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26 de outubro de 2014

FILME: A Nação do Medo (1994)

“A nação do medo” é o tipo de filme que usa de um artifício fantasioso sem deturpar certos fatos, isto é, sem abandonar algumas verdades históricas. A premissa é simples: os aliados perdem a II Guerra, e a Gestapo toma o Estado alemão, o Japão também é bem sucedido no confronto com os EUA, e assim temos um cenário que, a partir de 1944, é todo construído em cima da vitória do Eixo, considerando tudo o que aconteceu até ali.



Ocorre que esta premissa básica não adota projeções inimagináveis, ou seja, não se utiliza de mirabolantes hipóteses do que viria a ser o futuro. Tudo fora simplificado. O Estado alemão se volta à intensa economia de mercado, mas politicamente fechado, e tenta a todo custo estender suas relações internacionais. O ponto do filme é a visita do presidente norte-americano Kennedy ao país alemão, numa visão sarcástica/dúbia do que essa aliança representaria.

E assim, a película vai dando aula de como circulam ou circulariam as informações no meio do século XX, por exemplo, a Gestapo detém informações secretas sobre os horrores da Guerra, seus líderes internos oposicionistas são perseguidos, até mortos, e todo um aparato de censura é criado diante do gigante Ministério das Comunicações.

É aqui que entra a jornalista americana Maguire (Miranda Richardson), filha de um influente diplomata, sobre a qual líderes alemães influentes depositam as esperanças de terem, ao menos, uma porta-voz. Em troca, por exemplo, da influência política de Maguire em lhe fazer deixar a Alemanha junto com a amante, um dos líderes da Gestapo revela segredos ocultos da Guerra.

Bem, é interessante notar que esses segredos, mostrando-se ser o extermínio de judeus enviados aos assentamentos na Ucrânia, não são tomados pelo roteiro como grande revelação. Isto porque, a sensação é de que já sabíamos, em uma análise pós-fato, de todas as atrocidades nazistas. O exercício imaginativo então, se desloca: o filme não é sobre o que aconteceria se Hitler e sua corja vencesse a Guerra, mas como as informações seriam disseminadas a partir de tal fato. Isto é, o filme passa de uma categoria de hipótese histórica para uma teoria da comunicação em um estado ditatorial... Em certo sentido, esse nuance pode frustrar algumas expectativas sobre o roteiro, ainda que tenha sido bem sucedido em sua execução.

Outro ponto negativo é que ainda persiste certo maniqueísmo, superado em trabalhos como “Arquitetura da Destruição” (filme sueco de 1989) ou mesmo em “A queda”. Assim, quando a verdade é revelada, de abrupto, o personagem de Rutger Hauer, o policial March, que ajuda a jornalista, de súbito se vê contribuindo a um sistema burocrático alienante. Essa percepção de si mesmo não convence (“o que meu filho pensará de mim se souber que servi a assassinos?), feita minutos após ele perceber o que representou o partido a qual serve, só mostra a urgência, a pressa do roteiro, pois é falho justamente quando se confronta à sua premissa de montar toda a estrutura que interfere na percepção do indivíduo: o Estado alemão como principal cenário e produtor das mentes de seus conterrâneos.

No mais, a fotografia escura de Berlim passa todo o clima esperado, assim como as cenas finais do encontro entre Hitler e Keneddy. Faltando audácia ao roteiro, mas se imbuindo de uma interessante premissa, não espere um filme lotado de situações históricas inverossímeis.  Apela para o sentimentalismo do filho de March, o qual em narração em Off, perdoa o pai, já perdoado de pronto pelo roteiro.


E sem apelar para teorias da conspiração imaginativas demais, todo o filme acaba passando a credibilidade necessária para fazê-lo acompanhar até o final de sua projeção, já que a revelação é sobre fatos que realmente convencem o expectador de que poderiam ocorrer, e o roteiro não se arrisca em demasia para ornamentar o Estado antidemocrático alemão. Isso quer dizer que é um filme maduro, que embora se utilize de uma falsa premissa, acaba sendo mais verossímil do que muitos filmes baseados em fatos.

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