Vamos imaginar que eventualmente você ouça uma música não muito boa, de um estilo que você curta bastante. ok, vamos exagerar, digamos que a música seja sofrível. ruim mesmo. certamente alguém conhece uma mpb, um rock, um jazz, que sejam intragáveis. agora vamos imaginar que esta singela experiência o faça maldizer todas as outras músicas de tal estilo, isto é, por um exemplar podre você odeia todo o restante. Muito radical, não é?
Imagine agora um filme terrível que você assistiu. Certamente você não desistirá do cinema em geral por ter visto uma comédia besteirol do Adam Sandler (mil perdões aos seus fãs, mas é este o tipo de filme que acho insuportável). Pois bem, certamente haverá outros filmes tão ruins quanto, ao passo que também existirão maravilhosas obras-primas da sétima arte lhe esperando para serem apreciadas. Por um filme ruim não se pode julgar todo o cinema, não é?
Então, tomei a liberdade desses exemplos esdrúxulos para dizer o que é um estigma. Estigma é quando você julga o todo por apenas um, sendo “esse um” geralmente o mais conveniente possível ao discurso de quem estigmatiza. Falo isso pois na parada Gay de São Paulo (07/06/2015) foi precisamente o que ocorreu com muitos discursos ao se depararem com exageros de umas poucas pessoas, envolvendo encenações religiosas do tipo: gays e lésbicas sendo crucificados pela homofobia nossa de cada dia (bela metáfora, eu diria), ou a encenação de um beijo gay envolvendo a figura de Jesus (de gosto duvidoso), ou crucifixos em órgãos genitais (de muito mau gosto), entre outras imagens, as quais foram o suficiente para os estigmatizadores de plantão julgarem todo o restante. Não adianta nem discutir, “gay é assim, querem afrontar”, pensam.
E como se enganam! Há LGBTIs dos mais diversos tipos, dos religiosos ao que curtem bate-cabelo, dos ateus aos que frequentam cultos evangélicos, dos mais afeminados aos que mais parecem protótipos truculentos de machos “alfas”, dos que frequentam parada gay àqueles que preferem ir a um jogo de futebol (e, diga-se, tipos não necessariamente excludentes entre si).
Agora imagine que um grupo de heterossexuais profane a imagem de Deus em pleno carnaval. Certamente ninguém falará: “esses héteros são uns sem-vergonha, ficam usando a imagem sagrada! Pecadores!” . Não, isso não ocorre. Não estamos acostumados a qualificar o heterossexual em função da sua sexualidade. Em outras palavras, não estigmatizamos o gênero decifrável. E que bom! Melhor seria se fosse assim para todos.
Vale lembrar que a parada hoje é chamada de “parada da diversidade”, compreendendo todas as possíveis formas de expressão, inclusive da heterossexualidade, ainda que essa normatividade não precise ser continuamente firmada, afinal. Isto só ocorre com os LGBTIs porque vivemos num paradoxo: entre o firmar uma identidade gay e, ao mesmo tempo, querer a igualdade que esta identidade representa. O “beijo gay” só estará livre de preconceitos quando se transformar em apenas “beijo”, momento em que todos poderão contemplar a beleza que é o beijo entre seres humanos que se amam. Mas enquanto o beijo gay não é naturalizado, fica difícil para certas pessoas considerá-lo apenas beijo, já que muitos ainda acham a cena mais abominável de uma novela, considerando uma com cenas de homicídios e lotada de infidelidades conjugais.
Além disso, na mesma parada da diversidade houve o manifesto de religiosos em favor da liberdade de orientação sexual. Logo, a recíproca é verdadeira: nem todo cristão é fundamentalista!
Por isso que, perante a livre encenação artística nas paradas da diversidade, não se pode atribuir nada ali a todo o restante. A diversidade abarca inclusive o terreno ideológico. Não se trata de julgar as pessoas LGBTIs, e sim de julgar aquela representação artística em particular, se agrada ou não, de acordo com seu conceito moral. No entanto, se o seu conceito moral for do tipo “LGBTIs são pecadores”, a sua mente é tão fechada que nem mesmo se os trios da parada entoassem a Sétima Sinfonia de Beethoven você os veria com bons olhos. E ainda bem que um Michelangelo, da Vinci, Cole Porter ou um Sócrates são lembrados mais pelos seus desempenhos em suas áreas do que pela sexualidade que praticavam (só espero que, depois dessa, não sobre pra Monalisa!).
Sou professor de Sociologia, graduado em Ciências Sociais e em Ciências Econômicas, mestre em Ciências Políticas, e um apaixonado pelo conhecimento. Neste espaço, irei disponibilizar resenhas de filmes, livros ou mesmo artigos, resumo, e várias reflexões do nosso cotidiano e da sociedade em geral. Seja bem-vindo!
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8 de junho de 2015
14 de maio de 2015
Pelo direito de ser Feminina
Bicha pintosa. Colorida.
Afeminada.
Essas certamente são as mais leves
e aceitáveis nomeações àquelxs gays que dão o nome, minha filha! Gosto assim,
quando chegam chegando.
Não suporto aquele discurso de “Se
fosse pra namorar com mulher, eu seria hétero”. Tá boa? Cansou de bater
siririca pros parceiros da Emmanuelle nas noites de cine Privê da Band, que nem
se uma gata ao estilo Ísis Valverde ou Juliana Paiva te cantasse, iria funcionar
o dito cujo.
