Bicha pintosa. Colorida.
Afeminada.
Essas certamente são as mais leves
e aceitáveis nomeações àquelxs gays que dão o nome, minha filha! Gosto assim,
quando chegam chegando.
Não suporto aquele discurso de “Se
fosse pra namorar com mulher, eu seria hétero”. Tá boa? Cansou de bater
siririca pros parceiros da Emmanuelle nas noites de cine Privê da Band, que nem
se uma gata ao estilo Ísis Valverde ou Juliana Paiva te cantasse, iria funcionar
o dito cujo.
Aliás, é evidente que todos nós
temos direito a gostar de quem quisermos, a se sentir atraído pelo musculoso
sarado e truculento ou amar aquele corpo mignon que dá pinta. Mas quando se
brada um “não curto afeminados”, é quase um brado ao seu estilo pessoal de
aversão a tudo que seja, digamos, fora do arquétipo masculino tradicional. Ou
seja, a frase fala sobre sua personalidade mais íntima, e não sobre o seu gosto
em relação a parceiros. É como se o “eu sou discreto” lhe fosse como um cartão
de visita prioritário, e você, impermeável a tudo que possa sugerir a
sexualidade fora desses padrões, se afugentasse no armário com medo de andar
com esses “indigentes”.
Lembro-me de, certa vez, estar em
uma parada Gay com um amigo militante. Ele queria “ficar” comigo, mas o via
apenas como amigo. De repente, aparece do outro lado da rua o garoto com quem eu
havia ficado na semana passada. Uma camisa amarela berrante, de óculos escuro, bermudinha
justa, também militante dos grupos LGBTs, passeava sorridente pela calçada da
diversidade. Aí o meu amigo prontamente disse, “foi com essa mulher que você
ficou?”. Nem tinha percebido, na verdade. Ele continuou: “será que eu vou ter
que me rasgar também?”. Ainda bem que essa frase foi seguida de um riso não de
escárnio, mas de cumplicidade. Agora imagina, se ele que é articulado e
esclarecido politicamente se permite a certos comentários, imagine o gay
burguês de família cristã, que mal consegue sair do armário (para os outros,
né, mana, porque no quarto, nas redes sociais adultas e nos banheiros da
faculdade...)?
Não estou querendo dizer que isso
é homofobia. Não gosto de banalizar o termo. Mas há certamente um estranhamento
fora do normal, um deslocamento desnecessário. Sei lá, talvez o fato de ainda usarem
roupas masculinas. Mas aí seria o caso de se perguntar se as travestis e
transexuais recebem um tratamento mais digno, o que acho difícil.
E não, não se trata de
negligenciar o gosto de cada um. Repito: todos somos livres para se sentir
atraído por quem quer que seja. O que ocorre é que a aversão à gay pintosa é
acompanhada de um preconceito que escancara. Muitas vezes, a bicha nem precisa
dizer nada, basta um simples andar nas ruas para que os machões da vigilância
alheia encarem-na com desdém (e alguns, com uma mistura de desejo insólito),
revelando, na verdade, o medo pelo diferente, e não exatamente apenas uma
expressão de gosto por determinado tipo de parceiro. Afinal, não precisa tomar
justamente esta característica como seu cartão de visitas. No lugar de “Olá, me
chamo Daniel, sou dentista e adoro cinema”, você diz “Olá, sou Daniel, não
curto afeminados e sou discreto”. É mesmo necessário isso? Ou é puro medo de
imiscuir-se ao que você abomina, dizendo para si mesmo que, de maneira nenhuma,
tem preconceito? Sei...
Não sou hipócrita. Adoro “macho”
com cara de “macho”, mesmo sabendo que posso problematizar horrores esse “macho”
de quem falo gostar. Amo pêlos e aquela pegada forte. Mas o que é uma
preferência diante da imensidão do mundo, diante das possibilidades de se
relacionar, seja no sexo, seja na amizade, seja dividir o banco do avião com
uma travesti sem ficar se preocupando no que a comissária vai pensar. Pois não me venha me dizer que essa aversão toda
nada tem a ver com o medo de descobrirem que você "curte". É bem isso
mesmo. Isso tem mais a ver com seu armário particular do que com a imagem do
outro.
O meu afago é saber que, depois de
umas cervejas , o bate-cabelo naquela boate gay mais pererequinha da cidade,
consegue animar mais do que o rock psicodélico que você faz questão de anunciar
ser fã. Claro que você pode gostar de um Led Zeppelin e curtir a Lady Gaga numa
boa. Agora pense, mesmo amando os dois estilos, há aqueles homens que fazem
sexo com homens que vão negar até a morte curtir uma Rihanna, e esbravejar com
gosto serem fãs de Heavy Metal. Cada um faça o que bem entender. Só não me
venha se achando menos gay por isso.
No final das contas, ainda há algo
pior: quem estenda esta divisão comportamental entre os ativos e os passivos. É
muita dissimulação pra uma mente só, olha. Por isso que eu gosto delas, não tem
medo, elas peitam, elas lacram. Confesse que é esse seu principal recalque: a
liberdade.
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