de afago. Foi um abraço a dizer que ela não precisava se preocupar, pois ficariam bem. Foi um abraço de alguém que dizia saber que estava perdendo e ganhando uma nova oportunidade ao mesmo tempo.

E foi incrível como a segurança de uma contagiou a outra. “De certa forma, hoje está sendo um dia diferente”, rebate.

Sim, o dia em que perceberam que era melhor seguir adiante. Ela sabia que o choro que fora contido até o presente momento significava um pedido de perdão por não podê-la mais fazer feliz, e não um pedido de retorno para que insistissem num fardo que não se pode mais suportar.

E mesmo que a consciência de ambas estivesse determinada pelo fim, elas então se cumprimentam de forma amistosa, e decidem que é o momento certo pelo qual estavam ansiosamente aguardando: “tenho um presente pra você”, e a outra, com espanto e com um leve sorriso, já controlando as lágrimas que insistiam em cair, reponde de forma arranhada: “não acredito... eu também!”.

E elas enfiem sorriem. Nervosamente, mas sorriem. A professora, então, retira da estante o seu livro preferido e entrega à ex amante, ao passo que esta pega da bolsa o que parece ser uma caixa com uma imagem da sua santa protetora. “Quero que fique com você”, diz.

E elas se presenteiam com objetos pessoais que lhe são valiosos, como a dizer que, na verdade, uma só pode levar o que há de melhor da outra. E se despedem com um beijo, não daqueles apaixonados, mas com a certeza de que a maturidade finalmente lhes alcançou, num dia das namoradas marcado pela passagem de um amor que não existe mais, simplesmente porque persiste para a imensidão do mundo que se abre para elas.





8 de junho de 2015

Sobre religião e estigma na Parada da Diversidade

Vamos imaginar que eventualmente você ouça uma música não muito boa, de um estilo que você curta bastante. ok, vamos exagerar, digamos que a música seja sofrível. ruim mesmo. certamente alguém conhece uma mpb, um rock, um jazz, que sejam intragáveis. agora vamos imaginar que esta singela experiência o faça maldizer todas as outras músicas de tal estilo, isto é, por um exemplar podre você odeia todo o restante. Muito radical, não é?


Imagine agora um filme terrível que você assistiu. Certamente você não desistirá do cinema em geral por ter visto uma comédia besteirol do Adam Sandler (mil perdões aos seus fãs, mas é este o tipo de filme que acho insuportável). Pois bem, certamente haverá outros filmes tão ruins quanto, ao passo que também existirão maravilhosas obras-primas da sétima arte lhe esperando para serem apreciadas. Por um filme ruim não se pode julgar todo o cinema, não é?


Então, tomei a liberdade desses exemplos esdrúxulos para dizer o que é um estigma. Estigma é quando você julga o todo por apenas um, sendo “esse um” geralmente o mais conveniente possível ao discurso de quem estigmatiza. Falo isso pois na parada Gay de São Paulo (07/06/2015) foi precisamente o que ocorreu com muitos discursos ao se depararem com exageros de umas poucas pessoas, envolvendo encenações religiosas do tipo: gays e lésbicas sendo crucificados pela homofobia nossa de cada dia (bela metáfora, eu diria), ou a encenação de um beijo gay envolvendo a figura de Jesus (de gosto duvidoso), ou crucifixos em órgãos genitais (de muito mau gosto), entre outras imagens, as quais foram o suficiente para os estigmatizadores de plantão julgarem todo o restante. Não adianta nem discutir, “gay é assim, querem afrontar”, pensam.


E como se enganam! Há LGBTIs dos mais diversos tipos, dos religiosos ao que curtem bate-cabelo, dos ateus aos que frequentam cultos evangélicos, dos mais afeminados aos que mais parecem protótipos truculentos de machos “alfas”, dos que frequentam parada gay àqueles que preferem ir a um jogo de futebol (e, diga-se, tipos não necessariamente excludentes entre si).


Agora imagine que um grupo de heterossexuais profane a imagem de Deus em pleno carnaval. Certamente ninguém falará: “esses héteros são uns sem-vergonha, ficam usando a imagem sagrada! Pecadores!” . Não, isso não ocorre. Não estamos acostumados a qualificar o heterossexual em função da sua sexualidade. Em outras palavras, não estigmatizamos o gênero decifrável. E que bom! Melhor seria se fosse assim para todos.


Vale lembrar que a parada hoje é chamada de “parada da diversidade”, compreendendo todas as possíveis formas de expressão, inclusive da heterossexualidade, ainda que essa normatividade não precise ser continuamente firmada, afinal. Isto só ocorre com os LGBTIs porque vivemos num paradoxo: entre o firmar uma identidade gay e, ao mesmo tempo, querer a igualdade que esta identidade representa. O “beijo gay” só estará livre de preconceitos quando se transformar em apenas “beijo”, momento em que todos poderão contemplar a beleza que é o beijo entre seres humanos que se amam. Mas enquanto o beijo gay não é naturalizado, fica difícil para certas pessoas considerá-lo apenas beijo, já que muitos ainda acham a cena mais abominável de uma novela, considerando uma com cenas de homicídios e lotada de infidelidades conjugais.


Além disso, na mesma parada da diversidade houve o manifesto de religiosos em favor da liberdade de orientação sexual. Logo, a recíproca é verdadeira: nem todo cristão é fundamentalista!


Por isso que, perante a livre encenação artística nas paradas da diversidade, não se pode atribuir nada ali a todo o restante. A diversidade abarca inclusive o terreno ideológico. Não se trata de julgar as pessoas LGBTIs, e sim de julgar aquela representação artística em particular, se agrada ou não, de acordo com seu conceito moral. No entanto, se o seu conceito moral for do tipo “LGBTIs são pecadores”, a sua mente é tão fechada que nem mesmo se os trios da parada entoassem a Sétima Sinfonia de Beethoven você os veria com bons olhos. E ainda bem que um Michelangelo, da Vinci, Cole Porter ou um Sócrates são lembrados mais pelos seus desempenhos em suas áreas do que pela sexualidade que praticavam (só espero que, depois dessa, não sobre pra Monalisa!).

14 de maio de 2015

Pelo direito de ser Feminina


Bicha pintosa. Colorida. Afeminada.

