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14 de dezembro de 2014

Filme: O Grande Gatsby



Nota: 8,5

Adaptação do romance emblemático de F. Scott Fitzgerald, escrito em 1925, “O grande Gatsby” se apresenta, de cara, com cenários luxuosos, radiantes, exagerados, histriônicos. A primeira meia hora é de tirar o fôlego, os personagens sendo apresentados abruptamente, câmeras com cortes rápidos, muitas cores. Era de se esperar algo assim de um diretor que tem no currículo o também exagerado “Moulin Rouge”.

O filme conta a história do misterioso Gatsby (Leonardo DiCaprio) pelos relatos do seu vizinho Nick Carraway (Tobey Maguire), ambos muito bem no papel. Gatsby, na verdade, passou uns anos fora dos EUA, e voltou a sua terra para resgatar um amor do passado, Daisy (Carrei Mulligan, destaque em “Drive” e “Shame”), embora ela esteja casada. Gatsby faz de tudo para chamar a atenção dela, promove festas escandalosas, se envolve na mais alta sociedade, teve que enriquecer, ostentar (essa premissa é trabalhada de forma deliciosa pelo roteiro, pois nos perguntamos se isso basta, sem que tal questionamento seja lançado diretamente em nossa cara), ainda que sua solidão e sua obsessão o consumam, e o filme engrena quando Gatsby e Nick se aproximam, já que Nick serve como uma ponte até Daisy, uma vez que são primos.

O problema desta produção reside mesmo no seu ritmo frenético inicial, que não se sustenta em toda a projeção. A velocidade das apresentações, exceto a de Gatsby, e a pomposidade das festas, para deixar claro ao telespectador que se trata de um sujeito rico, extravagante, porém carente, parece mesmo ser muito forçado, e demasiadamente superficial. Até então, é sua mansão e suas festas que são, talvez, os protagonistas do filme, e o telespectador fica aguardando conhecer o tal fanfarrão. Como Gatsby esbanja sua riqueza de forma peculiar, já que ele jamais é o centro das atenções nas festas em que promove, e sequer convida seus hóspedes, estes se apresentam de forma espontânea, o roteiro se utiliza desse fato até a sua primeira aparição em tela, mantendo o clima gostoso de suspense até o romper do protagonista, e é aí, a partir da sua aparição, que os idealizadores pisam no freio e conseguem imprimir um ritmo mais interessante à obra: sem deixar de lado as tomadas dinâmicas, mas se valendo de diálogos certeiros e atuações incríveis, o filme melhora em todos os seus aspectos, sendo fantástico em tudo o que se propõe. Aliás, destaque para músicas pop (“A little party never killed nobody”), o que realmente foram super bem encaixadas, cabendo até mesmo imaginar como seria um musical desta obra.

Gatsby construiu sua riqueza pela guerra, pelas relações informais com banqueiros de Wall Street, e tudo isso não apenas fascina, mas passa pelo crivo moral da sociedade americana. Não nasceu rico, toda sua riqueza foi construída. E o trabalho, como se sabe, jamais poderia ser sua fonte de ouro. O que Scott fez aqui foi brilhante: trouxe um novo rico, que cresceu através de mecanismos espúrios, e ainda assim o enredo não o torna culpado pelas próprias vicissitudes. Até mesmo porque, Gatsby tem outras qualidades, e quando olhamos ao redor dele, numa Nova York filmada com cores escuras, paisagens grotescas, trabalhadores decadentes, poluição visual, recuperando-se da queda da bolsa, onde o sistema financeiro se tornou o centro das relações de poder, tudo parece levar a crer que não há anjos e demônios neste mundo de glamour. E o roteiro (tanto no filme, quanto no livro) inteligentemente não é maniqueísta. Como exemplo, veja-se o marido de Daisy, Tom (Joel Edgerton), um racista típico, vangloria-se pela sua posição social, e toda sua mediocridade soa como natural. De fato, lá pelas tantas da projeção, nem sabemos pra quem torcer (o que seria algo típico de uma visão que separa vilão e mocinho, o que não é o caso), e apenas estamos interessados no desfecho dos personagens, anjos e demônios de si mesmos.

O romance entre o casal protagonista, portanto, por mais que tenha suas pitadas de tudo o que poderia ser de mais meloso, com o mocinho voltando às terras norte-americanas com a glória feita, rico, esbanjando em festas, feito um pavão para chamar a atenção da mocinha infeliz, tudo isso, na verdade, é invadido pela vida, pelo imprevisto, pelos bens materiais questionáveis, pelas condutas questionáveis. Acompanhamos tudo pelo olhar de Nick, e ele mesmo se encabula de ter feito “um único” elogio a Gatsby. No fundo, ele e nós questionamos esta conduta de bom moço, e parece que Nova York realmente não tinha algo melhor a oferecer. Ao final, ficamos apáticos pelo desfecho do personagem, um futuro que não se concretizou, e um presente que sempre nos escapa. Nada de idealizações, afinal. Esta é a vida!


Se não fosse pelo começo demasiadamente corrido e com cores que de tão exuberantes ficaram duvidosas, seria uma obra-prima. Na dúvida, o livro de Scott Fitzgerald certamente o é, e o desenvolvimento deste Gatsby feito por um Luhrmann que não perdeu sua subjetividade, sua visão única, seu cinema dinâmico, já vale muito.

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