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7 de fevereiro de 2015

Crítica: Namoro ou liberdade


8/10

“Namoro ou liberdade” (That Awkward Moment, 2014) pode não ser uma das melhores comédias do gênero, aliás, na verdade, está longe disso. Também fica ligeiramente atrás, no quesito diversão, das mesmas produções do gênero, como as franquias “Se beber não case” ou “Quero matar meu chefe”. Entretanto, colocando na análise outros critérios além das piadas, este exemplar está surpreendentemente à frente dos filmes aqui citados.

Para começar, os três protagonistas estão todos ótimos. Obviamente o roteiro apela para a história do galã Zac Efron, vivendo o papel do simpático Jason, e o rapaz se sai dignamente bem. No entanto, em nenhum momento os outros dois parceiros deixam de aparecer e ter suas cenas bem encaixadas. Aliás, este entrosamento é percebido de forma tão natural nos créditos finais, que toda a sintonia da equipe durante o filme logo é confirmada. Que Miles Teller tem belo time para comédia é inegável, porém, foi extremamente gratificante ver o amigo negro da turma, Mikey, vivido por Michael B. jordan, adotar a linha mais introspectiva, sem perder o bom humor. Isto é, ele fugiu daquele padrão do negro como válvula de escape e palhaço da turma, e é dele as falas mais inspiradas em termos de reflexão, e que não soaram clichês.

O filme trata de relacionamentos, o eterno dilema entre o momento de dizer “sim” (ou não) a uma parceria estável ou curtir a vida de solteirice, assim como o momento tenso entre romper ou não um relacionamento. Talvez o filme tenha pecado em não ser tão adulto em alguns momentos, ocasião em que o poderia ser, por exemplo, se explorasse mais a vida profissional dos rapazes, e se explorasse menos algumas piadas de mau gosto. Entretanto, tentando atingir um público mais jovem, essa escolha pode até funcionar, pois ainda assim lembrou um “American Pie” menos escrachado e mais clean. 

O interessante é que a película poderia muito bem enveredar por esse lado mais maduro, pois os rapazes não adotam sentimentos infantis, nem foram idiotizados pelo roteiro, além de demonstrar certo equilíbrio e talento nos seus papéis. Mesmo porque, o dilema de passar de uma vida de liberdade a uma vida de compromissos demarca muito bem a passagem para esse amadurecimento. Aliás, o mais próximo que ocorreu em relação a essa vivência mais adulta foi com o personagem de Mikey, igualmente tocante a forma como o protagonista vivia um casamento e como se deu o seu desfecho.

Para completar a grata surpresa, a escalação das parceiras dos respectivos amigos soou não apenas natural, mas perfeitamente enquadradas às personalidades dos marmanjos. Todas elas aparecem em suas vidas e foram sutilmente construídas, não estão no lugar comum e apagado, pois da relação com cada um deles, há uma troca de sinergia estupenda, o que faz com que os rapazes acabem mudando ou se adaptando em função da experiência trocada com elas. E, afinal, a relação construída é sempre bidimensional, nunca o ponto de vista masculino se sobressai nessa construção.

Por essas e outras, contando com personagens excelentes e com a possibilidade de ter ido mais adiante (sim, pode parecer frustrante que o roteiro não tenha saído do superficial em alguns momentos) que considero este o melhor exemplar das, digamos, “comédias românticas protagonizadas por amigos héteros” dos últimos anos. Para a juventude que ainda tem um certo romantismo, tem mente aberta e pensa na estabilidade (ou não) dos relacionamentos, esta é uma boa pedida. Ainda que fique atrás de trabalhos mais reflexivos, afinal ainda carrega aquele tom de ser uma comédia enlatada, este filme pode sim apresentar boas sacadas, especialmente pra quem vive tal dilema. E sem perder o romantismo, ou seja, sem deixar de ser clichê. E que bom! Afinal, não se trata de idealizar o porvir dos relacionamentos, não é essa a proposta: o grande dilema do filme, o momento crucial mesmo, é o do início, é o do começar o relacionamento, e não seu desenrolar. Esta foi sua grande sacada, este momento tenso entre o romper, iniciar ou nem engatar um relacionamento, ou seja, That Awkward Moment.