Essas certamente são as mais leves e aceitáveis nomeações àquelxs gays que dão o nome, minha filha! Gosto assim, quando chegam chegando.

Não suporto aquele discurso de “Se fosse pra namorar com mulher, eu seria hétero”. Tá boa? Cansou de bater siririca pros parceiros da Emmanuelle nas noites de cine Privê da Band, que nem se uma gata ao estilo Ísis Valverde ou Juliana Paiva te cantasse, iria funcionar o dito cujo.

Aliás, é evidente que todos nós temos direito a gostar de quem quisermos, a se sentir atraído pelo musculoso sarado e truculento ou amar aquele corpo mignon que dá pinta. Mas quando se brada um “não curto afeminados”, é quase um brado ao seu estilo pessoal de aversão a tudo que seja, digamos, fora do arquétipo masculino tradicional. Ou seja, a frase fala sobre sua personalidade mais íntima, e não sobre o seu gosto em relação a parceiros. É como se o “eu sou discreto” lhe fosse como um cartão de visita prioritário, e você, impermeável a tudo que possa sugerir a sexualidade fora desses padrões, se afugentasse no armário com medo de andar com esses “indigentes”.

Lembro-me de, certa vez, estar em uma parada Gay com um amigo militante. Ele queria “ficar” comigo, mas o via apenas como amigo. De repente, aparece do outro lado da rua o garoto com quem eu havia ficado na semana passada. Uma camisa amarela berrante, de óculos escuro, bermudinha justa, também militante dos grupos LGBTs, passeava sorridente pela calçada da diversidade. Aí o meu amigo prontamente disse, “foi com essa mulher que você ficou?”. Nem tinha percebido, na verdade. Ele continuou: “será que eu vou ter que me rasgar também?”. Ainda bem que essa frase foi seguida de um riso não de escárnio, mas de cumplicidade. Agora imagina, se ele que é articulado e esclarecido politicamente se permite a certos comentários, imagine o gay burguês de família cristã, que mal consegue sair do armário (para os outros, né, mana, porque no quarto, nas redes sociais adultas e nos banheiros da faculdade...)?

Não estou querendo dizer que isso é homofobia. Não gosto de banalizar o termo. Mas há certamente um estranhamento fora do normal, um deslocamento desnecessário. Sei lá, talvez o fato de ainda usarem roupas masculinas. Mas aí seria o caso de se perguntar se as travestis e transexuais recebem um tratamento mais digno, o que acho difícil.

E não, não se trata de negligenciar o gosto de cada um. Repito: todos somos livres para se sentir atraído por quem quer que seja. O que ocorre é que a aversão à gay pintosa é acompanhada de um preconceito que escancara. Muitas vezes, a bicha nem precisa dizer nada, basta um simples andar nas ruas para que os machões da vigilância alheia encarem-na com desdém (e alguns, com uma mistura de desejo insólito), revelando, na verdade, o medo pelo diferente, e não exatamente apenas uma expressão de gosto por determinado tipo de parceiro. Afinal, não precisa tomar justamente esta característica como seu cartão de visitas. No lugar de “Olá, me chamo Daniel, sou dentista e adoro cinema”, você diz “Olá, sou Daniel, não curto afeminados e sou discreto”. É mesmo necessário isso? Ou é puro medo de imiscuir-se ao que você abomina, dizendo para si mesmo que, de maneira nenhuma, tem preconceito? Sei...

Não sou hipócrita. Adoro “macho” com cara de “macho”, mesmo sabendo que posso problematizar horrores esse “macho” de quem falo gostar. Amo pêlos e aquela pegada forte. Mas o que é uma preferência diante da imensidão do mundo, diante das possibilidades de se relacionar, seja no sexo, seja na amizade, seja dividir o banco do avião com uma travesti sem ficar se preocupando no que a comissária vai pensar.  Pois não me venha me dizer que essa aversão toda nada tem a ver com o medo de descobrirem que você "curte". É bem isso mesmo. Isso tem mais a ver com seu armário particular do que com a imagem do outro.

O meu afago é saber que, depois de umas cervejas , o bate-cabelo naquela boate gay mais pererequinha da cidade, consegue animar mais do que o rock psicodélico que você faz questão de anunciar ser fã. Claro que você pode gostar de um Led Zeppelin e curtir a Lady Gaga numa boa. Agora pense, mesmo amando os dois estilos, há aqueles homens que fazem sexo com homens que vão negar até a morte curtir uma Rihanna, e esbravejar com gosto serem fãs de Heavy Metal. Cada um faça o que bem entender. Só não me venha se achando menos gay por isso.


No final das contas, ainda há algo pior: quem estenda esta divisão comportamental entre os ativos e os passivos. É muita dissimulação pra uma mente só, olha. Por isso que eu gosto delas, não tem medo, elas peitam, elas lacram. Confesse que é esse seu principal recalque: a liberdade. 

