9/10
David Fincher tem uma ótima mão para biografias, e assim como fez em "A rede social", em que estava mais interessado nos bastidores da história sobre o criador do Facebook, em "Mank" o diretor também conta o que há por trás do responsável por um dos maiores filmes já realizados no cinema: retrata a história do roteirista que escreveu o clássico filme "Cidadão Kane", Herman Mankiewicz.
Você não precisa ter visto o filme de 1941 para compreender esta obra de Fincher, no entanto, ter assistido ao clássico vai lhe render uma experiência mais agradável, especialmente porque grande parte da trama gira em torno das "coincidências" que supostamente o roteiro tinha com personagens reais retratados em "Mank", além de que Fincher resgata uma discussão política no filme que é muito bem vinda no clima polarizado de 2020.
O filme, rodado em preto e branco, demora a engrenar, e isso em parte é positivo, mostrando uma excelente construção de personagem. Embalado por uma trilha pulsante, que consegue segurar a tensão e a sensação de que algo importante sempre vai acontecer, é bem verdade que pode ser enfadonho para alguns, em especial quando há uma explosão de nomes e pessoas. Fincher, no entanto, vai centralizando sua história na relação que o personagem principal tem com o casal Marion Davies (que seria uma espécie de subatriz) e William Randolph Hearst (chamado muitas vezes de Willie), um empresário e jornalista, que teria se aventurado na política pelo partido democrata, anos antes, mesmo sendo conservador. É desses personagens que se supõe que houve a influência para escrever "Cidadão Kane".
"Cidadão Kane" foi indicado a 9 Oscars, mas acabou ganhando apenas 1: roteiro original. Portanto, méritos a Herman Mankiewicz. Mas qual o interesse de contar essa história em 2020? Simples: a tese defendida por Fincher é de que Willie se rendeu ao conservadorismo como meio de sobrevivência, expondo-o por intermédio do "Cidadão Kane" (portanto, uma ficção hollywoodiana de grande alcance), em que supostamente Willie, na verdade, tinha ideais democratas e mais liberais. O filme obviamente parte de uma ideia projetada e subjetiva que Herman Mankiewicz faz de Willie, construindo-o como um personagem que tenta sobreviver ao mundo burguês. Quase como uma espécie de "Gatsby", mas com mais pólvora no canhão, por comportar ideais de esquerda em uma sociedade que vivia o começo da segunda guerra, e começava a viver a Era de Ouro do cinema.
É essa ambiguidade de Willie que não apenas vai ser decisiva em "Cidadão kane", mas também é ela que vai jogar os podres e a hipocrisia na cara da sociedade norte-americana pós crise de 1929, abalada pelo nascimento do Nazismo e com horror à alavancada progressista. Aliás, esse clima de austeridade política é muito bem perceptível nas falas dos coadjuvantes, citando Hitler, Mussolini, o medo aos comunistas. Há espaço até para celebridades irem às rádios defender ideias conservadoras baseadas em fake news. É importante essa revisita, pois temos a impressão que o clima polarizado e hostil nasceu no século XXI, quando já estava entranhado desde, pelo menos, a guerra civil americana, sendo a Era de Ouro apenas uma parte dessa faceta que põe lado a lado republicanos e democratas. Nota-se que as falas são sutis, evocando a propriedade privada e a família, nada muito diferente do que vemos hoje em dia pela direita dita "liberal".
Deste modo, Mankiewicz, mesmo sem levantar bandeira, claramente se afeiçoa à ala democrata e progressista, e o filme deixa isso clara quando os próprios personagens vivem um momento de discussões trabalhistas, de cortes salariais, de eleições, de mudanças estruturais dos estúdios. Esse cenário todo é útil para situar Mankiewicz em um lado do espectro político, mas aqui não há proselitismo, nem palanque. De fato, Mankiewicz navega entre ser um outsider ou ser uma peça da engrenagem hollywoodiana, pois ainda que conviva com seus vícios alcoólicos e tenha uma séria de falas irônicas à alta sociedade, afeiçoando-se às classes operárias (em contraste com a elite representada pelos donos das produtoras), ele não deixa de ser um roteirista de renome, ao qual Orson Welles (diretor de Cidadão Kane) contava para escrever seu novo filme, bem como não deixa de tramitar por esses espaços da alta sociedade da indústria cinematográfica.
Aliás, a relação tensa com Welles é um tanto maniqueísta, mas ainda assim poderosa quando explode na tela. Cobrando o devido crédito por "Cidadão Kane", já que Orson queria para si as glórias da história, é como se o personagem se livrasse da mesquinhez do dinheiro e se apegasse a uma virtude maior, mais sublime, devido o valor artístico que há por ser o criador de uma obra genial, vencedora do Oscar justamente pelo roteiro original.
Citando Willie como um Quixote prestes a dar o bote com seus ideais democratas, ficamos mesmo com a sensação que é Mankiewicz o personagem quixotesco do filme, lutando contra os barões do cinema, sobrevivendo contra Orson Welles e os produtores, sendo que sua gana por ser reconhecido como autor de uma obra-prima o eleva ao Olimpo, mostra um ar heroico de quem luta contra os "moinhos de vento da indústria cinematográfica". E ainda de quebra, expõe a hipocrisia da sociedade burguesa nessa nova indústria, quando começava o filme falado e que, cada vez mais, tornava-se técnica, expondo toda a contradição de sua "linha de montagem": na ponta, trabalhadores que faziam a arte acontecer, e é sobre eles que Mankiewicz se constrói.
Não é um filme fácil, e é mais falado do que a média. Com uma atuação na medida certa de Gary Oldman, temos aqui uma brilhante construção de época com muito caldo para pensar o presente. Um ótimo candidato ao Oscar.
OBS: o roteiro do filme foi escrito pelo pai de Fincher, já falecido. Será que teremos mais um Oscar de roteiro vindo aí?

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