Publicado também em: http://www.cineplayers.com/comentario/namoro-ou-liberdade/39155

28 de janeiro de 2015

Crônica: Uma mulher

- Uma mulher!

Bee, vê se já aconteceu esta cena com você: corpos suados de um lado a outro na academia,mapôs com suas calças de lycra, o magrinho que passa mais tempo ao celular com fone de ouvido, o tiozinho que disputa os maiores pesos... e, de repente, um corpo de boy chama a atenção. E que corpo! Que boy! Morenaço, camiseta justa destacando o peitoral definido, gemido intenso na carga máxima do supino, cara de macho. Eis que surge aquele velho broto, colega de faculdade do boy-marombeiro-magia, que o cumprimenta entusiasticamente, mas não mais do que o próprio: “Amigooo! Nossa, quanto tempo! Arrasou com essa baby-look azul bebê, comprou onde?”

Pois é.

O Sr. Hulk da academia é, de perto, uma mulher maravilha! Obviamente esta sua surpresa lhe faz um tolo, e uma pena que talvez esta não seja a sua surpresa definitiva: sabe aqueles garotos, playboys, que você não dava nada e que fazem o treino se revezando com os amigos nos aparelhos mais disputados (o que, tecnicamente, dobre o tempo de permanência deles na academia, pois vivem em grupo, já que a sociabilidade é o foco, não o treino), ora falando sobre a última balada, ora sobre a balada seguinte? Então, nessa ternura de camaradagem jovem, já no vestiário, você os ouve comentando sobre a pintosa musculosa da academia, com ar de desdém, troçando daquele gênero deslocado. Imagina o que devem falar de travestis e transexuais! São os mesmos que fazem apologia a uma suposta discrição intimada: “Cara, uma mulher... nem acredito!”, “ridículo, né? E parece homem...”, “Devia ter vergonha na cara”. A verdade é que se são gays enrustidos, reprimindo internamente seus desejos, ou héteros recalcados, pouco importa. A ironia do dia é que você se iguala a eles em sua surpresa inconsciente sobre o bombadão de voz fina.

O que sua boca não diz, na tentativa de manter-se politicamente correto e com seu discurso pronto e inabalável sobre sexualidade, o seu pensamento em flash rápido o revela. Pensar para si mesmo: “Tô chocado com essa mulher num corpo de boy”, revela mais da sua personalidade internalizada do que parece. E aí você continua se chocando, mesmo diante de saídas de armários banais como ter um professor gay ou de simplesmente descobrir que seu padeiro é casado com outro homem.

Já na saída da academia, eis que o bonitão-machudo-feminino surge lhe oferecendo carona. Você aceita e descobre que ele mora no mesmo prédio que você, ouve MPB, é estudante de Odontologia, e trabalha como barman em uma boate. Tudo parecia bem, até você descobrir que ele não gosta de Woody Allen! “Como assim?”, você o pergunta, no que ele responde: “Um velho arrogante metido a comediante. Gosto do Adam Sandler!”. E você se espanta, entra em choque!


Ao chegar em casa, ri da situação. Pelo menos, dessa vez, você aprendeu a se chocar pelos motivos certos.

4 de janeiro de 2015

Crônica: Um programa inusitado


O olhar centrado de Carlos era dirigido à porta trancada do banheiro, dentro do qual se ouviam as gotas de água escorrer pelo ralo. Ele a aguardava pacientemente, ainda que lhe faltasse o destemor dos fortes: apenas os dois dividiam aquele fétido quarto de motel, palco de mais uma noite de sexo pago.

Era estranho esperar por ela naquelas condições: estava sóbrio. Carlos queria rir da sua condição, como se suspeitasse de sua coragem consciente. Mas estava lá, esperando tranquilamente o sexo fortuito e descartável daquela moça.

Não havia o que temer, mesmo sendo a primeira vez que alugava um quarto para tal ocasião. Desde quando o seu ex-namorado o deixou, Carlos contava com inúmeras investidas fugazes, trepadas rápidas e esquecíveis, mas nada se comparava àquilo; e, de repente, quando o chuveiro foi fechado e o barulho da água escorrendo ia cessando sobre o corpo de sua próxima amante, o silêncio lhe provocou um certo grau de ansiedade.

