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14 de maio de 2015

Pelo direito de ser Feminina


Bicha pintosa. Colorida. Afeminada.

Essas certamente são as mais leves e aceitáveis nomeações àquelxs gays que dão o nome, minha filha! Gosto assim, quando chegam chegando.

Não suporto aquele discurso de “Se fosse pra namorar com mulher, eu seria hétero”. Tá boa? Cansou de bater siririca pros parceiros da Emmanuelle nas noites de cine Privê da Band, que nem se uma gata ao estilo Ísis Valverde ou Juliana Paiva te cantasse, iria funcionar o dito cujo.

Aliás, é evidente que todos nós temos direito a gostar de quem quisermos, a se sentir atraído pelo musculoso sarado e truculento ou amar aquele corpo mignon que dá pinta. Mas quando se brada um “não curto afeminados”, é quase um brado ao seu estilo pessoal de aversão a tudo que seja, digamos, fora do arquétipo masculino tradicional. Ou seja, a frase fala sobre sua personalidade mais íntima, e não sobre o seu gosto em relação a parceiros. É como se o “eu sou discreto” lhe fosse como um cartão de visita prioritário, e você, impermeável a tudo que possa sugerir a sexualidade fora desses padrões, se afugentasse no armário com medo de andar com esses “indigentes”.

Lembro-me de, certa vez, estar em uma parada Gay com um amigo militante. Ele queria “ficar” comigo, mas o via apenas como amigo. De repente, aparece do outro lado da rua o garoto com quem eu havia ficado na semana passada. Uma camisa amarela berrante, de óculos escuro, bermudinha justa, também militante dos grupos LGBTs, passeava sorridente pela calçada da diversidade. Aí o meu amigo prontamente disse, “foi com essa mulher que você ficou?”. Nem tinha percebido, na verdade. Ele continuou: “será que eu vou ter que me rasgar também?”. Ainda bem que essa frase foi seguida de um riso não de escárnio, mas de cumplicidade. Agora imagina, se ele que é articulado e esclarecido politicamente se permite a certos comentários, imagine o gay burguês de família cristã, que mal consegue sair do armário (para os outros, né, mana, porque no quarto, nas redes sociais adultas e nos banheiros da faculdade...)?

Não estou querendo dizer que isso é homofobia. Não gosto de banalizar o termo. Mas há certamente um estranhamento fora do normal, um deslocamento desnecessário. Sei lá, talvez o fato de ainda usarem roupas masculinas. Mas aí seria o caso de se perguntar se as travestis e transexuais recebem um tratamento mais digno, o que acho difícil.

E não, não se trata de negligenciar o gosto de cada um. Repito: todos somos livres para se sentir atraído por quem quer que seja. O que ocorre é que a aversão à gay pintosa é acompanhada de um preconceito que escancara. Muitas vezes, a bicha nem precisa dizer nada, basta um simples andar nas ruas para que os machões da vigilância alheia encarem-na com desdém (e alguns, com uma mistura de desejo insólito), revelando, na verdade, o medo pelo diferente, e não exatamente apenas uma expressão de gosto por determinado tipo de parceiro. Afinal, não precisa tomar justamente esta característica como seu cartão de visitas. No lugar de “Olá, me chamo Daniel, sou dentista e adoro cinema”, você diz “Olá, sou Daniel, não curto afeminados e sou discreto”. É mesmo necessário isso? Ou é puro medo de imiscuir-se ao que você abomina, dizendo para si mesmo que, de maneira nenhuma, tem preconceito? Sei...

Não sou hipócrita. Adoro “macho” com cara de “macho”, mesmo sabendo que posso problematizar horrores esse “macho” de quem falo gostar. Amo pêlos e aquela pegada forte. Mas o que é uma preferência diante da imensidão do mundo, diante das possibilidades de se relacionar, seja no sexo, seja na amizade, seja dividir o banco do avião com uma travesti sem ficar se preocupando no que a comissária vai pensar.  Pois não me venha me dizer que essa aversão toda nada tem a ver com o medo de descobrirem que você "curte". É bem isso mesmo. Isso tem mais a ver com seu armário particular do que com a imagem do outro.

