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7 de maio de 2020

FILME "OS IRMÃOS WILLOUGHBYS" DA NETFLIX É VISUALMENTE RUIM, MESMO COM BOA MENSAGEM

3/10

Não creio que as animações, no geral, sejam apenas infantis. Ainda que seja possível ver que muitas animações se destinem a esse público como alvo, mesmo aquelas com abordagem lírica infantil conseguem sim agradar ao público de mais idade. Veja, por exemplo, animações como a série "Toy Story", ou japonesas como "A viagem de Chihiro", são filmes que agradam a todos.

Então essa minha crítica em nada tem a ver com a perspectiva geracional. Acontece que essa nova produção da Netflix tem muitos méritos, no entanto, tem muitos defeitos também (e gritantes!).


Conta a história da excêntrica família Willoughby, que inicia somente com o casal adulto, sendo que os filhos nascem logo no início do filme, apresentados em um casarão onde moram. Começa aí 2 problemas gritantes da obra. Primeiro, a coloração da casa, num tom avermelhado, me incomodou em muito. Até aí tudo bem, é questão de gosto. Agora a construção e apresentação apressada dos personagens é algo sim, que atrapalha demais o nosso envolvimento com eles, comprometendo o saldo da obra.

Será mesmo que precisamos de tanta correria assim? Seria esse um sinal da modernidade e estou sendo um velho chato desatualizado? Duvido muito. É preciso aqui separar ritmo de ambientação. O ritmo frenético e agitado é bem vindo, e este deve concorrer para que gostemos dos personagens, e não ao contrário. Em poucos minutos a trama já começa, um narrador (um gato de rua) deslocado que depois se insere à família vai nos contando a história, e uma série de reviravoltas e acontecimentos atropelados são apresentados, como se o roteiro despirocado tivesse muito pouco tempo pra tudo, personagens secundários vem e vão a uma velocidade que você se pergunta "o que diabos esse filme quer mostrar?". Uma ambientação que mais te afasta do que aproxima, e isso é um tiro no pé em um longa que aposta no sentimento ao seu final.

Vencida a primeira metade do longa, se ainda lhe restar interesse, as coisas enfim começam a melhorar, com destaque para a amizade dos irmãos. Como já falei, visualmente o filme é ruim, e esse aspecto fica mais evidenciado quando além da casa, são mostrados outros lugares. A indústria ao final do arco-íris, por exemplo, tem umas colorações berrantes bem feias, e o homem que cuida do lugar, um desenho... bem... estranho (no mínimo). Isso passa ao largo se ao menos os personagens fossem interessantes, mas como também já falei, uma enxurrada deles passa pelo filme, e ainda bem que os dois irmãos mais velhos são bem legais, uma pena que não diria o mesmo dos gêmeos mais novos, praticamente nulos.

Já para o final, é possível sentir a reviravolta que o filme terá, e isso não necessariamente é ruim, pois o filme desacelera mais e tenta captar o telespectador. Veja que para gerar este envolvimento, foi preciso conter a correria. Se o filme trabalhasse melhor esse aspecto emocional e a personalidade dos personagens no início, com certeza o resultado seria melhor. Parecia mais um episódio de desenho animado com personagens que já conhecíamos, e isso não pegou nada bem para obra. Uma pena, pois os minutos finais trazem uma mensagem poderosa sobre o poder da família (não necessariamente família de sangue).

Apressado e visualmente de mau gosto, mas com uma mensagem muito necessária. Você pode se emocionar no final, mas terá que aguentar uma montagem e um roteiro bem maçante até lá. Boa sorte! 








6 de maio de 2020

"RESGATE": AÇÃO DA NETFLIX DA MAIS ALTA QUALIDADE

8,5/10

É inegável o poder da Netflix em época de pandemia, capaz de manter nossa sede insaciável pelo consumo de séries e de filmes (este último em especial por conta do fechamento dos cinemas tradicionais), tornando-se, além de distribuidora de streaming, uma grande PRODUTORA de conteúdo.

