Nota: 8,5
Adaptação do
romance emblemático de F. Scott Fitzgerald, escrito em 1925, “O grande Gatsby”
se apresenta, de cara, com cenários luxuosos, radiantes, exagerados,
histriônicos. A primeira meia hora é de tirar o fôlego, os personagens sendo
apresentados abruptamente, câmeras com cortes rápidos, muitas cores. Era de se
esperar algo assim de um diretor que tem no currículo o também exagerado “Moulin
Rouge”.
O filme conta a
história do misterioso Gatsby (Leonardo DiCaprio) pelos relatos do seu vizinho
Nick Carraway (Tobey Maguire), ambos muito bem no papel. Gatsby, na verdade,
passou uns anos fora dos EUA, e voltou a sua terra para resgatar um amor do
passado, Daisy (Carrei Mulligan, destaque em “Drive” e “Shame”), embora ela
esteja casada. Gatsby faz de tudo para chamar a atenção dela, promove festas
escandalosas, se envolve na mais alta sociedade, teve que enriquecer, ostentar
(essa premissa é trabalhada de forma deliciosa pelo roteiro, pois nos
perguntamos se isso basta, sem que tal questionamento seja lançado diretamente
em nossa cara), ainda que sua solidão e sua obsessão o consumam, e o filme
engrena quando Gatsby e Nick se aproximam, já que Nick serve como uma ponte até
Daisy, uma vez que são primos.
O problema desta
produção reside mesmo no seu ritmo frenético inicial, que não se sustenta em
toda a projeção. A velocidade das apresentações, exceto a de Gatsby, e a pomposidade
das festas, para deixar claro ao telespectador que se trata de um sujeito rico,
extravagante, porém carente, parece mesmo ser muito forçado, e demasiadamente
superficial. Até então, é sua mansão e suas festas que são, talvez, os
protagonistas do filme, e o telespectador fica aguardando conhecer o tal
fanfarrão. Como Gatsby esbanja sua riqueza de forma peculiar, já que ele jamais
é o centro das atenções nas festas em que promove, e sequer convida seus
hóspedes, estes se apresentam de forma espontânea, o roteiro se utiliza desse
fato até a sua primeira aparição em tela, mantendo o clima gostoso de suspense
até o romper do protagonista, e é aí, a partir da sua aparição, que os
idealizadores pisam no freio e conseguem imprimir um ritmo mais interessante à
obra: sem deixar de lado as tomadas dinâmicas, mas se valendo de diálogos
certeiros e atuações incríveis, o filme melhora em todos os seus aspectos,
sendo fantástico em tudo o que se propõe. Aliás, destaque para músicas pop (“A
little party never killed nobody”), o que realmente foram super bem encaixadas,
cabendo até mesmo imaginar como seria um musical desta obra.
Gatsby
construiu sua riqueza pela guerra, pelas relações informais com banqueiros de Wall
Street, e tudo isso não apenas fascina, mas passa pelo crivo moral da sociedade
americana. Não nasceu rico, toda sua riqueza foi construída. E o trabalho, como
se sabe, jamais poderia ser sua fonte de ouro. O que Scott fez aqui foi
brilhante: trouxe um novo rico, que cresceu através de mecanismos espúrios, e
ainda assim o enredo não o torna culpado pelas próprias vicissitudes. Até mesmo
porque, Gatsby tem outras qualidades, e quando olhamos ao redor dele, numa Nova
York filmada com cores escuras, paisagens grotescas, trabalhadores decadentes,
poluição visual, recuperando-se da queda da bolsa, onde o sistema financeiro se
tornou o centro das relações de poder, tudo parece levar a crer que não há
anjos e demônios neste mundo de glamour. E o roteiro (tanto no filme, quanto no
livro) inteligentemente não é maniqueísta. Como exemplo, veja-se o marido de
Daisy, Tom (Joel Edgerton), um racista típico, vangloria-se pela sua posição
social, e toda sua mediocridade soa como natural. De fato, lá pelas tantas da
projeção, nem sabemos pra quem torcer (o que seria algo típico de uma visão que
separa vilão e mocinho, o que não é o caso), e apenas estamos interessados no
desfecho dos personagens, anjos e demônios de si mesmos.
O romance entre
o casal protagonista, portanto, por mais que tenha suas pitadas de tudo o que
poderia ser de mais meloso, com o mocinho voltando às terras norte-americanas
com a glória feita, rico, esbanjando em festas, feito um pavão para chamar a
atenção da mocinha infeliz, tudo isso, na verdade, é invadido pela vida, pelo
imprevisto, pelos bens materiais questionáveis, pelas condutas questionáveis. Acompanhamos
tudo pelo olhar de Nick, e ele mesmo se encabula de ter feito “um único” elogio
a Gatsby. No fundo, ele e nós questionamos esta conduta de bom moço, e parece
que Nova York realmente não tinha algo melhor a oferecer. Ao final, ficamos
apáticos pelo desfecho do personagem, um futuro que não se concretizou, e um
presente que sempre nos escapa. Nada de idealizações, afinal. Esta é a vida!
Se não fosse
pelo começo demasiadamente corrido e com cores que de tão exuberantes ficaram
duvidosas, seria uma obra-prima. Na dúvida, o livro de Scott Fitzgerald
certamente o é, e o desenvolvimento deste Gatsby feito por um Luhrmann que não
perdeu sua subjetividade, sua visão única, seu cinema dinâmico, já vale muito.
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