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16 de maio de 2022

The duke e a força do diálogo

8/10

Roger Mitchell dirige um filme baseado em fatos reais cujo roteiro é aparentemente simples: um simpático taxista, aspirante a dramaturgo, é acusado de roubar um quadro de arte, retrato do Duque de Wellington, de Goya, que estava na Galeria Nacional em Londres, tendo como principal motivação angariar fundos para ajudar aposentados e veteranos de guerra a possuir licença para TV (esta licença só foi regulamentada na Inglaterra nos anos 2000). Evocando ideais classistas e citando Robin Hood em sua empreitada, com ríspidas falas anti-conservadoras, o que tinha tudo para ser um filme baseado em fatos genéricos ganhou ares acima da média, não apenas pelo tom ideológico acertado (não é estridente), mas também pelo humor e pela empatia que temos com Jim Broadbent, quem dá vida ao taxista, Kempton Bunton.

Sem nunca esquecer a sua condição de classe, a típica classe média falida, que vive entre os escombros do pós-guerra e recorrendo às migalhas do estado de bem estar social (que seria colpasado de vez com Tatcher), temos aqui a relação entre a classe trabalhadora e o poder da arte, mas não exatamente como um sujeito produtor, mas entregando-se de vez à lógica da barganha e do poder de troca, sem, contudo, imiscuir-se completamente ao sistema excludente: Bunton, um personagem real, encanta por carregar a inocência e, ao mesmo tempo, proferir as frases prontas da esquerda que deixariam em êxtase qualquer plenária estudantil da UNE, afinal, um absurdo o governo gastar 140 milhões de libras em um quadro.

Mas tudo não passa de uma fina ironia: o quadro pode ser visto como o fetiche de uma população burguesa, que ainda conseguia preservar a aura de Walter Benjamim sob suas molduras, mas o seu roubo tinha como sustentáculo capitanear o ideal de uma população ávida pela cultura de massa, e de quebra proteger o filho e preservar o casamento (quer insituição mais burquesa que o casamento tradicional?). Na década de 1960 os televisores ganhavam popularidade, mas muitos não tinham acesso aos canais devido terem que pagar as respectivas licenças. O direito à alienação, entao, consagra-se como direito humano fundamental.

Bunton carrega em si o patriotismo próprio das nações desenvolvidas, mesmo que guarde suas críticas ao sistema (de deixar um Clint Eastwood orgulhoso). É pai de uma família tradicional, esperando o mesmo de seu filho (em certa passagem com a namorada, o filho salta um "desde quando o senhor se tornou conservador?"), mostrando que, sim, é capaz de sermos críticos e mainstream ao mesmo tempo, o que uns diriam reformistas. Mas talvez esse reducionismo não capte a beleza da graciosidade de conviver com Bunton, sempre sagaz em suas falas empáticas (a cena em que é despedido por contrariar o patrão em favor de um colega de trabalho estrangeiro, mostra como o filme é um discurso de hoje, um tapa na xenofobia latente, pelo direito de todos participarmos da encenação capitalista). Aliás, por ele ser um aspirante a dramaturgo (suas peças nunca foram publicadas), a metáfora da encenação e de como exercemos papéis socias muitas vezes contraditórios é clara, por exemplo, no tribunal, o juiz, os promotores e a defesa precisam, de fato, roteirizar suas atuações e as falas.

No fundo, "The duke" é um filme sobre o poder do diálogo e da vida encenada, capaz de criar empatia e romper a fronteira do óbvio. Não é que o crime compense, mas sim que somos demasiadamente humanos para sermos separados entre inocentes e culpados, simplesmente, como se presos a um eterno binarismo vulgar. Logo, o sistema não está posto, e sim em movimento. É impossível escapar dele, ao mesmo tempo em que é limitante simplesmente se entregar a ele.

Mesmo que o filme peque por um início apressado, é possível se envolver com o personagem lá pelas tantas, e a partir daí torcer por ele, mesmo que muitos já saibam o final, mas não importa. Aqui, todo o processo desencadeado, as conversas, o poder de convencimento, os diálogos caprichados no tribunal, são tão feel good que fica impossível não arrancar um ligeiro sorriso. Não sei até que ponto me deixei manipular pela trama, se foi realmente assim que aconteceu (o tribunal, à certa altura, mais parecia um stand-up), mas basta proclamar o direito à alienação para ficar tudo certo.