Aliás, é evidente que todos nós
temos direito a gostar de quem quisermos, a se sentir atraído pelo musculoso
sarado e truculento ou amar aquele corpo mignon que dá pinta. Mas quando se
brada um “não curto afeminados”, é quase um brado ao seu estilo pessoal de
aversão a tudo que seja, digamos, fora do arquétipo masculino tradicional. Ou
seja, a frase fala sobre sua personalidade mais íntima, e não sobre o seu gosto
em relação a parceiros. É como se o “eu sou discreto” lhe fosse como um cartão
de visita prioritário, e você, impermeável a tudo que possa sugerir a
sexualidade fora desses padrões, se afugentasse no armário com medo de andar
com esses “indigentes”.
Lembro-me de, certa vez, estar em
uma parada Gay com um amigo militante. Ele queria “ficar” comigo, mas o via
apenas como amigo. De repente, aparece do outro lado da rua o garoto com quem eu
havia ficado na semana passada. Uma camisa amarela berrante, de óculos escuro, bermudinha
justa, também militante dos grupos LGBTs, passeava sorridente pela calçada da
diversidade. Aí o meu amigo prontamente disse, “foi com essa mulher que você
ficou?”. Nem tinha percebido, na verdade. Ele continuou: “será que eu vou ter
que me rasgar também?”. Ainda bem que essa frase foi seguida de um riso não de
escárnio, mas de cumplicidade. Agora imagina, se ele que é articulado e
esclarecido politicamente se permite a certos comentários, imagine o gay
burguês de família cristã, que mal consegue sair do armário (para os outros,
né, mana, porque no quarto, nas redes sociais adultas e nos banheiros da
faculdade...)?
Não estou querendo dizer que isso
é homofobia. Não gosto de banalizar o termo. Mas há certamente um estranhamento
fora do normal, um deslocamento desnecessário. Sei lá, talvez o fato de ainda usarem
roupas masculinas. Mas aí seria o caso de se perguntar se as travestis e
transexuais recebem um tratamento mais digno, o que acho difícil.
E não, não se trata de
negligenciar o gosto de cada um. Repito: todos somos livres para se sentir
atraído por quem quer que seja. O que ocorre é que a aversão à gay pintosa é
acompanhada de um preconceito que escancara. Muitas vezes, a bicha nem precisa
dizer nada, basta um simples andar nas ruas para que os machões da vigilância
alheia encarem-na com desdém (e alguns, com uma mistura de desejo insólito),
revelando, na verdade, o medo pelo diferente, e não exatamente apenas uma
expressão de gosto por determinado tipo de parceiro. Afinal, não precisa tomar
justamente esta característica como seu cartão de visitas. No lugar de “Olá, me
chamo Daniel, sou dentista e adoro cinema”, você diz “Olá, sou Daniel, não
curto afeminados e sou discreto”. É mesmo necessário isso? Ou é puro medo de
imiscuir-se ao que você abomina, dizendo para si mesmo que, de maneira nenhuma,
tem preconceito? Sei...
Não sou hipócrita. Adoro “macho”
com cara de “macho”, mesmo sabendo que posso problematizar horrores esse “macho”
de quem falo gostar. Amo pêlos e aquela pegada forte. Mas o que é uma
preferência diante da imensidão do mundo, diante das possibilidades de se
relacionar, seja no sexo, seja na amizade, seja dividir o banco do avião com
uma travesti sem ficar se preocupando no que a comissária vai pensar. Pois não me venha me dizer que essa aversão toda
nada tem a ver com o medo de descobrirem que você "curte". É bem isso
mesmo. Isso tem mais a ver com seu armário particular do que com a imagem do
outro.
O meu afago é saber que, depois de
umas cervejas , o bate-cabelo naquela boate gay mais pererequinha da cidade,
consegue animar mais do que o rock psicodélico que você faz questão de anunciar
ser fã. Claro que você pode gostar de um Led Zeppelin e curtir a Lady Gaga numa
boa. Agora pense, mesmo amando os dois estilos, há aqueles homens que fazem
sexo com homens que vão negar até a morte curtir uma Rihanna, e esbravejar com
gosto serem fãs de Heavy Metal. Cada um faça o que bem entender. Só não me
venha se achando menos gay por isso.
No final das contas, ainda há algo
pior: quem estenda esta divisão comportamental entre os ativos e os passivos. É
muita dissimulação pra uma mente só, olha. Por isso que eu gosto delas, não tem
medo, elas peitam, elas lacram. Confesse que é esse seu principal recalque: a
liberdade.
12 de maio de 2015
O amigo hétero
Dois amigos, um gay e um hétero conversavam em frente a uma
Igreja:
- Que saber, eu não quero ser mulher...
- Eu também não.
- E também não tenho a mínima vontade de sair por aí
gritando minha sexualidade.
- Eu também não quero isso.
- Sei lá, queria algo mais íntimo... Eu queria casar nessa
Igreja!
- Eu também!
- Eu queria ter filhos.
- Eu também...
- Dois. Ou talvez três...
- Talvez.
- Mas sabe, eu ainda não encontrei a pessoa certa.
- E sabe que eu também não?
Momento de reflexão.
- Eu não entendo porque dizem “ditadura gay”, você entende?
- Não.