12 de maio de 2015

O amigo hétero

Dois amigos, um gay e um hétero conversavam em frente a uma Igreja:
- Que saber, eu não quero ser mulher...
- Eu também não.
- E também não tenho a mínima vontade de sair por aí gritando minha sexualidade.
- Eu também não quero isso.
- Sei lá, queria algo mais íntimo... Eu queria casar nessa Igreja!
- Eu também!
- Eu queria ter filhos.
- Eu também...
- Dois. Ou talvez três...
- Talvez.
- Mas sabe, eu ainda não encontrei a pessoa certa.
- E sabe que eu também não?
Momento de reflexão.
- Eu não entendo porque dizem “ditadura gay”, você entende?
- Não.
- Afinal, gays não querem privilégios, querem apenas os mesmo direitos que os casais héteros, concorda?
- Claro que sim.
- Andar de mãos dadas, demonstrar afeto em público, poder se beijar no final da novela das oito, cantar alguém do mesmo sexo com a mesma facilidade que um homem a uma mulher ou vice-versa, chamar os sogros para o almoço de Natal, apresentar o companheiro ao bisavô de oitenta e quatro anos...
- Verdade.
- E mesmo a Lei anti-homofobia, não cria privilégios, já que a Lei é contra discriminação e preconceito por qualquer orientação sexual e qualquer desigualdade de gênero.
- Concordo.
- E o amor entre pessoas do mesmo sexo é tão natural, tão óbvio, mesmo entre outras espécies na natureza.
- Hã-ham.
Mais uma pausa.
- E quando homossexuais reivindicam ser uma família, é tão clichê, adotar,  casar, é tão clichê, não acha?
- Clichezão.
- Sinceramente, não sei por que alguns têm medo.
- Nem eu.
Mais uma pausa.
- Quer saber, cansei dessa hipocrisia!
- Eu também.
Eles se olharam.
- Me beija!
- O quê?
- Me beija, cara!
- Você tá maluco, eu não sei...
- E precisa saber beijar?
- Não, você entendeu errado.
- Um beijo seria um ato político, para mostrar às pessoas que vêm a esta Igreja, e você deve concordar comigo que essas pessoas precisam de um choque de realidade.
O outro fica pensativo. Pensativo.
Passado uns três minutos, ele concorda, “mas só um selinho”, avisa.
- Quer saber, esquece.
- O quê?
- Esquece essa historia de beijo!
- Mas por quê? Eu juro que não tenho mau hálito.
- Não é isso. Só acho que já é demais desnaturalizar um ato, como um beijo, que deveria ser a troca de carinho e afeto dos mais íntimos, para então se tornar algo pragmático, um meio para almejar outros fins. Perde-se toda a sua concepção original, você não acha?
- Verdade – diz, meio confuso.
Então, o rapaz que propôs o beijo dá meia-volta, já cansado daquele ambiente.
- Bem, agora vou falar com a Fernanda, temos que começar os preparativos para nosso casamento.
- Ok.

E o amigo gay fica ali, absorto. Como esses héteros estão arrojados! 

8 de maio de 2015

Olívia

OLÍVIA
(Organização de Livre Identidade e Orientação Sexual)

Organização
Liberdade de expressão
Integração social
Valorização das Comunidades
Informação
Amor

ORGANIZAÇÃO

Já ia dar dez horas da noite. Estourado. Já não aguentava mais repassar todos os comandos, carregar vários avisos, confundir os nomes, muitos créditos perdidos ligando pros amigos perdidos, esquecer de comer ou de ligar pra casa pra dizer que estou bem. Mas nada disso importa: o OLIVIA sobrevivera ao seu primeiro grande evento.

Foi desgastante. Não pelo secretário de saúde que não compareceu, nem pela microfonia insistente. Quando se sabe que há boicotes até mesmo de amigos em comum, e que vários grupos LGBTs podem ser engolidos por oportunistas, você vê que ainda assim a superação é mais aterradora, você não sabe ao certo se quer mandar o outro pra mais longe ou se quer sorrir triunfantemente. Mas o fato é que não havia tempo para orgulho, só queria chegar em casa e deitar na minha cama quentinha.

Uma semana depois, “marcha para Jesus”. Um espetáculo. Várias faixas, líderes religiosos, carros, som, muito dinheiro envolvido. Assistia a tudo como um bom transeunte, sentindo uma vontade danada de jogar uma bomba naquele pastor que bradava ferozmente em cima de um trio. Não é inveja do quanto esses cristãos fundamentalistas são bem articulados e endinheirados, mas é a massa que ali segue que me deixa enfurecido.

Até que um vizinho da Universal se aproxima. Ele apenas sorri. Então, sorrio de volta, aquele sorriso falso. Estou apenas sendo simpático. E ele se aproxima de mim e me dá um abraço, ao ouvido, diz: “Jesus te ama”!

Não saberia dizer, ao certo, o efeito desta frase. Ao mesmo tempo em que me acalenta, me bate com força. É hora de fazer mais.


LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Que a homofobia se confunde com liberdade de expressão já não há dúvidas. Quantas mortes e quantas pedradas foram jogadas, mas que não doeram tanto quanto uma palavra proferida?

Ela estava ali no banco da praça, chorando. Quando me aproximei dela, percebi seus olhos vermelhos. Fui tomar suas dores.

Tinha acabado de tomar um fora da namorada. Ela, tão loira e tão linda, não conseguia ser bem sucedida nos relacionamentos. O sorriso das crianças nas praças não conseguia segurar o seu choro.

Convidei-a para a próxima reunião do OLÍVIA, talvez fosse importante uma voz feminina sensibilizada. Mas não era isso que ela queria. Nem beber, nem sair pra dançar. Ela gostava de pintar, mas estava muito triste para ao menos se levantar dali. Então, subitamente tive uma ideia. Fui às pressas ao QG do grupo, onde estávamos criando cartazes e artes para o nosso próximo evento. Só precisei de um balde de tinta e pincel. Ela continuou me esperando na praça, aliás, não me esperando, mas se remoendo em desconsolo.

Ao fundo, um muro pinchado com os seguintes dizeres:

“Que todos os viados e sapatões sejam de uma vez queimados no inferno!”

Eu apenas lhe mostrei a tinta e o pincel, e com a cabeça lhe apontei o muro ao fundo. Talvez ela já estivesse cansada de ficar sentada. O fato é que, de pronto, ela se levantou para enfim agir, sentir-se viva.

Ela pegou a tinta e o pincel, e se pôs a apagar aqueles dizeres de ódio. Mas não tudo. Apenas escolheu meticulosamente as letras para apagar, de modo que ainda restasse a seguinte mensagem:

“Que todos os viados e sapatões sejam -- --a --- ----mados -- --------“.

E ela, enfim, sorriu.


INTEGRAÇÃO SOCIAL

Discussão acalorada sobre apoiar ou não as cotas para travestis e transexuais nas redes públicas de ensino superior. Talvez a dificuldade maior não estivesse no acesso, mas na permanência dos estudantes destoantes da heterossexualidade.

Cotas, cotas, e mais cotas. Desse jeito fica difícil.  

Até que a única travesti do nosso grupo OLÍVIA pede a palavra e fala sobre os índices alarmantes de violência e assassinato às pessoas trans. São as cotas informais a que se sujeitam. Alarmadas mais ainda se forem pobres ou negras. Contou sobre como é difícil sobreviver em um mundo demasiadamente hostil, de como aturar as piadinhas infames na escola lhe parecia mais difícil do que aquela intragável lição de matemática, de como não conseguira apoio nem dos pais.