Happening e o retrato da sociedade machista

8,5/10

Quando comecei a assstir a esse filme francês, não fazia ideia do que se tratava o roteiro, só sabia que figurava no topo da lista do Rotten Tomatoes. E o filme faz jus ao reconhecimento.

Baseado em um pequeno livro homônimo, conta a história real de um fragmento na vida de Anne na década de 1960, uma jovem estudante de Letras que engravida e decide realizar um aborto para que não atrapalhe seus planos profissionais.

Assim como em "Nunca, raramente, as vezes, Sempre", o filme não mostra a origem da gravidez, num acertado recorte de realidade. Alías, nada do que tenha acontecido deve justificar ou se sobrepôr à decisão da mulher (ou não deveria). Obviamente o filme parte de um lugar já pré-construído, portanto, trata-se de uma escolha política, mas francamente, o corpo das mulheres sempre foi objeto político, isso quando não era um objeto mais vulgar lapidado por nossas instituições misóginas. Então caberia ao roteiro cosntruir toda a argumentação para sustentar a escolha de Anne. Neste sentido, Audrey Diwan, a diretora do longa, consegue extrair o máximo de Anamaria Vartolomei, a jovem que protagoniza Anne, numa entrega aboslutamente arrebatadora. Arrisco a dizer, até aqui uma das melhores atuações femininas da década de 2020.

O enquadramento sempre muito próximo às vezes incomoda, mas é daqueles incômodos necessários para mergulharmos nas expressões e na dor de uma jovem que se vê desamparada do mundo. Se considerarmos a ambientação, o filme pode até ser uma reconstituição de mais de 50 anos, mas é impressionante como todo o tabu e hiprocrisia se mantém vivo até os dias atuais, sem contar que em muitos lugares, a situação chega a ser pior. Estamos falando da França, um lugar onde os médicos não tinham respaldo legal para realizar os procedimentos a que Anne recorre, mas não se chocavam a ponto de a denunciarem. Há, por óbvio, todo um moralismo em volta da família e dos profissionais de saúde que cercam Anne, mas fico imaginando qual teria sido seu destino se ela vivesse em um país subdesenvolvido, por exemplo. Vê-la tendo que se sujeitar à clandestinidade no berço da civilização chega a ser chocante, e mais chocante ainda é ver que, certamente, muitos ainda a culpariam pelo ato.

A legalização do aborto é questão de saúde pública, isso parece tão óbvio que chega a ser cruel que, em pleno século XXI, essa obviedade encontre barreiras ancoradas em um discurso que não se sustenta meio centímetro quando confrontado à realidade. Anne, estudada e inteligente, branca, de uma família boa, teve que recorrer à clandestinidade para poder decidir sobre si mesma. Uma dor que é subjetiva e social, individual e política, privada e pública: o machismo é quem decide quem são os detentores de direitos inalienáveis.

Apesar dos claros privilégios de Anne, o filme é universal, à medida que sua dor se estende em maior ou menor grau a todas as outras mulheres que vivem sempre à sombra do primeiro sexo. A conclusão a que chego é que nem precisava justificar a escolha de Anne pela opção à vida profissional, pois essa necessidade de explicação só pode ser compreendida num mundo em que as justificativas devem sempre ter o selo de aprovação externa quando o sujeito que a declara possui uma vagina. Até quando?

Playground: um estudo sobre bullying

8,5/10

Um pequeno filme belga chamou atenção em Cannes na premiação de 2021, ganhando o Prêmio FIPRESCI na seção Un Certain Regard. Trata-se de "Playground", um trabalho realmente muito bem feito e dirigido pelas mãos de Laura Wandel.

O longa é intimista e acompanha as crianças numa mise-en-scene que se restringe ao ambiente escolar, inclusive com a câmera focando nas crianças bem mais que nos adultos. Lembra, por exemplo, os quadrinhos do Calvin, os adultos sempre em terceiro plano.

