OLÍVIA
(Organização
de Livre Identidade e Orientação Sexual)
Organização
Liberdade de expressão
Integração social
Valorização das Comunidades
Informação
Amor
ORGANIZAÇÃO
Já ia dar dez horas
da noite. Estourado. Já não aguentava mais repassar todos os comandos, carregar
vários avisos, confundir os nomes, muitos créditos perdidos ligando pros amigos
perdidos, esquecer de comer ou de ligar pra casa pra dizer que estou bem. Mas
nada disso importa: o OLIVIA sobrevivera ao seu primeiro grande evento.
Foi desgastante.
Não pelo secretário de saúde que não compareceu, nem pela microfonia
insistente. Quando se sabe que há boicotes até mesmo de amigos em comum, e que
vários grupos LGBTs podem ser engolidos por oportunistas, você vê que ainda
assim a superação é mais aterradora, você não sabe ao certo se quer mandar o
outro pra mais longe ou se quer sorrir triunfantemente. Mas o fato é que não
havia tempo para orgulho, só queria chegar em casa e deitar na minha cama
quentinha.
Uma semana
depois, “marcha para Jesus”. Um espetáculo. Várias faixas, líderes religiosos,
carros, som, muito dinheiro envolvido. Assistia a tudo como um bom transeunte,
sentindo uma vontade danada de jogar uma bomba naquele pastor que bradava
ferozmente em cima de um trio. Não é inveja do quanto esses cristãos
fundamentalistas são bem articulados e endinheirados, mas é a massa que ali
segue que me deixa enfurecido.
Até que um
vizinho da Universal se aproxima. Ele apenas sorri. Então, sorrio de volta,
aquele sorriso falso. Estou apenas sendo simpático. E ele se aproxima de mim e
me dá um abraço, ao ouvido, diz: “Jesus te ama”!
Não saberia
dizer, ao certo, o efeito desta frase. Ao mesmo tempo em que me acalenta, me
bate com força. É hora de fazer mais.
LIBERDADE DE
EXPRESSÃO
Que a homofobia
se confunde com liberdade de expressão já não há dúvidas. Quantas mortes e
quantas pedradas foram jogadas, mas que não doeram tanto quanto uma palavra
proferida?
Ela estava ali
no banco da praça, chorando. Quando me aproximei dela, percebi seus olhos
vermelhos. Fui tomar suas dores.
Tinha acabado
de tomar um fora da namorada. Ela, tão loira e tão linda, não conseguia ser bem
sucedida nos relacionamentos. O sorriso das crianças nas praças não conseguia
segurar o seu choro.
Convidei-a para
a próxima reunião do OLÍVIA, talvez fosse importante uma voz feminina
sensibilizada. Mas não era isso que ela queria. Nem beber, nem sair pra dançar.
Ela gostava de pintar, mas estava muito triste para ao menos se levantar dali. Então,
subitamente tive uma ideia. Fui às pressas ao QG do grupo, onde estávamos
criando cartazes e artes para o nosso próximo evento. Só precisei de um balde de
tinta e pincel. Ela continuou me esperando na praça, aliás, não me esperando,
mas se remoendo em desconsolo.
Ao fundo, um
muro pinchado com os seguintes dizeres:
“Que todos os viados e sapatões sejam de
uma vez queimados no inferno!”
Eu apenas lhe
mostrei a tinta e o pincel, e com a cabeça lhe apontei o muro ao fundo. Talvez
ela já estivesse cansada de ficar sentada. O fato é que, de pronto, ela se
levantou para enfim agir, sentir-se viva.
Ela pegou a
tinta e o pincel, e se pôs a apagar aqueles dizeres de ódio. Mas não tudo.
Apenas escolheu meticulosamente as letras para apagar, de modo que ainda
restasse a seguinte mensagem:
“Que todos os viados e sapatões sejam -- --a ---
----mados -- --------“.
E ela, enfim,
sorriu.
INTEGRAÇÃO
SOCIAL
Discussão
acalorada sobre apoiar ou não as cotas para travestis e transexuais nas redes
públicas de ensino superior. Talvez a dificuldade maior não estivesse no
acesso, mas na permanência dos estudantes destoantes da heterossexualidade.
Cotas, cotas, e
mais cotas. Desse jeito fica difícil.
Até que a única
travesti do nosso grupo OLÍVIA pede a palavra e fala sobre os índices
alarmantes de violência e assassinato às pessoas trans. São as cotas informais
a que se sujeitam. Alarmadas mais ainda se forem pobres ou negras. Contou sobre
como é difícil sobreviver em um mundo demasiadamente hostil, de como aturar as
piadinhas infames na escola lhe parecia mais difícil do que aquela intragável
lição de matemática, de como não conseguira apoio nem dos pais.
E por fim, concluiu:
era contra as cotas! Queria entrar por mérito próprio em uma universidade!
Ficamos todos
boquiabertos, ao passo que ela prontamente emendou: “queria mesmo era cotas para
o bom senso”!