Deste modo, a empresa acaba recebendo os holofotes das grandes estreias, o que pode potencializar o favorecimento da visão que temos de seus lançamentos, claro, mas também não dá pra negar a qualidade de alguns de seus materiais, ainda que a maioria seja de fato descartável. Mas em "Resgate", para nosso deleite, há sim uma boa história a ser vista (não exatamente a ser contada,já que o roteiro se apóia mais na movimentação no que nos diálogos).

Mas o fato inegável é que estamos diante de um ótimo produto, não exatamente pelo roteiro, mas principalmente pela construção de ótimas cenas do estreante em longas, Sam Hargrave.

Estrelado por Chris Hemsworth ( o queridíssimo "Thor"), o longa entrega o que promete: cenas de ação de tirar o fôlego, com grande destaque a um plano sequência de perseguição, filmado de forma magistral. O protagonista vive o papel de Tyler, um mercenário contratado para fazer o "resgate" do filho de um poderoso narcotraficante da Índia, que fora raptado por outro igualmente poderoso narcotraficante, de Bangladesh.



Certamente você já deve ter visto este roteiro em algum lugar, com um homem fodão dando conta de vários e vários caras. Sem partir para muita explicação, o filme o lança na ação, o que pode ser bom, mas também pode receber as críticas de quem espera uma história mais amarrada. No entanto, as cenas não deixam a desejar, e isso pra mim já vale a sessão, já que se trata de um filme de ação (!).

Mas tecnicamente, além do plano sequência, há diversas camadas sim, como a fotografia meio amarelada de Bangladesh, conferindo-lhe ar sórdido, ou a trilha que mantém a tensão, ou mesmo certo lirismo no personagem principal, que permanece misterioso e com cenas que reforçam a sua personalidade introspectiva.

Se você for atento, o final não é exatamente uma surpresa, podendo senti-lo a quilômetros, mas o fato é que a construção até ele é até mais interessante. As cenas nas ruas são magníficas, assim como a cena na ponte, enfim, quase tudo funciona nesse filme.

Decerto é meio chato você explorar clichês do gênero tendo como mocinho alguém com traços ocidentais bem acentuados, loiro, bonito, e os chefões serem, como sempre, os diferentes, malvadões. Mas a verdade é que nem há exatamente mocinhos, o próprio protagonista é um mercenário, e o destino dado ao personagem talvez corrobore a este aspecto. A esperança talvez resida nos jovens, e nem todos, pois o filme até mostra que alguns deles estão perdidos mesmo. Mas enfim, esse tipo de reflexão passa a largo. O que vale mesmo é o tiroteio. JOGUE-SE SEM MEDO!!

PS: JÁ FOI CONFIRMADO O 2 , POIS QUE VENHA ESSA CONTINUAÇÃO!!!






5 de maio de 2020

LIVRO: Crônicas de Nárnia - O sobrinho do mago

CONTO DE FADAS NÃO É SOMENTE PARA CRIANÇAS!

Clive Staples Lewis, mais conhecido como C. S. Lewis, foi um escritor britânico que escreveu os livros da coletânea "As crônicas de Nárnia" (são sete histórias sobre o mundo mágico de Nárnia).






Para começar, há 3 filmes que foram adaptados ("O leão, a feiticeira e o guarda-roupa", "a viagem do peregrino da alvorada", "o príncipe caspian"), sendo que um outro está em vias de lançar ("A cadeira de prata") , mas dessa vez me atinei a analisar os livros mesmo, e vou publicando aqui minha impressão à medida que vou lendo, na ordem do Livro cuja capa está acima, em volume único, que congrega as sete histórias em quase oitocentas páginas (portanto, as histórias não são assim tão longas). O primeiro da lista é este "O SOBRINHO DO MAGO".

Algumas pessoas me falavam que "As crônicas", ou melhor, que Lewis era demasiadamente cristão, permeando seu conto de aventura com uma série de referências bíblicas, quase o acusando de doutrinação. Outras pessoas falavam disso com tom de elogio, por valorizarem a visão cristã do mundo.

