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7 de dezembro de 2020

ERA UMA VEZ UM SONHO: o típico indivíduo do Americam Way of life

 O novo filme de Ron Howard ficou disponível em novembro de 2020 na Netflix, e conta a história de um rapaz do interior, estudante de direito, que tenta "vencer na vida" mesmo vindo de uma família completamente disfuncional. História baseada em fatos reais.


Fazendo uso até que eficiente de uma série de flashbacks (que em nenhum momento tornaram o filme confuso), a grande verdade é que provavelmente você já viu essa história antes. O rapaz quase se "perde na vida", dada a relação problemática com a mãe (uma viciada em heroína). Para completar, o rapaz é forçado a ir morar com a avó, tendo apresentado rendimento escolar medíocre e amizades que quase o levam para o buraco. Mas é quase. No fundo, o filme defende uma espécie de meritocracia e exalta o American way of life, reforçando o fato de que escolhas individuais, mesmo considerando as influências de grupos primários (escola e família), são os que dão peso a uma vida de sucesso.

Importante destacar aqui que, mesmo contando com Amy Adams e Glenn Close, em atuações excepcionais, o filme é mesmo de J. D (Gabriel Basso), não pela atuação, mas pelo tema central mesmo, e ainda considerando que é baseado na sua autobriografia. As mulheres são apenas invólucros para a camada central, que reside em acompanhar como J. D conseguiu superar traumas e o quanto sua vida adulta carrega este legado. Aliás, destaque para o ator mirim de J. D, excelente. 

Eu costumava ser crítico demais a esse tipo de enredo. Lembro de ter detestado o cultuado "À procura da felicidade", de Will Smith, um filme que é bem mais trabalhada a humanização dos personagens e sua caracterização e motivação de vida, porém, em essência, não foge ao visto em "Era uma vez um sonho": o despertar do indivíduo em frente ao caos. Filmes como esses podem enterrar um apuro sociológico e enaltecer uma falsa meritocracia.

Contudo, o ano é 2020. As dificuldades foram postas a todos, ainda que, obviamente, o peso das desigualdades torne tudo mais desequilibrado do que se supõe. E talvez porque eu tenha saído de casa cedo e ido morar em outro estado, ou seja, ter me identificado com o protagonista, que ter visto o rapaz se balançando entre seu dever profissional e a família descompensada, tornou-se pra mim uma marca muito pessoal para simplesmente deixar de lado. Além disso, essa escolha entre um lado e outro se revela uma falsa dicotomia, afinal, como o próprio filme menciona em certa ocasião, nossa identidade é um amontoado de influências compartilhadas.

Deste modo, por mais que o American Way of Life esteja lá berrando, de forma não discreta, é inegável o poder que o filme pode proporcionar por quem se deixar levar por acompanhar os percalços daquela família e ver como tudo estava indo por água abaixo, mas foi salvo. 

Repito: há histórias de superação muito melhores, muito mais emocionantes, muito mais relevantes. Mas num ano carente por esperança, achei bem vinda a mensagem da projeção, ressaltando o quanto é importante valorizarmos nossos entes queridos, mesmo passando por uma série de sofrimentos e percalços, compreendendo que eles fazem parte da nossa história.




6 de dezembro de 2020

ESTOU PENSANDO EM ACABAR COM TUDO: digressão acima da média da Netflix

"Estou pensando em acabar com tudo", filme lançado em 2020 na plataforma Netflix, traz novamente a mente engenhosa de Charlie Kaufman (roteirista de "Brilho eterno de uma mente sem lembranças") às telas, baseado no livro escrito por Iain Reid. E diga-se: o filme é melhor.


Não é um filme fácil. O trailer entrega praticamente uma história soft, que brinca com o duplo sentido do titulo: acabar com o relacionamento ou com a vida? 

Inicialmente, vemos o casal principal em uma espécie de road movie, e embora sejam recém-namorados, já é possível sinalizar o início de uma "crise" entre eles. E de fato, quando o casal protagonista está no carro do rapaz, em sua primeira viagem para conhecer os pais dele, tudo parece se tratar de um filme cujo mote será o deslocamento e pessimismo da jovem em relação ao namoro, questionando sua identidade e sua potencialidade em estabelecer afetos, no entanto, o filme é muito mais do que isso.

ATENÇÃO PARA SPOILERS!!

Nas casas dos pais dele, não demora muito a começar a jorrar em tela os primeiros sopros surrealistas: os pais mudam de aparência de uma cena a outra. Antes disso, alguns frames rápidos de um zelador aparecem repentinamente (o zelador retornará nas cenas finais). Durante o jantar, à medida que vamos conhecendo Jake e sua namorada (detalhe, ela não tem um nome certo, é chamada de muitos nomes durante a projeção), percebemos, ao mesmo tempo, uma simbiose e um estranhamento dela com Jake, cena mais evidente quando ela entra no quarto dele ou no porão. Há algo muito estranho ali: fotos, poesias, quadros, que misturam um e outro personagem. O que eles são e fazem vão, progressivamente, se imiscuindo.

A tensão é construída milimetricamente, tornando o filme às vezes arrastado, mas quase tudo é absolutamente necessário. Avançando nas cenas, lembranças de um celeiro na infância, um mal estar com os pais, a volta para casa, a parada numa sorveteria mesmo durante a nevasca, cujas garçonetes chegam a dar avisos macabros, tudo isso vai sendo construído com um clima de suspense. Seria o sinal de que algo muito pior ou muito sinistro estará prestes a acontecer? Na estrada, o casal para o carro com o objetivo de jogar fora os copos do sorvete não tomados, iniciando um terror claustrofóbico muito bem arquitetado.