É interessante o trabalho de direção das crianças, extremamente competentes em passar a emoção e a carga dramática necessária para viver toda a situação: o filme foca na irmã mais nova e sua transição entre a solidão provocada pela sensação de não pertencimento e o conflito quando tenta se juntar ao irmão mais velho, que a ignora, pois ele próprio tem seu círculo de amizades.

Mas a resposta não é tão simples: em meio à violência como símbolo de pertencimento (ou não) a determinado grupo, não sabemos se a rejeição do irmão era para protegê-la ou se atuava como código de fronteiras entre os grupos. O fato é que o próprio irmão é vítima e algoz das situaçãoes de bullyng, e quando a irmã percebe essa dualidade, ela própria começa a questionar a situação, até o momento em que o jogo" vira, e é ela quem o rejeita.

Na verdade, as crianças buscam uma identidade em construção e o filme não é conclusivo, pois o desfecho não é nada palatável: ainda estão em processo de (des)construção, sendo a violência a motriz condutora dos subgrupos aos quais pertencem. As relações de poder entre as crianças estão tão desnudas, que parecem óbvias quando pensamos como não nos damos conta de que qualquer forma de sociabilidade constrói muros e pontes, constrói laços horizontais ou verticais, e de como tudo é tão demasiadamente humano.

Há de se destacar, mais uma vez, o fato de que toda a encenação não ultrapassa os muros da escola, além da clara sensação claustrofóbica, fica a mensagem que, de fato, a personalidade dos irmãos devem tudo àquele espaço, que é de conhecimento, crescimento, mas também de muita dor. E a direção dos meninos está num nível absurdo de realismo, aliás tudo ali é muito crível, mesmo os atores secundários cumprem bem o papel.

É interessante perceber como o cinema vem "infantilizando" as situações, mas somente no sentido da idade mesmo: cada vez mais o ambiente escolar vem discutindo temas pesados e urgentes. Na década de 1990, tínhamos saído do cenário onde adultos interpretam adolescentes para que os próprios adolescentes interpretem a si mesmos, e assistimos no século XXI as crianças atuarem. E o roteiro não economiza: a cena final, onde estão expostos à violência, sem exatamente um porquê, ou melhor, como fio condutor e constante das identidades, é mais do que angustiante, é um retrato de que precisamos de mais cinema como esse, que mergulhem na mente dos jovens para compreendermos a origem de tanto deslocamento.

Sem respostas, somos obrigados somente a aplaudir a obra, pois mesmo tentando se desvencilhar dos apriorismos morais, o abraço angustiado dos irmãos é o abraço de todos nós em nossas crianças, tão perdidas quanto qualquer um que esteja respirando num mundo pós-pandêmico, dotado de incertezas, de perguntas, de potência e de fragilidades.

28 de fevereiro de 2022

A sombra de Stálin - A herança cultural das Fake News e a importância da verdade

Seria a verdade algo único e livre de interpretações? Possivelmente não. Mas até que ponto é possível esconder um fato completamente tangível em prol de um ideal ou de uma justificativa muito maior do que o próprio fato? Aliás, até que ponto o fato pode ser relativizado?

"A sombra de Stálin", filme da polonesa Agnieszka Holland, conta a história de um jornalista que viveu alguns dias o Holodomor, a fome na Ucrânia provocada pela exploração russa naquele território, tendo inspirado o escritor George Orwell e divulgado ao Ocidente os horrores do socialismo.

Certamente o mundo ainda não se livrará tão fácil de governos tiranos e opressores. E aqui, sabemos que a exploração pode ter diversas vertentes ideológicas, infelizmente. Aliás, mais do que o socialismo, o próprio capitalismo experiencia uma naturalização das barbaridades e das narrativas sanguinárias, e se formos parar para pensar, o capitalismo matou mais do que qualquer regime que se diga socialista (em doses homeopáticas, claro).

