“A nação do medo” é o tipo de filme que usa de um artifício
fantasioso sem deturpar certos fatos, isto é, sem abandonar algumas verdades
históricas. A premissa é simples: os aliados perdem a II Guerra, e a Gestapo
toma o Estado alemão, o Japão também é bem sucedido no confronto com os EUA, e
assim temos um cenário que, a partir de 1944, é todo construído em cima da
vitória do Eixo, considerando tudo o que aconteceu até ali.
Ocorre que esta premissa básica não adota projeções
inimagináveis, ou seja, não se utiliza de mirabolantes hipóteses do que viria a
ser o futuro. Tudo fora simplificado. O Estado alemão se volta à intensa economia
de mercado, mas politicamente fechado, e tenta a todo custo estender suas
relações internacionais. O ponto do filme é a visita do presidente
norte-americano Kennedy ao país alemão, numa visão sarcástica/dúbia do que essa
aliança representaria.
E assim, a película vai dando aula de como circulam ou
circulariam as informações no meio do século XX, por exemplo, a Gestapo detém
informações secretas sobre os horrores da Guerra, seus líderes internos oposicionistas
são perseguidos, até mortos, e todo um aparato de censura é criado diante do
gigante Ministério das Comunicações.
É aqui que entra a jornalista americana Maguire (Miranda
Richardson), filha de um influente diplomata, sobre a qual líderes alemães
influentes depositam as esperanças de terem, ao menos, uma porta-voz. Em troca,
por exemplo, da influência política de Maguire em lhe fazer deixar a Alemanha
junto com a amante, um dos líderes da Gestapo revela segredos ocultos da Guerra.
Bem, é interessante notar que esses segredos, mostrando-se
ser o extermínio de judeus enviados aos assentamentos na Ucrânia, não são
tomados pelo roteiro como grande revelação. Isto porque, a sensação é de que já
sabíamos, em uma análise pós-fato, de todas as atrocidades nazistas. O
exercício imaginativo então, se desloca: o filme não é sobre o que aconteceria
se Hitler e sua corja vencesse a Guerra, mas como as informações seriam disseminadas
a partir de tal fato. Isto é, o filme passa de uma categoria de hipótese histórica
para uma teoria da comunicação em um estado ditatorial... Em certo sentido,
esse nuance pode frustrar algumas expectativas sobre o roteiro, ainda que tenha
sido bem sucedido em sua execução.
Outro ponto negativo é que ainda persiste certo maniqueísmo,
superado em trabalhos como “Arquitetura da Destruição” (filme sueco de 1989) ou
mesmo em “A queda”. Assim, quando a verdade é revelada, de abrupto, o personagem
de Rutger Hauer, o policial March, que ajuda a jornalista, de súbito se vê
contribuindo a um sistema burocrático alienante. Essa percepção de si mesmo não
convence (“o que meu filho pensará de mim se souber que servi a assassinos?), feita
minutos após ele perceber o que representou o partido a qual serve, só mostra a
urgência, a pressa do roteiro, pois é falho justamente quando se confronta à
sua premissa de montar toda a estrutura que interfere na percepção do indivíduo:
o Estado alemão como principal cenário e produtor das mentes de seus conterrâneos.
No mais, a fotografia escura de Berlim passa todo o clima
esperado, assim como as cenas finais do encontro entre Hitler e Keneddy.
Faltando audácia ao roteiro, mas se imbuindo de uma interessante premissa, não
espere um filme lotado de situações históricas inverossímeis. Apela para o sentimentalismo do filho de March,
o qual em narração em Off, perdoa o pai, já perdoado de pronto pelo roteiro.
E sem apelar para teorias da conspiração imaginativas demais,
todo o filme acaba passando a credibilidade necessária para fazê-lo acompanhar
até o final de sua projeção, já que a revelação é sobre fatos que realmente
convencem o expectador de que poderiam ocorrer, e o roteiro não se arrisca em
demasia para ornamentar o Estado antidemocrático alemão. Isso quer dizer que é
um filme maduro, que embora se utilize de uma falsa premissa, acaba sendo mais verossímil
do que muitos filmes baseados em fatos.
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