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14 de dezembro de 2014

FILME: Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1


Nota: 8/10

O terceiro filme da franquia “Jogos vorazes” chega ao cinema de forma corajosa e competente, sendo um bom entretenimento para o público jovem. A esta altura, todos já sabem a história de Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) e sua saga em unir os distritos contra as formas de opressão impostas pela Capital, responsável por manipular a mídia, promover a desigualdade no acesso às riquezas e comandar os temíveis jogos (ideologia para que os distritos se vejam sempre em tom de competição, como ocorre, por exemplo, no futebol, obviamente em outras proporções, mas de igual fundamento).

Há que se destacar as atuações (o filme é de Lawrence) e o capricho na produção deste capítulo. O tom sombrio, os destroços quando a base é invadida, os meios de transporte e de comunicação, tudo faz imergir àquele mundo fantasioso. Inclusive, a divisão deste capítulo em dois foi aproveitada de forma satisfatória, para aprofundar os personagens. Tudo direitinho, inclusive nos diálogos que remetem aos tons políticos do século XX, de um lado o fascismo e de outro a massificação da informação.

O grande problema da obra é que o argumento contem furos que apenas se encaixam se tivermos muita disposição para aceitar a superficialidade traçada pela história, afinal, feita para introduzir os jovens neste dilema. Sendo assim, toda a problematização se faz ao nível de discurso. O que se quer dizer com isso é que a política se aparta de qualquer ideia de materialidade e de sopro de vida e necessidade que se podem vislumbrar no controle daqueles corpos humanos: não se questiona o artefato bélico à disposição dos distritos, seus níveis de suprimento, a tecnologia fantástica que dispõem. As armas, as construções, enfim, tudo parece tão natural. De certa forma, a alienação tão questionada está presente para quem quiser conferir, só não espere isso do roteiro. O objeto questionável, torna-se, ele mesmo, a imagem que aqui consumimos.

Da mesma forma, o lado da Capital também tem ao seu dispor todo um aparato técnico, e a política se aparta da realidade concreta para dar voz a ela mesma. Com isso, “Jogos vorazes” é um embuste, pois seu discurso se assenta num simulacro de imagens e de posições de poder que jamais ganham força além de toda aquela superficialidade. Para piorar, líderes e todo o grupo revolucionário ficam demasiadamente à mercê da decisão individual de Katniss, por exemplo, e isto só serve mesmo para reforçar o que o filme se propõe (ao contrário), pois ao questionar a individualidade versus a massificação, se utiliza de elementos óbvios, românticos e de fácil assimilação.

No entanto, ainda que apartado do mundo do trabalho e da origem de todas as construções sociais que obviamente sustentam qualquer tipo de agrupamento humano, o roteiro inteligentemente não se torna maniqueísta a ponto de deflagrar uma guerra do bem contra o mal. De fato, tanto de um lado quanto de outro se está à mercê de pessoas, de grupos, de discursos que se digladiam pelo poder. A interpretação dúbia da protagonista não apenas convence, mas é realizada de forma magistral, e não sabemos ao certo a que fundamentos se sustentam os discursos da liberdade e da opressão. Neste sentido, reviravoltas podem ser pressentidas, e o roteiro acerta em suas escolhas, em deixar a dúvida tomar conta, em valorizar o telespectador instigante.


Pelo menos, é bem mais reconfortante saber que os jovens podem introduzir tal discussão a partir de tal obra, do que provavelmente tentar extrair algo de mais densidade em séries como Crepúsculo, por exemplo. Neste sentido, ao lado de “Divergentes” e “Maze runner”, estes “Jogos vorazes” se apresenta como o mais completo, o mais bem produzido, ainda que falho em seu sistema de referência.

Filme: O Grande Gatsby



Nota: 8,5

Adaptação do romance emblemático de F. Scott Fitzgerald, escrito em 1925, “O grande Gatsby” se apresenta, de cara, com cenários luxuosos, radiantes, exagerados, histriônicos. A primeira meia hora é de tirar o fôlego, os personagens sendo apresentados abruptamente, câmeras com cortes rápidos, muitas cores. Era de se esperar algo assim de um diretor que tem no currículo o também exagerado “Moulin Rouge”.