Não poderia escapar agora, quando já estava tão perto. O tênue nervosismo estava mais para um desejo de que o ato rapidamente se consumasse.

Estava meio excitado, embora nervoso, quando a jovem se revelou no quarto, asseada, inteiramente nua. Ele sorriu para ela, já sabendo o que reservava aos dois. Ela se aproximou da cama e elogiou o corpo moreno ali deitado. Ela foi se aproximando aos poucos, sem cessar de balbuciar o quanto vê-lo nu a deixava demasiadamente excitada, desejosa, insaciável.

Carlos adorava ouvir elogios, e por um segundo pensou em retribuir. Mas a moça repentinamente lhe tocou os lábios para que ele se calasse. Ela tomava as rédeas da situação, não queria perder o comando.

Carlos imaginou, por um instante, que essa sua submissão pudesse lhe prejudicar ao revelar certa fraqueza, mas logo a insegurança se dissipou: era seu dever ser submisso em tal ocasião. Ela lhe beijou docemente os lábios, e mesmo que Carlos fantasiasse algo mais selvagem, o ritmo daquela formosa mulher lhe pareceu mais estimulante. Ele cedera a seus encantos, aos seus beijos e toques, às carícias ritmadas. Ela lhe tocava a nuca como se fosse a tutora daquele corpo, e ele se deixava levar. Preliminares transcorriam suavemente, feito nuvens de algodão.

Foi então que a moça, delicadamente, lhe pôs de bruços, e ele já não se importava com mais nada, já estava completamente relaxado. Ela encostou seu órgão por trás dele e lhe penetrou com vontade. Ele sentia um pouco de dor, mas ser penetrado por uma mulher cujos cabelos lhe batiam nas costas era de uma sensação incomparável.

E foi assim a noite dos dois, Carlos deixando a mulher ejacular ao lhe penetrar, domado não pela força, mas pelo desejo. Ela se sentiu extremamente satisfeita em possuir aquele homem tão másculo e viril. Mas sabia que tudo não passava de uma ilusão, de algo momentâneo.

Após esbanjar seus prazeres, ela novamente tomou uma ducha e pagou pelos serviços. Carlos jamais imaginava que a vida de garoto de programa lhe fosse pregar tal surpresa: uma cliente inusitada, e por isso mesmo, um sexo revigorante.


Carlos quis lhe perguntar o nome, mas ficou com receio de ofender: nome de batismo ou nome social? Até porque, isso pouco importava. A partir daquela noite, os dois nunca mais se viram.

14 de dezembro de 2014

FILME: Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1


Nota: 8/10

O terceiro filme da franquia “Jogos vorazes” chega ao cinema de forma corajosa e competente, sendo um bom entretenimento para o público jovem. A esta altura, todos já sabem a história de Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) e sua saga em unir os distritos contra as formas de opressão impostas pela Capital, responsável por manipular a mídia, promover a desigualdade no acesso às riquezas e comandar os temíveis jogos (ideologia para que os distritos se vejam sempre em tom de competição, como ocorre, por exemplo, no futebol, obviamente em outras proporções, mas de igual fundamento).

Há que se destacar as atuações (o filme é de Lawrence) e o capricho na produção deste capítulo. O tom sombrio, os destroços quando a base é invadida, os meios de transporte e de comunicação, tudo faz imergir àquele mundo fantasioso. Inclusive, a divisão deste capítulo em dois foi aproveitada de forma satisfatória, para aprofundar os personagens. Tudo direitinho, inclusive nos diálogos que remetem aos tons políticos do século XX, de um lado o fascismo e de outro a massificação da informação.