O fato é que este primeiro livro é muito bom, independentemente de suas referências. Conta a história de Digory e Polly, que acabam indo parar num reino misterioso que dá acesso, entre outros, a Nárnia. Eles acabam indo parar lá devido os encantamentos provocados pelo tio de Digory. É interessante notar que Nárnia é, portanto, apenas um dos vários mundos, claro que de longe o mais interessante, com animais falantes, poderosos, e um leão que esbanja superioridade e charme (seria o Leão a representação de Deus?).

Não sou tão afeto assim ao cristianismo, mas que bom seria se todos os  livros cristãos bebessem da Bíblia para apresentar aventuras como essas. Não sei se ao longo dos demais contos, de fato o tom doutrinário tome conta, porque até aqui, houve mais ação e aventura do que qualquer moralismo. Vamos ver...

Mas tem aqui várias alegorias bíblicas, como por exemplo a maçã, onde Digory quase é tentado pela feiticeira a provar do fruto que o Leão o proibiu de comer. Mas também tem por trás a busca pelos objetivos com foco, sem se deixar levar por um futuro incerto ou recompensas não altruístas. A tentação aparece nesse contexto de conflito do personagem consigo mesmo, fortalecendo sua missão heróica.

Neste sentido, o livro vale muito mais pela imaginação dos mundos e a forma de conduzir uma história relativamente simples e empolgante do que por qualquer acusação moral.

AHHHHH

Também espero esse ano ler o Tolkien (autor de "O Hobbit" e "O senhor dos anéis"), aliás, eles eram amigos. Eu declaradamente não gosto da saga do anel nos cinemas, mas quem sabe tenha uma outra opinião ao ler os livros.

Mas decidi começar pelas "Crônicas". Lewis também escreveu livros mais diretamente teológicos (ele era professor universitário em teologia), e talvez lá as mensagens cristãs sejam mais pesadas do que aqui, que é tão somente uma ótima aventura e inspiradora para muitas outras!!

OBS: a maçã que eu falei é plantada pelas crianças já no mundo real. Anos se passam e da madeira proveniente da macieira, se constrói um guarda-roupa, que será o portal utilizado para a próxima história, "O leão, a feiticeira e o guarda-roupa".

28 de março de 2020

FILME: A CASA

9/10

ENFIM, A ESPANHA 

Desde o sucesso da série "La casa de papel" e suas outras tantas e desnecessárias temporadas, uma enxurrada de produções espanholas de caráter duvidoso invadiu o streaming, em especial a Netflix. Temos aí exemplares como "Elite" e o mais recente "Toy boy", que contam com histórias cheias de reviravoltas "mirabolantes" e "engenhosas", exigindo muita concessão por parte do expectador, e claro, um elenco jovem, modelado, de rostos sempre plásticos e maquiados, com um ar ocidentalmente agradável para atingir um grande público.

No entanto, a Espanha, assim como outras países do mundo, não se representa apenas por enlatados. Sofrendo com um crescente desemprego e com um dos aluguéis mais caros da Europa (pode ser conferido na reportagem do "El país" aqui), particularmente a cidade de Barcelona guarda em si todas as contradições que um grande centro proporciona, com suas mazelas sociais e com a flexibilização das relações trabalhistas, temas estes que passam longe das produções citadas anteriormente, ainda que "La casa de papel" inicie uma discussão social, para logo dissipá-la na busca pela ação descerebrada.

É neste contexto que surge a importância de "A casa" (Hogar, 2020), dirigido e roteirizado pelos irmãos David e Alex Pastor. Centrando a história no publicitário desempregado Javier Muñoz (interpretado por Javier Gutiérrez), finalmente a Espanha das contradições dá as caras, em lentes extremamente competentes, especialmente em seu primeiro ato, construído com total sutileza.

O filme já inicia com "os comerciais de margarina", retratando o cotidiano de uma família idealizada pela classe média, peça publicitária que é objeto de trabalho do protagonista. Em seguida a essa projeção idealista, temos a vida real de Javier explodindo na tela, em sua busca por uma recolocação no mercado de trabalho e no declínio do padrão de vida de sua família.