Muito mais horripilante do que se o filme descambasse para um feminicídio, já que o roteiro entrega todos os indícios, com um protagonista perturbado, uma conversa de estupro, uma parada numa escola que parece estar abandonada (lembram do zelador?), a imagem da cesta de lixo, cheia de inúmeros copos de sorvete... Mas na verdade, o longa é muito mais horripilante do que isso. 

Em determinada passagem do filme, a jovem afirma que o pensamento é mais real que a ação. Diversas cenas desconexas mas que entregam uma experiências sensorial, e que parecem arraigadas a fortes memórias, criam um tipo de horror baseado nas lembranças da vida e daquilo que foi ou que poderia ter sido. A "não-vida" pode tornar-se um pensamento poderoso, muito mais do que a ação vivida. Em síntese, o filme é sobre relacionamentos vividos ou não vividos, em especial os platônicos, sobre nossas frustações, sobre o peso de envelhecer, sobre lembranças, sobre a relação com namoradas ou com a família, e abre espaço até mesmo para sugerir relacionamentos abusivos, mostrando as marcas que ficam não apenas nas vítimas, pois tudo isso é na mente de Jake, não da garota.

Portanto, o filme dialoga com a masculinidade do homem moderno: mesmo Jake tendo o potencial de ser um homem de sucesso, com uma infância marcada por pequenos prêmios (que não indicam absolutamente nada à vida adulta), teria ele virado um zelador apático? Teria ele vivido relacionamentos infrutíferos e se decepcionado com várias namoradas? Aliás, ele teve relacionamentos? Ou pior, ele chegou a ser um homem abusador? e sua relação com os pais?

Note que é um filme que trabalha com simbolismos, portanto, não há respostas. Inclusive, está aberto a inúmeras interpretações. Mas é muito mais assustador do que simplesmente descambar para, por exemplo, ser um filme de serial killer. Ele subverte nossas expectativas para falar sobre a vida e seus rumos incertos, sobre o navegar pelas desilusões ou pequenos prazeres, como a poesia ou a pintura, ou tomar um sorvete, e ainda assim não sentir-se pleno. É um filme sobre incerteza. A única certeza mesmo, é que estamos diante de mais um filmaço de Kaufman.


4 de dezembro de 2020

MANK: o outsider dentro da engrenagem de Hollywood

 


9/10

David Fincher tem uma ótima mão para biografias, e assim como fez em "A rede social", em que estava mais interessado nos bastidores da história sobre o criador do Facebook, em "Mank" o diretor também conta o que há por trás do responsável por um dos maiores filmes já realizados no cinema: retrata a história do roteirista que escreveu o clássico filme "Cidadão Kane", Herman Mankiewicz.

Você não precisa ter visto o filme de 1941 para compreender esta obra de Fincher, no entanto, ter assistido ao clássico vai lhe render uma experiência mais agradável, especialmente porque grande parte da trama gira em torno das "coincidências" que supostamente o roteiro tinha com personagens reais retratados em "Mank", além de que Fincher resgata uma discussão política no filme que é muito bem vinda no clima polarizado de 2020.

O filme, rodado em preto e branco, demora a engrenar, e isso em parte é positivo, mostrando uma excelente construção de personagem. Embalado por uma trilha pulsante, que consegue segurar a tensão e a sensação de que algo importante sempre vai acontecer, é bem verdade que pode ser enfadonho para alguns, em especial quando há uma explosão de nomes e pessoas. Fincher, no entanto, vai centralizando sua história na relação que  o personagem principal tem com o casal Marion Davies (que seria uma espécie de subatriz) e William Randolph Hearst (chamado muitas vezes de Willie), um empresário e jornalista, que teria se aventurado na política pelo partido democrata, anos antes, mesmo sendo conservador. É desses personagens que se supõe que houve a influência para escrever "Cidadão Kane".

"Cidadão Kane" foi indicado a 9 Oscars, mas acabou ganhando apenas 1: roteiro original. Portanto, méritos a Herman Mankiewicz. Mas qual o interesse de contar essa história em 2020? Simples: a tese defendida por Fincher é de que Willie se rendeu ao conservadorismo como meio de sobrevivência, expondo-o por intermédio do "Cidadão Kane" (portanto, uma ficção hollywoodiana de grande alcance), em que supostamente Willie, na verdade, tinha ideais democratas e mais liberais. O filme obviamente parte de uma ideia projetada e subjetiva que Herman Mankiewicz faz de Willie, construindo-o como um personagem que tenta sobreviver ao mundo burguês. Quase como uma espécie de "Gatsby", mas com mais pólvora no canhão, por comportar ideais de esquerda em uma sociedade que vivia o começo da segunda guerra, e começava a viver a Era de Ouro do cinema. 

É essa ambiguidade de Willie que não apenas vai ser decisiva em "Cidadão kane", mas também é ela que vai jogar os podres e a hipocrisia na cara da sociedade norte-americana pós crise de 1929, abalada pelo nascimento do Nazismo e com horror à alavancada progressista. Aliás, esse clima de austeridade política é muito bem perceptível nas falas dos coadjuvantes, citando Hitler, Mussolini, o medo aos comunistas. Há espaço até para celebridades irem às rádios defender ideias conservadoras baseadas em fake news. É importante essa revisita, pois temos a impressão que o clima polarizado e hostil nasceu no século XXI, quando já estava entranhado desde, pelo menos, a guerra civil americana, sendo a Era de Ouro apenas uma parte dessa faceta que põe lado a lado republicanos e democratas. Nota-se que as falas são sutis, evocando a propriedade privada e a família, nada muito diferente do que vemos hoje em dia pela direita dita "liberal".