O grande problema da obra é que o argumento contem furos que apenas se encaixam se tivermos muita disposição para aceitar a superficialidade traçada pela história, afinal, feita para introduzir os jovens neste dilema. Sendo assim, toda a problematização se faz ao nível de discurso. O que se quer dizer com isso é que a política se aparta de qualquer ideia de materialidade e de sopro de vida e necessidade que se podem vislumbrar no controle daqueles corpos humanos: não se questiona o artefato bélico à disposição dos distritos, seus níveis de suprimento, a tecnologia fantástica que dispõem. As armas, as construções, enfim, tudo parece tão natural. De certa forma, a alienação tão questionada está presente para quem quiser conferir, só não espere isso do roteiro. O objeto questionável, torna-se, ele mesmo, a imagem que aqui consumimos.

Da mesma forma, o lado da Capital também tem ao seu dispor todo um aparato técnico, e a política se aparta da realidade concreta para dar voz a ela mesma. Com isso, “Jogos vorazes” é um embuste, pois seu discurso se assenta num simulacro de imagens e de posições de poder que jamais ganham força além de toda aquela superficialidade. Para piorar, líderes e todo o grupo revolucionário ficam demasiadamente à mercê da decisão individual de Katniss, por exemplo, e isto só serve mesmo para reforçar o que o filme se propõe (ao contrário), pois ao questionar a individualidade versus a massificação, se utiliza de elementos óbvios, românticos e de fácil assimilação.

No entanto, ainda que apartado do mundo do trabalho e da origem de todas as construções sociais que obviamente sustentam qualquer tipo de agrupamento humano, o roteiro inteligentemente não se torna maniqueísta a ponto de deflagrar uma guerra do bem contra o mal. De fato, tanto de um lado quanto de outro se está à mercê de pessoas, de grupos, de discursos que se digladiam pelo poder. A interpretação dúbia da protagonista não apenas convence, mas é realizada de forma magistral, e não sabemos ao certo a que fundamentos se sustentam os discursos da liberdade e da opressão. Neste sentido, reviravoltas podem ser pressentidas, e o roteiro acerta em suas escolhas, em deixar a dúvida tomar conta, em valorizar o telespectador instigante.


Pelo menos, é bem mais reconfortante saber que os jovens podem introduzir tal discussão a partir de tal obra, do que provavelmente tentar extrair algo de mais densidade em séries como Crepúsculo, por exemplo. Neste sentido, ao lado de “Divergentes” e “Maze runner”, estes “Jogos vorazes” se apresenta como o mais completo, o mais bem produzido, ainda que falho em seu sistema de referência.

Filme: O Grande Gatsby



Nota: 8,5

Adaptação do romance emblemático de F. Scott Fitzgerald, escrito em 1925, “O grande Gatsby” se apresenta, de cara, com cenários luxuosos, radiantes, exagerados, histriônicos. A primeira meia hora é de tirar o fôlego, os personagens sendo apresentados abruptamente, câmeras com cortes rápidos, muitas cores. Era de se esperar algo assim de um diretor que tem no currículo o também exagerado “Moulin Rouge”.

O filme conta a história do misterioso Gatsby (Leonardo DiCaprio) pelos relatos do seu vizinho Nick Carraway (Tobey Maguire), ambos muito bem no papel. Gatsby, na verdade, passou uns anos fora dos EUA, e voltou a sua terra para resgatar um amor do passado, Daisy (Carrei Mulligan, destaque em “Drive” e “Shame”), embora ela esteja casada. Gatsby faz de tudo para chamar a atenção dela, promove festas escandalosas, se envolve na mais alta sociedade, teve que enriquecer, ostentar (essa premissa é trabalhada de forma deliciosa pelo roteiro, pois nos perguntamos se isso basta, sem que tal questionamento seja lançado diretamente em nossa cara), ainda que sua solidão e sua obsessão o consumam, e o filme engrena quando Gatsby e Nick se aproximam, já que Nick serve como uma ponte até Daisy, uma vez que são primos.