- Afinal, gays não querem privilégios, querem apenas os
mesmo direitos que os casais héteros, concorda?
- Claro que sim.
- Andar de mãos dadas, demonstrar afeto em público, poder se
beijar no final da novela das oito, cantar alguém do mesmo sexo com a mesma
facilidade que um homem a uma mulher ou vice-versa, chamar os sogros para o
almoço de Natal, apresentar o companheiro ao bisavô de oitenta e quatro anos...
- Verdade.
- E mesmo a Lei anti-homofobia, não cria privilégios, já que
a Lei é contra discriminação e preconceito por qualquer orientação sexual e
qualquer desigualdade de gênero.
- Concordo.
- E o amor entre pessoas do mesmo sexo é tão natural, tão
óbvio, mesmo entre outras espécies na natureza.
- Hã-ham.
Mais uma pausa.
- E quando homossexuais reivindicam ser uma família, é tão
clichê, adotar, casar, é tão clichê, não
acha?
- Clichezão.
- Sinceramente, não sei por que alguns têm medo.
- Nem eu.
Mais uma pausa.
- Quer saber, cansei dessa hipocrisia!
- Eu também.
Eles se olharam.
- Me beija!
- O quê?
- Me beija, cara!
- Você tá maluco, eu não sei...
- E precisa saber beijar?
- Não, você entendeu errado.
- Um beijo seria um ato político, para mostrar às pessoas
que vêm a esta Igreja, e você deve concordar comigo que essas pessoas precisam
de um choque de realidade.
O outro fica pensativo. Pensativo.
Passado uns três minutos, ele concorda, “mas só um selinho”,
avisa.
- Quer saber, esquece.
- O quê?
- Esquece essa historia de beijo!
- Mas por quê? Eu juro que não tenho mau hálito.
- Não é isso. Só acho que já é demais desnaturalizar um ato,
como um beijo, que deveria ser a troca de carinho e afeto dos mais íntimos, para
então se tornar algo pragmático, um meio para almejar outros fins. Perde-se
toda a sua concepção original, você não acha?
- Verdade – diz, meio confuso.
Então, o rapaz que propôs o beijo dá meia-volta, já cansado
daquele ambiente.
- Bem, agora vou falar com a Fernanda, temos que começar os
preparativos para nosso casamento.
- Ok.
E o amigo gay fica ali, absorto. Como esses héteros estão
arrojados!
8 de maio de 2015
Olívia
OLÍVIA
(Organização
de Livre Identidade e Orientação Sexual)
Organização
Liberdade de expressão
Integração social
Valorização das Comunidades
Informação
Amor
ORGANIZAÇÃO
Já ia dar dez horas
da noite. Estourado. Já não aguentava mais repassar todos os comandos, carregar
vários avisos, confundir os nomes, muitos créditos perdidos ligando pros amigos
perdidos, esquecer de comer ou de ligar pra casa pra dizer que estou bem. Mas
nada disso importa: o OLIVIA sobrevivera ao seu primeiro grande evento.
Foi desgastante.
Não pelo secretário de saúde que não compareceu, nem pela microfonia
insistente. Quando se sabe que há boicotes até mesmo de amigos em comum, e que
vários grupos LGBTs podem ser engolidos por oportunistas, você vê que ainda
assim a superação é mais aterradora, você não sabe ao certo se quer mandar o
outro pra mais longe ou se quer sorrir triunfantemente. Mas o fato é que não
havia tempo para orgulho, só queria chegar em casa e deitar na minha cama
quentinha.
Uma semana
depois, “marcha para Jesus”. Um espetáculo. Várias faixas, líderes religiosos,
carros, som, muito dinheiro envolvido. Assistia a tudo como um bom transeunte,
sentindo uma vontade danada de jogar uma bomba naquele pastor que bradava
ferozmente em cima de um trio. Não é inveja do quanto esses cristãos
fundamentalistas são bem articulados e endinheirados, mas é a massa que ali
segue que me deixa enfurecido.
Até que um
vizinho da Universal se aproxima. Ele apenas sorri. Então, sorrio de volta,
aquele sorriso falso. Estou apenas sendo simpático. E ele se aproxima de mim e
me dá um abraço, ao ouvido, diz: “Jesus te ama”!
Não saberia
dizer, ao certo, o efeito desta frase. Ao mesmo tempo em que me acalenta, me
bate com força. É hora de fazer mais.
LIBERDADE DE
EXPRESSÃO
Que a homofobia
se confunde com liberdade de expressão já não há dúvidas. Quantas mortes e
quantas pedradas foram jogadas, mas que não doeram tanto quanto uma palavra
proferida?
Ela estava ali
no banco da praça, chorando. Quando me aproximei dela, percebi seus olhos
vermelhos. Fui tomar suas dores.
Tinha acabado
de tomar um fora da namorada. Ela, tão loira e tão linda, não conseguia ser bem
sucedida nos relacionamentos. O sorriso das crianças nas praças não conseguia
segurar o seu choro.
Convidei-a para
a próxima reunião do OLÍVIA, talvez fosse importante uma voz feminina
sensibilizada. Mas não era isso que ela queria. Nem beber, nem sair pra dançar.
Ela gostava de pintar, mas estava muito triste para ao menos se levantar dali. Então,
subitamente tive uma ideia. Fui às pressas ao QG do grupo, onde estávamos
criando cartazes e artes para o nosso próximo evento. Só precisei de um balde de
tinta e pincel. Ela continuou me esperando na praça, aliás, não me esperando,
mas se remoendo em desconsolo.