Deste modo, Mankiewicz, mesmo sem levantar bandeira, claramente se afeiçoa à ala democrata e progressista, e o filme deixa isso clara quando os próprios personagens vivem um momento de discussões trabalhistas, de cortes salariais, de eleições, de mudanças estruturais dos estúdios. Esse cenário todo é útil para situar Mankiewicz em um lado do espectro político, mas aqui não há proselitismo, nem palanque. De fato, Mankiewicz navega entre ser um outsider ou ser uma peça da engrenagem hollywoodiana, pois ainda que conviva com seus vícios alcoólicos e tenha uma séria de falas irônicas à alta sociedade, afeiçoando-se às classes operárias (em contraste com a elite representada pelos donos das produtoras), ele não deixa de ser um roteirista de renome, ao qual Orson Welles (diretor de Cidadão Kane) contava para escrever seu novo filme, bem como não deixa de tramitar por esses espaços da alta sociedade da indústria cinematográfica.

Aliás, a relação tensa com Welles é um tanto maniqueísta, mas ainda assim poderosa quando explode na tela. Cobrando o devido crédito por "Cidadão Kane", já que Orson queria para si as glórias da história, é como se o personagem se livrasse da mesquinhez do dinheiro e se apegasse a uma virtude maior, mais sublime, devido o valor artístico que há por ser o criador de uma obra genial, vencedora do Oscar justamente pelo roteiro original.

Citando Willie como um Quixote prestes a dar o bote com seus ideais democratas, ficamos mesmo com a sensação que é Mankiewicz o personagem quixotesco do filme, lutando contra os barões do cinema, sobrevivendo contra Orson Welles e os produtores, sendo que sua gana por ser reconhecido como autor de uma obra-prima o eleva ao Olimpo, mostra um ar heroico de quem luta contra os "moinhos de vento da indústria cinematográfica". E ainda de quebra, expõe a hipocrisia da sociedade burguesa nessa nova indústria, quando começava o filme falado e que, cada vez mais, tornava-se técnica, expondo toda a contradição de sua "linha de montagem": na ponta, trabalhadores que faziam a arte acontecer, e é sobre eles que Mankiewicz se constrói.

Não é um filme fácil, e é mais falado do que a média. Com uma atuação na medida certa de Gary Oldman, temos aqui uma brilhante construção de época com muito caldo para pensar o presente. Um ótimo candidato ao Oscar.

OBS: o roteiro do filme foi escrito pelo pai de Fincher, já falecido. Será que teremos mais um Oscar de roteiro vindo aí?

7 de maio de 2020

"O poço" x "Expresso do Amanhã": um acerto distópico disponível na Netflix

Passado alguns dias de ter assistido ao filme "O poço", sucesso na plataforma da Netflix (embora não seja uma produção original da empresa), a única certeza que tenho é que é sim um grande filme. Há alguns problemas na narrativa, mas com certeza nada que atrapalhe a experiência, que me lembrou outras tantas histórias, especialmente a sul-coreana "Expresso do amanhã". Neste texto, farei uma comparação entre ambos os filmes.


Primeiramente, é preciso falar de um conceito muito importante: distopia. Esta pequena palavra, segundo o dicionário, "é o lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero, privação". Não é algo novo. Na literatura, por exemplo, temos o "1984" de George Orwell, ou "Admirável Nundo Novo" de Aldous Huxley, isso para citar os mais famosos.

No cinema, também é muito comum retratar ambientes distópicos, poderíamos citar aí "Laranja mecânica" (que também é baseado em livro) como o meu favorito, mas gostaria de falar dos mais recentes, tipo "Jogos vorazes" ou "Maze Runner", que são produções voltadas ao público mais jovem, mas que trabalham muito bem esse conceito. Todos partem de algo em comum: apresentam personagens cujos desafios ligam-se a um sistema opressor, um tanto quanto fascistas e autoritários. 

Só assim é possível compreender esta produção espanhola que vem acumulando muitos acessos na Netflix. "O poço" conta a história de um homem que é preso num poço, que mais parece uma torre: o poço possui vários andares, e faz parte de uma experiência com humanos, experiência esta que é ligada à estratégia de sobrevivência com a alimentação restrita dada aos presos, pois a comida é posta no centro do poço, e vai descendo progressivamente, sendo que, obviamento, os presos do primeiro andar tem a vantagem de ter a mesa intacta, ao passo que à medida que a mesa vai descendo, cada vez menos comida sobra aos demais.

O primeiro grande questionamento que fazemos, além de nos perguntarmos do porquê existir uma prisão tão macabra e de como o protagonista fora parar lá, é se é possível racionalizar a comida para todos os humanos do poço. Esta é uma pergunta crucial, bem como o modo de fazê-lo. Mas antes de aprofundarmos, gostaria de falar sobre o outro filme, "O expresso do amanhã", do cultuado diretor Jong Bong-Hoo (que levou Oscar pelo trabalho de "Parasita").

Tal qual no filme "O poço", em "O expresso do amanhã" os personagens também são encarcerados, mas em um trem. Os últimos vagões cabem ao povo das classes inferiores, trabalhadores, muitos dos quais sustentam a engrenagem da locomotiva, e à medida que se avança nos vagões, vê-se uma população mais abastada, uns até vivem de luxo (sustentados, claro, pelos outros humanos dos vagões "inferiores"). É como fosse a estratificação da sociedade fosse de forma horizontal, ao passo que "O poço" é uma estratificação mais "vertical".


Ambos tem uma fotografia escurecida para retratar esse submundo, ainda que, em "o expresso", a fotografia vá ficando cada vez mais clara à medida que se progrida nos vagões (sendo que é particularmente feia no início, fato que compromete até a visualização na tela). Mas a grande questão aqui é perceber essa diferença sutil das produções: enquanto que em "o poço" os personagens são parte de um experimento, sendo controlados por quem os fez prisioneiros, ou seja, o sistema que os manipula está EXTERNO àquele ambiente, em "O expresso" o sistema está INTERNO ao contexto, isto é, todos estão no MESMO trem, com a diferença que a classe controladora ocupa os vagões mais à frente.