O problema desta produção reside mesmo no seu ritmo frenético inicial, que não se sustenta em toda a projeção. A velocidade das apresentações, exceto a de Gatsby, e a pomposidade das festas, para deixar claro ao telespectador que se trata de um sujeito rico, extravagante, porém carente, parece mesmo ser muito forçado, e demasiadamente superficial. Até então, é sua mansão e suas festas que são, talvez, os protagonistas do filme, e o telespectador fica aguardando conhecer o tal fanfarrão. Como Gatsby esbanja sua riqueza de forma peculiar, já que ele jamais é o centro das atenções nas festas em que promove, e sequer convida seus hóspedes, estes se apresentam de forma espontânea, o roteiro se utiliza desse fato até a sua primeira aparição em tela, mantendo o clima gostoso de suspense até o romper do protagonista, e é aí, a partir da sua aparição, que os idealizadores pisam no freio e conseguem imprimir um ritmo mais interessante à obra: sem deixar de lado as tomadas dinâmicas, mas se valendo de diálogos certeiros e atuações incríveis, o filme melhora em todos os seus aspectos, sendo fantástico em tudo o que se propõe. Aliás, destaque para músicas pop (“A little party never killed nobody”), o que realmente foram super bem encaixadas, cabendo até mesmo imaginar como seria um musical desta obra.

Gatsby construiu sua riqueza pela guerra, pelas relações informais com banqueiros de Wall Street, e tudo isso não apenas fascina, mas passa pelo crivo moral da sociedade americana. Não nasceu rico, toda sua riqueza foi construída. E o trabalho, como se sabe, jamais poderia ser sua fonte de ouro. O que Scott fez aqui foi brilhante: trouxe um novo rico, que cresceu através de mecanismos espúrios, e ainda assim o enredo não o torna culpado pelas próprias vicissitudes. Até mesmo porque, Gatsby tem outras qualidades, e quando olhamos ao redor dele, numa Nova York filmada com cores escuras, paisagens grotescas, trabalhadores decadentes, poluição visual, recuperando-se da queda da bolsa, onde o sistema financeiro se tornou o centro das relações de poder, tudo parece levar a crer que não há anjos e demônios neste mundo de glamour. E o roteiro (tanto no filme, quanto no livro) inteligentemente não é maniqueísta. Como exemplo, veja-se o marido de Daisy, Tom (Joel Edgerton), um racista típico, vangloria-se pela sua posição social, e toda sua mediocridade soa como natural. De fato, lá pelas tantas da projeção, nem sabemos pra quem torcer (o que seria algo típico de uma visão que separa vilão e mocinho, o que não é o caso), e apenas estamos interessados no desfecho dos personagens, anjos e demônios de si mesmos.

O romance entre o casal protagonista, portanto, por mais que tenha suas pitadas de tudo o que poderia ser de mais meloso, com o mocinho voltando às terras norte-americanas com a glória feita, rico, esbanjando em festas, feito um pavão para chamar a atenção da mocinha infeliz, tudo isso, na verdade, é invadido pela vida, pelo imprevisto, pelos bens materiais questionáveis, pelas condutas questionáveis. Acompanhamos tudo pelo olhar de Nick, e ele mesmo se encabula de ter feito “um único” elogio a Gatsby. No fundo, ele e nós questionamos esta conduta de bom moço, e parece que Nova York realmente não tinha algo melhor a oferecer. Ao final, ficamos apáticos pelo desfecho do personagem, um futuro que não se concretizou, e um presente que sempre nos escapa. Nada de idealizações, afinal. Esta é a vida!


Se não fosse pelo começo demasiadamente corrido e com cores que de tão exuberantes ficaram duvidosas, seria uma obra-prima. Na dúvida, o livro de Scott Fitzgerald certamente o é, e o desenvolvimento deste Gatsby feito por um Luhrmann que não perdeu sua subjetividade, sua visão única, seu cinema dinâmico, já vale muito.

15 de novembro de 2014

Filme: os suspeitos


NOTA: 8,5/10


Não esperava nada deste filme, mal conhecia o diretor Denis Villeneuve. Fui assisti-lo com a desconfiança das duas horas e meias de suspense não poderem se sustentar, pois é preciso muita habilidade para segurar a tensão do início ao fim. E deu certo!

Todo o clima construído sobre a obra me lembrou muito Sobre meninos e lobo (Mystic River, 2003) do genial Clint Eastwood, mas muito superior a este, uma vez que não se sustenta em uma moral deslocada, nem em um pessimismo pungente... Não causa mal-estar, e ainda assim consegue levar às telas as reflexões morais necessárias e provocar aquela agonia típica de filmes deste gênero.