O filme conta a história do misterioso Gatsby (Leonardo DiCaprio) pelos relatos do seu vizinho Nick Carraway (Tobey Maguire), ambos muito bem no papel. Gatsby, na verdade, passou uns anos fora dos EUA, e voltou a sua terra para resgatar um amor do passado, Daisy (Carrei Mulligan, destaque em “Drive” e “Shame”), embora ela esteja casada. Gatsby faz de tudo para chamar a atenção dela, promove festas escandalosas, se envolve na mais alta sociedade, teve que enriquecer, ostentar (essa premissa é trabalhada de forma deliciosa pelo roteiro, pois nos perguntamos se isso basta, sem que tal questionamento seja lançado diretamente em nossa cara), ainda que sua solidão e sua obsessão o consumam, e o filme engrena quando Gatsby e Nick se aproximam, já que Nick serve como uma ponte até Daisy, uma vez que são primos.

O problema desta produção reside mesmo no seu ritmo frenético inicial, que não se sustenta em toda a projeção. A velocidade das apresentações, exceto a de Gatsby, e a pomposidade das festas, para deixar claro ao telespectador que se trata de um sujeito rico, extravagante, porém carente, parece mesmo ser muito forçado, e demasiadamente superficial. Até então, é sua mansão e suas festas que são, talvez, os protagonistas do filme, e o telespectador fica aguardando conhecer o tal fanfarrão. Como Gatsby esbanja sua riqueza de forma peculiar, já que ele jamais é o centro das atenções nas festas em que promove, e sequer convida seus hóspedes, estes se apresentam de forma espontânea, o roteiro se utiliza desse fato até a sua primeira aparição em tela, mantendo o clima gostoso de suspense até o romper do protagonista, e é aí, a partir da sua aparição, que os idealizadores pisam no freio e conseguem imprimir um ritmo mais interessante à obra: sem deixar de lado as tomadas dinâmicas, mas se valendo de diálogos certeiros e atuações incríveis, o filme melhora em todos os seus aspectos, sendo fantástico em tudo o que se propõe. Aliás, destaque para músicas pop (“A little party never killed nobody”), o que realmente foram super bem encaixadas, cabendo até mesmo imaginar como seria um musical desta obra.

Gatsby construiu sua riqueza pela guerra, pelas relações informais com banqueiros de Wall Street, e tudo isso não apenas fascina, mas passa pelo crivo moral da sociedade americana. Não nasceu rico, toda sua riqueza foi construída. E o trabalho, como se sabe, jamais poderia ser sua fonte de ouro. O que Scott fez aqui foi brilhante: trouxe um novo rico, que cresceu através de mecanismos espúrios, e ainda assim o enredo não o torna culpado pelas próprias vicissitudes. Até mesmo porque, Gatsby tem outras qualidades, e quando olhamos ao redor dele, numa Nova York filmada com cores escuras, paisagens grotescas, trabalhadores decadentes, poluição visual, recuperando-se da queda da bolsa, onde o sistema financeiro se tornou o centro das relações de poder, tudo parece levar a crer que não há anjos e demônios neste mundo de glamour. E o roteiro (tanto no filme, quanto no livro) inteligentemente não é maniqueísta. Como exemplo, veja-se o marido de Daisy, Tom (Joel Edgerton), um racista típico, vangloria-se pela sua posição social, e toda sua mediocridade soa como natural. De fato, lá pelas tantas da projeção, nem sabemos pra quem torcer (o que seria algo típico de uma visão que separa vilão e mocinho, o que não é o caso), e apenas estamos interessados no desfecho dos personagens, anjos e demônios de si mesmos.