E por fim, concluiu: era contra as cotas! Queria entrar por mérito próprio em uma universidade!

Ficamos todos boquiabertos, ao passo que ela prontamente emendou: “queria mesmo era cotas para o bom senso”!


VALORIZAÇÃO DAS COMUNIDADES

Primeira ação integrada do grupo OLÍVIA. Muitas vozes de direitos humanos, muitas minorias, muitos indígenas seminus e mulheres de peito pra fora. O auditório estava bonito.

Eu não compreendia o termo minoria. Não entendia, por exemplo, como as mulheres podiam estar ali representadas. Tá certo que sofrem preconceito, discriminação no trabalho (ainda ganham, em média, menores salários), mas não eram propriamente minorias.

Foi então que uma dessas feministas pediu a voz e apresentou um dado curioso: dos últimos 100 filmes comerciais de maior sucesso de Hollywood, não havia um sequer com personagens principais somente do gênero feminino.

Fiquei pensativo. Realmente a questão da representação era cruel, homens brancos e héteros ainda dominavam a cena.

Até que um rapaz com quem estava flertando me perguntou sobre minha contestação. Eu lhe falei sobre o termo “minoria”, e ele prontamente me explicou sobre a questão política, de ser uma minoria em espaços de poder. Eu aceitei a defesa do termo, especialmente por ele ser uma graça. Mas certamente ele percebeu que eu não me dava por satisfeito.

Na verdade, não era bem o termo em si. Era a necessidade de se afirmar enquanto categoria, enquanto uma comunidade para me representar. A minoria era sempre algo, alguma identidade criada: a mulher, o gay, a lésbica, a travesti, o negro, o índio. Como se a toda hora estivéssemos reivindicando um termo, uma identidade. Era minha chatice habitual mesmo.

Então ele me deu pra ler um livro da escritora norte-americana Ann Leckie. Ela é a famosa escritora que não deixa claro o gênero de seus personagens.

Li em uma semana o livro “Justiça Auxiliar”, uma ficção científica avassaladora. Como é possível se entreter nesse universo sem saber o gênero dos personagens?

Fui falar com o gatinho que havia me emprestado o livro. Não compreendia o porquê de ele ter me dado tal obra para ler, se o que eu estava questionando era justamente essa necessidade de se afirmar enquanto identidade específica das ditas “minorias”. E ele me respondeu claramente, “necessidade não há”.

De fato, nada era necessário, então. Mas como assim?

Ele apenas sorriu da minha cara. Ficava com ódio disso, eu cheio de perguntas e ele lá se divertindo.

“A fama dessa escritora se deu por fazer questão de escrever em gênero neutro. De certa forma, ela trabalhou o gênero, partiu dele para anulá-lo. É a mesma coisa que acontece com as minorias. Partimos da identidade, porque se percebe que uma elite hegemônica discrimina por conta justamente dessa identidade. A estratégia é sempre partir das identidades para tentar, de certa forma, anulá-la, no campo da igualdade e da não discriminação. A escritora teve uma sacada, partiu da identidade também, mas igualou tudo. É ficção! A ideia é essa, é chegar num tempo em que as identidades não serão motivos para discriminar”.

Perguntei-lhe se não tinha outro livro dela, ao passo que ele me convidou para ir na casa dele buscar diretamente na estante. Adoro pessoas inteligentes.


INFORMAÇÃO

Uma pena que a televisão sempre adote a postura pouco informativa. Estávamos organizando um evento de saúde em que basicamente iríamos apresentar uma série de medidas de prevenção em relação à AIDS/HIV, pré e pós exposição, realizar testes rápidos, enfim, fazer o papel que veículos de massa poderiam fazer e não fazem.

Foi interessante perceber que muita gente (muita mesmo) nunca tinha ouvido falar. Talvez o preservativo seja o objeto de mais fácil acesso, e que fala de forma mais clara e limpa, sem ruídos. Ou seria o medo de divulgar as práticas de prevenção tendo em vista economizar no orçamento da saúde pública?

Foi então que um velho conhecido meu apareceu no estande onde fazíamos a testagem rápida. Estava tenso, nervoso.

Para completar, ele estava acompanhado do namorado, que na verdade estava lá do outro lado conferindo a exposição de quadros, de forma serena e tranquila.

Ele me confidenciou o medo de saber o resultado, de como o namorado poderia reagir. No entanto, precisava criar coragem. Perguntei se não seria uma boa ideia chamar o namorado para lhe acompanhar, talvez ele lhe desse apoio, e ele achou melhor não.

Fizemos o teste e o resultado deu negativo. Ele ainda assim, ficou meio impaciente. O namorado então se aproximou, e lhe questionei se também não queria fazer o teste. Ele prontamente me disse, “não preciso fazer, sou positivo”.

Fiquei estarrecido. Não entendia o porquê de tanto nervosismo do outro, e fiquei com a dúvida latejando enquanto acompanhava de longe aquele casal soro-discordante caminhando abraçado pelos estandes, de forma marcadamente apaixonada.

Já próximo ao término do evento, o rapaz chegou até mim e agradeceu pelo apoio ao fazer o teste. Eu não me contentei e lhe perguntei por que, afinal, ele havia ficado tão nervoso. “Sou voluntário de um teste de profilaxia pré-exposição ao HIV. Mas meu namorado nunca me forçou a fazer sexo sem camisinha, tenho muito medo, e acho que não vou conseguir. Mas eu não posso falhar. É muito importante pra ele eu continuar bem, você já pensou o grau de culpa que ele poderia sentir? Não posso magoá-lo. Vai ser um baita choque pra ele, e tudo que eu menos quero é perdê-lo por isso”.

Era difícil imaginar mesmo, passa milhões de coisas na nossa cabeça. Mas quando a gente vê que casais soro discordantes começam a sentir um pelo outro, a gente vê que todos os avanços contra a discriminação e todas as batalhas a serem travadas, de fato valem muito a pena.


AMOR

A dor da perda, seja ela qual for, é muito forte. Não adianta tentar maquilar. Não conseguia me concentrar na pauta do dia, em mais uma reunião ordinária do OLÍVIA que transcorria de modo burocrático. Queria poder chegar em casa antes dele partir.

