Quando a pobreza e a imaginação de uma garotinha surgem na
tela, de forma bela e acessível, o que poderia ser um filme totalmente
chocante, de fácil teor apelativo, torna-se, na verdade, um retrato poético
singular da realidade. E aqui, o estreante diretor Benh Zeitlin abusa de vários
artifícios estéticos, ainda que, muitas vezes, repetitivos e sem a empolgação
necessária (faltou-lhe o tato de um Dom Quixote).
O roteiro gira em torno das dificuldades da pequena Hushpuppy
(Quvenzhané Wallis), numa
impressionante atuação, merecedora de sua indicação ao Oscar. Ela e o pai
passam por maus bocados, além da pobreza extrema, há complicações de saúde,
inundações, marginalização e toda uma estrutura social que nada contribuem para
garantir-lhes o mínimo. O que lhes resta é o convívio com pessoas que se
encontram na mesma situação de vulnerabilidade, e a imaginação de Hushpuppy,
criando diversas alegorias ao longo da projeção.
Nota-se que as bestas do filme podem ser atribuídas ao Estado,
ou ao sistema social excludente, representando o perigo iminente (e real) que
cerca pessoas em condições de vulnerabilidade. No entanto, toda essa encenação,
as geleiras congelando (ação do homem?), nada disso, enquanto causa real, está
inserido de forma consciente nos protagonistas. É preciso cautela para
inserir-se no mundo, e principalmente uma visão crítica da realidade, eis o
aspecto dúbio e interessante, na verdade, do roteiro. A sobrevivência deles se
agarra a outros elementos, notadamente os aspectos de sociabilidade, de
harmonia com a natureza, de poesia, de fuga à realidade crua. E não quer dizer
que sejam fracos.
É redundante afirmar, neste tipo de projeto, que a
fotografia é belíssima: toda a pobreza está diante dos olhos, é visível, e ao
mesmo tempo é límpida e palatável. No entanto, o roteiro é falho em diversas
vezes... as cenas das geleiras congelando se repetem mais do que o esperado, e
as bestas são as únicas alegorias de peso no filme (e não empolgam o
suficiente), deixando mesmo a sensação de querer mais.
Além disso, há outro perigo no roteiro: a conscientização
das classes subalternas passa pela aceitação da condição, ainda que se
utilizando de escapes fantasiosos, ou pela sua análise crítica e aprofundada sobre
o meio em que vive? Ou somente se dá através de sua efetiva superação? Ora, o
mundo particular de Hushpuppy
se choca com o possível superficialismo em que foram retratadas as condições
materiais em que vive. Subterfúgio que pode não ser o suficiente, mas talvez
seja o necessário para alcançar outros patamares, e neste sentido, a obra se
torna mais completa, inserida num contexto mítico e visto enquanto potencial a
desenvolver-se, dando voz aos oprimidos sob a ótica deles próprios.
Assim,
se inseriu muito bem a narração em off da pequena, pois do contrário restariam
ainda mais dúvidas sobre a força da protagonista em superar tal condição
alienante. Esta força é resumida nas tocantes palavras ao final do filme: “Quando
tudo fica quieto atrás dos meus olhos, vejo tudo aquilo que me fez
voando em pedaços invisíveis. Quando presto muita atenção, tudo some.
Mas quando tudo fica quieto, vejo que eles estão bem aqui. Vejo que sou
um pedacinho de um universo imenso, e isso faz tudo ficar bem”. É
uma bela forma de seguir em frente, afinal, ou apenas o começo dela.
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