O romance entre o casal protagonista, portanto, por mais que tenha suas pitadas de tudo o que poderia ser de mais meloso, com o mocinho voltando às terras norte-americanas com a glória feita, rico, esbanjando em festas, feito um pavão para chamar a atenção da mocinha infeliz, tudo isso, na verdade, é invadido pela vida, pelo imprevisto, pelos bens materiais questionáveis, pelas condutas questionáveis. Acompanhamos tudo pelo olhar de Nick, e ele mesmo se encabula de ter feito “um único” elogio a Gatsby. No fundo, ele e nós questionamos esta conduta de bom moço, e parece que Nova York realmente não tinha algo melhor a oferecer. Ao final, ficamos apáticos pelo desfecho do personagem, um futuro que não se concretizou, e um presente que sempre nos escapa. Nada de idealizações, afinal. Esta é a vida!


Se não fosse pelo começo demasiadamente corrido e com cores que de tão exuberantes ficaram duvidosas, seria uma obra-prima. Na dúvida, o livro de Scott Fitzgerald certamente o é, e o desenvolvimento deste Gatsby feito por um Luhrmann que não perdeu sua subjetividade, sua visão única, seu cinema dinâmico, já vale muito.

15 de novembro de 2014

Filme: os suspeitos


NOTA: 8,5/10


Não esperava nada deste filme, mal conhecia o diretor Denis Villeneuve. Fui assisti-lo com a desconfiança das duas horas e meias de suspense não poderem se sustentar, pois é preciso muita habilidade para segurar a tensão do início ao fim. E deu certo!

Todo o clima construído sobre a obra me lembrou muito Sobre meninos e lobo (Mystic River, 2003) do genial Clint Eastwood, mas muito superior a este, uma vez que não se sustenta em uma moral deslocada, nem em um pessimismo pungente... Não causa mal-estar, e ainda assim consegue levar às telas as reflexões morais necessárias e provocar aquela agonia típica de filmes deste gênero.

O roteiro gira em torno do sumiço de duas garotinhas no dia de Ação de Graças, filhas dos Dovers e Birchs. Keller Dover (Hugh Jackman) assume o papel do pai desesperado, clamando por justiça, e o faz mesmo quando a polícia, encarnada aqui no papel do detetive Loki (Jake Gyllenhaal) solta o principal suspeito do caso, o estranho Alex Jones (vivido por Paul Dano). 

A partir daí, tudo fica mais interessante, uma vez que a busca pela justiça se depara com as questões morais, isto é, se depara com os meios pelos quais se tentam arrancar verdades baseadas em suspeitas que não se confirmam: com a ajuda de Franklin Birch (Terrence Howard), o qual funciona no roteiro de forma a sempre questionar os métodos que serão vistos em tela, Keller aprisiona Alex numa tentativa desesperada de tentar arrancar-lhe as supostas verdades. Então, aqui encerro um questionamento: tanto o título "os suspeitos", quanto o original "prisioneiros", fazem jus à obra. "Os suspeitos" da perspectiva de que não sabemos ao certo o responsável pelo sumiço das garotas, e mesmo os pais, enquanto vítimas, de um ponto de vista legal e moral, também são suspeitos de cometer crimes em completo desagravo aos direitos humanos, assim como prisioneiros de seus dilemas, não somente aprisionados fisicamente, mas sobretudo psicologicamente. E nós, meros telespectadores, prisioneiros daquele drama familiar, e suspeitos por estarmos jogando com a moral de Keller, absolvendo-o algumas vezes, mesmo nas mais cruéis atrocidades, as quais exigem urgência e medidas drásticas.

Métodos de tortura são jogados na nossa cara, e acabamos questionando tudo, sem saber ao certo de que lado estamos. Não espere um filme fácil de vilões e heróis, ainda que Holly Jones (Melissa Leo), a tia de Alex, quase leve tudo a perder no terceiro ato. Outro grande destaque é a personagem de Viola davis, tenho um carinho especial por essa atriz, e sua atuação é fantástica: "Não vamos mais ajudar Keller, mas não vamos impedi-lo", numa atitude que prova que o "em cima do muro", na verdade, nunca é neutro. 