À saída da reunião, passei às pressas no supermercado e lhe comprei aquele vinho tinto. Ao chegar em casa, me deparei com as malas prontas postas no carpete da sala: seria o último jantar no nosso abençoado lar, uma cadeira a menos seria posta durante as próximas refeições.

Assei o pernil no forno e o som decadente de uma MPB tristonha nos embalava naquela noite chuvosa. Lembrei de quando recebia seus amigos em aniversários alegres, de como eu me preocupava em arredar os móveis para fazer uma mini-balada, e de como eu sempre reclamava do som alto depois das onze. Nada mais disso iria me atormentar. Eu, dado ao silêncio e à companhia dos livros, iria sentir falta da bagunça. Isso me machucava muito.

O jantar foi servido e estávamos só nós dois. Eu até ali havia me controlado. Fui pegar o álbum de fotografias para relembrarmos velhos anos que não voltam mais, mas não precisou de tanto: assim que meu marido chegou em casa, depois de um dia de trabalho enfastiante, deu umas garfadas no formidável pernil que havia preparado e prontamente pôs o vídeo que havia passado semanas produzindo. Era hora de saborear o vinho, nós três: eu, meu marido e nosso filho.

E ali no vídeo estava o nosso pequeno, em um uniforme escolar azul bebê, pronto para, pela primeira vez na vida, carregar consigo um livro didático de colorir e uma merendeira carregada de suquinho industrializado; relembramos seu primeiro aniversário, sem os avós, que só ficaram completamente relaxados em aparecer na nossa família a partir do quinto, num aniversário magnífico, lotado de brigadeiros, cachorros-quentes e de conversas ao vento jogada com a família; apareceram no vídeo as primeiras lições de patins, a primeira queda, e o primeiro torneio municipal de que fizera parte, vergonhosamente não se classificando às finais, embora tenha sido nesse torneio que nosso pequeno rapaz, respondendo aos comentários homofóbicos de uns colegas, nos enchera de orgulho; e veio a primeira namorada, uma menina inteligente e livre de preconceitos, mas que acabou se mudando para outra cidade, que saudades dela; e veio faculdade, amigos de futebol, reuniões em grupo, homofóbicos que se afastavam do nosso pródigo por conta do amor vivido pelos pais de mesmo gênero.

Uma lágrima escorreu do meu rosto. Hoje estávamos perdendo nossa cria, estava de mudança para um apartamento onde iria morar com a noiva. Então, finalmente, ela chegou. Sorridente como sempre. Ficamos nós quatro até o final da noite, rindo sobre os prazeres da vida, e preparando os arranjos para o casamento dali uns meses.

De fato, a dor da perda, seja ela qual for, é muito forte. Mas como podemos dizer que perdemos se eu e meu amor conseguimos, como dois homens, criar um outro com tanto amor e com tanto afeto? E veja no que se tornou, não consigo pensar em nada melhor quando, ao sair de casa, ele se vira pra nós com o olhar molhado, nos agradece pela família linda que somos, e ainda continuaremos a ser. E nos abraça de forma tão apertada e lúcida que não deixaria dúvida alguma quanto à família que somos. Que mundo estranho esse, que é preciso confirmar o amor. Mas estamos apenas ali, nos despedindo, com o choro entalado pelo “eu amo vocês, sempre vou amar” que ouvimos da boca de um filho criado com tanto carinho. Não há nada que possa nos derrubar. Mesmo que o tempo nos castigue, que os filhos saiam de casa, e que a roda da vida não pare, não há nada mais forte que o amor. Nada.

O Estado Laico é um embuste

Já um tempo venho me posicionando deslocadamente em relação ao movimento LGBT. Creio que, aos poucos, vou me tornando uma pessoa não quista, e com certa razão: trata-se de um movimento político, portanto, ideais devem ser bem seguidos e defendidos.

Falo isso em relação a um tema que, quanto mais eu leio, mais (re)afirmo minha convicção: o Estado Laico é um embuste. Sim, porque essa história de defender que religião não se deve misturar à política, é uma demagogia tremenda. Ora, por que não? Por que eu não posso levar ao Estado as demandas provenientes de uma moral que eu ache certa?

O problema é que a religião cristã é uma farsante. A bancada evangélica, com o perdão do termo, só existe para conseguir voto dos cordeirinhos, não apresentam nada interessante. Antes fosse uma Teologia da Libertação que fizesse eco no Congresso. Aliás, está lá para barrar projetos de Lei liberais e progressistas, em favor da “família” e dos “bons costumes”. Então, meus caros, veem se entendem: a democracia pode sim aceitar as vozes religiosas, mas não essas que estão aí, que mais pregam o ódio, e não conseguem pensar além da condenação moral, especialmente em relação ao corpo.

É por isso que eu entendo perfeitamente o brado a favor do Estado Laico. É, na verdade, um brado contra o fundamentalismo religioso. É o escudo que se tem, é a defensiva, é o contra-argumento. Mas o Estado Laico que se brada, na verdade se assenta contra o proselitismo, a favor da pluralidade e da diversidade. Então não seria propriamente um Estado Laico, porque é um Estado Laico que se define enquanto perspectiva de Estado a favor da liberdade religiosa, ateísta, e também contrária a aceitar dogmas totalizantes. Ou seja, é uma definição, digamos, capenga e abrangente.

Resumindo: religião pode sim penetrar o Estado. Não há nada de mais. O que não se aceita é o fundamentalismo. Aí entra outra pergunta: seria a religião necessariamente fundamentalista? Duvido muito. Porém, fundamentalistas religiosos de fato não conseguem entender o que seja isso. Suas perspectivas de que determinado comportamento leva à salvação, ao bem comum, engole individualidades e formas de dispor sobre o corpo, sobre a sexualidade, sobre os prazeres que os deixam cegos. Eles acreditam fielmente que os LGBTs são um declínio moral, ao passo que tudo o que os casais mais querem é se tornar família tradicional.