Junto com a esposa e o filho de 14 anos, Javier é obrigado a deixar seu apartamento de luxo para morar em um lugar mais modesto, particularmente contrariado e abatido pela mudança brusca, evidenciado, por exemplo, nos closes sobre a pia da nova casa (muito mais inferior), ou em sua relutância em vender o carro. Tendo que despedir a empregada em uma cena sutilmente construída, Javier não aceita a nova posição da família, e passa a vigiar seu antigo apartamento de luxo até mesmo quando novos moradores já estão lá habitando.

A partir daí, o filme cresce na tensão, assentada no tema da inveja e na imprevisibilidade das ações do protagonista, tomado pelo sentimento de não aceitação de seu status, aproximando-se do seu antigo apartamento e dos atuais moradores, obcecadamente.

Vamos progressivamente acompanhando os passos de Javier, em sua sociopatia construída sem muita histeria, mas com um excelente jogo de câmera e de ambientação. Transforma-se num filme de suspense tendo a presença quase onipresente de um maníaco. 

É certo que alguns arcos poderiam ser melhor desenvolvidos, como o do jardineiro ou a relação de Javier com a família, mas isso não interfere no saldo final, quando assistimos as consequências das ações do vilão junto ao novo núcleo familiar. Há muitas passagens sutis que mostram a visão da produção em relação ao padrão de vida esboçado pelos novos moradores, representantes de uma genuína classe média que vive de aparência, desde a frágil relação conjugal, ou o fato de serem ricos devido ao paternalismo da família da esposa (o pai dela é o dono da empresa em que o marido trabalha), ou até mesmo ao tipo de esporte que a filha deles pratica, a ginástica rítmica.

Inevitavelmente, nossos estilos de vida, se não condicionados, são influenciados por padrões de consumo e de renda, assim como a meritocracia é a mais pura ilusão de nossa posição social facilitada. Javier não é apenas o antagonista imediato, mas também a válvula pela qual enxergamos as hipocrisias e idiossincrasias da sociedade baseada em imagens.

Entregando um final um tanto quanto corajoso, por não ser politicamente correto, o close na torneira de luxo reforça o contraste, o apego material, a animosidade de nossas ações perante a busca por uma vida facilitada. Destaque também para cena em que Javier "compra" o silêncio da antiga esposa, mostrando que o apego aos bens e a uma vida confortável nos conduz a ações e "não ações" sempre devidamente questionáveis ou situadas num contexto que reforça nossa sobrevivência ostensiva.

Se toda essa reflexão não agradar ou não for uma boa premissa para curtir um filme, é possível divertir-se unicamente pelo suspense e pela trama desenvolvida, que pode até exigir certa concessão aqui ou ali, sem deixar de agradar positivamente ao final. Aí sim temos um retrato muito bem vindo da Espanha, com uma casa que, desta vez, não é de papel.







24 de março de 2020

Cinemas, aspirinas e urubus

O ROAD MOVIE NORDESTINO

Com a direção de Marcelo Gomes (que também assina filmes como "Viajo porque preciso, volto porque te amo" e "Estou me guardando para quando o carnaval chegar"), roteirizado pelo super talentoso Karim Ainouz (que também assina "Abril despedaçado", "Madame Satã", "Praia do futuro" e o mais recente "A vida invisível"), vislumbramos em tela um grande road movie nacional, que são filmes cujo enredo perpassa por uma viagem ou jornada marcante, capaz de transformar os protagonistas.



Outros grandes exemplos de road movies no cinema são: "Comer, rezar e amar" (Com a Julia Roberts), ou "Thelma & Louise!" (do diretor Ridley Scott), ou mesmo "Central do Brasil". Ok, já deu pra perceber o que é um road movie.


Conta a história do estrangeiro Johann (Peter Ketnath) e de Ranulpho (João Miguel), companheiro que aparece ao longo do percurso, no início do filme. Fugindo da segunda guerra mundial, Johann, um alemão, encontra no Brasil um alívio escapista ao conflito de dimensões castróficas.

Bem irônico perceber que o alemão está melhor no sofrido agreste nordestino do que na Europa, não é? E sem apelar para melodramas, mesmo na dificuldade, ficamos com a sensação de que sim, o agreste brasileiro é um lugar que precisa ser mais bem explorado, cheio de pessoas simples, mas interessantes, cheio de humanidade.