Esta é uma diferença importante, pois acredito que, socialmente falando, a representação em "O expresso" faz mais sentido. Não tem como isolar sistematicamente, oprimidos e opressores. Embora possamos falar de claros papéis sociais (numa leitura marxista, por exemplo, uns teriam e outros não os meios de produção), é impossível um viver sem o outro, ou apartado do outro. Neste sentido, o filme do Bong faz mais sentido, pois apresenta as classes convivendo em uma mesma estrutura (o trem), sendo que uns exploram o outro para continuar movimentando a engrenagem (o trem não pode parar, pois lá fora o ambiente está congelante, dado o resfriamento da terra). 

Esmiuçando, cabe perguntar: como o trem consegue suprir sua energia material para mantê-lo em movimento? Sim, porque não apenas de trabalho é movida essa estrutura, é necessário energia solar, ou mineral, enfim, o filme, tenta explicar isso, embora de maneira bem superficial. 

Já em "O poço", o enredo se preocupa mais com a distribuição da comida. A questão da sua PRODUÇÃO na verdade nem é uma questão (ou estariam aquelas pessoas sendo testadas para um futuro de escassez?). O fato é que o filme quer passar a sensação de que é possível discutir estrutura social baseando-se na distribuição tão somente, ou seja, refletindo sobre o posicionamento dos homens, que eles sejam mais responsáveis, altruístas, benevolentes com seus irmãos, que consigam repartir melhor. Ok, isso é muito importante, mas como falei, é limitado, pois não leva em conta a produção, e como eu tenho um pé na economia, fica mais fácil perceber esse deslize.

Mas o filme não é sobre economia propriamente, e ainda que seja um ponto de vista limitado, é super válido também! De fato, melhoraríamos muito como sociedade se soubéssemos dividir melhor. Por isso o filme é tao bom. Abre espaço também para questões morais e até religiosas: se os recursos distribuídos são escassos, o que fazer? Canibalismo é uma opção? Daí a trama segue para tentar de alguma forma acabar com aquilo, ainda que seja meio incômodo, pois o personagem principal se pôs voluntariamente em tal situação. Também há várias camadas que nos fazem pensar sobre essa situação, como o fato de que todas as pessoas do poço responderam, antes de entrar lá, qual era sua comida favorita, sendo que de fato, inicialmente na mesa, essa comida era posta. Então como é possível não sobrar comida para todos? Tudo bem que ninguém sobreviveria dia após dia comendo um único tipo de prato, mas será mesmo que não é possível racionalizar? Aliás, vendo o nosso mundo real, será mesmo que somos racionais nessa distribuição?

Eu particularmente adorei as metáforas enigmáticas do filme "O poço", a criança ao final revelaria uma certa esperança? Até que ponto essa mensagem dialoga com o Evangelho? Em paralelo, no filme "O expresso do amanhã" eles conseguem pular do trem para tentar viver fora. Poderiam conseguir? O urso polar que aparece no filme de Jong, seria um sinal de esperança ou de um fim trágico?

A natureza é muito importante para a nossa sobrevivência, e se pensarmos que o conceito de natureza também engloba a própria natureza humana, faz sentido as reflexões de ambos os filmes. A natureza contém perigo sim, claro, conceitos como desenvolvimento sustentável (mais explorado em "o expresso") só fazem sentido quando inserimos o homem na equação, e racionalizar nossa produção e nossa distribuição nos fará ter um sistema melhor, sem dúvidas, mas essa racionalização deve suprir nossas liberdade? Afinal, até aqui na nossa história, experiências de controle não deram muito certo (eu particularmente sou um crítico ao socialismo ditatorial), sendo inegável os avanços de uma sociedade livre e de mercado, no entanto, até que ponto essa liberdade não acaba por construir estruturas terríveis de desigualdade?

São duas grandes obras que apresentam cenários distópicos e reflexões sobre a estrutura social em que vivemos. Eu gostei muito de ambas. E você?







FILME "OS IRMÃOS WILLOUGHBYS" DA NETFLIX É VISUALMENTE RUIM, MESMO COM BOA MENSAGEM

3/10

Não creio que as animações, no geral, sejam apenas infantis. Ainda que seja possível ver que muitas animações se destinem a esse público como alvo, mesmo aquelas com abordagem lírica infantil conseguem sim agradar ao público de mais idade. Veja, por exemplo, animações como a série "Toy Story", ou japonesas como "A viagem de Chihiro", são filmes que agradam a todos.

Então essa minha crítica em nada tem a ver com a perspectiva geracional. Acontece que essa nova produção da Netflix tem muitos méritos, no entanto, tem muitos defeitos também (e gritantes!).


Conta a história da excêntrica família Willoughby, que inicia somente com o casal adulto, sendo que os filhos nascem logo no início do filme, apresentados em um casarão onde moram. Começa aí 2 problemas gritantes da obra. Primeiro, a coloração da casa, num tom avermelhado, me incomodou em muito. Até aí tudo bem, é questão de gosto. Agora a construção e apresentação apressada dos personagens é algo sim, que atrapalha demais o nosso envolvimento com eles, comprometendo o saldo da obra.

Será mesmo que precisamos de tanta correria assim? Seria esse um sinal da modernidade e estou sendo um velho chato desatualizado? Duvido muito. É preciso aqui separar ritmo de ambientação. O ritmo frenético e agitado é bem vindo, e este deve concorrer para que gostemos dos personagens, e não ao contrário. Em poucos minutos a trama já começa, um narrador (um gato de rua) deslocado que depois se insere à família vai nos contando a história, e uma série de reviravoltas e acontecimentos atropelados são apresentados, como se o roteiro despirocado tivesse muito pouco tempo pra tudo, personagens secundários vem e vão a uma velocidade que você se pergunta "o que diabos esse filme quer mostrar?". Uma ambientação que mais te afasta do que aproxima, e isso é um tiro no pé em um longa que aposta no sentimento ao seu final.