É estranho viver na Era da Informação e ter as "Fake News" como problema de Estado, capaz de derrubar e sustentar governos, dos mais tiranos aos mais inocentes. Mas cabe a pergunte: é possível pensar em governos inocentes no mundo de hoje? Difícil. Mas exemplos de governos tenebrosos não faltam. O Fato é que o filme "A sombra de Stálin" se debruça naquele que pode ser considerado um dos governos mais tiranos e antidemocráticos que já existiu... no século XX (e talvez perca para o nazismo, para os regimes militares sulamericanos, para Cuba...). É absolutamente assustador perceber que as práticas russas em 1933 não apenas permanecem mais vivas do que nunca, mas foram potencializadas por algoritmos, bolhas e todo um movimento de pós-verdade, que pode confundir-se muito com a "não-verdade" ou com o poder das narrativas (simulacro?) provocado pela sociedade em redes. Até que ponto nos desvencilhamos da verdade?

O Kremlim, em Moscou, nada mais é do que uma "bolha real" capaz de apreender jornalistas, políticos opositores, artistas, intelectuais, submetendo-os a uma narrativa de redenção difícil de digerir. O jornalista galês Gareth Jones, que atuava no governo londrino do primeiro ministro Lioyd George, e já tendo entrevistado Hitler (e percebido nele uma faceta nascente do novo autoritarismo europeu, sutentado pela mídia e pela burocracia), decide por entrevistar Stálin, em especial vai em busca da pergunta de milhões: de onde vem o dinheiro que está erguendo a nação russa? Qual a base econômica do regime soviético?

Naturalmente, há todo um clima de cinema investigativo, para ficar claro ao telespectador que as respostas não parecem simples, ainda que o porta-voz da Rússia, Walter Duranty, ganhador de um pulitzer, tenha deixado claro que tudo se trata de uma rica produção de grãos. Jones, não satisfeito, e já instalado em Moscou, começa a querer investigar melhor as bases do regime, principalmente após seu amigo jornalista, Paul Scheffer, ser assassinado a balas (qualquer semelhança com a jornalista anti-Putin russa Anna Politkóvskaia, assassinada em 2006 na Rússia, não é mera coincidência).

O título em inglês, Mr. Jones, centraliza a história no protagonista, no entanto, é notório perceber como a narrativa se interlaça à obra seminal de George Orwell, "A revolução dos bichos". As cenas do filme são enriquecidas com citações e imagens idílicas sobre o que acontece na fazenda ficcional mais pertubadora do mundo, contribuindo para qualificar a narrativa. Como há um clima de desconfiança muito bem construído, o suspense se instaura sem grande dificuldades, méritos totais da direção de arte e da produção, realmente impecáveis, capazes de nos transportar para a Rússia de 1933 sem grandes dificuldades.

Contando com a ajuda da também jornalista Ada Brooks, uma desconfiada e iludida socialista pró-Stalin (que, aos poucos, vai compreendendo o que é verdadeiramente o regime), Jones consegue ligar o "ouro de Stálin" à Ucrânia, e decide ir até o país para investigar. Aliás, são nos diálogos entre Jones e Ada que acontecem as mais inspiradas tiradas, como quando discutem se há somente uma verdade, ou se alguns fatos justificam-se em função de um ideal mais nobre.

Jones sabe muito bem que se trata de vidas. Como falar em narrativas quando se está diante dos horrores provocados pela fome, chamado historicamente de "Holodomor"? O governo já era bastante criticado pelos acontecimentos na Xexênia, mas absolutamente nada se comparava ao que Jones estava prestes a ver e vivenciar: ao escapar do trem que o levava em "linhas oficias" à Ucrânia, ele chega às comunidades populares, depara-se com a exploração do povo trabalhador, com a fome e o frio extensos, em passagens sufocantes e até mesmo vertiginosas, filmadas sempre com um tom escuro, mesmo na neve. É o socialismo em sua faceta mais cruel (ou seria no seu apogeu?).