Mas o fundamentalismo é assim mesmo. E é fácil explicar: se a religião X condena, por exemplo, a homossexualidade, os fundamentalistas vão querer que todos pensem assim. Quem pensar fora, está condenado, é ignorante, é cego. E veja bem, quando um homossexual busca seu direito, ele não fere o direito de nenhum hétero. Na matemática, ambos sairiam com direitos garantidos. É diferente, porém, quando se nega o direito a este mesmo homossexual, uma conta que dá direitos pra uns, mas exclui outros. Os pluralistas vão defender o bem-estar de todos. Os fundamentalistas vão defender sua moral e que sua moral seja a moral de todos. Não há lógica.


Só acho que a bandeira da diversidade e do pluralismo deve estar mais visível. Quando se brada a favor do Estado Laico, fica parecendo birra. Cria-se virtualmente um inimigo, e é justamente isso que os líderes religiosos querem, rivais. O que o movimento LGBT precisa entender é que a bandeira do pluralismo abarca todos. Se for isso o Estado Laico, então me dou por satisfeito. Mas na política, os termos nos engolem. E o nosso pensamento de revanchismo parece que não consegue se desenvolver sem fazer inimigos.

21 de fevereiro de 2015

Positivo

É como se meu mundo todo tivesse ruído. E, de repente, as frias calçadas de concreto não conseguissem segurar meu corpo, já devastado. Estou sozinho nas ruas, no feriado da quarta-feira de cinzas. Talvez, anteriormente minha vida fosse carnaval, ao passo que agora já se desfez. Triste.

Ouvi de uma senhora anônima que ela planejava passar as bodas de ouro com o marido em Nova York, mas ele se recusava a viajar à Terra do Tio Sam (mas também do Woody Allen, pensei!), de modo que o impasse do casal se resumia a escolher entre a cidade do jazz e uma tal de Amsterdã. Não sei se choro de comoção, do quanto queria viver um casamento tradicional, regado a discussões sobre qual carimbo marcar no meu passaporte.

Estava num banco de praça. Latido de cães passeando com seus donos, crianças correndo, vendedores de água de coco, sorvetes e refrigerantes tentavam, cada um à sua maneira, chamar a atenção dos transeuntes, ainda que o mais radiante no meio dessa balbúrdia, o seu Zé, fosse o vendedor de suco de laranja natural mais brejeiro de todos. Mas não estava com sede, nem fome, nem me sentia vivo. Eu só queria um sentido para toda essa alegria espontânea dos outros.

Estava a caminho de casa, mas tive que parar neste banco de praça. Desconectei a Internet de meu smartphone, e fiquei por alguns minutos a contemplar a paisagem. Daqui pra frente nada será a mesma coisa. O algodão-doce cor-de-rosa, ainda que permanecesse doce e rosa, teria outro gosto e outra cor. E o pior de tudo, que mal consigo me lembrar das palavras da assistente social, quando ela finalmente revelou o resultado que não esperava escutar. Sim, o teste de HIV deu POSITIVO.



Tive de conter as lágrimas naquele instante. Eu precisava me mostrar forte, aguerrido. Mas as pernas já estavam pesando, ao mesmo tempo em que minha cabeça rodava a uma velocidade incalculável. Estava em minhas mãos continuar me arriscando ou simplesmente continuar vivendo.

Namorávamos há oito meses. E durante todo esse tempo, jamais transamos sem preservativo. Até porque, não foram muitas às vezes em que precisávamos usar. Havia noites em que o vinho ou os filmes de terror nos acompanhavam, e outras em que uma pizza gordurosa ou rodadas de videogame com os amigos nos preenchiam. Tínhamos o tempo necessário para valorizar a presença um do outro das mais diferentes formas. Às vezes, quando eu tinha um dia difícil na faculdade, queria apenas um breve sorriso dele, nem que fosse por alguns segundos, o suficiente para valer pelo dia todo. Era incrível a capacidade dele de sempre estar bem humorado, e bom humor contagia.

Meu namorado trabalha como vendedor em uma grande loja de conveniências. Apesar de estressante para os meus padrões, considerando que minha rotina se resume aos compromissos da faculdade, era ele quem me reconfortava, me reanimava, introjetava aquela lasca de vigor tão necessária ao cotidiano de cada ser humano. Não se preocupava com dietas, nem com academia. Era amante de Virgínia Woolf e de filmes japoneses de animação. Francamente, onde se encontra hoje um homem nerd feminista? Ele queria fazer letras, mas tirando a literatura, não se saía bem em todas as outras disciplinas. Talvez arranhasse na Gramática e na História. Talvez.

Mas agora, não sabia o que fazer. Não sei dizer se o amo. Oito meses parecem muito pouco para tal definição. Só sabia dizer que ainda não era o momento para me afastar dele sem provocar o mais intenso dos sofrimentos. Mas eu precisava me decidir.

Foi escurecendo. Alguns garis da prefeitura ainda limpavam a rua. Eu me levantei do banco com o choro preso. Não conseguia derramar as lágrimas, ainda que parecesse prestes a desabar. Voltei pra casa.

Não tive como encarar meus pais, mesmo sabendo que eles poderiam ser a força de que precisava. A única coisa que queria era adormecer num travesseiro mágico, daqueles que, ao repousar, fizessem apagar da sua memória todo o dia vivido, de modo que o amanhecer trouxesse uma nova chance, como se o dia anterior jamais tivesse existido. Obviamente não foi o que aconteceu. Depois de uma noite pessimamente dormida, a única vontade que tinha era de correr aos braços do meu namorado. Foi o que eu fiz.

Saí de casa e mal tomei café. Queria encontrá-lo antes dele iniciar sua jornada de trabalho, ainda que tivéssemos combinado de nos ver somente depois do expediente. Na verdade, estávamos juntos quando recebemos o resultado do teste, no dia anterior, e desde então, de forma instintiva se fez um silêncio tácito entre nós.

Passei rapidamente na farmácia para lhe comprar um presente. Fui até o trabalho dele, mas ainda restavam alguns minutos para que ele começasse a trabalhar, até que o avistei.

Ele usava um óculos escuro, provavelmente para esconder os olhos vermelhos. Poderia, inclusive, ser dispensado do trabalho, mas não queria se entregar. Demo-nos um forte abraço um no outro, sem saber calcular o quanto o movimento rotacional da Terra deve ter parado para nós.