Ao fundo, um
muro pinchado com os seguintes dizeres:
“Que todos os viados e sapatões sejam de uma vez queimados no inferno!”
“Que todos os viados e sapatões sejam de uma vez queimados no inferno!”
Eu apenas lhe
mostrei a tinta e o pincel, e com a cabeça lhe apontei o muro ao fundo. Talvez
ela já estivesse cansada de ficar sentada. O fato é que, de pronto, ela se
levantou para enfim agir, sentir-se viva.
Ela pegou a
tinta e o pincel, e se pôs a apagar aqueles dizeres de ódio. Mas não tudo.
Apenas escolheu meticulosamente as letras para apagar, de modo que ainda
restasse a seguinte mensagem:
“Que todos os viados e sapatões sejam -- --a --- ----mados -- --------“.
“Que todos os viados e sapatões sejam -- --a --- ----mados -- --------“.
E ela, enfim,
sorriu.
INTEGRAÇÃO
SOCIAL
Discussão
acalorada sobre apoiar ou não as cotas para travestis e transexuais nas redes
públicas de ensino superior. Talvez a dificuldade maior não estivesse no
acesso, mas na permanência dos estudantes destoantes da heterossexualidade.
Cotas, cotas, e
mais cotas. Desse jeito fica difícil.
Até que a única
travesti do nosso grupo OLÍVIA pede a palavra e fala sobre os índices
alarmantes de violência e assassinato às pessoas trans. São as cotas informais
a que se sujeitam. Alarmadas mais ainda se forem pobres ou negras. Contou sobre
como é difícil sobreviver em um mundo demasiadamente hostil, de como aturar as
piadinhas infames na escola lhe parecia mais difícil do que aquela intragável
lição de matemática, de como não conseguira apoio nem dos pais.
E por fim, concluiu:
era contra as cotas! Queria entrar por mérito próprio em uma universidade!
Ficamos todos
boquiabertos, ao passo que ela prontamente emendou: “queria mesmo era cotas para
o bom senso”!
VALORIZAÇÃO DAS
COMUNIDADES
Primeira ação
integrada do grupo OLÍVIA. Muitas vozes de direitos humanos, muitas minorias,
muitos indígenas seminus e mulheres de peito pra fora. O auditório estava
bonito.
Eu não
compreendia o termo minoria. Não entendia, por exemplo, como as mulheres podiam
estar ali representadas. Tá certo que sofrem preconceito, discriminação no
trabalho (ainda ganham, em média, menores salários), mas não eram propriamente
minorias.
Foi então que
uma dessas feministas pediu a voz e apresentou um dado curioso: dos últimos 100
filmes comerciais de maior sucesso de Hollywood, não havia um sequer com
personagens principais somente do gênero feminino.
Fiquei
pensativo. Realmente a questão da representação era cruel, homens brancos e
héteros ainda dominavam a cena.
Até que um
rapaz com quem estava flertando me perguntou sobre minha contestação. Eu lhe
falei sobre o termo “minoria”, e ele prontamente me explicou sobre a questão
política, de ser uma minoria em espaços de poder. Eu aceitei a defesa do termo,
especialmente por ele ser uma graça. Mas certamente ele percebeu que eu não me
dava por satisfeito.
Na verdade, não
era bem o termo em si. Era a necessidade de se afirmar enquanto categoria,
enquanto uma comunidade para me representar. A minoria era sempre algo, alguma
identidade criada: a mulher, o gay, a lésbica, a travesti, o negro, o índio.
Como se a toda hora estivéssemos reivindicando um termo, uma identidade. Era
minha chatice habitual mesmo.
Então ele me
deu pra ler um livro da escritora norte-americana Ann Leckie. Ela é a famosa
escritora que não deixa claro o gênero de seus personagens.
Li em uma
semana o livro “Justiça Auxiliar”, uma ficção científica avassaladora. Como é
possível se entreter nesse universo sem saber o gênero dos personagens?
Fui falar com o
gatinho que havia me emprestado o livro. Não compreendia o porquê de ele ter me
dado tal obra para ler, se o que eu estava questionando era justamente essa
necessidade de se afirmar enquanto identidade específica das ditas “minorias”.
E ele me respondeu claramente, “necessidade não há”.
De fato, nada
era necessário, então. Mas como assim?
Ele apenas
sorriu da minha cara. Ficava com ódio disso, eu cheio de perguntas e ele lá se
divertindo.
“A fama dessa
escritora se deu por fazer questão de escrever em gênero neutro. De certa
forma, ela trabalhou o gênero, partiu dele para anulá-lo. É a mesma coisa que
acontece com as minorias. Partimos da identidade, porque se percebe que uma elite
hegemônica discrimina por conta justamente dessa identidade. A estratégia é
sempre partir das identidades para tentar, de certa forma, anulá-la, no campo
da igualdade e da não discriminação. A escritora teve uma sacada, partiu da
identidade também, mas igualou tudo. É ficção! A ideia é essa, é chegar num
tempo em que as identidades não serão motivos para discriminar”.
Perguntei-lhe
se não tinha outro livro dela, ao passo que ele me convidou para ir na casa
dele buscar diretamente na estante. Adoro pessoas inteligentes.