De todo o modo, o que Jones estaria a relatar mudaria para sempre as perspectivas do Ocidente ao regime socialista. A fome, tal qual no regime capitalista, era programada e escandalosamente posta em silêncio na versão oficial do governo. Evidentemente ele não conseguiu sua tão sonhada entrevista com Stálin, no entanto, saiu da Rússia com um material mais devastador. Claro que o jornalista foi pego e só não foi morto prontamente devido ter sido chantageado para que mentisse sobre a realidade russa (em troca, havia 6 engenheiros britânicos feitos reféns que seriam libertos caso Jones compactuasse com a versão oficial do governo soviético). No entanto, poucos anos depois Jone fora morto na Mongólia, um dia antes de completar 30 anos.

O relato de Jones foi desmoralizado publicamente, e ainda, o governo russo libertou os britânicos, tudo em troca de se criar uma boa imagem externa. Além disso, as relações com os EUA provocam o telespectador no sentido de descaracterizar os fundamentos da ideologia e do velho maniqueísmo que surgiria na Guerra Fria, em prol de um comércio internacional que está além das bandeiras partidárias: o lucro, não importa se provém de meios de produção coletivos ou não, é sempre privatizado. O The New York Times desmente Jones publicamente, pondo as relações econômicas com a Rússia acima de qualquer tratado internacional de direitos humanos. Aliás, a cena em que Jones se encontra com Orwell em um restaurante londrino, comendo carne de porco (que remete à fazenda da literatura), cuja carne foi posta na mesa por "proletariados livres" (na cena em que chegam ao restaurante, a câmera faz questão de passear ao lado de fora do restaurante, captando os trabalhadores descarregando a comida que serviriam aos burgueses ou à classe média privilegiada), apenas mostra a semelhança entre os sistemas de exploração: há quem serve e há quem é servido. "Mudam-se as estações, mas nada mudou".

Ainda assim, Jones conseguiu publicar seus resultados em diversos outros veículos, entre os quais o The Guardian. Para nós, em uma época marcada por Fake News e uma mídia que pode sim envolver-se em interesses espúrios, levar a sério um jornalismo investigativo deste quilate se faz extremamente necessário. Não à toa, governos dos mais variados expectros políticos descredibilizam a mídia como um todo, e ainda adotam medidas de sigilo de suas ações. Mais uma vez, usam a justificativa de que seria tudo por uma causa maior: seja para conter o avanço socialista ou ainda para promovê-lo. Mas o fato é que tanto o capitalismo quanto o socialismo real fazem enriquecer uns poucos mediante o trabalho de muitos. Até quando?

7 de dezembro de 2020

ERA UMA VEZ UM SONHO: o típico indivíduo do Americam Way of life

 O novo filme de Ron Howard ficou disponível em novembro de 2020 na Netflix, e conta a história de um rapaz do interior, estudante de direito, que tenta "vencer na vida" mesmo vindo de uma família completamente disfuncional. História baseada em fatos reais.


Fazendo uso até que eficiente de uma série de flashbacks (que em nenhum momento tornaram o filme confuso), a grande verdade é que provavelmente você já viu essa história antes. O rapaz quase se "perde na vida", dada a relação problemática com a mãe (uma viciada em heroína). Para completar, o rapaz é forçado a ir morar com a avó, tendo apresentado rendimento escolar medíocre e amizades que quase o levam para o buraco. Mas é quase. No fundo, o filme defende uma espécie de meritocracia e exalta o American way of life, reforçando o fato de que escolhas individuais, mesmo considerando as influências de grupos primários (escola e família), são os que dão peso a uma vida de sucesso.

Importante destacar aqui que, mesmo contando com Amy Adams e Glenn Close, em atuações excepcionais, o filme é mesmo de J. D (Gabriel Basso), não pela atuação, mas pelo tema central mesmo, e ainda considerando que é baseado na sua autobriografia. As mulheres são apenas invólucros para a camada central, que reside em acompanhar como J. D conseguiu superar traumas e o quanto sua vida adulta carrega este legado. Aliás, destaque para o ator mirim de J. D, excelente. 

Eu costumava ser crítico demais a esse tipo de enredo. Lembro de ter detestado o cultuado "À procura da felicidade", de Will Smith, um filme que é bem mais trabalhada a humanização dos personagens e sua caracterização e motivação de vida, porém, em essência, não foge ao visto em "Era uma vez um sonho": o despertar do indivíduo em frente ao caos. Filmes como esses podem enterrar um apuro sociológico e enaltecer uma falsa meritocracia.

