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26 de outubro de 2014

FILME: Uivo (2010)

NOTA: 9/10


O filme “Uivo”, uma grata surpresa nessa nova cifra de filmes temáticos LGBTs, os quais saem do lugar comum dos filmes independentes ou dos discursos tão enganosa e politicamente corretos, feitos para agradar (e não incomodar), acerta em todos os seus tons: desde a decisão de pôr em destaque não a pessoa do poeta Allen Gilsberg (James Franco), mas sua polêmica obra “Howl”, ou até mesmo a sábia decisão de narrar o poema a partir de uma animação deliciosa, com uma declamação entoada na medida certa.



Em clima quase documental, este filme ganha seu espaço por se deixar fluir à vontade, fala de homofobia sem ser clichê, não evoca os mesmo argumentos de sempre para o discurso discriminatório (como a religião), muito menos enfatiza o homossexual e a sexualidade em si: na verdade, situa a sexualidade numa área tênue, entre a naturalidade de sua concepção e seu ponto transgressor. Faz pensar. 

A história é baseada em fatos reais, sobre o julgamento do poema “Howl”, na Califórnia, em plena década de 50 do século XX. Mas o que interessa mesmo , e o roteiro acertadamente nos incita a tal, é compreender as linhas tortuosas daquele grito humano que é o poema. Tanto é assim que as sessões no julgamento são muito mais interessantes quando o recitam. Ainda bem que as falas e interpretações dos personagens sobre o poema foram muito bem colocadas, apenas um pequeno maniqueísmo pode ser notado no discurso homofóbico (como na fala do advogado de acusação do poema), mas logo corrigido por outras testemunhas, que realmente expõe discursos interessantes, especialmente quando discutem a validade literária da obra.

O filme acerta em cheio ao transpor às telas, literalmente, toda a carga narrativa do poema. Não espere ver um estudo biográfico sobre o autor de “Howl”, nem de suas relações abertas, seus conturbados relacionamentos com outros homens, sua passagem no hospício... O ponto nevrálgico do longa, e o roteiro deixa claro desde o início, é mesmo nos inebriar com poesia. É, na realidade, um filme muito mais literário do que biográfico.

Obviamente, aqui e ali se conhece um pouco da vida de Allen, mas ele nunca é o protagonista. E como se não bastasse, o longo poema “Howl” é recitado na íntegra ao longo da projeção, permeado por uma animação de tirar o chapéu, embora o poema seja tão, mas tão forte, vivo, dinâmico e atemporal, que as imagens sempre parecem estar abaixo do verdadeiro sentido que o poema quer transmitir.

É como ler uma poesia em pura linguagem cinematográfica. Delicie-se, então.

Publicado no site http://www.cineplayers.com/comentario/uivo/38376

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