- Estou aqui. – eu disse.

Foi a única coisa que conseguir dizer naquele momento. Sabia que poderia cometer um erro, mas não poderia abandoná-lo naquele momento: meu namorado descobrira ser soropositivo, ao passo que eu não comportava tal condição. Apesar de ele ter jogado as responsabilidades na minha costa, se queria continuar ou não, e de eu não estar completamente seguro se deveria ir adiante, lhe dei o presente que havia comprado: uma caixa de preservativos, para usarmos.

Foi quando rimos e choramos ao mesmo tempo. E eu, que até então não havia derramado lágrimas, e que sempre recebia seu afago, estava, agora, lhe reconfortando, lhe devolvendo aquele belo sorriso no rosto pelo qual me apaixonei. Se vai dar certo, eu não sei. A única coisa que sabia era que, no final do dia, quando eu voltar da faculdade e quando ele sair do trabalho, iremos nos encontrar na praça, na mesma praça em que, ontem, havia passado horas a fio, mas desta vez iríamos tentar rir da vida, e decidir se mataríamos o tempo com sorvete, água de coco ou com o suco de laranja do mais simpático vendedor do bairro. Ou quem sabe comeríamos algodão-doce, daquele rosa, para enfim descobrir se seu gosto e sua cor permanecem tão doce e tão rosa, tão saborosos e tão vivos quanto antes...



7 de fevereiro de 2015

Crítica: Namoro ou liberdade


8/10

“Namoro ou liberdade” (That Awkward Moment, 2014) pode não ser uma das melhores comédias do gênero, aliás, na verdade, está longe disso. Também fica ligeiramente atrás, no quesito diversão, das mesmas produções do gênero, como as franquias “Se beber não case” ou “Quero matar meu chefe”. Entretanto, colocando na análise outros critérios além das piadas, este exemplar está surpreendentemente à frente dos filmes aqui citados.

Para começar, os três protagonistas estão todos ótimos. Obviamente o roteiro apela para a história do galã Zac Efron, vivendo o papel do simpático Jason, e o rapaz se sai dignamente bem. No entanto, em nenhum momento os outros dois parceiros deixam de aparecer e ter suas cenas bem encaixadas. Aliás, este entrosamento é percebido de forma tão natural nos créditos finais, que toda a sintonia da equipe durante o filme logo é confirmada. Que Miles Teller tem belo time para comédia é inegável, porém, foi extremamente gratificante ver o amigo negro da turma, Mikey, vivido por Michael B. jordan, adotar a linha mais introspectiva, sem perder o bom humor. Isto é, ele fugiu daquele padrão do negro como válvula de escape e palhaço da turma, e é dele as falas mais inspiradas em termos de reflexão, e que não soaram clichês.

O filme trata de relacionamentos, o eterno dilema entre o momento de dizer “sim” (ou não) a uma parceria estável ou curtir a vida de solteirice, assim como o momento tenso entre romper ou não um relacionamento. Talvez o filme tenha pecado em não ser tão adulto em alguns momentos, ocasião em que o poderia ser, por exemplo, se explorasse mais a vida profissional dos rapazes, e se explorasse menos algumas piadas de mau gosto. Entretanto, tentando atingir um público mais jovem, essa escolha pode até funcionar, pois ainda assim lembrou um “American Pie” menos escrachado e mais clean. 

O interessante é que a película poderia muito bem enveredar por esse lado mais maduro, pois os rapazes não adotam sentimentos infantis, nem foram idiotizados pelo roteiro, além de demonstrar certo equilíbrio e talento nos seus papéis. Mesmo porque, o dilema de passar de uma vida de liberdade a uma vida de compromissos demarca muito bem a passagem para esse amadurecimento. Aliás, o mais próximo que ocorreu em relação a essa vivência mais adulta foi com o personagem de Mikey, igualmente tocante a forma como o protagonista vivia um casamento e como se deu o seu desfecho.

Para completar a grata surpresa, a escalação das parceiras dos respectivos amigos soou não apenas natural, mas perfeitamente enquadradas às personalidades dos marmanjos. Todas elas aparecem em suas vidas e foram sutilmente construídas, não estão no lugar comum e apagado, pois da relação com cada um deles, há uma troca de sinergia estupenda, o que faz com que os rapazes acabem mudando ou se adaptando em função da experiência trocada com elas. E, afinal, a relação construída é sempre bidimensional, nunca o ponto de vista masculino se sobressai nessa construção.

Por essas e outras, contando com personagens excelentes e com a possibilidade de ter ido mais adiante (sim, pode parecer frustrante que o roteiro não tenha saído do superficial em alguns momentos) que considero este o melhor exemplar das, digamos, “comédias românticas protagonizadas por amigos héteros” dos últimos anos. Para a juventude que ainda tem um certo romantismo, tem mente aberta e pensa na estabilidade (ou não) dos relacionamentos, esta é uma boa pedida. Ainda que fique atrás de trabalhos mais reflexivos, afinal ainda carrega aquele tom de ser uma comédia enlatada, este filme pode sim apresentar boas sacadas, especialmente pra quem vive tal dilema. E sem perder o romantismo, ou seja, sem deixar de ser clichê. E que bom! Afinal, não se trata de idealizar o porvir dos relacionamentos, não é essa a proposta: o grande dilema do filme, o momento crucial mesmo, é o do início, é o do começar o relacionamento, e não seu desenrolar. Esta foi sua grande sacada, este momento tenso entre o romper, iniciar ou nem engatar um relacionamento, ou seja, That Awkward Moment.


Publicado também em: http://www.cineplayers.com/comentario/namoro-ou-liberdade/39155

28 de janeiro de 2015

Crônica: Uma mulher

- Uma mulher!

Bee, vê se já aconteceu esta cena com você: corpos suados de um lado a outro na academia,mapôs com suas calças de lycra, o magrinho que passa mais tempo ao celular com fone de ouvido, o tiozinho que disputa os maiores pesos... e, de repente, um corpo de boy chama a atenção. E que corpo! Que boy! Morenaço, camiseta justa destacando o peitoral definido, gemido intenso na carga máxima do supino, cara de macho. Eis que surge aquele velho broto, colega de faculdade do boy-marombeiro-magia, que o cumprimenta entusiasticamente, mas não mais do que o próprio: “Amigooo! Nossa, quanto tempo! Arrasou com essa baby-look azul bebê, comprou onde?”