Claro que a trama poderia ser melhor desenvolvida, mas o que vale aqui mais do que subterfúgios mirabolantes, é a simbiose com o lugar, que inclusive está além da amizade de ambos os protagonistas.

O título do filme deve-se ao fato de Johann ganhar a vida a vender aspirinas, e o faz projetando filmes ao longo das cidades que visita, como  publicidade ao seu produto. Mesmo porque, em 1942 as pessoas realmente poderiam ficar encantadas com o que vêem a partir do velho projetor de Johann.

Escrevo essa crítica num ano em que muito se fala de "Bacurau" e sua linguagem que põe em evidência o confronto. Ambos se passam no Nordeste.

Sem desmerecer o trabalho de Kleber Mendonça Filho, mas o fato é que "Cinema, aspirinas e urubus" mais congrega do que separa. A busca pela felicidade genuína une tanto o alemão perdido no Brasil quanto a sertaneja que ele encontra ao acaso pela cidade, em um comentário que ela própria faz no filme. E talvez estejamos precisando de mais aproximação nesses tempos.



1 de março de 2020

POR LUGARES INCRÍVEIS

7/10

GATILHO? Não. DEPENDÊNCIA EMOCIONAL? Sim.


Não sou um grande entusiasta dos filmes e das séries adolescentes da Netflix. A começar que são, no geral, demasiadamente estridentes, irritantes, pouco inovadores e apelativos de um jeito bobo. Não é uma linguagem coloquial ou o fato de falar de sexo e de diversidade (necessário) que vai dar qualidade à determinada obra. Deste modo, fui conferir "Por lugares incríveis" sem grandes expectativas, ainda mais já tendo lido o livro, e, diga-se, não é uma literatura grandiosa, apesar de ser um best-seller.

Para minha surpresa, a obra cinematográfica de Brett Haley é sim bem digna. A começar pela trilha e ambientação. Esqueça aquelas piadas fáceis de um "American Pie" ou de qualquer outra comédia norte-americana. O filme se agarra a um cinema de gênero, com alta carga emocional e dramática, muitas vez silencioso e arrastado. Puro sentimento.

Inclusive, às vezes poderia ser mais ágil, como por exemplo a ótima montagem de "Meninas malvadas", mas isso não tira o mérito da obra, realmente tocante, embora possa ter comprometido um pouco o desenvolvimento dos personagens.

O roteiro contou também com a contribuição de Jennifer Niven, a escritora do romance original. Conta a história de Violet Markey (Elle Fanning) e Theodore Finch (Justice Smith), ambos jovens secundaristas com claros problemas psicológicos. Ela, por ter perdido a irmã num acidente de carro. Ele, pelo comportamento instável e agressivo, cuja origem remonta à sua infância conturbada devido às agressões do pai.

É de se estranhar que algumas passagens difiram do livro, e embora eu tenha gostado de quase todas as adaptações, a construção de Finch ficou meio prejudicada. No livro, por exemplo, é retratada bem mais a relação dele com o pai, e isso é essencial para compreendê-lo a fundo. Aliás o estranhamento ocorreu já nas cenas iniciais, em que Violet tenta se matar e Finch a salva: no filme é um momento particular dos dois, mas no livro é uma cena em que toda a escola vê e acaba achando que Violet salva Finch. Pode parecer um mero detalhe, mas essa diferença pública do comportamento dos jovens é essencial para entender o tipo de desenvolvimento e característica que marca cada um, da garota popular ao garoto "aberração", mas no filme este contraste acaba sendo muito mais diluído.

No entanto, é sobre a personalidade de ambos que o filme se constrói e acerta no alvo. Finch, por exemplo, gosta de correr, é extrovertido muitas vezes, não passa despercebido na escola, ainda que o chamem de "aberração", dado um episódio de violência que protagonizara com outro jovem na escola (aliás, o filme poderia ter reproduzido em flashback a cena, mas se limita a apenas citar). Violet também vai a festas, inclusive é mais sociável que ele, ainda que esteja em estado depressivo, sofrendo pela falta da irmã. Em suas redes sociais, ela continua a sorrir.

