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8 de maio de 2015

Olívia

OLÍVIA
(Organização de Livre Identidade e Orientação Sexual)

Organização
Liberdade de expressão
Integração social
Valorização das Comunidades
Informação
Amor

ORGANIZAÇÃO

Já ia dar dez horas da noite. Estourado. Já não aguentava mais repassar todos os comandos, carregar vários avisos, confundir os nomes, muitos créditos perdidos ligando pros amigos perdidos, esquecer de comer ou de ligar pra casa pra dizer que estou bem. Mas nada disso importa: o OLIVIA sobrevivera ao seu primeiro grande evento.

Foi desgastante. Não pelo secretário de saúde que não compareceu, nem pela microfonia insistente. Quando se sabe que há boicotes até mesmo de amigos em comum, e que vários grupos LGBTs podem ser engolidos por oportunistas, você vê que ainda assim a superação é mais aterradora, você não sabe ao certo se quer mandar o outro pra mais longe ou se quer sorrir triunfantemente. Mas o fato é que não havia tempo para orgulho, só queria chegar em casa e deitar na minha cama quentinha.

Uma semana depois, “marcha para Jesus”. Um espetáculo. Várias faixas, líderes religiosos, carros, som, muito dinheiro envolvido. Assistia a tudo como um bom transeunte, sentindo uma vontade danada de jogar uma bomba naquele pastor que bradava ferozmente em cima de um trio. Não é inveja do quanto esses cristãos fundamentalistas são bem articulados e endinheirados, mas é a massa que ali segue que me deixa enfurecido.

Até que um vizinho da Universal se aproxima. Ele apenas sorri. Então, sorrio de volta, aquele sorriso falso. Estou apenas sendo simpático. E ele se aproxima de mim e me dá um abraço, ao ouvido, diz: “Jesus te ama”!

Não saberia dizer, ao certo, o efeito desta frase. Ao mesmo tempo em que me acalenta, me bate com força. É hora de fazer mais.


LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Que a homofobia se confunde com liberdade de expressão já não há dúvidas. Quantas mortes e quantas pedradas foram jogadas, mas que não doeram tanto quanto uma palavra proferida?

Ela estava ali no banco da praça, chorando. Quando me aproximei dela, percebi seus olhos vermelhos. Fui tomar suas dores.

Tinha acabado de tomar um fora da namorada. Ela, tão loira e tão linda, não conseguia ser bem sucedida nos relacionamentos. O sorriso das crianças nas praças não conseguia segurar o seu choro.

Convidei-a para a próxima reunião do OLÍVIA, talvez fosse importante uma voz feminina sensibilizada. Mas não era isso que ela queria. Nem beber, nem sair pra dançar. Ela gostava de pintar, mas estava muito triste para ao menos se levantar dali. Então, subitamente tive uma ideia. Fui às pressas ao QG do grupo, onde estávamos criando cartazes e artes para o nosso próximo evento. Só precisei de um balde de tinta e pincel. Ela continuou me esperando na praça, aliás, não me esperando, mas se remoendo em desconsolo.

Ao fundo, um muro pinchado com os seguintes dizeres:

“Que todos os viados e sapatões sejam de uma vez queimados no inferno!”

Eu apenas lhe mostrei a tinta e o pincel, e com a cabeça lhe apontei o muro ao fundo. Talvez ela já estivesse cansada de ficar sentada. O fato é que, de pronto, ela se levantou para enfim agir, sentir-se viva.

Ela pegou a tinta e o pincel, e se pôs a apagar aqueles dizeres de ódio. Mas não tudo. Apenas escolheu meticulosamente as letras para apagar, de modo que ainda restasse a seguinte mensagem:

“Que todos os viados e sapatões sejam -- --a --- ----mados -- --------“.

E ela, enfim, sorriu.


INTEGRAÇÃO SOCIAL

Discussão acalorada sobre apoiar ou não as cotas para travestis e transexuais nas redes públicas de ensino superior. Talvez a dificuldade maior não estivesse no acesso, mas na permanência dos estudantes destoantes da heterossexualidade.

Cotas, cotas, e mais cotas. Desse jeito fica difícil.  

Até que a única travesti do nosso grupo OLÍVIA pede a palavra e fala sobre os índices alarmantes de violência e assassinato às pessoas trans. São as cotas informais a que se sujeitam. Alarmadas mais ainda se forem pobres ou negras. Contou sobre como é difícil sobreviver em um mundo demasiadamente hostil, de como aturar as piadinhas infames na escola lhe parecia mais difícil do que aquela intragável lição de matemática, de como não conseguira apoio nem dos pais.

E por fim, concluiu: era contra as cotas! Queria entrar por mérito próprio em uma universidade!

Ficamos todos boquiabertos, ao passo que ela prontamente emendou: “queria mesmo era cotas para o bom senso”!