O roteiro gira em torno do sumiço de duas garotinhas no dia de Ação de Graças, filhas dos Dovers e Birchs. Keller Dover (Hugh Jackman) assume o papel do pai desesperado, clamando por justiça, e o faz mesmo quando a polícia, encarnada aqui no papel do detetive Loki (Jake Gyllenhaal) solta o principal suspeito do caso, o estranho Alex Jones (vivido por Paul Dano). 

A partir daí, tudo fica mais interessante, uma vez que a busca pela justiça se depara com as questões morais, isto é, se depara com os meios pelos quais se tentam arrancar verdades baseadas em suspeitas que não se confirmam: com a ajuda de Franklin Birch (Terrence Howard), o qual funciona no roteiro de forma a sempre questionar os métodos que serão vistos em tela, Keller aprisiona Alex numa tentativa desesperada de tentar arrancar-lhe as supostas verdades. Então, aqui encerro um questionamento: tanto o título "os suspeitos", quanto o original "prisioneiros", fazem jus à obra. "Os suspeitos" da perspectiva de que não sabemos ao certo o responsável pelo sumiço das garotas, e mesmo os pais, enquanto vítimas, de um ponto de vista legal e moral, também são suspeitos de cometer crimes em completo desagravo aos direitos humanos, assim como prisioneiros de seus dilemas, não somente aprisionados fisicamente, mas sobretudo psicologicamente. E nós, meros telespectadores, prisioneiros daquele drama familiar, e suspeitos por estarmos jogando com a moral de Keller, absolvendo-o algumas vezes, mesmo nas mais cruéis atrocidades, as quais exigem urgência e medidas drásticas.

Métodos de tortura são jogados na nossa cara, e acabamos questionando tudo, sem saber ao certo de que lado estamos. Não espere um filme fácil de vilões e heróis, ainda que Holly Jones (Melissa Leo), a tia de Alex, quase leve tudo a perder no terceiro ato. Outro grande destaque é a personagem de Viola davis, tenho um carinho especial por essa atriz, e sua atuação é fantástica: "Não vamos mais ajudar Keller, mas não vamos impedi-lo", numa atitude que prova que o "em cima do muro", na verdade, nunca é neutro. 

Aqui os personagens estão bem construídos, e Hugh dá um show à parte com seu papel de moral ambígua. Destaque também para a trilha marcante e para a fotografia, indicada ao Oscar, que realmente conseguem passar a serenidade necessária. Uma grande pena que o didatismo e a urgência de conclusão em volta de Holly Jones tenha prejudicado o saldo final, mas quando o filme termina, numa solução interessantíssima, vemos que não passou de mero detalhe: há elementos muito mais interessantes na película, que a torna uma experiência incrível.


Publicada no site do Cineplayers em 27/10/2014:
http://www.cineplayers.com/comentario/os-suspeitos/38621

Filme: Made in China


Nota: 3/10

Lixo multiculturalista resume esta obra. É bem verdade que fui assistir a “Made in china” com baixas expectativas, já que eu sempre tento valorizar um bom e despretensioso entretenimento vindo de uma comédia nacional de leve. Mas não é o caso aqui: é muito ruim.

Regina Casé é a protagonista deste longa. Longe das telas do cinema deste “Eu, tu, eles”, Regina se firmou nos últimos anos como apresentadora da TV Globo à frente da atração semanal chamada “Esquenta”, cujo bordão do programa, “tudo junto e misturado” (repetido várias vezes também nesse filme), é um ode à miscigenação e à multiculturalidade do povo brasileiro, de deixar antropólogos do quilate de um Lévi-Strauss, encantados. Nesta projeção, Regina encara Francis, vendedora da loja “São Jorge”, cujo dono é descendente de libanês (o que remete ao período da imigração do início do século XX). A loja começa a sofrer forte concorrência dos produtos chineses, os quais buscam cada vez mais ampliar seus negócios, nem que seja tomando os estabelecimentos comerciais dos concorrentes (estes são propriedades de judeus, armando uma mistura multiétnica sempre clara ao telespectador).