Contudo, o ano é 2020. As dificuldades foram postas a todos, ainda que, obviamente, o peso das desigualdades torne tudo mais desequilibrado do que se supõe. E talvez porque eu tenha saído de casa cedo e ido morar em outro estado, ou seja, ter me identificado com o protagonista, que ter visto o rapaz se balançando entre seu dever profissional e a família descompensada, tornou-se pra mim uma marca muito pessoal para simplesmente deixar de lado. Além disso, essa escolha entre um lado e outro se revela uma falsa dicotomia, afinal, como o próprio filme menciona em certa ocasião, nossa identidade é um amontoado de influências compartilhadas.

Deste modo, por mais que o American Way of Life esteja lá berrando, de forma não discreta, é inegável o poder que o filme pode proporcionar por quem se deixar levar por acompanhar os percalços daquela família e ver como tudo estava indo por água abaixo, mas foi salvo. 

Repito: há histórias de superação muito melhores, muito mais emocionantes, muito mais relevantes. Mas num ano carente por esperança, achei bem vinda a mensagem da projeção, ressaltando o quanto é importante valorizarmos nossos entes queridos, mesmo passando por uma série de sofrimentos e percalços, compreendendo que eles fazem parte da nossa história.




6 de dezembro de 2020

ESTOU PENSANDO EM ACABAR COM TUDO: digressão acima da média da Netflix

"Estou pensando em acabar com tudo", filme lançado em 2020 na plataforma Netflix, traz novamente a mente engenhosa de Charlie Kaufman (roteirista de "Brilho eterno de uma mente sem lembranças") às telas, baseado no livro escrito por Iain Reid. E diga-se: o filme é melhor.


Não é um filme fácil. O trailer entrega praticamente uma história soft, que brinca com o duplo sentido do titulo: acabar com o relacionamento ou com a vida? 

Inicialmente, vemos o casal principal em uma espécie de road movie, e embora sejam recém-namorados, já é possível sinalizar o início de uma "crise" entre eles. E de fato, quando o casal protagonista está no carro do rapaz, em sua primeira viagem para conhecer os pais dele, tudo parece se tratar de um filme cujo mote será o deslocamento e pessimismo da jovem em relação ao namoro, questionando sua identidade e sua potencialidade em estabelecer afetos, no entanto, o filme é muito mais do que isso.

ATENÇÃO PARA SPOILERS!!

Nas casas dos pais dele, não demora muito a começar a jorrar em tela os primeiros sopros surrealistas: os pais mudam de aparência de uma cena a outra. Antes disso, alguns frames rápidos de um zelador aparecem repentinamente (o zelador retornará nas cenas finais). Durante o jantar, à medida que vamos conhecendo Jake e sua namorada (detalhe, ela não tem um nome certo, é chamada de muitos nomes durante a projeção), percebemos, ao mesmo tempo, uma simbiose e um estranhamento dela com Jake, cena mais evidente quando ela entra no quarto dele ou no porão. Há algo muito estranho ali: fotos, poesias, quadros, que misturam um e outro personagem. O que eles são e fazem vão, progressivamente, se imiscuindo.

A tensão é construída milimetricamente, tornando o filme às vezes arrastado, mas quase tudo é absolutamente necessário. Avançando nas cenas, lembranças de um celeiro na infância, um mal estar com os pais, a volta para casa, a parada numa sorveteria mesmo durante a nevasca, cujas garçonetes chegam a dar avisos macabros, tudo isso vai sendo construído com um clima de suspense. Seria o sinal de que algo muito pior ou muito sinistro estará prestes a acontecer? Na estrada, o casal para o carro com o objetivo de jogar fora os copos do sorvete não tomados, iniciando um terror claustrofóbico muito bem arquitetado.

Muito mais horripilante do que se o filme descambasse para um feminicídio, já que o roteiro entrega todos os indícios, com um protagonista perturbado, uma conversa de estupro, uma parada numa escola que parece estar abandonada (lembram do zelador?), a imagem da cesta de lixo, cheia de inúmeros copos de sorvete... Mas na verdade, o longa é muito mais horripilante do que isso. 