Vencida a primeira metade do longa, se ainda lhe restar interesse, as coisas enfim começam a melhorar, com destaque para a amizade dos irmãos. Como já falei, visualmente o filme é ruim, e esse aspecto fica mais evidenciado quando além da casa, são mostrados outros lugares. A indústria ao final do arco-íris, por exemplo, tem umas colorações berrantes bem feias, e o homem que cuida do lugar, um desenho... bem... estranho (no mínimo). Isso passa ao largo se ao menos os personagens fossem interessantes, mas como também já falei, uma enxurrada deles passa pelo filme, e ainda bem que os dois irmãos mais velhos são bem legais, uma pena que não diria o mesmo dos gêmeos mais novos, praticamente nulos.

Já para o final, é possível sentir a reviravolta que o filme terá, e isso não necessariamente é ruim, pois o filme desacelera mais e tenta captar o telespectador. Veja que para gerar este envolvimento, foi preciso conter a correria. Se o filme trabalhasse melhor esse aspecto emocional e a personalidade dos personagens no início, com certeza o resultado seria melhor. Parecia mais um episódio de desenho animado com personagens que já conhecíamos, e isso não pegou nada bem para obra. Uma pena, pois os minutos finais trazem uma mensagem poderosa sobre o poder da família (não necessariamente família de sangue).

Apressado e visualmente de mau gosto, mas com uma mensagem muito necessária. Você pode se emocionar no final, mas terá que aguentar uma montagem e um roteiro bem maçante até lá. Boa sorte! 








6 de maio de 2020

"RESGATE": AÇÃO DA NETFLIX DA MAIS ALTA QUALIDADE

8,5/10

É inegável o poder da Netflix em época de pandemia, capaz de manter nossa sede insaciável pelo consumo de séries e de filmes (este último em especial por conta do fechamento dos cinemas tradicionais), tornando-se, além de distribuidora de streaming, uma grande PRODUTORA de conteúdo.

Deste modo, a empresa acaba recebendo os holofotes das grandes estreias, o que pode potencializar o favorecimento da visão que temos de seus lançamentos, claro, mas também não dá pra negar a qualidade de alguns de seus materiais, ainda que a maioria seja de fato descartável. Mas em "Resgate", para nosso deleite, há sim uma boa história a ser vista (não exatamente a ser contada,já que o roteiro se apóia mais na movimentação no que nos diálogos).

Mas o fato inegável é que estamos diante de um ótimo produto, não exatamente pelo roteiro, mas principalmente pela construção de ótimas cenas do estreante em longas, Sam Hargrave.

Estrelado por Chris Hemsworth ( o queridíssimo "Thor"), o longa entrega o que promete: cenas de ação de tirar o fôlego, com grande destaque a um plano sequência de perseguição, filmado de forma magistral. O protagonista vive o papel de Tyler, um mercenário contratado para fazer o "resgate" do filho de um poderoso narcotraficante da Índia, que fora raptado por outro igualmente poderoso narcotraficante, de Bangladesh.



Certamente você já deve ter visto este roteiro em algum lugar, com um homem fodão dando conta de vários e vários caras. Sem partir para muita explicação, o filme o lança na ação, o que pode ser bom, mas também pode receber as críticas de quem espera uma história mais amarrada. No entanto, as cenas não deixam a desejar, e isso pra mim já vale a sessão, já que se trata de um filme de ação (!).

Mas tecnicamente, além do plano sequência, há diversas camadas sim, como a fotografia meio amarelada de Bangladesh, conferindo-lhe ar sórdido, ou a trilha que mantém a tensão, ou mesmo certo lirismo no personagem principal, que permanece misterioso e com cenas que reforçam a sua personalidade introspectiva.

Se você for atento, o final não é exatamente uma surpresa, podendo senti-lo a quilômetros, mas o fato é que a construção até ele é até mais interessante. As cenas nas ruas são magníficas, assim como a cena na ponte, enfim, quase tudo funciona nesse filme.

Decerto é meio chato você explorar clichês do gênero tendo como mocinho alguém com traços ocidentais bem acentuados, loiro, bonito, e os chefões serem, como sempre, os diferentes, malvadões. Mas a verdade é que nem há exatamente mocinhos, o próprio protagonista é um mercenário, e o destino dado ao personagem talvez corrobore a este aspecto. A esperança talvez resida nos jovens, e nem todos, pois o filme até mostra que alguns deles estão perdidos mesmo. Mas enfim, esse tipo de reflexão passa a largo. O que vale mesmo é o tiroteio. JOGUE-SE SEM MEDO!!

PS: JÁ FOI CONFIRMADO O 2 , POIS QUE VENHA ESSA CONTINUAÇÃO!!!






5 de maio de 2020

LIVRO: Crônicas de Nárnia - O sobrinho do mago

CONTO DE FADAS NÃO É SOMENTE PARA CRIANÇAS!

Clive Staples Lewis, mais conhecido como C. S. Lewis, foi um escritor britânico que escreveu os livros da coletânea "As crônicas de Nárnia" (são sete histórias sobre o mundo mágico de Nárnia).






Para começar, há 3 filmes que foram adaptados ("O leão, a feiticeira e o guarda-roupa", "a viagem do peregrino da alvorada", "o príncipe caspian"), sendo que um outro está em vias de lançar ("A cadeira de prata") , mas dessa vez me atinei a analisar os livros mesmo, e vou publicando aqui minha impressão à medida que vou lendo, na ordem do Livro cuja capa está acima, em volume único, que congrega as sete histórias em quase oitocentas páginas (portanto, as histórias não são assim tão longas). O primeiro da lista é este "O SOBRINHO DO MAGO".