Aqui os personagens estão bem construídos, e Hugh dá um show à parte com seu papel de moral ambígua. Destaque também para a trilha marcante e para a fotografia, indicada ao Oscar, que realmente conseguem passar a serenidade necessária. Uma grande pena que o didatismo e a urgência de conclusão em volta de Holly Jones tenha prejudicado o saldo final, mas quando o filme termina, numa solução interessantíssima, vemos que não passou de mero detalhe: há elementos muito mais interessantes na película, que a torna uma experiência incrível.


Publicada no site do Cineplayers em 27/10/2014:
http://www.cineplayers.com/comentario/os-suspeitos/38621

Filme: Made in China


Nota: 3/10

Lixo multiculturalista resume esta obra. É bem verdade que fui assistir a “Made in china” com baixas expectativas, já que eu sempre tento valorizar um bom e despretensioso entretenimento vindo de uma comédia nacional de leve. Mas não é o caso aqui: é muito ruim.

Regina Casé é a protagonista deste longa. Longe das telas do cinema deste “Eu, tu, eles”, Regina se firmou nos últimos anos como apresentadora da TV Globo à frente da atração semanal chamada “Esquenta”, cujo bordão do programa, “tudo junto e misturado” (repetido várias vezes também nesse filme), é um ode à miscigenação e à multiculturalidade do povo brasileiro, de deixar antropólogos do quilate de um Lévi-Strauss, encantados. Nesta projeção, Regina encara Francis, vendedora da loja “São Jorge”, cujo dono é descendente de libanês (o que remete ao período da imigração do início do século XX). A loja começa a sofrer forte concorrência dos produtos chineses, os quais buscam cada vez mais ampliar seus negócios, nem que seja tomando os estabelecimentos comerciais dos concorrentes (estes são propriedades de judeus, armando uma mistura multiétnica sempre clara ao telespectador).

Bem, apesar dos óbvios clichês referentes ao país de origem, o tom politicamente correto do filme não dá margem a piadas grotescas e preconceituosas, ainda que se utilize de estereótipos. Além disso, o roteiro acerta em inserir falas em mandarim, deixando o público deliciosamente perdido. Mas os pontos positivos terminam por aí. O tom despretensioso e de bons amigos do filme é seu maior algoz: o comércio na China arrebenta não apenas a economia brasileira, mas é alvo de controvérsias em todo o mundo. Obviamente, há muito alarde para tal situação, uma vez que a China representa uma séria ameaça à hegemonia norte-americana, contudo, é fato que muito do sucesso do barateamento dos produtos chineses se deve às péssimas condições trabalhistas do país, incluindo trabalho escravo e infantil de sua mão-de-obra. O caso da Nike e, mais recentemente, da Samsung, esta último embargando os fornecedores chineses, são exemplares da importância do tema.

E o filme passa por cima de tudo isso. A única explicação que dá para a concorrência desleal dos produtos importados orientais se deve à caricatura do dono da loja, o qual exige “trabalho demais”. Aqui, entra o mito do trabalho árduo, não sob a perspectiva crítica, mas pelo trabalho em si. Para completar, a solução encontrada no filme é uma deturpada visão maniqueísta do ocidente versus oriente, e aquela já famosa ideia do quanto os brasileiros são apimentados, luxuriosos e liberais.

 Além das atuações ruins, fica mesmo a ideia de que a aldeia global pode muito bem apartar seus conflitos quando se festeja o multiculturalismo sem perspectiva crítica alguma. As questões sociais e trabalhistas na China são questões seríssimas, pois se trata hoje da economia que mais cresce no mundo, do maior mercado consumidor do mundo, redefinindo e pondo todos a pensarem nas novas configurações geopolíticas, assentadas no pensamento neoliberal, e seus impactos sob as regulações trabalhistas e dos mercados. Como o roteiro se utilizou do humor para contar a história, além de não trazer piadas engraçadas e atores talentosos para tal, fecha completamente os olhos para a realidade. É tudo muito infantil e amador. Mesmo na cena em que um personagem é quase preso por ter molestada uma menor, um simples depoimento contrário já o liberta, sem qualquer explicação. Ou seja, é o tipo de filme que não adianta ser exigente, mas também não precisava ser imbecil.