VALORIZAÇÃO DAS
COMUNIDADES
Primeira ação
integrada do grupo OLÍVIA. Muitas vozes de direitos humanos, muitas minorias,
muitos indígenas seminus e mulheres de peito pra fora. O auditório estava
bonito.
Eu não
compreendia o termo minoria. Não entendia, por exemplo, como as mulheres podiam
estar ali representadas. Tá certo que sofrem preconceito, discriminação no
trabalho (ainda ganham, em média, menores salários), mas não eram propriamente
minorias.
Foi então que
uma dessas feministas pediu a voz e apresentou um dado curioso: dos últimos 100
filmes comerciais de maior sucesso de Hollywood, não havia um sequer com
personagens principais somente do gênero feminino.
Fiquei
pensativo. Realmente a questão da representação era cruel, homens brancos e
héteros ainda dominavam a cena.
Até que um
rapaz com quem estava flertando me perguntou sobre minha contestação. Eu lhe
falei sobre o termo “minoria”, e ele prontamente me explicou sobre a questão
política, de ser uma minoria em espaços de poder. Eu aceitei a defesa do termo,
especialmente por ele ser uma graça. Mas certamente ele percebeu que eu não me
dava por satisfeito.
Na verdade, não
era bem o termo em si. Era a necessidade de se afirmar enquanto categoria,
enquanto uma comunidade para me representar. A minoria era sempre algo, alguma
identidade criada: a mulher, o gay, a lésbica, a travesti, o negro, o índio.
Como se a toda hora estivéssemos reivindicando um termo, uma identidade. Era
minha chatice habitual mesmo.
Então ele me
deu pra ler um livro da escritora norte-americana Ann Leckie. Ela é a famosa
escritora que não deixa claro o gênero de seus personagens.
Li em uma
semana o livro “Justiça Auxiliar”, uma ficção científica avassaladora. Como é
possível se entreter nesse universo sem saber o gênero dos personagens?
Fui falar com o
gatinho que havia me emprestado o livro. Não compreendia o porquê de ele ter me
dado tal obra para ler, se o que eu estava questionando era justamente essa
necessidade de se afirmar enquanto identidade específica das ditas “minorias”.
E ele me respondeu claramente, “necessidade não há”.
De fato, nada
era necessário, então. Mas como assim?
Ele apenas
sorriu da minha cara. Ficava com ódio disso, eu cheio de perguntas e ele lá se
divertindo.
“A fama dessa
escritora se deu por fazer questão de escrever em gênero neutro. De certa
forma, ela trabalhou o gênero, partiu dele para anulá-lo. É a mesma coisa que
acontece com as minorias. Partimos da identidade, porque se percebe que uma elite
hegemônica discrimina por conta justamente dessa identidade. A estratégia é
sempre partir das identidades para tentar, de certa forma, anulá-la, no campo
da igualdade e da não discriminação. A escritora teve uma sacada, partiu da
identidade também, mas igualou tudo. É ficção! A ideia é essa, é chegar num
tempo em que as identidades não serão motivos para discriminar”.
Perguntei-lhe
se não tinha outro livro dela, ao passo que ele me convidou para ir na casa
dele buscar diretamente na estante. Adoro pessoas inteligentes.
INFORMAÇÃO
Uma pena que a
televisão sempre adote a postura pouco informativa. Estávamos organizando um
evento de saúde em que basicamente iríamos apresentar uma série de medidas de
prevenção em relação à AIDS/HIV, pré e pós exposição, realizar testes rápidos,
enfim, fazer o papel que veículos de massa poderiam fazer e não fazem.
Foi
interessante perceber que muita gente (muita mesmo) nunca tinha ouvido falar.
Talvez o preservativo seja o objeto de mais fácil acesso, e que fala de forma
mais clara e limpa, sem ruídos. Ou seria o medo de divulgar as práticas de
prevenção tendo em vista economizar no orçamento da saúde pública?
Foi então que
um velho conhecido meu apareceu no estande onde fazíamos a testagem rápida.
Estava tenso, nervoso.
Para completar,
ele estava acompanhado do namorado, que na verdade estava lá do outro lado conferindo
a exposição de quadros, de forma serena e tranquila.
Ele me
confidenciou o medo de saber o resultado, de como o namorado poderia reagir. No
entanto, precisava criar coragem. Perguntei se não seria uma boa ideia chamar o
namorado para lhe acompanhar, talvez ele lhe desse apoio, e ele achou melhor
não.
Fizemos o teste
e o resultado deu negativo. Ele ainda assim, ficou meio impaciente. O namorado
então se aproximou, e lhe questionei se também não queria fazer o teste. Ele prontamente
me disse, “não preciso fazer, sou positivo”.
Fiquei estarrecido.
Não entendia o porquê de tanto nervosismo do outro, e fiquei com a dúvida
latejando enquanto acompanhava de longe aquele casal soro-discordante caminhando
abraçado pelos estandes, de forma marcadamente apaixonada.
