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8 de junho de 2015

Sobre religião e estigma na Parada da Diversidade

Vamos imaginar que eventualmente você ouça uma música não muito boa, de um estilo que você curta bastante. ok, vamos exagerar, digamos que a música seja sofrível. ruim mesmo. certamente alguém conhece uma mpb, um rock, um jazz, que sejam intragáveis. agora vamos imaginar que esta singela experiência o faça maldizer todas as outras músicas de tal estilo, isto é, por um exemplar podre você odeia todo o restante. Muito radical, não é?


Imagine agora um filme terrível que você assistiu. Certamente você não desistirá do cinema em geral por ter visto uma comédia besteirol do Adam Sandler (mil perdões aos seus fãs, mas é este o tipo de filme que acho insuportável). Pois bem, certamente haverá outros filmes tão ruins quanto, ao passo que também existirão maravilhosas obras-primas da sétima arte lhe esperando para serem apreciadas. Por um filme ruim não se pode julgar todo o cinema, não é?


Então, tomei a liberdade desses exemplos esdrúxulos para dizer o que é um estigma. Estigma é quando você julga o todo por apenas um, sendo “esse um” geralmente o mais conveniente possível ao discurso de quem estigmatiza. Falo isso pois na parada Gay de São Paulo (07/06/2015) foi precisamente o que ocorreu com muitos discursos ao se depararem com exageros de umas poucas pessoas, envolvendo encenações religiosas do tipo: gays e lésbicas sendo crucificados pela homofobia nossa de cada dia (bela metáfora, eu diria), ou a encenação de um beijo gay envolvendo a figura de Jesus (de gosto duvidoso), ou crucifixos em órgãos genitais (de muito mau gosto), entre outras imagens, as quais foram o suficiente para os estigmatizadores de plantão julgarem todo o restante. Não adianta nem discutir, “gay é assim, querem afrontar”, pensam.


E como se enganam! Há LGBTIs dos mais diversos tipos, dos religiosos ao que curtem bate-cabelo, dos ateus aos que frequentam cultos evangélicos, dos mais afeminados aos que mais parecem protótipos truculentos de machos “alfas”, dos que frequentam parada gay àqueles que preferem ir a um jogo de futebol (e, diga-se, tipos não necessariamente excludentes entre si).


Agora imagine que um grupo de heterossexuais profane a imagem de Deus em pleno carnaval. Certamente ninguém falará: “esses héteros são uns sem-vergonha, ficam usando a imagem sagrada! Pecadores!” . Não, isso não ocorre. Não estamos acostumados a qualificar o heterossexual em função da sua sexualidade. Em outras palavras, não estigmatizamos o gênero decifrável. E que bom! Melhor seria se fosse assim para todos.


Vale lembrar que a parada hoje é chamada de “parada da diversidade”, compreendendo todas as possíveis formas de expressão, inclusive da heterossexualidade, ainda que essa normatividade não precise ser continuamente firmada, afinal. Isto só ocorre com os LGBTIs porque vivemos num paradoxo: entre o firmar uma identidade gay e, ao mesmo tempo, querer a igualdade que esta identidade representa. O “beijo gay” só estará livre de preconceitos quando se transformar em apenas “beijo”, momento em que todos poderão contemplar a beleza que é o beijo entre seres humanos que se amam. Mas enquanto o beijo gay não é naturalizado, fica difícil para certas pessoas considerá-lo apenas beijo, já que muitos ainda acham a cena mais abominável de uma novela, considerando uma com cenas de homicídios e lotada de infidelidades conjugais.


Além disso, na mesma parada da diversidade houve o manifesto de religiosos em favor da liberdade de orientação sexual. Logo, a recíproca é verdadeira: nem todo cristão é fundamentalista!


Por isso que, perante a livre encenação artística nas paradas da diversidade, não se pode atribuir nada ali a todo o restante. A diversidade abarca inclusive o terreno ideológico. Não se trata de julgar as pessoas LGBTIs, e sim de julgar aquela representação artística em particular, se agrada ou não, de acordo com seu conceito moral. No entanto, se o seu conceito moral for do tipo “LGBTIs são pecadores”, a sua mente é tão fechada que nem mesmo se os trios da parada entoassem a Sétima Sinfonia de Beethoven você os veria com bons olhos. E ainda bem que um Michelangelo, da Vinci, Cole Porter ou um Sócrates são lembrados mais pelos seus desempenhos em suas áreas do que pela sexualidade que praticavam (só espero que, depois dessa, não sobre pra Monalisa!).

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