Bem, apesar dos óbvios clichês referentes ao país de origem, o tom politicamente correto do filme não dá margem a piadas grotescas e preconceituosas, ainda que se utilize de estereótipos. Além disso, o roteiro acerta em inserir falas em mandarim, deixando o público deliciosamente perdido. Mas os pontos positivos terminam por aí. O tom despretensioso e de bons amigos do filme é seu maior algoz: o comércio na China arrebenta não apenas a economia brasileira, mas é alvo de controvérsias em todo o mundo. Obviamente, há muito alarde para tal situação, uma vez que a China representa uma séria ameaça à hegemonia norte-americana, contudo, é fato que muito do sucesso do barateamento dos produtos chineses se deve às péssimas condições trabalhistas do país, incluindo trabalho escravo e infantil de sua mão-de-obra. O caso da Nike e, mais recentemente, da Samsung, esta último embargando os fornecedores chineses, são exemplares da importância do tema.

E o filme passa por cima de tudo isso. A única explicação que dá para a concorrência desleal dos produtos importados orientais se deve à caricatura do dono da loja, o qual exige “trabalho demais”. Aqui, entra o mito do trabalho árduo, não sob a perspectiva crítica, mas pelo trabalho em si. Para completar, a solução encontrada no filme é uma deturpada visão maniqueísta do ocidente versus oriente, e aquela já famosa ideia do quanto os brasileiros são apimentados, luxuriosos e liberais.

 Além das atuações ruins, fica mesmo a ideia de que a aldeia global pode muito bem apartar seus conflitos quando se festeja o multiculturalismo sem perspectiva crítica alguma. As questões sociais e trabalhistas na China são questões seríssimas, pois se trata hoje da economia que mais cresce no mundo, do maior mercado consumidor do mundo, redefinindo e pondo todos a pensarem nas novas configurações geopolíticas, assentadas no pensamento neoliberal, e seus impactos sob as regulações trabalhistas e dos mercados. Como o roteiro se utilizou do humor para contar a história, além de não trazer piadas engraçadas e atores talentosos para tal, fecha completamente os olhos para a realidade. É tudo muito infantil e amador. Mesmo na cena em que um personagem é quase preso por ter molestada uma menor, um simples depoimento contrário já o liberta, sem qualquer explicação. Ou seja, é o tipo de filme que não adianta ser exigente, mas também não precisava ser imbecil.

Não sei se foi um erro levar a sério esta produção. Ocorre que o tema central é demasiadamente interessante, está na pauta internacional, inclusive sendo alvos de calorosos debates das instituições multilaterais. E por mais que você vá assistir ao filme despojado de todo esse sentimento crítico, o que sobra é uma comédia (?) rala, sem piadas interessantes, atuações ruins, pois a trama envolve justamente a busca do motivo pelo qual os produtos chineses são tão baratos, ganhando constrangedores cenas de uma “Regina Casé detetive” (o que foi aquela perseguição? Vergonha alheia), para, ao fim, entregarem o cúmulo do superficialismo, um trabalho completamente cego à realidade. Será mesmo que o ode ao multiculturalismo estaria arriscado se o filme fosse mais corajoso, em apontar o dedo nas feridas, em apontar um mínimo de discernimento? Acredito que não.


Se você é conhecedor dos problemas da globalização (nem que seja por ler a Veja), ou se você espera pelo menos rir de um filme que se intitula comédia nacional, passe longe desse exemplar. Agora, se você assiste assiduamente ao Programa “Esquenta”, e consegue ser feliz ao exaltar o samba, o funk, a favela, sem demonstrar qualquer perspectiva crítica (o que, convenhamos, mesmo o programa televisivo às vezes consegue dar uns bons toques), então talvez você aprecie este trabalho, feito mesmo apenas para fomentar o marketing de uma suposta brasilidade cordial, como diria Buarque de Holanda (“O homem cordial”, livro da década de 1930). E ele não estava nos exaltando, mas simplesmente demonstrando o quanto ainda somos cegos socialmente.

Pleasure: o hedonismo e o estoicismo degladiando-se

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