Isso serve para estarmos em alerta com as pessoas em volta. Sorrisos nas fotos, estar em festas, ter amigos, muita coisa pode mascarar nosso verdadeiro estado interior. Ter alguém que nos enxergue para além da superfície, é muito raro hoje em dia, e é por isso que a química do casal funciona perfeitamente bem: enxergam a alma um do outro. Violet em nenhum momento deixa de tentar compreender Finch por dentro, inclusive há uma cena em que implora para o garoto se abrir mais. Finch então, além de enxergar a humanidade de Violet, passa a primeira metade do filme tentando animá-la, conseguindo com êxito tal proeza. Ambos se aproximam mais devido um trabalho da escola em que devem visitar lugares turísticos da cidade (Indiana), daí o título da história, "Por lugares incríveis".

Detalhe aqui que o roteiro é bem sutil ao sugerir que Finch sabe muito bem o que está fazendo perante Violet, insistindo para que formem a dupla para realizar as visitas, forçando a amizade e tentando a todo instante reacender a luz na vida da garota, afinal, ele próprio também precisa de ajuda. Embora ele muitas vezes suba o tom e se mostre inclusive abusivo (como na cena em que a force a entrar no carro), não se pode simplesmente julgar o ato com um certo "machismo" da parte dele, ainda que, sim, ele tenha atitudes machistas. Deve-se no entanto, perceber que sua autoridade perante ela fora construída num momento de fragilidade de Violet e num momento em que o próprio Finch via a si mesmo nesta fragilidade. Seu tom a mais com ela, era também um reflexo a si próprio. Ambos eram frágeis emocionalmente, e isso não é nada bom, daí está a limitação do roteiro em reforçar isso, pois do jeito como ficou apresentado, parecia que inclusive tal dependência ganhava força romântica.

"Você foi, sob todos os aspectos, tudo o que alguém poderia ser. [...] Se existisse alguém capaz de me salvar, seria você" (Woolf, Virgínia).

Essa frase e outras de Virgínia Woolf são usados pelos protagonistas, na tentativa de deixar o filme mais cult. O bom é que não ficou tão forçado, mas a citação em especial revela a romantização da DEPENDÊNCIA EMOCIONAL, o que pode levar aos mais desavisados a olhar tudo de forma positiva, romantizada. 

Em determinado momento, Finch procura um grupo de apoio, mas é muito pouco para um filme que ao final mostra um alerta sobre saúde mental. Os pais de Violet, por exemplo, são tão passíveis diante do problema da garota, não há um profissional de saúde a acompanhando, e ainda mostra a complacência da postura da mãe ao simplesmente incentivar a jovem a sair, como se tal escapismo fosse o suficiente.

No entanto, este defeito do filme é mais proveniente da escrita de Jennifer Niven mesmo. Não há como revolucionar a partir de um material já meio frágil. Por isso destaco aqui a competência de Elle Fanning, que consegue entender a mensagem da obra e com um simples olhar, por exemplo, mostrar a força da personagem, por si. 

O final, ainda que arranque lágrimas, trás uma importante mensagem de esperança, do seguir em frente, de passar por cima das dificuldades e traumas, e seguir o seu caminho, ainda que cheio de dificuldades. Os "lugares incríveis", se não são tão incríveis assim, é até, em parte, um acerto, já que torna mais poderosa a ideia de que lugares banais podem tornar-se realmente incríveis se envoltos de esperança. Os protagonistas visitaram os lugares para uma pesquisa da escola, e assim o filme se encerra, com a leitura arrebatadora do relatório produzido da experiência em visitar tais lugares. Uma cena extremamente boa, com uma trilha feita puramente para emocionar.

Não achei que o filme incentiva um gatilho ao suicídio. Até porque, uma mente frágil pode se servir de qualquer pretexto, afinal. Embora entenda as críticas sobre o gatilho, e de certa forma concorde que faça sentido sob certo ponto de vista. Afinal, DEPENDÊNCIA EMOCIONAL pode ser visto sim como um gatilho, e isso infelizmente mostra um desiquilíbrio do material. Faz sentido, quando vemos que o filme poderia explorar melhor, de forma mais educativa, os sérios problemas dos jovens.