VALORIZAÇÃO DAS COMUNIDADES

Primeira ação integrada do grupo OLÍVIA. Muitas vozes de direitos humanos, muitas minorias, muitos indígenas seminus e mulheres de peito pra fora. O auditório estava bonito.

Eu não compreendia o termo minoria. Não entendia, por exemplo, como as mulheres podiam estar ali representadas. Tá certo que sofrem preconceito, discriminação no trabalho (ainda ganham, em média, menores salários), mas não eram propriamente minorias.

Foi então que uma dessas feministas pediu a voz e apresentou um dado curioso: dos últimos 100 filmes comerciais de maior sucesso de Hollywood, não havia um sequer com personagens principais somente do gênero feminino.

Fiquei pensativo. Realmente a questão da representação era cruel, homens brancos e héteros ainda dominavam a cena.

Até que um rapaz com quem estava flertando me perguntou sobre minha contestação. Eu lhe falei sobre o termo “minoria”, e ele prontamente me explicou sobre a questão política, de ser uma minoria em espaços de poder. Eu aceitei a defesa do termo, especialmente por ele ser uma graça. Mas certamente ele percebeu que eu não me dava por satisfeito.

Na verdade, não era bem o termo em si. Era a necessidade de se afirmar enquanto categoria, enquanto uma comunidade para me representar. A minoria era sempre algo, alguma identidade criada: a mulher, o gay, a lésbica, a travesti, o negro, o índio. Como se a toda hora estivéssemos reivindicando um termo, uma identidade. Era minha chatice habitual mesmo.

Então ele me deu pra ler um livro da escritora norte-americana Ann Leckie. Ela é a famosa escritora que não deixa claro o gênero de seus personagens.

Li em uma semana o livro “Justiça Auxiliar”, uma ficção científica avassaladora. Como é possível se entreter nesse universo sem saber o gênero dos personagens?

Fui falar com o gatinho que havia me emprestado o livro. Não compreendia o porquê de ele ter me dado tal obra para ler, se o que eu estava questionando era justamente essa necessidade de se afirmar enquanto identidade específica das ditas “minorias”. E ele me respondeu claramente, “necessidade não há”.

De fato, nada era necessário, então. Mas como assim?

Ele apenas sorriu da minha cara. Ficava com ódio disso, eu cheio de perguntas e ele lá se divertindo.

“A fama dessa escritora se deu por fazer questão de escrever em gênero neutro. De certa forma, ela trabalhou o gênero, partiu dele para anulá-lo. É a mesma coisa que acontece com as minorias. Partimos da identidade, porque se percebe que uma elite hegemônica discrimina por conta justamente dessa identidade. A estratégia é sempre partir das identidades para tentar, de certa forma, anulá-la, no campo da igualdade e da não discriminação. A escritora teve uma sacada, partiu da identidade também, mas igualou tudo. É ficção! A ideia é essa, é chegar num tempo em que as identidades não serão motivos para discriminar”.

Perguntei-lhe se não tinha outro livro dela, ao passo que ele me convidou para ir na casa dele buscar diretamente na estante. Adoro pessoas inteligentes.


INFORMAÇÃO

Uma pena que a televisão sempre adote a postura pouco informativa. Estávamos organizando um evento de saúde em que basicamente iríamos apresentar uma série de medidas de prevenção em relação à AIDS/HIV, pré e pós exposição, realizar testes rápidos, enfim, fazer o papel que veículos de massa poderiam fazer e não fazem.

Foi interessante perceber que muita gente (muita mesmo) nunca tinha ouvido falar. Talvez o preservativo seja o objeto de mais fácil acesso, e que fala de forma mais clara e limpa, sem ruídos. Ou seria o medo de divulgar as práticas de prevenção tendo em vista economizar no orçamento da saúde pública?

Foi então que um velho conhecido meu apareceu no estande onde fazíamos a testagem rápida. Estava tenso, nervoso.

Para completar, ele estava acompanhado do namorado, que na verdade estava lá do outro lado conferindo a exposição de quadros, de forma serena e tranquila.

Ele me confidenciou o medo de saber o resultado, de como o namorado poderia reagir. No entanto, precisava criar coragem. Perguntei se não seria uma boa ideia chamar o namorado para lhe acompanhar, talvez ele lhe desse apoio, e ele achou melhor não.

Fizemos o teste e o resultado deu negativo. Ele ainda assim, ficou meio impaciente. O namorado então se aproximou, e lhe questionei se também não queria fazer o teste. Ele prontamente me disse, “não preciso fazer, sou positivo”.

Fiquei estarrecido. Não entendia o porquê de tanto nervosismo do outro, e fiquei com a dúvida latejando enquanto acompanhava de longe aquele casal soro-discordante caminhando abraçado pelos estandes, de forma marcadamente apaixonada.