Em determinada passagem do filme, a jovem afirma que o pensamento é mais real que a ação. Diversas cenas desconexas mas que entregam uma experiências sensorial, e que parecem arraigadas a fortes memórias, criam um tipo de horror baseado nas lembranças da vida e daquilo que foi ou que poderia ter sido. A "não-vida" pode tornar-se um pensamento poderoso, muito mais do que a ação vivida. Em síntese, o filme é sobre relacionamentos vividos ou não vividos, em especial os platônicos, sobre nossas frustações, sobre o peso de envelhecer, sobre lembranças, sobre a relação com namoradas ou com a família, e abre espaço até mesmo para sugerir relacionamentos abusivos, mostrando as marcas que ficam não apenas nas vítimas, pois tudo isso é na mente de Jake, não da garota.

Portanto, o filme dialoga com a masculinidade do homem moderno: mesmo Jake tendo o potencial de ser um homem de sucesso, com uma infância marcada por pequenos prêmios (que não indicam absolutamente nada à vida adulta), teria ele virado um zelador apático? Teria ele vivido relacionamentos infrutíferos e se decepcionado com várias namoradas? Aliás, ele teve relacionamentos? Ou pior, ele chegou a ser um homem abusador? e sua relação com os pais?

Note que é um filme que trabalha com simbolismos, portanto, não há respostas. Inclusive, está aberto a inúmeras interpretações. Mas é muito mais assustador do que simplesmente descambar para, por exemplo, ser um filme de serial killer. Ele subverte nossas expectativas para falar sobre a vida e seus rumos incertos, sobre o navegar pelas desilusões ou pequenos prazeres, como a poesia ou a pintura, ou tomar um sorvete, e ainda assim não sentir-se pleno. É um filme sobre incerteza. A única certeza mesmo, é que estamos diante de mais um filmaço de Kaufman.


4 de dezembro de 2020

MANK: o outsider dentro da engrenagem de Hollywood

 


9/10

David Fincher tem uma ótima mão para biografias, e assim como fez em "A rede social", em que estava mais interessado nos bastidores da história sobre o criador do Facebook, em "Mank" o diretor também conta o que há por trás do responsável por um dos maiores filmes já realizados no cinema: retrata a história do roteirista que escreveu o clássico filme "Cidadão Kane", Herman Mankiewicz.

Você não precisa ter visto o filme de 1941 para compreender esta obra de Fincher, no entanto, ter assistido ao clássico vai lhe render uma experiência mais agradável, especialmente porque grande parte da trama gira em torno das "coincidências" que supostamente o roteiro tinha com personagens reais retratados em "Mank", além de que Fincher resgata uma discussão política no filme que é muito bem vinda no clima polarizado de 2020.

O filme, rodado em preto e branco, demora a engrenar, e isso em parte é positivo, mostrando uma excelente construção de personagem. Embalado por uma trilha pulsante, que consegue segurar a tensão e a sensação de que algo importante sempre vai acontecer, é bem verdade que pode ser enfadonho para alguns, em especial quando há uma explosão de nomes e pessoas. Fincher, no entanto, vai centralizando sua história na relação que  o personagem principal tem com o casal Marion Davies (que seria uma espécie de subatriz) e William Randolph Hearst (chamado muitas vezes de Willie), um empresário e jornalista, que teria se aventurado na política pelo partido democrata, anos antes, mesmo sendo conservador. É desses personagens que se supõe que houve a influência para escrever "Cidadão Kane".

"Cidadão Kane" foi indicado a 9 Oscars, mas acabou ganhando apenas 1: roteiro original. Portanto, méritos a Herman Mankiewicz. Mas qual o interesse de contar essa história em 2020? Simples: a tese defendida por Fincher é de que Willie se rendeu ao conservadorismo como meio de sobrevivência, expondo-o por intermédio do "Cidadão Kane" (portanto, uma ficção hollywoodiana de grande alcance), em que supostamente Willie, na verdade, tinha ideais democratas e mais liberais. O filme obviamente parte de uma ideia projetada e subjetiva que Herman Mankiewicz faz de Willie, construindo-o como um personagem que tenta sobreviver ao mundo burguês. Quase como uma espécie de "Gatsby", mas com mais pólvora no canhão, por comportar ideais de esquerda em uma sociedade que vivia o começo da segunda guerra, e começava a viver a Era de Ouro do cinema. 