Não sei se foi um erro levar a sério esta produção. Ocorre que o tema central é demasiadamente interessante, está na pauta internacional, inclusive sendo alvos de calorosos debates das instituições multilaterais. E por mais que você vá assistir ao filme despojado de todo esse sentimento crítico, o que sobra é uma comédia (?) rala, sem piadas interessantes, atuações ruins, pois a trama envolve justamente a busca do motivo pelo qual os produtos chineses são tão baratos, ganhando constrangedores cenas de uma “Regina Casé detetive” (o que foi aquela perseguição? Vergonha alheia), para, ao fim, entregarem o cúmulo do superficialismo, um trabalho completamente cego à realidade. Será mesmo que o ode ao multiculturalismo estaria arriscado se o filme fosse mais corajoso, em apontar o dedo nas feridas, em apontar um mínimo de discernimento? Acredito que não.


Se você é conhecedor dos problemas da globalização (nem que seja por ler a Veja), ou se você espera pelo menos rir de um filme que se intitula comédia nacional, passe longe desse exemplar. Agora, se você assiste assiduamente ao Programa “Esquenta”, e consegue ser feliz ao exaltar o samba, o funk, a favela, sem demonstrar qualquer perspectiva crítica (o que, convenhamos, mesmo o programa televisivo às vezes consegue dar uns bons toques), então talvez você aprecie este trabalho, feito mesmo apenas para fomentar o marketing de uma suposta brasilidade cordial, como diria Buarque de Holanda (“O homem cordial”, livro da década de 1930). E ele não estava nos exaltando, mas simplesmente demonstrando o quanto ainda somos cegos socialmente.

28 de outubro de 2014

Filme: Indomável Sonhadora (2012)

Quando a pobreza e a imaginação de uma garotinha surgem na tela, de forma bela e acessível, o que poderia ser um filme totalmente chocante, de fácil teor apelativo, torna-se, na verdade, um retrato poético singular da realidade. E aqui, o estreante diretor Benh Zeitlin abusa de vários artifícios estéticos, ainda que, muitas vezes, repetitivos e sem a empolgação necessária (faltou-lhe o tato de um Dom Quixote).



O roteiro gira em torno das dificuldades da pequena Hushpuppy (Quvenzhané Wallis), numa impressionante atuação, merecedora de sua indicação ao Oscar. Ela e o pai passam por maus bocados, além da pobreza extrema, há complicações de saúde, inundações, marginalização e toda uma estrutura social que nada contribuem para garantir-lhes o mínimo. O que lhes resta é o convívio com pessoas que se encontram na mesma situação de vulnerabilidade, e a imaginação de Hushpuppy, criando diversas alegorias ao longo da projeção.

Nota-se que as bestas do filme podem ser atribuídas ao Estado, ou ao sistema social excludente, representando o perigo iminente (e real) que cerca pessoas em condições de vulnerabilidade. No entanto, toda essa encenação, as geleiras congelando (ação do homem?), nada disso, enquanto causa real, está inserido de forma consciente nos protagonistas. É preciso cautela para inserir-se no mundo, e principalmente uma visão crítica da realidade, eis o aspecto dúbio e interessante, na verdade, do roteiro. A sobrevivência deles se agarra a outros elementos, notadamente os aspectos de sociabilidade, de harmonia com a natureza, de poesia, de fuga à realidade crua. E não quer dizer que sejam fracos.

É redundante afirmar, neste tipo de projeto, que a fotografia é belíssima: toda a pobreza está diante dos olhos, é visível, e ao mesmo tempo é límpida e palatável. No entanto, o roteiro é falho em diversas vezes... as cenas das geleiras congelando se repetem mais do que o esperado, e as bestas são as únicas alegorias de peso no filme (e não empolgam o suficiente), deixando mesmo a sensação de querer mais.

