Nota: 3/10
Lixo multiculturalista resume esta obra. É bem verdade que
fui assistir a “Made in china” com baixas expectativas, já que eu sempre tento
valorizar um bom e despretensioso entretenimento vindo de uma comédia nacional
de leve. Mas não é o caso aqui: é muito ruim.
Regina Casé é a protagonista deste longa. Longe das telas do
cinema deste “Eu, tu, eles”, Regina se firmou nos últimos anos como
apresentadora da TV Globo à frente da atração semanal chamada “Esquenta”, cujo
bordão do programa, “tudo junto e misturado” (repetido várias vezes também
nesse filme), é um ode à miscigenação e à multiculturalidade do povo
brasileiro, de deixar antropólogos do quilate de um Lévi-Strauss, encantados.
Nesta projeção, Regina encara Francis, vendedora da loja “São Jorge”, cujo dono
é descendente de libanês (o que remete ao período da imigração do início do
século XX). A loja começa a sofrer forte concorrência dos produtos chineses, os
quais buscam cada vez mais ampliar seus negócios, nem que seja tomando os
estabelecimentos comerciais dos concorrentes (estes são propriedades de judeus,
armando uma mistura multiétnica sempre clara ao telespectador).
Bem, apesar dos óbvios clichês referentes ao país de origem,
o tom politicamente correto do filme não dá margem a piadas grotescas e
preconceituosas, ainda que se utilize de estereótipos. Além disso, o roteiro
acerta em inserir falas em mandarim, deixando o público deliciosamente perdido.
Mas os pontos positivos terminam por aí. O tom despretensioso e de bons amigos
do filme é seu maior algoz: o comércio na China arrebenta não apenas a economia
brasileira, mas é alvo de controvérsias em todo o mundo. Obviamente, há muito
alarde para tal situação, uma vez que a China representa uma séria ameaça à
hegemonia norte-americana, contudo, é fato que muito do sucesso do barateamento
dos produtos chineses se deve às péssimas condições trabalhistas do país,
incluindo trabalho escravo e infantil de sua mão-de-obra. O caso da Nike e,
mais recentemente, da Samsung, esta último embargando os fornecedores chineses,
são exemplares da importância do tema.
E o filme passa por cima de tudo isso. A única explicação
que dá para a concorrência desleal dos produtos importados orientais se deve à
caricatura do dono da loja, o qual exige “trabalho demais”. Aqui, entra o mito
do trabalho árduo, não sob a perspectiva crítica, mas pelo trabalho em si. Para
completar, a solução encontrada no filme é uma deturpada visão maniqueísta do
ocidente versus oriente, e aquela já famosa ideia do quanto os brasileiros são
apimentados, luxuriosos e liberais.
Além das atuações
ruins, fica mesmo a ideia de que a aldeia global pode muito bem apartar seus
conflitos quando se festeja o multiculturalismo sem perspectiva crítica alguma.
As questões sociais e trabalhistas na China são questões seríssimas, pois se
trata hoje da economia que mais cresce no mundo, do maior mercado consumidor do
mundo, redefinindo e pondo todos a pensarem nas novas configurações geopolíticas,
assentadas no pensamento neoliberal, e seus impactos sob as regulações
trabalhistas e dos mercados. Como o roteiro se utilizou do humor para contar a
história, além de não trazer piadas engraçadas e atores talentosos para tal,
fecha completamente os olhos para a realidade. É tudo muito infantil e amador.
Mesmo na cena em que um personagem é quase preso por ter molestada uma menor,
um simples depoimento contrário já o liberta, sem qualquer explicação. Ou seja,
é o tipo de filme que não adianta ser exigente, mas também não precisava ser
imbecil.
Não sei se foi um erro levar a sério esta produção. Ocorre que
o tema central é demasiadamente interessante, está na pauta internacional,
inclusive sendo alvos de calorosos debates das instituições multilaterais. E
por mais que você vá assistir ao filme despojado de todo esse sentimento
crítico, o que sobra é uma comédia (?) rala, sem piadas interessantes, atuações
ruins, pois a trama envolve justamente a busca do motivo pelo qual os produtos
chineses são tão baratos, ganhando constrangedores cenas de uma “Regina Casé
detetive” (o que foi aquela perseguição? Vergonha alheia), para, ao fim,
entregarem o cúmulo do superficialismo, um trabalho completamente cego à
realidade. Será mesmo que o ode ao multiculturalismo estaria arriscado se o
filme fosse mais corajoso, em apontar o dedo nas feridas, em apontar um mínimo
de discernimento? Acredito que não.
Se você é conhecedor dos problemas da globalização (nem que
seja por ler a Veja), ou se você espera pelo menos rir de um filme que se
intitula comédia nacional, passe longe desse exemplar. Agora, se você assiste
assiduamente ao Programa “Esquenta”, e consegue ser feliz ao exaltar o samba, o
funk, a favela, sem demonstrar qualquer perspectiva crítica (o que,
convenhamos, mesmo o programa televisivo às vezes consegue dar uns bons
toques), então talvez você aprecie este trabalho, feito mesmo apenas para
fomentar o marketing de uma suposta brasilidade cordial, como diria Buarque de
Holanda (“O homem cordial”, livro da década de 1930). E ele não estava nos exaltando,
mas simplesmente demonstrando o quanto ainda somos cegos socialmente.
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