INFORMAÇÃO
Uma pena que a
televisão sempre adote a postura pouco informativa. Estávamos organizando um
evento de saúde em que basicamente iríamos apresentar uma série de medidas de
prevenção em relação à AIDS/HIV, pré e pós exposição, realizar testes rápidos,
enfim, fazer o papel que veículos de massa poderiam fazer e não fazem.
Foi
interessante perceber que muita gente (muita mesmo) nunca tinha ouvido falar.
Talvez o preservativo seja o objeto de mais fácil acesso, e que fala de forma
mais clara e limpa, sem ruídos. Ou seria o medo de divulgar as práticas de
prevenção tendo em vista economizar no orçamento da saúde pública?
Foi então que
um velho conhecido meu apareceu no estande onde fazíamos a testagem rápida.
Estava tenso, nervoso.
Para completar,
ele estava acompanhado do namorado, que na verdade estava lá do outro lado conferindo
a exposição de quadros, de forma serena e tranquila.
Ele me
confidenciou o medo de saber o resultado, de como o namorado poderia reagir. No
entanto, precisava criar coragem. Perguntei se não seria uma boa ideia chamar o
namorado para lhe acompanhar, talvez ele lhe desse apoio, e ele achou melhor
não.
Fizemos o teste
e o resultado deu negativo. Ele ainda assim, ficou meio impaciente. O namorado
então se aproximou, e lhe questionei se também não queria fazer o teste. Ele prontamente
me disse, “não preciso fazer, sou positivo”.
Fiquei estarrecido.
Não entendia o porquê de tanto nervosismo do outro, e fiquei com a dúvida
latejando enquanto acompanhava de longe aquele casal soro-discordante caminhando
abraçado pelos estandes, de forma marcadamente apaixonada.
Já próximo ao
término do evento, o rapaz chegou até mim e agradeceu pelo apoio ao fazer o
teste. Eu não me contentei e lhe perguntei por que, afinal, ele havia ficado
tão nervoso. “Sou voluntário de um teste de profilaxia pré-exposição ao HIV. Mas
meu namorado nunca me forçou a fazer sexo sem camisinha, tenho muito medo, e
acho que não vou conseguir. Mas eu não posso falhar. É muito importante pra ele
eu continuar bem, você já pensou o grau de culpa que ele poderia sentir? Não
posso magoá-lo. Vai ser um baita choque pra ele, e tudo que eu menos quero é
perdê-lo por isso”.
Era difícil
imaginar mesmo, passa milhões de coisas na nossa cabeça. Mas quando a gente vê que
casais soro discordantes começam a sentir um pelo outro, a gente vê que todos
os avanços contra a discriminação e todas as batalhas a serem travadas, de fato
valem muito a pena.
AMOR
A dor da perda,
seja ela qual for, é muito forte. Não adianta tentar maquilar. Não conseguia me
concentrar na pauta do dia, em mais uma reunião ordinária do OLÍVIA que
transcorria de modo burocrático. Queria poder chegar em casa antes dele partir.
À saída da
reunião, passei às pressas no supermercado e lhe comprei aquele vinho tinto. Ao
chegar em casa, me deparei com as malas prontas postas no carpete da sala:
seria o último jantar no nosso abençoado lar, uma cadeira a menos seria posta
durante as próximas refeições.
Assei o pernil
no forno e o som decadente de uma MPB tristonha nos embalava naquela noite
chuvosa. Lembrei de quando recebia seus amigos em aniversários alegres, de como
eu me preocupava em arredar os móveis para fazer uma mini-balada, e de como eu
sempre reclamava do som alto depois das onze. Nada mais disso iria me
atormentar. Eu, dado ao silêncio e à companhia dos livros, iria sentir falta da
bagunça. Isso me machucava muito.
O jantar foi
servido e estávamos só nós dois. Eu até ali havia me controlado. Fui pegar o
álbum de fotografias para relembrarmos velhos anos que não voltam mais, mas não
precisou de tanto: assim que meu marido chegou em casa, depois de um dia de
trabalho enfastiante, deu umas garfadas no formidável pernil que havia
preparado e prontamente pôs o vídeo que havia passado semanas produzindo. Era hora
de saborear o vinho, nós três: eu, meu marido e nosso filho.
E ali no vídeo estava
o nosso pequeno, em um uniforme escolar azul bebê, pronto para, pela primeira
vez na vida, carregar consigo um livro didático de colorir e uma merendeira
carregada de suquinho industrializado; relembramos seu primeiro aniversário,
sem os avós, que só ficaram completamente relaxados em aparecer na nossa
família a partir do quinto, num aniversário magnífico, lotado de brigadeiros,
cachorros-quentes e de conversas ao vento jogada com a família; apareceram no
vídeo as primeiras lições de patins, a primeira queda, e o primeiro torneio
municipal de que fizera parte, vergonhosamente não se classificando às finais,
embora tenha sido nesse torneio que nosso pequeno rapaz, respondendo aos comentários
homofóbicos de uns colegas, nos enchera de orgulho; e veio a primeira namorada,
uma menina inteligente e livre de preconceitos, mas que acabou se mudando para
outra cidade, que saudades dela; e veio faculdade, amigos de futebol, reuniões
em grupo, homofóbicos que se afastavam do nosso pródigo por conta do amor
vivido pelos pais de mesmo gênero.