O meu afago é saber que, depois de umas cervejas , o bate-cabelo naquela boate gay mais pererequinha da cidade, consegue animar mais do que o rock psicodélico que você faz questão de anunciar ser fã. Claro que você pode gostar de um Led Zeppelin e curtir a Lady Gaga numa boa. Agora pense, mesmo amando os dois estilos, há aqueles homens que fazem sexo com homens que vão negar até a morte curtir uma Rihanna, e esbravejar com gosto serem fãs de Heavy Metal. Cada um faça o que bem entender. Só não me venha se achando menos gay por isso.


No final das contas, ainda há algo pior: quem estenda esta divisão comportamental entre os ativos e os passivos. É muita dissimulação pra uma mente só, olha. Por isso que eu gosto delas, não tem medo, elas peitam, elas lacram. Confesse que é esse seu principal recalque: a liberdade. 

12 de maio de 2015

O amigo hétero

Dois amigos, um gay e um hétero conversavam em frente a uma Igreja:
- Que saber, eu não quero ser mulher...
- Eu também não.
- E também não tenho a mínima vontade de sair por aí gritando minha sexualidade.
- Eu também não quero isso.
- Sei lá, queria algo mais íntimo... Eu queria casar nessa Igreja!
- Eu também!
- Eu queria ter filhos.
- Eu também...
- Dois. Ou talvez três...
- Talvez.
- Mas sabe, eu ainda não encontrei a pessoa certa.
- E sabe que eu também não?
Momento de reflexão.
- Eu não entendo porque dizem “ditadura gay”, você entende?
- Não.
- Afinal, gays não querem privilégios, querem apenas os mesmo direitos que os casais héteros, concorda?
- Claro que sim.
- Andar de mãos dadas, demonstrar afeto em público, poder se beijar no final da novela das oito, cantar alguém do mesmo sexo com a mesma facilidade que um homem a uma mulher ou vice-versa, chamar os sogros para o almoço de Natal, apresentar o companheiro ao bisavô de oitenta e quatro anos...
- Verdade.
- E mesmo a Lei anti-homofobia, não cria privilégios, já que a Lei é contra discriminação e preconceito por qualquer orientação sexual e qualquer desigualdade de gênero.
- Concordo.
- E o amor entre pessoas do mesmo sexo é tão natural, tão óbvio, mesmo entre outras espécies na natureza.
- Hã-ham.
Mais uma pausa.
- E quando homossexuais reivindicam ser uma família, é tão clichê, adotar,  casar, é tão clichê, não acha?
- Clichezão.
- Sinceramente, não sei por que alguns têm medo.
- Nem eu.
Mais uma pausa.
- Quer saber, cansei dessa hipocrisia!
- Eu também.
Eles se olharam.
- Me beija!
- O quê?
- Me beija, cara!
- Você tá maluco, eu não sei...
- E precisa saber beijar?
- Não, você entendeu errado.
- Um beijo seria um ato político, para mostrar às pessoas que vêm a esta Igreja, e você deve concordar comigo que essas pessoas precisam de um choque de realidade.
O outro fica pensativo. Pensativo.
Passado uns três minutos, ele concorda, “mas só um selinho”, avisa.
- Quer saber, esquece.
- O quê?
- Esquece essa historia de beijo!
- Mas por quê? Eu juro que não tenho mau hálito.
- Não é isso. Só acho que já é demais desnaturalizar um ato, como um beijo, que deveria ser a troca de carinho e afeto dos mais íntimos, para então se tornar algo pragmático, um meio para almejar outros fins. Perde-se toda a sua concepção original, você não acha?
- Verdade – diz, meio confuso.
Então, o rapaz que propôs o beijo dá meia-volta, já cansado daquele ambiente.
- Bem, agora vou falar com a Fernanda, temos que começar os preparativos para nosso casamento.
- Ok.

E o amigo gay fica ali, absorto. Como esses héteros estão arrojados! 

8 de maio de 2015

Olívia

OLÍVIA
(Organização de Livre Identidade e Orientação Sexual)

Organização
Liberdade de expressão
Integração social
Valorização das Comunidades
Informação
Amor

ORGANIZAÇÃO

Já ia dar dez horas da noite. Estourado. Já não aguentava mais repassar todos os comandos, carregar vários avisos, confundir os nomes, muitos créditos perdidos ligando pros amigos perdidos, esquecer de comer ou de ligar pra casa pra dizer que estou bem. Mas nada disso importa: o OLIVIA sobrevivera ao seu primeiro grande evento.