Já próximo ao
término do evento, o rapaz chegou até mim e agradeceu pelo apoio ao fazer o
teste. Eu não me contentei e lhe perguntei por que, afinal, ele havia ficado
tão nervoso. “Sou voluntário de um teste de profilaxia pré-exposição ao HIV. Mas
meu namorado nunca me forçou a fazer sexo sem camisinha, tenho muito medo, e
acho que não vou conseguir. Mas eu não posso falhar. É muito importante pra ele
eu continuar bem, você já pensou o grau de culpa que ele poderia sentir? Não
posso magoá-lo. Vai ser um baita choque pra ele, e tudo que eu menos quero é
perdê-lo por isso”.
Era difícil
imaginar mesmo, passa milhões de coisas na nossa cabeça. Mas quando a gente vê que
casais soro discordantes começam a sentir um pelo outro, a gente vê que todos
os avanços contra a discriminação e todas as batalhas a serem travadas, de fato
valem muito a pena.
AMOR
A dor da perda,
seja ela qual for, é muito forte. Não adianta tentar maquilar. Não conseguia me
concentrar na pauta do dia, em mais uma reunião ordinária do OLÍVIA que
transcorria de modo burocrático. Queria poder chegar em casa antes dele partir.
À saída da
reunião, passei às pressas no supermercado e lhe comprei aquele vinho tinto. Ao
chegar em casa, me deparei com as malas prontas postas no carpete da sala:
seria o último jantar no nosso abençoado lar, uma cadeira a menos seria posta
durante as próximas refeições.
Assei o pernil
no forno e o som decadente de uma MPB tristonha nos embalava naquela noite
chuvosa. Lembrei de quando recebia seus amigos em aniversários alegres, de como
eu me preocupava em arredar os móveis para fazer uma mini-balada, e de como eu
sempre reclamava do som alto depois das onze. Nada mais disso iria me
atormentar. Eu, dado ao silêncio e à companhia dos livros, iria sentir falta da
bagunça. Isso me machucava muito.
O jantar foi
servido e estávamos só nós dois. Eu até ali havia me controlado. Fui pegar o
álbum de fotografias para relembrarmos velhos anos que não voltam mais, mas não
precisou de tanto: assim que meu marido chegou em casa, depois de um dia de
trabalho enfastiante, deu umas garfadas no formidável pernil que havia
preparado e prontamente pôs o vídeo que havia passado semanas produzindo. Era hora
de saborear o vinho, nós três: eu, meu marido e nosso filho.
E ali no vídeo estava
o nosso pequeno, em um uniforme escolar azul bebê, pronto para, pela primeira
vez na vida, carregar consigo um livro didático de colorir e uma merendeira
carregada de suquinho industrializado; relembramos seu primeiro aniversário,
sem os avós, que só ficaram completamente relaxados em aparecer na nossa
família a partir do quinto, num aniversário magnífico, lotado de brigadeiros,
cachorros-quentes e de conversas ao vento jogada com a família; apareceram no
vídeo as primeiras lições de patins, a primeira queda, e o primeiro torneio
municipal de que fizera parte, vergonhosamente não se classificando às finais,
embora tenha sido nesse torneio que nosso pequeno rapaz, respondendo aos comentários
homofóbicos de uns colegas, nos enchera de orgulho; e veio a primeira namorada,
uma menina inteligente e livre de preconceitos, mas que acabou se mudando para
outra cidade, que saudades dela; e veio faculdade, amigos de futebol, reuniões
em grupo, homofóbicos que se afastavam do nosso pródigo por conta do amor
vivido pelos pais de mesmo gênero.
Uma lágrima
escorreu do meu rosto. Hoje estávamos perdendo nossa cria, estava de mudança
para um apartamento onde iria morar com a noiva. Então, finalmente, ela chegou.
Sorridente como sempre. Ficamos nós quatro até o final da noite, rindo sobre os
prazeres da vida, e preparando os arranjos para o casamento dali uns meses.
De fato, a dor
da perda, seja ela qual for, é muito forte. Mas como podemos dizer que perdemos
se eu e meu amor conseguimos, como dois homens, criar um outro com tanto amor e
com tanto afeto? E veja no que se tornou, não consigo pensar em nada melhor
quando, ao sair de casa, ele se vira pra nós com o olhar molhado, nos agradece
pela família linda que somos, e ainda continuaremos a ser. E nos abraça de
forma tão apertada e lúcida que não deixaria dúvida alguma quanto à família que
somos. Que mundo estranho esse, que é preciso confirmar o amor. Mas estamos
apenas ali, nos despedindo, com o choro entalado pelo “eu amo vocês, sempre vou
amar” que ouvimos da boca de um filho criado com tanto carinho. Não há nada que
possa nos derrubar. Mesmo que o tempo nos castigue, que os filhos saiam de casa,
e que a roda da vida não pare, não há nada mais forte que o amor. Nada.