Uma lágrima
escorreu do meu rosto. Hoje estávamos perdendo nossa cria, estava de mudança
para um apartamento onde iria morar com a noiva. Então, finalmente, ela chegou.
Sorridente como sempre. Ficamos nós quatro até o final da noite, rindo sobre os
prazeres da vida, e preparando os arranjos para o casamento dali uns meses.
De fato, a dor
da perda, seja ela qual for, é muito forte. Mas como podemos dizer que perdemos
se eu e meu amor conseguimos, como dois homens, criar um outro com tanto amor e
com tanto afeto? E veja no que se tornou, não consigo pensar em nada melhor
quando, ao sair de casa, ele se vira pra nós com o olhar molhado, nos agradece
pela família linda que somos, e ainda continuaremos a ser. E nos abraça de
forma tão apertada e lúcida que não deixaria dúvida alguma quanto à família que
somos. Que mundo estranho esse, que é preciso confirmar o amor. Mas estamos
apenas ali, nos despedindo, com o choro entalado pelo “eu amo vocês, sempre vou
amar” que ouvimos da boca de um filho criado com tanto carinho. Não há nada que
possa nos derrubar. Mesmo que o tempo nos castigue, que os filhos saiam de casa,
e que a roda da vida não pare, não há nada mais forte que o amor. Nada.
O Estado Laico é um embuste
Já um tempo venho me posicionando
deslocadamente em relação ao movimento LGBT. Creio que, aos poucos, vou me
tornando uma pessoa não quista, e com certa razão: trata-se de um movimento
político, portanto, ideais devem ser bem seguidos e defendidos.
Falo isso em relação a um tema
que, quanto mais eu leio, mais (re)afirmo minha convicção: o Estado Laico é um
embuste. Sim, porque essa história de defender que religião não se deve
misturar à política, é uma demagogia tremenda. Ora, por que não? Por que eu não
posso levar ao Estado as demandas provenientes de uma moral que eu ache certa?
O problema é que a religião
cristã é uma farsante. A bancada evangélica, com o perdão do termo, só existe
para conseguir voto dos cordeirinhos, não apresentam nada interessante. Antes
fosse uma Teologia da Libertação que fizesse eco no Congresso. Aliás, está lá para
barrar projetos de Lei liberais e progressistas, em favor da “família” e dos “bons
costumes”. Então, meus caros, veem se entendem: a democracia pode sim aceitar
as vozes religiosas, mas não essas que estão aí, que mais pregam o ódio, e não
conseguem pensar além da condenação moral, especialmente em relação ao corpo.
É por isso que eu entendo
perfeitamente o brado a favor do Estado Laico. É, na verdade, um brado contra o
fundamentalismo religioso. É o escudo que se tem, é a defensiva, é o
contra-argumento. Mas o Estado Laico que se brada, na verdade se assenta contra
o proselitismo, a favor da pluralidade e da diversidade. Então não seria
propriamente um Estado Laico, porque é um Estado Laico que se define enquanto
perspectiva de Estado a favor da liberdade religiosa, ateísta, e também
contrária a aceitar dogmas totalizantes. Ou seja, é uma definição, digamos,
capenga e abrangente.
Resumindo: religião pode sim
penetrar o Estado. Não há nada de mais. O que não se aceita é o
fundamentalismo. Aí entra outra pergunta: seria a religião necessariamente
fundamentalista? Duvido muito. Porém, fundamentalistas religiosos de fato não
conseguem entender o que seja isso. Suas perspectivas de que determinado
comportamento leva à salvação, ao bem comum, engole individualidades e formas
de dispor sobre o corpo, sobre a sexualidade, sobre os prazeres que os deixam
cegos. Eles acreditam fielmente que os LGBTs são um declínio moral, ao passo
que tudo o que os casais mais querem é se tornar família tradicional.
Mas o fundamentalismo é assim
mesmo. E é fácil explicar: se a religião X condena, por exemplo, a
homossexualidade, os fundamentalistas vão querer que todos pensem assim. Quem pensar
fora, está condenado, é ignorante, é cego. E veja bem, quando um homossexual
busca seu direito, ele não fere o direito de nenhum hétero. Na matemática,
ambos sairiam com direitos garantidos. É diferente, porém, quando se nega o direito
a este mesmo homossexual, uma conta que dá direitos pra uns, mas exclui outros.
Os pluralistas vão defender o bem-estar de todos. Os fundamentalistas vão
defender sua moral e que sua moral seja a moral de todos. Não há lógica.
Só acho que a bandeira da
diversidade e do pluralismo deve estar mais visível. Quando se brada a favor do
Estado Laico, fica parecendo birra. Cria-se virtualmente um inimigo, e é
justamente isso que os líderes religiosos querem, rivais. O que o movimento
LGBT precisa entender é que a bandeira do pluralismo abarca todos. Se for isso
o Estado Laico, então me dou por satisfeito. Mas na política, os termos nos
engolem. E o nosso pensamento de revanchismo parece que não consegue se
desenvolver sem fazer inimigos.
21 de fevereiro de 2015
Positivo
É como se meu mundo todo tivesse ruído. E, de repente, as
frias calçadas de concreto não conseguissem segurar meu corpo, já devastado.
Estou sozinho nas ruas, no feriado da quarta-feira de cinzas. Talvez,
anteriormente minha vida fosse carnaval, ao passo que agora já se desfez.