Pois é.

O Sr. Hulk da academia é, de perto, uma mulher maravilha! Obviamente esta sua surpresa lhe faz um tolo, e uma pena que talvez esta não seja a sua surpresa definitiva: sabe aqueles garotos, playboys, que você não dava nada e que fazem o treino se revezando com os amigos nos aparelhos mais disputados (o que, tecnicamente, dobre o tempo de permanência deles na academia, pois vivem em grupo, já que a sociabilidade é o foco, não o treino), ora falando sobre a última balada, ora sobre a balada seguinte? Então, nessa ternura de camaradagem jovem, já no vestiário, você os ouve comentando sobre a pintosa musculosa da academia, com ar de desdém, troçando daquele gênero deslocado. Imagina o que devem falar de travestis e transexuais! São os mesmos que fazem apologia a uma suposta discrição intimada: “Cara, uma mulher... nem acredito!”, “ridículo, né? E parece homem...”, “Devia ter vergonha na cara”. A verdade é que se são gays enrustidos, reprimindo internamente seus desejos, ou héteros recalcados, pouco importa. A ironia do dia é que você se iguala a eles em sua surpresa inconsciente sobre o bombadão de voz fina.

O que sua boca não diz, na tentativa de manter-se politicamente correto e com seu discurso pronto e inabalável sobre sexualidade, o seu pensamento em flash rápido o revela. Pensar para si mesmo: “Tô chocado com essa mulher num corpo de boy”, revela mais da sua personalidade internalizada do que parece. E aí você continua se chocando, mesmo diante de saídas de armários banais como ter um professor gay ou de simplesmente descobrir que seu padeiro é casado com outro homem.

Já na saída da academia, eis que o bonitão-machudo-feminino surge lhe oferecendo carona. Você aceita e descobre que ele mora no mesmo prédio que você, ouve MPB, é estudante de Odontologia, e trabalha como barman em uma boate. Tudo parecia bem, até você descobrir que ele não gosta de Woody Allen! “Como assim?”, você o pergunta, no que ele responde: “Um velho arrogante metido a comediante. Gosto do Adam Sandler!”. E você se espanta, entra em choque!


Ao chegar em casa, ri da situação. Pelo menos, dessa vez, você aprendeu a se chocar pelos motivos certos.

4 de janeiro de 2015

Crônica: Um programa inusitado


O olhar centrado de Carlos era dirigido à porta trancada do banheiro, dentro do qual se ouviam as gotas de água escorrer pelo ralo. Ele a aguardava pacientemente, ainda que lhe faltasse o destemor dos fortes: apenas os dois dividiam aquele fétido quarto de motel, palco de mais uma noite de sexo pago.

Era estranho esperar por ela naquelas condições: estava sóbrio. Carlos queria rir da sua condição, como se suspeitasse de sua coragem consciente. Mas estava lá, esperando tranquilamente o sexo fortuito e descartável daquela moça.

Não havia o que temer, mesmo sendo a primeira vez que alugava um quarto para tal ocasião. Desde quando o seu ex-namorado o deixou, Carlos contava com inúmeras investidas fugazes, trepadas rápidas e esquecíveis, mas nada se comparava àquilo; e, de repente, quando o chuveiro foi fechado e o barulho da água escorrendo ia cessando sobre o corpo de sua próxima amante, o silêncio lhe provocou um certo grau de ansiedade.

Não poderia escapar agora, quando já estava tão perto. O tênue nervosismo estava mais para um desejo de que o ato rapidamente se consumasse.

Estava meio excitado, embora nervoso, quando a jovem se revelou no quarto, asseada, inteiramente nua. Ele sorriu para ela, já sabendo o que reservava aos dois. Ela se aproximou da cama e elogiou o corpo moreno ali deitado. Ela foi se aproximando aos poucos, sem cessar de balbuciar o quanto vê-lo nu a deixava demasiadamente excitada, desejosa, insaciável.

Carlos adorava ouvir elogios, e por um segundo pensou em retribuir. Mas a moça repentinamente lhe tocou os lábios para que ele se calasse. Ela tomava as rédeas da situação, não queria perder o comando.

Carlos imaginou, por um instante, que essa sua submissão pudesse lhe prejudicar ao revelar certa fraqueza, mas logo a insegurança se dissipou: era seu dever ser submisso em tal ocasião. Ela lhe beijou docemente os lábios, e mesmo que Carlos fantasiasse algo mais selvagem, o ritmo daquela formosa mulher lhe pareceu mais estimulante. Ele cedera a seus encantos, aos seus beijos e toques, às carícias ritmadas. Ela lhe tocava a nuca como se fosse a tutora daquele corpo, e ele se deixava levar. Preliminares transcorriam suavemente, feito nuvens de algodão.

Foi então que a moça, delicadamente, lhe pôs de bruços, e ele já não se importava com mais nada, já estava completamente relaxado. Ela encostou seu órgão por trás dele e lhe penetrou com vontade. Ele sentia um pouco de dor, mas ser penetrado por uma mulher cujos cabelos lhe batiam nas costas era de uma sensação incomparável.

E foi assim a noite dos dois, Carlos deixando a mulher ejacular ao lhe penetrar, domado não pela força, mas pelo desejo. Ela se sentiu extremamente satisfeita em possuir aquele homem tão másculo e viril. Mas sabia que tudo não passava de uma ilusão, de algo momentâneo.

Após esbanjar seus prazeres, ela novamente tomou uma ducha e pagou pelos serviços. Carlos jamais imaginava que a vida de garoto de programa lhe fosse pregar tal surpresa: uma cliente inusitada, e por isso mesmo, um sexo revigorante.


Carlos quis lhe perguntar o nome, mas ficou com receio de ofender: nome de batismo ou nome social? Até porque, isso pouco importava. A partir daquela noite, os dois nunca mais se viram.

Pleasure: o hedonismo e o estoicismo degladiando-se

Dirigido por uma diretora feminista, a sueca Ninja Thyberg, podemos afirmar que "Plesure" fica no limiar entre o filme denúncia e ...