Foi desgastante. Não pelo secretário de saúde que não compareceu, nem pela microfonia insistente. Quando se sabe que há boicotes até mesmo de amigos em comum, e que vários grupos LGBTs podem ser engolidos por oportunistas, você vê que ainda assim a superação é mais aterradora, você não sabe ao certo se quer mandar o outro pra mais longe ou se quer sorrir triunfantemente. Mas o fato é que não havia tempo para orgulho, só queria chegar em casa e deitar na minha cama quentinha.

Uma semana depois, “marcha para Jesus”. Um espetáculo. Várias faixas, líderes religiosos, carros, som, muito dinheiro envolvido. Assistia a tudo como um bom transeunte, sentindo uma vontade danada de jogar uma bomba naquele pastor que bradava ferozmente em cima de um trio. Não é inveja do quanto esses cristãos fundamentalistas são bem articulados e endinheirados, mas é a massa que ali segue que me deixa enfurecido.

Até que um vizinho da Universal se aproxima. Ele apenas sorri. Então, sorrio de volta, aquele sorriso falso. Estou apenas sendo simpático. E ele se aproxima de mim e me dá um abraço, ao ouvido, diz: “Jesus te ama”!

Não saberia dizer, ao certo, o efeito desta frase. Ao mesmo tempo em que me acalenta, me bate com força. É hora de fazer mais.


LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Que a homofobia se confunde com liberdade de expressão já não há dúvidas. Quantas mortes e quantas pedradas foram jogadas, mas que não doeram tanto quanto uma palavra proferida?

Ela estava ali no banco da praça, chorando. Quando me aproximei dela, percebi seus olhos vermelhos. Fui tomar suas dores.

Tinha acabado de tomar um fora da namorada. Ela, tão loira e tão linda, não conseguia ser bem sucedida nos relacionamentos. O sorriso das crianças nas praças não conseguia segurar o seu choro.

Convidei-a para a próxima reunião do OLÍVIA, talvez fosse importante uma voz feminina sensibilizada. Mas não era isso que ela queria. Nem beber, nem sair pra dançar. Ela gostava de pintar, mas estava muito triste para ao menos se levantar dali. Então, subitamente tive uma ideia. Fui às pressas ao QG do grupo, onde estávamos criando cartazes e artes para o nosso próximo evento. Só precisei de um balde de tinta e pincel. Ela continuou me esperando na praça, aliás, não me esperando, mas se remoendo em desconsolo.

Ao fundo, um muro pinchado com os seguintes dizeres:

“Que todos os viados e sapatões sejam de uma vez queimados no inferno!”

Eu apenas lhe mostrei a tinta e o pincel, e com a cabeça lhe apontei o muro ao fundo. Talvez ela já estivesse cansada de ficar sentada. O fato é que, de pronto, ela se levantou para enfim agir, sentir-se viva.

Ela pegou a tinta e o pincel, e se pôs a apagar aqueles dizeres de ódio. Mas não tudo. Apenas escolheu meticulosamente as letras para apagar, de modo que ainda restasse a seguinte mensagem:

“Que todos os viados e sapatões sejam -- --a --- ----mados -- --------“.

E ela, enfim, sorriu.


INTEGRAÇÃO SOCIAL

Discussão acalorada sobre apoiar ou não as cotas para travestis e transexuais nas redes públicas de ensino superior. Talvez a dificuldade maior não estivesse no acesso, mas na permanência dos estudantes destoantes da heterossexualidade.

Cotas, cotas, e mais cotas. Desse jeito fica difícil.  

Até que a única travesti do nosso grupo OLÍVIA pede a palavra e fala sobre os índices alarmantes de violência e assassinato às pessoas trans. São as cotas informais a que se sujeitam. Alarmadas mais ainda se forem pobres ou negras. Contou sobre como é difícil sobreviver em um mundo demasiadamente hostil, de como aturar as piadinhas infames na escola lhe parecia mais difícil do que aquela intragável lição de matemática, de como não conseguira apoio nem dos pais.

E por fim, concluiu: era contra as cotas! Queria entrar por mérito próprio em uma universidade!

Ficamos todos boquiabertos, ao passo que ela prontamente emendou: “queria mesmo era cotas para o bom senso”!


VALORIZAÇÃO DAS COMUNIDADES

Primeira ação integrada do grupo OLÍVIA. Muitas vozes de direitos humanos, muitas minorias, muitos indígenas seminus e mulheres de peito pra fora. O auditório estava bonito.