Algumas pessoas me falavam que "As crônicas", ou melhor, que Lewis era demasiadamente cristão, permeando seu conto de aventura com uma série de referências bíblicas, quase o acusando de doutrinação. Outras pessoas falavam disso com tom de elogio, por valorizarem a visão cristã do mundo.

O fato é que este primeiro livro é muito bom, independentemente de suas referências. Conta a história de Digory e Polly, que acabam indo parar num reino misterioso que dá acesso, entre outros, a Nárnia. Eles acabam indo parar lá devido os encantamentos provocados pelo tio de Digory. É interessante notar que Nárnia é, portanto, apenas um dos vários mundos, claro que de longe o mais interessante, com animais falantes, poderosos, e um leão que esbanja superioridade e charme (seria o Leão a representação de Deus?).

Não sou tão afeto assim ao cristianismo, mas que bom seria se todos os  livros cristãos bebessem da Bíblia para apresentar aventuras como essas. Não sei se ao longo dos demais contos, de fato o tom doutrinário tome conta, porque até aqui, houve mais ação e aventura do que qualquer moralismo. Vamos ver...

Mas tem aqui várias alegorias bíblicas, como por exemplo a maçã, onde Digory quase é tentado pela feiticeira a provar do fruto que o Leão o proibiu de comer. Mas também tem por trás a busca pelos objetivos com foco, sem se deixar levar por um futuro incerto ou recompensas não altruístas. A tentação aparece nesse contexto de conflito do personagem consigo mesmo, fortalecendo sua missão heróica.

Neste sentido, o livro vale muito mais pela imaginação dos mundos e a forma de conduzir uma história relativamente simples e empolgante do que por qualquer acusação moral.

AHHHHH

Também espero esse ano ler o Tolkien (autor de "O Hobbit" e "O senhor dos anéis"), aliás, eles eram amigos. Eu declaradamente não gosto da saga do anel nos cinemas, mas quem sabe tenha uma outra opinião ao ler os livros.

Mas decidi começar pelas "Crônicas". Lewis também escreveu livros mais diretamente teológicos (ele era professor universitário em teologia), e talvez lá as mensagens cristãs sejam mais pesadas do que aqui, que é tão somente uma ótima aventura e inspiradora para muitas outras!!

OBS: a maçã que eu falei é plantada pelas crianças já no mundo real. Anos se passam e da madeira proveniente da macieira, se constrói um guarda-roupa, que será o portal utilizado para a próxima história, "O leão, a feiticeira e o guarda-roupa".

28 de março de 2020

FILME: A CASA

9/10

ENFIM, A ESPANHA 

Desde o sucesso da série "La casa de papel" e suas outras tantas e desnecessárias temporadas, uma enxurrada de produções espanholas de caráter duvidoso invadiu o streaming, em especial a Netflix. Temos aí exemplares como "Elite" e o mais recente "Toy boy", que contam com histórias cheias de reviravoltas "mirabolantes" e "engenhosas", exigindo muita concessão por parte do expectador, e claro, um elenco jovem, modelado, de rostos sempre plásticos e maquiados, com um ar ocidentalmente agradável para atingir um grande público.

No entanto, a Espanha, assim como outras países do mundo, não se representa apenas por enlatados. Sofrendo com um crescente desemprego e com um dos aluguéis mais caros da Europa (pode ser conferido na reportagem do "El país" aqui), particularmente a cidade de Barcelona guarda em si todas as contradições que um grande centro proporciona, com suas mazelas sociais e com a flexibilização das relações trabalhistas, temas estes que passam longe das produções citadas anteriormente, ainda que "La casa de papel" inicie uma discussão social, para logo dissipá-la na busca pela ação descerebrada.

É neste contexto que surge a importância de "A casa" (Hogar, 2020), dirigido e roteirizado pelos irmãos David e Alex Pastor. Centrando a história no publicitário desempregado Javier Muñoz (interpretado por Javier Gutiérrez), finalmente a Espanha das contradições dá as caras, em lentes extremamente competentes, especialmente em seu primeiro ato, construído com total sutileza.

O filme já inicia com "os comerciais de margarina", retratando o cotidiano de uma família idealizada pela classe média, peça publicitária que é objeto de trabalho do protagonista. Em seguida a essa projeção idealista, temos a vida real de Javier explodindo na tela, em sua busca por uma recolocação no mercado de trabalho e no declínio do padrão de vida de sua família.



Junto com a esposa e o filho de 14 anos, Javier é obrigado a deixar seu apartamento de luxo para morar em um lugar mais modesto, particularmente contrariado e abatido pela mudança brusca, evidenciado, por exemplo, nos closes sobre a pia da nova casa (muito mais inferior), ou em sua relutância em vender o carro. Tendo que despedir a empregada em uma cena sutilmente construída, Javier não aceita a nova posição da família, e passa a vigiar seu antigo apartamento de luxo até mesmo quando novos moradores já estão lá habitando.

A partir daí, o filme cresce na tensão, assentada no tema da inveja e na imprevisibilidade das ações do protagonista, tomado pelo sentimento de não aceitação de seu status, aproximando-se do seu antigo apartamento e dos atuais moradores, obcecadamente.

Vamos progressivamente acompanhando os passos de Javier, em sua sociopatia construída sem muita histeria, mas com um excelente jogo de câmera e de ambientação. Transforma-se num filme de suspense tendo a presença quase onipresente de um maníaco. 

É certo que alguns arcos poderiam ser melhor desenvolvidos, como o do jardineiro ou a relação de Javier com a família, mas isso não interfere no saldo final, quando assistimos as consequências das ações do vilão junto ao novo núcleo familiar. Há muitas passagens sutis que mostram a visão da produção em relação ao padrão de vida esboçado pelos novos moradores, representantes de uma genuína classe média que vive de aparência, desde a frágil relação conjugal, ou o fato de serem ricos devido ao paternalismo da família da esposa (o pai dela é o dono da empresa em que o marido trabalha), ou até mesmo ao tipo de esporte que a filha deles pratica, a ginástica rítmica.