Triste.
Ouvi de uma senhora anônima que ela planejava passar as bodas
de ouro com o marido em Nova York, mas ele se recusava a viajar à Terra do Tio
Sam (mas também do Woody Allen, pensei!), de modo que o impasse do casal se
resumia a escolher entre a cidade do jazz
e uma tal de Amsterdã. Não sei se choro de comoção, do quanto queria viver um
casamento tradicional, regado a discussões sobre qual carimbo marcar no meu
passaporte.
Estava num banco de praça. Latido de cães passeando com seus
donos, crianças correndo, vendedores de água de coco, sorvetes e refrigerantes
tentavam, cada um à sua maneira, chamar a atenção dos transeuntes, ainda que o
mais radiante no meio dessa balbúrdia, o seu Zé, fosse o vendedor de suco de
laranja natural mais brejeiro de todos. Mas não estava com sede, nem fome, nem
me sentia vivo. Eu só queria um sentido para toda essa alegria espontânea dos
outros.
Estava a caminho de casa, mas tive que parar neste banco de
praça. Desconectei a Internet de meu smartphone,
e fiquei por alguns minutos a contemplar a paisagem. Daqui pra frente nada será
a mesma coisa. O algodão-doce cor-de-rosa, ainda que permanecesse doce e rosa,
teria outro gosto e outra cor. E o pior de tudo, que mal consigo me lembrar das
palavras da assistente social, quando ela finalmente revelou o resultado que
não esperava escutar. Sim, o teste de HIV deu POSITIVO.
Tive de conter as lágrimas naquele instante. Eu precisava me
mostrar forte, aguerrido. Mas as pernas já estavam pesando, ao mesmo tempo em
que minha cabeça rodava a uma velocidade incalculável. Estava em minhas mãos
continuar me arriscando ou simplesmente continuar vivendo.
Namorávamos há oito meses. E durante todo esse tempo, jamais
transamos sem preservativo. Até porque, não foram muitas às vezes em que
precisávamos usar. Havia noites em que o vinho ou os filmes de terror nos
acompanhavam, e outras em que uma pizza gordurosa ou rodadas de videogame com
os amigos nos preenchiam. Tínhamos o tempo necessário para valorizar a presença
um do outro das mais diferentes formas. Às vezes, quando eu tinha um dia
difícil na faculdade, queria apenas um breve sorriso dele, nem que fosse por
alguns segundos, o suficiente para valer pelo dia todo. Era incrível a
capacidade dele de sempre estar bem humorado, e bom humor contagia.
Meu namorado trabalha como vendedor em uma grande loja de
conveniências. Apesar de estressante para os meus padrões, considerando que
minha rotina se resume aos compromissos da faculdade, era ele quem me
reconfortava, me reanimava, introjetava aquela lasca de vigor tão necessária ao
cotidiano de cada ser humano. Não se preocupava com dietas, nem com academia. Era
amante de Virgínia Woolf e de filmes japoneses de animação. Francamente, onde
se encontra hoje um homem nerd
feminista? Ele queria fazer letras, mas tirando a literatura, não se saía bem
em todas as outras disciplinas. Talvez arranhasse na Gramática e na História.
Talvez.
Mas agora, não sabia o que fazer. Não sei dizer se o amo. Oito
meses parecem muito pouco para tal definição. Só sabia dizer que ainda não era
o momento para me afastar dele sem provocar o mais intenso dos sofrimentos. Mas
eu precisava me decidir.
Foi escurecendo. Alguns garis da prefeitura ainda limpavam a
rua. Eu me levantei do banco com o choro preso. Não conseguia derramar as
lágrimas, ainda que parecesse prestes a desabar. Voltei pra casa.
Não tive como encarar meus pais, mesmo sabendo que eles
poderiam ser a força de que precisava. A única coisa que queria era adormecer
num travesseiro mágico, daqueles que, ao repousar, fizessem apagar da sua
memória todo o dia vivido, de modo que o amanhecer trouxesse uma nova chance,
como se o dia anterior jamais tivesse existido. Obviamente não foi o que
aconteceu. Depois de uma noite pessimamente dormida, a única vontade que tinha
era de correr aos braços do meu namorado. Foi o que eu fiz.
Saí de casa e mal tomei café. Queria encontrá-lo antes dele
iniciar sua jornada de trabalho, ainda que tivéssemos combinado de nos ver
somente depois do expediente. Na verdade, estávamos juntos quando recebemos o
resultado do teste, no dia anterior, e desde então, de forma instintiva se fez
um silêncio tácito entre nós.
Passei rapidamente na farmácia para lhe comprar um presente.
Fui até o trabalho dele, mas ainda restavam alguns minutos para que ele
começasse a trabalhar, até que o avistei.
Ele usava um óculos escuro, provavelmente para esconder os
olhos vermelhos. Poderia, inclusive, ser dispensado do trabalho, mas não queria
se entregar. Demo-nos um forte abraço um no outro, sem saber calcular o quanto
o movimento rotacional da Terra deve ter parado para nós.
- Estou aqui. – eu disse.
Foi a única coisa que conseguir dizer naquele momento. Sabia
que poderia cometer um erro, mas não poderia abandoná-lo naquele momento: meu
namorado descobrira ser soropositivo, ao passo que eu não comportava tal
condição. Apesar de ele ter jogado as responsabilidades na minha costa, se
queria continuar ou não, e de eu não estar completamente seguro se deveria ir
adiante, lhe dei o presente que havia comprado: uma caixa de preservativos,
para usarmos.