É essa ambiguidade de Willie que não apenas vai ser decisiva em "Cidadão kane", mas também é ela que vai jogar os podres e a hipocrisia na cara da sociedade norte-americana pós crise de 1929, abalada pelo nascimento do Nazismo e com horror à alavancada progressista. Aliás, esse clima de austeridade política é muito bem perceptível nas falas dos coadjuvantes, citando Hitler, Mussolini, o medo aos comunistas. Há espaço até para celebridades irem às rádios defender ideias conservadoras baseadas em fake news. É importante essa revisita, pois temos a impressão que o clima polarizado e hostil nasceu no século XXI, quando já estava entranhado desde, pelo menos, a guerra civil americana, sendo a Era de Ouro apenas uma parte dessa faceta que põe lado a lado republicanos e democratas. Nota-se que as falas são sutis, evocando a propriedade privada e a família, nada muito diferente do que vemos hoje em dia pela direita dita "liberal".

Deste modo, Mankiewicz, mesmo sem levantar bandeira, claramente se afeiçoa à ala democrata e progressista, e o filme deixa isso clara quando os próprios personagens vivem um momento de discussões trabalhistas, de cortes salariais, de eleições, de mudanças estruturais dos estúdios. Esse cenário todo é útil para situar Mankiewicz em um lado do espectro político, mas aqui não há proselitismo, nem palanque. De fato, Mankiewicz navega entre ser um outsider ou ser uma peça da engrenagem hollywoodiana, pois ainda que conviva com seus vícios alcoólicos e tenha uma séria de falas irônicas à alta sociedade, afeiçoando-se às classes operárias (em contraste com a elite representada pelos donos das produtoras), ele não deixa de ser um roteirista de renome, ao qual Orson Welles (diretor de Cidadão Kane) contava para escrever seu novo filme, bem como não deixa de tramitar por esses espaços da alta sociedade da indústria cinematográfica.

Aliás, a relação tensa com Welles é um tanto maniqueísta, mas ainda assim poderosa quando explode na tela. Cobrando o devido crédito por "Cidadão Kane", já que Orson queria para si as glórias da história, é como se o personagem se livrasse da mesquinhez do dinheiro e se apegasse a uma virtude maior, mais sublime, devido o valor artístico que há por ser o criador de uma obra genial, vencedora do Oscar justamente pelo roteiro original.

Citando Willie como um Quixote prestes a dar o bote com seus ideais democratas, ficamos mesmo com a sensação que é Mankiewicz o personagem quixotesco do filme, lutando contra os barões do cinema, sobrevivendo contra Orson Welles e os produtores, sendo que sua gana por ser reconhecido como autor de uma obra-prima o eleva ao Olimpo, mostra um ar heroico de quem luta contra os "moinhos de vento da indústria cinematográfica". E ainda de quebra, expõe a hipocrisia da sociedade burguesa nessa nova indústria, quando começava o filme falado e que, cada vez mais, tornava-se técnica, expondo toda a contradição de sua "linha de montagem": na ponta, trabalhadores que faziam a arte acontecer, e é sobre eles que Mankiewicz se constrói.

Não é um filme fácil, e é mais falado do que a média. Com uma atuação na medida certa de Gary Oldman, temos aqui uma brilhante construção de época com muito caldo para pensar o presente. Um ótimo candidato ao Oscar.

OBS: o roteiro do filme foi escrito pelo pai de Fincher, já falecido. Será que teremos mais um Oscar de roteiro vindo aí?

Pleasure: o hedonismo e o estoicismo degladiando-se

Dirigido por uma diretora feminista, a sueca Ninja Thyberg, podemos afirmar que "Plesure" fica no limiar entre o filme denúncia e ...