Além disso, há outro perigo no roteiro: a conscientização das classes subalternas passa pela aceitação da condição, ainda que se utilizando de escapes fantasiosos, ou pela sua análise crítica e aprofundada sobre o meio em que vive? Ou somente se dá através de sua efetiva superação? Ora, o mundo particular de Hushpuppy se choca com o possível superficialismo em que foram retratadas as condições materiais em que vive. Subterfúgio que pode não ser o suficiente, mas talvez seja o necessário para alcançar outros patamares, e neste sentido, a obra se torna mais completa, inserida num contexto mítico e visto enquanto potencial a desenvolver-se, dando voz aos oprimidos sob a ótica deles próprios.

Assim, se inseriu muito bem a narração em off da pequena, pois do contrário restariam ainda mais dúvidas sobre a força da protagonista em superar tal condição alienante. Esta força é resumida nas tocantes palavras ao final do filme: “Quando tudo fica quieto atrás dos meus olhos, vejo tudo aquilo que me fez voando em pedaços invisíveis. Quando presto muita atenção, tudo some. Mas quando tudo fica quieto, vejo que eles estão bem aqui. Vejo que sou um pedacinho de um universo imenso, e isso faz tudo ficar bem”. É uma bela forma de seguir em frente, afinal, ou apenas o começo dela.

26 de outubro de 2014

FILME: Uivo (2010)

NOTA: 9/10


O filme “Uivo”, uma grata surpresa nessa nova cifra de filmes temáticos LGBTs, os quais saem do lugar comum dos filmes independentes ou dos discursos tão enganosa e politicamente corretos, feitos para agradar (e não incomodar), acerta em todos os seus tons: desde a decisão de pôr em destaque não a pessoa do poeta Allen Gilsberg (James Franco), mas sua polêmica obra “Howl”, ou até mesmo a sábia decisão de narrar o poema a partir de uma animação deliciosa, com uma declamação entoada na medida certa.



Em clima quase documental, este filme ganha seu espaço por se deixar fluir à vontade, fala de homofobia sem ser clichê, não evoca os mesmo argumentos de sempre para o discurso discriminatório (como a religião), muito menos enfatiza o homossexual e a sexualidade em si: na verdade, situa a sexualidade numa área tênue, entre a naturalidade de sua concepção e seu ponto transgressor. Faz pensar. 

A história é baseada em fatos reais, sobre o julgamento do poema “Howl”, na Califórnia, em plena década de 50 do século XX. Mas o que interessa mesmo , e o roteiro acertadamente nos incita a tal, é compreender as linhas tortuosas daquele grito humano que é o poema. Tanto é assim que as sessões no julgamento são muito mais interessantes quando o recitam. Ainda bem que as falas e interpretações dos personagens sobre o poema foram muito bem colocadas, apenas um pequeno maniqueísmo pode ser notado no discurso homofóbico (como na fala do advogado de acusação do poema), mas logo corrigido por outras testemunhas, que realmente expõe discursos interessantes, especialmente quando discutem a validade literária da obra.

O filme acerta em cheio ao transpor às telas, literalmente, toda a carga narrativa do poema. Não espere ver um estudo biográfico sobre o autor de “Howl”, nem de suas relações abertas, seus conturbados relacionamentos com outros homens, sua passagem no hospício... O ponto nevrálgico do longa, e o roteiro deixa claro desde o início, é mesmo nos inebriar com poesia. É, na realidade, um filme muito mais literário do que biográfico.

Obviamente, aqui e ali se conhece um pouco da vida de Allen, mas ele nunca é o protagonista. E como se não bastasse, o longo poema “Howl” é recitado na íntegra ao longo da projeção, permeado por uma animação de tirar o chapéu, embora o poema seja tão, mas tão forte, vivo, dinâmico e atemporal, que as imagens sempre parecem estar abaixo do verdadeiro sentido que o poema quer transmitir.

É como ler uma poesia em pura linguagem cinematográfica. Delicie-se, então.