Já próximo ao término do evento, o rapaz chegou até mim e agradeceu pelo apoio ao fazer o teste. Eu não me contentei e lhe perguntei por que, afinal, ele havia ficado tão nervoso. “Sou voluntário de um teste de profilaxia pré-exposição ao HIV. Mas meu namorado nunca me forçou a fazer sexo sem camisinha, tenho muito medo, e acho que não vou conseguir. Mas eu não posso falhar. É muito importante pra ele eu continuar bem, você já pensou o grau de culpa que ele poderia sentir? Não posso magoá-lo. Vai ser um baita choque pra ele, e tudo que eu menos quero é perdê-lo por isso”.

Era difícil imaginar mesmo, passa milhões de coisas na nossa cabeça. Mas quando a gente vê que casais soro discordantes começam a sentir um pelo outro, a gente vê que todos os avanços contra a discriminação e todas as batalhas a serem travadas, de fato valem muito a pena.


AMOR

A dor da perda, seja ela qual for, é muito forte. Não adianta tentar maquilar. Não conseguia me concentrar na pauta do dia, em mais uma reunião ordinária do OLÍVIA que transcorria de modo burocrático. Queria poder chegar em casa antes dele partir.

À saída da reunião, passei às pressas no supermercado e lhe comprei aquele vinho tinto. Ao chegar em casa, me deparei com as malas prontas postas no carpete da sala: seria o último jantar no nosso abençoado lar, uma cadeira a menos seria posta durante as próximas refeições.

Assei o pernil no forno e o som decadente de uma MPB tristonha nos embalava naquela noite chuvosa. Lembrei de quando recebia seus amigos em aniversários alegres, de como eu me preocupava em arredar os móveis para fazer uma mini-balada, e de como eu sempre reclamava do som alto depois das onze. Nada mais disso iria me atormentar. Eu, dado ao silêncio e à companhia dos livros, iria sentir falta da bagunça. Isso me machucava muito.

O jantar foi servido e estávamos só nós dois. Eu até ali havia me controlado. Fui pegar o álbum de fotografias para relembrarmos velhos anos que não voltam mais, mas não precisou de tanto: assim que meu marido chegou em casa, depois de um dia de trabalho enfastiante, deu umas garfadas no formidável pernil que havia preparado e prontamente pôs o vídeo que havia passado semanas produzindo. Era hora de saborear o vinho, nós três: eu, meu marido e nosso filho.

E ali no vídeo estava o nosso pequeno, em um uniforme escolar azul bebê, pronto para, pela primeira vez na vida, carregar consigo um livro didático de colorir e uma merendeira carregada de suquinho industrializado; relembramos seu primeiro aniversário, sem os avós, que só ficaram completamente relaxados em aparecer na nossa família a partir do quinto, num aniversário magnífico, lotado de brigadeiros, cachorros-quentes e de conversas ao vento jogada com a família; apareceram no vídeo as primeiras lições de patins, a primeira queda, e o primeiro torneio municipal de que fizera parte, vergonhosamente não se classificando às finais, embora tenha sido nesse torneio que nosso pequeno rapaz, respondendo aos comentários homofóbicos de uns colegas, nos enchera de orgulho; e veio a primeira namorada, uma menina inteligente e livre de preconceitos, mas que acabou se mudando para outra cidade, que saudades dela; e veio faculdade, amigos de futebol, reuniões em grupo, homofóbicos que se afastavam do nosso pródigo por conta do amor vivido pelos pais de mesmo gênero.

Uma lágrima escorreu do meu rosto. Hoje estávamos perdendo nossa cria, estava de mudança para um apartamento onde iria morar com a noiva. Então, finalmente, ela chegou. Sorridente como sempre. Ficamos nós quatro até o final da noite, rindo sobre os prazeres da vida, e preparando os arranjos para o casamento dali uns meses.

De fato, a dor da perda, seja ela qual for, é muito forte. Mas como podemos dizer que perdemos se eu e meu amor conseguimos, como dois homens, criar um outro com tanto amor e com tanto afeto? E veja no que se tornou, não consigo pensar em nada melhor quando, ao sair de casa, ele se vira pra nós com o olhar molhado, nos agradece pela família linda que somos, e ainda continuaremos a ser. E nos abraça de forma tão apertada e lúcida que não deixaria dúvida alguma quanto à família que somos. Que mundo estranho esse, que é preciso confirmar o amor. Mas estamos apenas ali, nos despedindo, com o choro entalado pelo “eu amo vocês, sempre vou amar” que ouvimos da boca de um filho criado com tanto carinho. Não há nada que possa nos derrubar. Mesmo que o tempo nos castigue, que os filhos saiam de casa, e que a roda da vida não pare, não há nada mais forte que o amor. Nada.

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