Foi quando rimos e choramos ao mesmo tempo. E eu, que até
então não havia derramado lágrimas, e que sempre recebia seu afago, estava,
agora, lhe reconfortando, lhe devolvendo aquele belo sorriso no rosto pelo qual
me apaixonei. Se vai dar certo, eu não sei. A única coisa que sabia era que, no
final do dia, quando eu voltar da faculdade e quando ele sair do trabalho,
iremos nos encontrar na praça, na mesma praça em que, ontem, havia passado
horas a fio, mas desta vez iríamos tentar rir da vida, e decidir se mataríamos
o tempo com sorvete, água de coco ou com o suco de laranja do mais simpático
vendedor do bairro. Ou quem sabe comeríamos algodão-doce, daquele rosa, para
enfim descobrir se seu gosto e sua cor permanecem tão doce e tão rosa, tão
saborosos e tão vivos quanto antes...
7 de fevereiro de 2015
Crítica: Namoro ou liberdade
8/10
“Namoro ou liberdade” (That Awkward Moment, 2014) pode não ser uma das melhores comédias do gênero, aliás, na verdade, está longe disso. Também fica ligeiramente atrás, no quesito diversão, das mesmas produções do gênero, como as franquias “Se beber não case” ou “Quero matar meu chefe”. Entretanto, colocando na análise outros critérios além das piadas, este exemplar está surpreendentemente à frente dos filmes aqui citados.
Para começar, os três protagonistas estão todos ótimos. Obviamente o roteiro apela para a história do galã Zac Efron, vivendo o papel do simpático Jason, e o rapaz se sai dignamente bem. No entanto, em nenhum momento os outros dois parceiros deixam de aparecer e ter suas cenas bem encaixadas. Aliás, este entrosamento é percebido de forma tão natural nos créditos finais, que toda a sintonia da equipe durante o filme logo é confirmada. Que Miles Teller tem belo time para comédia é inegável, porém, foi extremamente gratificante ver o amigo negro da turma, Mikey, vivido por Michael B. jordan, adotar a linha mais introspectiva, sem perder o bom humor. Isto é, ele fugiu daquele padrão do negro como válvula de escape e palhaço da turma, e é dele as falas mais inspiradas em termos de reflexão, e que não soaram clichês.
O filme trata de relacionamentos, o eterno dilema entre o momento de dizer “sim” (ou não) a uma parceria estável ou curtir a vida de solteirice, assim como o momento tenso entre romper ou não um relacionamento. Talvez o filme tenha pecado em não ser tão adulto em alguns momentos, ocasião em que o poderia ser, por exemplo, se explorasse mais a vida profissional dos rapazes, e se explorasse menos algumas piadas de mau gosto. Entretanto, tentando atingir um público mais jovem, essa escolha pode até funcionar, pois ainda assim lembrou um “American Pie” menos escrachado e mais clean.
O interessante é que a película poderia muito bem enveredar por esse lado mais maduro, pois os rapazes não adotam sentimentos infantis, nem foram idiotizados pelo roteiro, além de demonstrar certo equilíbrio e talento nos seus papéis. Mesmo porque, o dilema de passar de uma vida de liberdade a uma vida de compromissos demarca muito bem a passagem para esse amadurecimento. Aliás, o mais próximo que ocorreu em relação a essa vivência mais adulta foi com o personagem de Mikey, igualmente tocante a forma como o protagonista vivia um casamento e como se deu o seu desfecho.
Para completar a grata surpresa, a escalação das parceiras dos respectivos amigos soou não apenas natural, mas perfeitamente enquadradas às personalidades dos marmanjos. Todas elas aparecem em suas vidas e foram sutilmente construídas, não estão no lugar comum e apagado, pois da relação com cada um deles, há uma troca de sinergia estupenda, o que faz com que os rapazes acabem mudando ou se adaptando em função da experiência trocada com elas. E, afinal, a relação construída é sempre bidimensional, nunca o ponto de vista masculino se sobressai nessa construção.
Por essas e outras, contando com personagens excelentes e com a possibilidade de ter ido mais adiante (sim, pode parecer frustrante que o roteiro não tenha saído do superficial em alguns momentos) que considero este o melhor exemplar das, digamos, “comédias românticas protagonizadas por amigos héteros” dos últimos anos. Para a juventude que ainda tem um certo romantismo, tem mente aberta e pensa na estabilidade (ou não) dos relacionamentos, esta é uma boa pedida. Ainda que fique atrás de trabalhos mais reflexivos, afinal ainda carrega aquele tom de ser uma comédia enlatada, este filme pode sim apresentar boas sacadas, especialmente pra quem vive tal dilema. E sem perder o romantismo, ou seja, sem deixar de ser clichê. E que bom! Afinal, não se trata de idealizar o porvir dos relacionamentos, não é essa a proposta: o grande dilema do filme, o momento crucial mesmo, é o do início, é o do começar o relacionamento, e não seu desenrolar. Esta foi sua grande sacada, este momento tenso entre o romper, iniciar ou nem engatar um relacionamento, ou seja, That Awkward Moment.
Publicado também em: http://www.cineplayers.com/comentario/namoro-ou-liberdade/39155
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