Publicado no site http://www.cineplayers.com/comentario/uivo/38376

FILME: A Nação do Medo (1994)

“A nação do medo” é o tipo de filme que usa de um artifício fantasioso sem deturpar certos fatos, isto é, sem abandonar algumas verdades históricas. A premissa é simples: os aliados perdem a II Guerra, e a Gestapo toma o Estado alemão, o Japão também é bem sucedido no confronto com os EUA, e assim temos um cenário que, a partir de 1944, é todo construído em cima da vitória do Eixo, considerando tudo o que aconteceu até ali.



Ocorre que esta premissa básica não adota projeções inimagináveis, ou seja, não se utiliza de mirabolantes hipóteses do que viria a ser o futuro. Tudo fora simplificado. O Estado alemão se volta à intensa economia de mercado, mas politicamente fechado, e tenta a todo custo estender suas relações internacionais. O ponto do filme é a visita do presidente norte-americano Kennedy ao país alemão, numa visão sarcástica/dúbia do que essa aliança representaria.

E assim, a película vai dando aula de como circulam ou circulariam as informações no meio do século XX, por exemplo, a Gestapo detém informações secretas sobre os horrores da Guerra, seus líderes internos oposicionistas são perseguidos, até mortos, e todo um aparato de censura é criado diante do gigante Ministério das Comunicações.

É aqui que entra a jornalista americana Maguire (Miranda Richardson), filha de um influente diplomata, sobre a qual líderes alemães influentes depositam as esperanças de terem, ao menos, uma porta-voz. Em troca, por exemplo, da influência política de Maguire em lhe fazer deixar a Alemanha junto com a amante, um dos líderes da Gestapo revela segredos ocultos da Guerra.

Bem, é interessante notar que esses segredos, mostrando-se ser o extermínio de judeus enviados aos assentamentos na Ucrânia, não são tomados pelo roteiro como grande revelação. Isto porque, a sensação é de que já sabíamos, em uma análise pós-fato, de todas as atrocidades nazistas. O exercício imaginativo então, se desloca: o filme não é sobre o que aconteceria se Hitler e sua corja vencesse a Guerra, mas como as informações seriam disseminadas a partir de tal fato. Isto é, o filme passa de uma categoria de hipótese histórica para uma teoria da comunicação em um estado ditatorial... Em certo sentido, esse nuance pode frustrar algumas expectativas sobre o roteiro, ainda que tenha sido bem sucedido em sua execução.

Outro ponto negativo é que ainda persiste certo maniqueísmo, superado em trabalhos como “Arquitetura da Destruição” (filme sueco de 1989) ou mesmo em “A queda”. Assim, quando a verdade é revelada, de abrupto, o personagem de Rutger Hauer, o policial March, que ajuda a jornalista, de súbito se vê contribuindo a um sistema burocrático alienante. Essa percepção de si mesmo não convence (“o que meu filho pensará de mim se souber que servi a assassinos?), feita minutos após ele perceber o que representou o partido a qual serve, só mostra a urgência, a pressa do roteiro, pois é falho justamente quando se confronta à sua premissa de montar toda a estrutura que interfere na percepção do indivíduo: o Estado alemão como principal cenário e produtor das mentes de seus conterrâneos.

No mais, a fotografia escura de Berlim passa todo o clima esperado, assim como as cenas finais do encontro entre Hitler e Keneddy. Faltando audácia ao roteiro, mas se imbuindo de uma interessante premissa, não espere um filme lotado de situações históricas inverossímeis.  Apela para o sentimentalismo do filho de March, o qual em narração em Off, perdoa o pai, já perdoado de pronto pelo roteiro.


E sem apelar para teorias da conspiração imaginativas demais, todo o filme acaba passando a credibilidade necessária para fazê-lo acompanhar até o final de sua projeção, já que a revelação é sobre fatos que realmente convencem o expectador de que poderiam ocorrer, e o roteiro não se arrisca em demasia para ornamentar o Estado antidemocrático alemão. Isso quer dizer que é um filme maduro, que embora se utilize de uma falsa premissa, acaba sendo mais verossímil do que muitos filmes baseados em fatos.

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