Inevitavelmente, nossos estilos de vida, se não condicionados, são influenciados por padrões de consumo e de renda, assim como a meritocracia é a mais pura ilusão de nossa posição social facilitada. Javier não é apenas o antagonista imediato, mas também a válvula pela qual enxergamos as hipocrisias e idiossincrasias da sociedade baseada em imagens.

Entregando um final um tanto quanto corajoso, por não ser politicamente correto, o close na torneira de luxo reforça o contraste, o apego material, a animosidade de nossas ações perante a busca por uma vida facilitada. Destaque também para cena em que Javier "compra" o silêncio da antiga esposa, mostrando que o apego aos bens e a uma vida confortável nos conduz a ações e "não ações" sempre devidamente questionáveis ou situadas num contexto que reforça nossa sobrevivência ostensiva.

Se toda essa reflexão não agradar ou não for uma boa premissa para curtir um filme, é possível divertir-se unicamente pelo suspense e pela trama desenvolvida, que pode até exigir certa concessão aqui ou ali, sem deixar de agradar positivamente ao final. Aí sim temos um retrato muito bem vindo da Espanha, com uma casa que, desta vez, não é de papel.







24 de março de 2020

Cinemas, aspirinas e urubus

O ROAD MOVIE NORDESTINO

Com a direção de Marcelo Gomes (que também assina filmes como "Viajo porque preciso, volto porque te amo" e "Estou me guardando para quando o carnaval chegar"), roteirizado pelo super talentoso Karim Ainouz (que também assina "Abril despedaçado", "Madame Satã", "Praia do futuro" e o mais recente "A vida invisível"), vislumbramos em tela um grande road movie nacional, que são filmes cujo enredo perpassa por uma viagem ou jornada marcante, capaz de transformar os protagonistas.



Outros grandes exemplos de road movies no cinema são: "Comer, rezar e amar" (Com a Julia Roberts), ou "Thelma & Louise!" (do diretor Ridley Scott), ou mesmo "Central do Brasil". Ok, já deu pra perceber o que é um road movie.


Conta a história do estrangeiro Johann (Peter Ketnath) e de Ranulpho (João Miguel), companheiro que aparece ao longo do percurso, no início do filme. Fugindo da segunda guerra mundial, Johann, um alemão, encontra no Brasil um alívio escapista ao conflito de dimensões castróficas.

Bem irônico perceber que o alemão está melhor no sofrido agreste nordestino do que na Europa, não é? E sem apelar para melodramas, mesmo na dificuldade, ficamos com a sensação de que sim, o agreste brasileiro é um lugar que precisa ser mais bem explorado, cheio de pessoas simples, mas interessantes, cheio de humanidade.

Claro que a trama poderia ser melhor desenvolvida, mas o que vale aqui mais do que subterfúgios mirabolantes, é a simbiose com o lugar, que inclusive está além da amizade de ambos os protagonistas.

O título do filme deve-se ao fato de Johann ganhar a vida a vender aspirinas, e o faz projetando filmes ao longo das cidades que visita, como  publicidade ao seu produto. Mesmo porque, em 1942 as pessoas realmente poderiam ficar encantadas com o que vêem a partir do velho projetor de Johann.

Escrevo essa crítica num ano em que muito se fala de "Bacurau" e sua linguagem que põe em evidência o confronto. Ambos se passam no Nordeste.

Sem desmerecer o trabalho de Kleber Mendonça Filho, mas o fato é que "Cinema, aspirinas e urubus" mais congrega do que separa. A busca pela felicidade genuína une tanto o alemão perdido no Brasil quanto a sertaneja que ele encontra ao acaso pela cidade, em um comentário que ela própria faz no filme. E talvez estejamos precisando de mais aproximação nesses tempos.



1 de março de 2020

POR LUGARES INCRÍVEIS

7/10

GATILHO? Não. DEPENDÊNCIA EMOCIONAL? Sim.


Não sou um grande entusiasta dos filmes e das séries adolescentes da Netflix. A começar que são, no geral, demasiadamente estridentes, irritantes, pouco inovadores e apelativos de um jeito bobo. Não é uma linguagem coloquial ou o fato de falar de sexo e de diversidade (necessário) que vai dar qualidade à determinada obra. Deste modo, fui conferir "Por lugares incríveis" sem grandes expectativas, ainda mais já tendo lido o livro, e, diga-se, não é uma literatura grandiosa, apesar de ser um best-seller.

Para minha surpresa, a obra cinematográfica de Brett Haley é sim bem digna. A começar pela trilha e ambientação. Esqueça aquelas piadas fáceis de um "American Pie" ou de qualquer outra comédia norte-americana. O filme se agarra a um cinema de gênero, com alta carga emocional e dramática, muitas vez silencioso e arrastado. Puro sentimento.

Inclusive, às vezes poderia ser mais ágil, como por exemplo a ótima montagem de "Meninas malvadas", mas isso não tira o mérito da obra, realmente tocante, embora possa ter comprometido um pouco o desenvolvimento dos personagens.

O roteiro contou também com a contribuição de Jennifer Niven, a escritora do romance original. Conta a história de Violet Markey (Elle Fanning) e Theodore Finch (Justice Smith), ambos jovens secundaristas com claros problemas psicológicos. Ela, por ter perdido a irmã num acidente de carro. Ele, pelo comportamento instável e agressivo, cuja origem remonta à sua infância conturbada devido às agressões do pai.