No entanto, a discussão está posta, e surpreendentemente o filme não apela ao humor bobo para mostrar a construção da relação da dupla, muito menos a voltas mirabolantes, e nem em cenas apelativas com as vistas em "13 reasons why". É um drama que se sustenta nas imagens, na trilha (acertadamente silenciosa no início) e na interpretação dos jovens, e isso, para uma produção da Netflix, já é um grande passo a frente.














27 de setembro de 2019

ANSIEDADE: A saga de um concurseiro.


Estou de volta. Não inteiramente de volta, por hora, mas após 4 anos sem escrever aqui, estou tentando retomar o "meu eu". Falarei aqui como estou tentando retornar à normalidade tendo que conviver com um quadro de ANSIEDADE bem profundo, que envolve também surtos depressivos.

Em 2015 (ano da última vez em que escrevi aqui) estava no auge do meu relacionamento mais marcante. Para o bem e para o mal. Época de muita entrega e de muita humilhação. No ano seguinte, em 2016, como parte da superação deste relacionamento, comecei a intensificar os estudos pra concurso, ainda que já seja concursado (sou Analista Administrativo num órgão federal).

Meus problemas psicológicos não iniciaram aí, já desde 2009 ou 2010 faço regularmente sessões de terapias, com idas e vindas, é verdade. Mas sinto que desde 2016, intensificou-se a ansiedade, a falta de autoestima, a cobrança. E foi o ano em que pela primeira vez tive pensamentos suicidas.

Antes de entrar em detalhes, preciso apenas saltar rapidamente para o tempo presente. Somente em 2019 consegui me formar em economia, sendo que já era sociólogo. Também passei pelos cursos de Matemática, Relações Internacionais, Sistemas de Informação e mais recentemente Engenharia da Computação. Como percebem, tenho total falta de foco, atirando pra tudo quanto é lado, sem muita organização, embora eu sinta que estudei bastante esses anos todos. E é verdade, ninguém pode negar que eu não seja estudioso. Mas a primeira lição que devemos tirar é saber diferenciar quantidade e qualidade de informação. Passear por todas essas formações, mostra apenas que tenho total falta de foco.

Tentei vários concursos, e obviamente acumulei várias reprovações. Concursos na área econômica, judiciária, fiscal, justiça trabalhista. Fazendo tudo errado. Simplesmente porque não faço ideia do que quero na vida, mesmo com duas graduações e um mestrado em Ciências Políticas. O fato de ter me classificado (fora das vagas) na maioria deles, me dá uma certa esperança de que não estou tão longe, mas é preciso ajustes. Porém, eu não estou tão longe de quê exatamente? Não sei.

E pra completar, professores de cursinhos não ajudam muito. Eles partem do ponto que você já tem um FOCO ou já está muito motivado. E aliás, eles estão certos, eles não podem e não devem escolher uma área por você. Esta é a segunda lição, definir sua área é essencial, pra sua saúde física, mental, e até mesmo financeira, e essa é uma atitude que você deverá realizar sozinho.

DA ANSIEDADE À DEPRESSÃO


Feita esta pequena introdução, é chocante constatar como cheguei ao fundo do poço. Lembro em 2016, fim de relacionamento, após ter assistido "13 reasons why", os pensamentos suicidas me dominando, e eu sem forças para sequer levantar da cama. Morar sozinho tem suas vantagens, mas nessas horas, é muito foda. É você com você mesmo. Ainda bem que sou fraco.

Era uma época de chuva de concursos de TRT. Em todos aprovei entre os 100, mas não conseguia ficar entre os 15. Sentia que precisava provar pra mim mesmo que conseguiria estudar, cumprir as metas e tudo o mais como manda o figurino, e sempre fazia meu planejamento, e sempre o refazia também. 

Minha vida era baseada no edital que saísse.

Conheci a "Turma de elite" no ano seguinte, na preparação de auditor SEFAZ-MA. O lema "estude, não pense" talvez tenha feito uma cicatriz muito maior na minha pele (e no meu cérebro).