Eu não compreendia o termo minoria. Não entendia, por exemplo, como as mulheres podiam estar ali representadas. Tá certo que sofrem preconceito, discriminação no trabalho (ainda ganham, em média, menores salários), mas não eram propriamente minorias.

Foi então que uma dessas feministas pediu a voz e apresentou um dado curioso: dos últimos 100 filmes comerciais de maior sucesso de Hollywood, não havia um sequer com personagens principais somente do gênero feminino.

Fiquei pensativo. Realmente a questão da representação era cruel, homens brancos e héteros ainda dominavam a cena.

Até que um rapaz com quem estava flertando me perguntou sobre minha contestação. Eu lhe falei sobre o termo “minoria”, e ele prontamente me explicou sobre a questão política, de ser uma minoria em espaços de poder. Eu aceitei a defesa do termo, especialmente por ele ser uma graça. Mas certamente ele percebeu que eu não me dava por satisfeito.

Na verdade, não era bem o termo em si. Era a necessidade de se afirmar enquanto categoria, enquanto uma comunidade para me representar. A minoria era sempre algo, alguma identidade criada: a mulher, o gay, a lésbica, a travesti, o negro, o índio. Como se a toda hora estivéssemos reivindicando um termo, uma identidade. Era minha chatice habitual mesmo.

Então ele me deu pra ler um livro da escritora norte-americana Ann Leckie. Ela é a famosa escritora que não deixa claro o gênero de seus personagens.

Li em uma semana o livro “Justiça Auxiliar”, uma ficção científica avassaladora. Como é possível se entreter nesse universo sem saber o gênero dos personagens?

Fui falar com o gatinho que havia me emprestado o livro. Não compreendia o porquê de ele ter me dado tal obra para ler, se o que eu estava questionando era justamente essa necessidade de se afirmar enquanto identidade específica das ditas “minorias”. E ele me respondeu claramente, “necessidade não há”.

De fato, nada era necessário, então. Mas como assim?

Ele apenas sorriu da minha cara. Ficava com ódio disso, eu cheio de perguntas e ele lá se divertindo.

“A fama dessa escritora se deu por fazer questão de escrever em gênero neutro. De certa forma, ela trabalhou o gênero, partiu dele para anulá-lo. É a mesma coisa que acontece com as minorias. Partimos da identidade, porque se percebe que uma elite hegemônica discrimina por conta justamente dessa identidade. A estratégia é sempre partir das identidades para tentar, de certa forma, anulá-la, no campo da igualdade e da não discriminação. A escritora teve uma sacada, partiu da identidade também, mas igualou tudo. É ficção! A ideia é essa, é chegar num tempo em que as identidades não serão motivos para discriminar”.

Perguntei-lhe se não tinha outro livro dela, ao passo que ele me convidou para ir na casa dele buscar diretamente na estante. Adoro pessoas inteligentes.


INFORMAÇÃO

Uma pena que a televisão sempre adote a postura pouco informativa. Estávamos organizando um evento de saúde em que basicamente iríamos apresentar uma série de medidas de prevenção em relação à AIDS/HIV, pré e pós exposição, realizar testes rápidos, enfim, fazer o papel que veículos de massa poderiam fazer e não fazem.

Foi interessante perceber que muita gente (muita mesmo) nunca tinha ouvido falar. Talvez o preservativo seja o objeto de mais fácil acesso, e que fala de forma mais clara e limpa, sem ruídos. Ou seria o medo de divulgar as práticas de prevenção tendo em vista economizar no orçamento da saúde pública?

Foi então que um velho conhecido meu apareceu no estande onde fazíamos a testagem rápida. Estava tenso, nervoso.

Para completar, ele estava acompanhado do namorado, que na verdade estava lá do outro lado conferindo a exposição de quadros, de forma serena e tranquila.

Ele me confidenciou o medo de saber o resultado, de como o namorado poderia reagir. No entanto, precisava criar coragem. Perguntei se não seria uma boa ideia chamar o namorado para lhe acompanhar, talvez ele lhe desse apoio, e ele achou melhor não.

Fizemos o teste e o resultado deu negativo. Ele ainda assim, ficou meio impaciente. O namorado então se aproximou, e lhe questionei se também não queria fazer o teste. Ele prontamente me disse, “não preciso fazer, sou positivo”.