É de se estranhar que algumas passagens difiram do livro, e embora eu tenha gostado de quase todas as adaptações, a construção de Finch ficou meio prejudicada. No livro, por exemplo, é retratada bem mais a relação dele com o pai, e isso é essencial para compreendê-lo a fundo. Aliás o estranhamento ocorreu já nas cenas iniciais, em que Violet tenta se matar e Finch a salva: no filme é um momento particular dos dois, mas no livro é uma cena em que toda a escola vê e acaba achando que Violet salva Finch. Pode parecer um mero detalhe, mas essa diferença pública do comportamento dos jovens é essencial para entender o tipo de desenvolvimento e característica que marca cada um, da garota popular ao garoto "aberração", mas no filme este contraste acaba sendo muito mais diluído.

No entanto, é sobre a personalidade de ambos que o filme se constrói e acerta no alvo. Finch, por exemplo, gosta de correr, é extrovertido muitas vezes, não passa despercebido na escola, ainda que o chamem de "aberração", dado um episódio de violência que protagonizara com outro jovem na escola (aliás, o filme poderia ter reproduzido em flashback a cena, mas se limita a apenas citar). Violet também vai a festas, inclusive é mais sociável que ele, ainda que esteja em estado depressivo, sofrendo pela falta da irmã. Em suas redes sociais, ela continua a sorrir.

Isso serve para estarmos em alerta com as pessoas em volta. Sorrisos nas fotos, estar em festas, ter amigos, muita coisa pode mascarar nosso verdadeiro estado interior. Ter alguém que nos enxergue para além da superfície, é muito raro hoje em dia, e é por isso que a química do casal funciona perfeitamente bem: enxergam a alma um do outro. Violet em nenhum momento deixa de tentar compreender Finch por dentro, inclusive há uma cena em que implora para o garoto se abrir mais. Finch então, além de enxergar a humanidade de Violet, passa a primeira metade do filme tentando animá-la, conseguindo com êxito tal proeza. Ambos se aproximam mais devido um trabalho da escola em que devem visitar lugares turísticos da cidade (Indiana), daí o título da história, "Por lugares incríveis".

Detalhe aqui que o roteiro é bem sutil ao sugerir que Finch sabe muito bem o que está fazendo perante Violet, insistindo para que formem a dupla para realizar as visitas, forçando a amizade e tentando a todo instante reacender a luz na vida da garota, afinal, ele próprio também precisa de ajuda. Embora ele muitas vezes suba o tom e se mostre inclusive abusivo (como na cena em que a force a entrar no carro), não se pode simplesmente julgar o ato com um certo "machismo" da parte dele, ainda que, sim, ele tenha atitudes machistas. Deve-se no entanto, perceber que sua autoridade perante ela fora construída num momento de fragilidade de Violet e num momento em que o próprio Finch via a si mesmo nesta fragilidade. Seu tom a mais com ela, era também um reflexo a si próprio. Ambos eram frágeis emocionalmente, e isso não é nada bom, daí está a limitação do roteiro em reforçar isso, pois do jeito como ficou apresentado, parecia que inclusive tal dependência ganhava força romântica.

"Você foi, sob todos os aspectos, tudo o que alguém poderia ser. [...] Se existisse alguém capaz de me salvar, seria você" (Woolf, Virgínia).

Essa frase e outras de Virgínia Woolf são usados pelos protagonistas, na tentativa de deixar o filme mais cult. O bom é que não ficou tão forçado, mas a citação em especial revela a romantização da DEPENDÊNCIA EMOCIONAL, o que pode levar aos mais desavisados a olhar tudo de forma positiva, romantizada. 

Em determinado momento, Finch procura um grupo de apoio, mas é muito pouco para um filme que ao final mostra um alerta sobre saúde mental. Os pais de Violet, por exemplo, são tão passíveis diante do problema da garota, não há um profissional de saúde a acompanhando, e ainda mostra a complacência da postura da mãe ao simplesmente incentivar a jovem a sair, como se tal escapismo fosse o suficiente.

No entanto, este defeito do filme é mais proveniente da escrita de Jennifer Niven mesmo. Não há como revolucionar a partir de um material já meio frágil. Por isso destaco aqui a competência de Elle Fanning, que consegue entender a mensagem da obra e com um simples olhar, por exemplo, mostrar a força da personagem, por si. 

O final, ainda que arranque lágrimas, trás uma importante mensagem de esperança, do seguir em frente, de passar por cima das dificuldades e traumas, e seguir o seu caminho, ainda que cheio de dificuldades. Os "lugares incríveis", se não são tão incríveis assim, é até, em parte, um acerto, já que torna mais poderosa a ideia de que lugares banais podem tornar-se realmente incríveis se envoltos de esperança. Os protagonistas visitaram os lugares para uma pesquisa da escola, e assim o filme se encerra, com a leitura arrebatadora do relatório produzido da experiência em visitar tais lugares. Uma cena extremamente boa, com uma trilha feita puramente para emocionar.

Não achei que o filme incentiva um gatilho ao suicídio. Até porque, uma mente frágil pode se servir de qualquer pretexto, afinal. Embora entenda as críticas sobre o gatilho, e de certa forma concorde que faça sentido sob certo ponto de vista. Afinal, DEPENDÊNCIA EMOCIONAL pode ser visto sim como um gatilho, e isso infelizmente mostra um desiquilíbrio do material. Faz sentido, quando vemos que o filme poderia explorar melhor, de forma mais educativa, os sérios problemas dos jovens.

No entanto, a discussão está posta, e surpreendentemente o filme não apela ao humor bobo para mostrar a construção da relação da dupla, muito menos a voltas mirabolantes, e nem em cenas apelativas com as vistas em "13 reasons why". É um drama que se sustenta nas imagens, na trilha (acertadamente silenciosa no início) e na interpretação dos jovens, e isso, para uma produção da Netflix, já é um grande passo a frente.














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