Mas a questão é: eu nem sabia, e até hoje não sei, o porquê eu quero passar num concurso melhor. Desde quando classifiquei no BACEN em 2013, nutro esse desejo, e sempre costumo dizer que "BACEN é meu objetivo", mas eu sei muito bem que não consigo controlar a ansiedade e focar nele, estou a toda hora me empurrando a testes, e tentativas desesperadas de me encontrar em alguma área de formação (hoje faço Análise e Desenvolvimento de Sistemas, e ainda não sei o que quero na vida).

Em 2018 mudei de cidade no meio da preparação à prova da ABIN, prova esta que nem me classifiquei e sobrou vagas, na área da economia. Senti também o peso dos "30 anos", e uma sensação de que, embora tenha um bom emprego, essa busca por um futuro melhor me consome. E como a Sandy, as costas doem. Tento me dedicar mais à academia e atividades físicas, mas logo vem o sentimento de culpa por não estar aproveitando bem o meu tempo, afinal, sou um fracasso em termos de organização, estudo há tanto tempo pra concursos e ainda não passei para um confortável (eu acho).

Falta-me disciplina, sobra muitos tiros avulsos. Foco é algo muito sério, daí me pego lendo livros de auto ajuda, "A única coisa". E em seguida, flerto com a área de TI que é onde estou atualmente, na mesma velocidade em que me inscrevo para um concurso na área de economia para auditor, e me saio até bem (4º lugar nas cotas), mas a peso de muita desordem e confusão mental.

Minha mente não sabe pra onde atirar, me sinto a toda hora aturdido, sem saber qual rumo seguir. Diagnosticado com ansiedade desde sempre, não demora muito vem surtos depressivos como os que senti à época da minha separação. Não me sinto um fracassado, pois estranhamente até consigo reconhecer o que já conquistei, mas sinto que estou muito próximo ao fim da linha. Constantemente meu inconsciente me compara a um robô. 

E chegamos em 2019, tenho falado pra mim mesmo que me encontrei na área de TI e que agora terei condições de pôr a minha vida no eixo. Mas no fundo eu sei que não tenho paixão alguma. O foco vem com uma certa dose de paixão, mas esse mundo está tão tóxico, do nosso cenário político (a escassez de concursos aqui acaba sendo o de menos) ao fato de que, internamente, me sinto como um viajante sem rumo. Falta tesão.

Com as redes sociais, somos bombardeados de notificações de aulas, de editais iminentes, de dicas, lives etc. Se um concurseiro não souber gerenciar isso, ele enlouquece. É muita informação atrelada a sonhos e desejos que mal sabemos ou definimos, e quando encontra uma mente inquieta como a minha, isso se transforma numa bola de neve. Sinto que estou rolando ladeira a baixo, numa metáfora que dá conta deste eterno movimento, cada edital meu coração pula, "será que faço ou não faço", mas afinal não respondi a pergunta mais fundamental: o que eu quero da vida?

Pra mim, a vida não tem sentido algum. E voltam os surtos depressivos, em 2019 já são 3 momentos em que ficava imobilizado na cama, absorvido pelos stories das pessoas, mais de 24h sem comer. Iniciei um namoro que pelo menos não me deixa ficar sozinho, e no último surto foi em casa e me levou arrastado para comer.

Sigo sem saber para onde ir. Sigo achando que meu namorado está perdendo tempo comigo. Sigo longe da família e amigos, desativei o Facebook, e não sei pra onde vou. Sigo atento às diversas oportunidades de editais, e nem sei direito se quero ou não fazer, mas acompanharei os cursinhos e suas frases motivacionais. Sigo com planejamentos feitos e não cumpridos.

Às vezes penso que seria muita sorte se uma bala perdida me atingisse. Poderia virar mártir e acabar com meu sofrimento em vida. Seria muito mais útil.

Pleasure: o hedonismo e o estoicismo degladiando-se

Dirigido por uma diretora feminista, a sueca Ninja Thyberg, podemos afirmar que "Plesure" fica no limiar entre o filme denúncia e ...