Fiquei estarrecido. Não entendia o porquê de tanto nervosismo do outro, e fiquei com a dúvida latejando enquanto acompanhava de longe aquele casal soro-discordante caminhando abraçado pelos estandes, de forma marcadamente apaixonada.

Já próximo ao término do evento, o rapaz chegou até mim e agradeceu pelo apoio ao fazer o teste. Eu não me contentei e lhe perguntei por que, afinal, ele havia ficado tão nervoso. “Sou voluntário de um teste de profilaxia pré-exposição ao HIV. Mas meu namorado nunca me forçou a fazer sexo sem camisinha, tenho muito medo, e acho que não vou conseguir. Mas eu não posso falhar. É muito importante pra ele eu continuar bem, você já pensou o grau de culpa que ele poderia sentir? Não posso magoá-lo. Vai ser um baita choque pra ele, e tudo que eu menos quero é perdê-lo por isso”.

Era difícil imaginar mesmo, passa milhões de coisas na nossa cabeça. Mas quando a gente vê que casais soro discordantes começam a sentir um pelo outro, a gente vê que todos os avanços contra a discriminação e todas as batalhas a serem travadas, de fato valem muito a pena.


AMOR

A dor da perda, seja ela qual for, é muito forte. Não adianta tentar maquilar. Não conseguia me concentrar na pauta do dia, em mais uma reunião ordinária do OLÍVIA que transcorria de modo burocrático. Queria poder chegar em casa antes dele partir.

À saída da reunião, passei às pressas no supermercado e lhe comprei aquele vinho tinto. Ao chegar em casa, me deparei com as malas prontas postas no carpete da sala: seria o último jantar no nosso abençoado lar, uma cadeira a menos seria posta durante as próximas refeições.

Assei o pernil no forno e o som decadente de uma MPB tristonha nos embalava naquela noite chuvosa. Lembrei de quando recebia seus amigos em aniversários alegres, de como eu me preocupava em arredar os móveis para fazer uma mini-balada, e de como eu sempre reclamava do som alto depois das onze. Nada mais disso iria me atormentar. Eu, dado ao silêncio e à companhia dos livros, iria sentir falta da bagunça. Isso me machucava muito.

O jantar foi servido e estávamos só nós dois. Eu até ali havia me controlado. Fui pegar o álbum de fotografias para relembrarmos velhos anos que não voltam mais, mas não precisou de tanto: assim que meu marido chegou em casa, depois de um dia de trabalho enfastiante, deu umas garfadas no formidável pernil que havia preparado e prontamente pôs o vídeo que havia passado semanas produzindo. Era hora de saborear o vinho, nós três: eu, meu marido e nosso filho.

E ali no vídeo estava o nosso pequeno, em um uniforme escolar azul bebê, pronto para, pela primeira vez na vida, carregar consigo um livro didático de colorir e uma merendeira carregada de suquinho industrializado; relembramos seu primeiro aniversário, sem os avós, que só ficaram completamente relaxados em aparecer na nossa família a partir do quinto, num aniversário magnífico, lotado de brigadeiros, cachorros-quentes e de conversas ao vento jogada com a família; apareceram no vídeo as primeiras lições de patins, a primeira queda, e o primeiro torneio municipal de que fizera parte, vergonhosamente não se classificando às finais, embora tenha sido nesse torneio que nosso pequeno rapaz, respondendo aos comentários homofóbicos de uns colegas, nos enchera de orgulho; e veio a primeira namorada, uma menina inteligente e livre de preconceitos, mas que acabou se mudando para outra cidade, que saudades dela; e veio faculdade, amigos de futebol, reuniões em grupo, homofóbicos que se afastavam do nosso pródigo por conta do amor vivido pelos pais de mesmo gênero.

Uma lágrima escorreu do meu rosto. Hoje estávamos perdendo nossa cria, estava de mudança para um apartamento onde iria morar com a noiva. Então, finalmente, ela chegou. Sorridente como sempre. Ficamos nós quatro até o final da noite, rindo sobre os prazeres da vida, e preparando os arranjos para o casamento dali uns meses.

De fato, a dor da perda, seja ela qual for, é muito forte. Mas como podemos dizer que perdemos se eu e meu amor conseguimos, como dois homens, criar um outro com tanto amor e com tanto afeto? E veja no que se tornou, não consigo pensar em nada melhor quando, ao sair de casa, ele se vira pra nós com o olhar molhado, nos agradece pela família linda que somos, e ainda continuaremos a ser. E nos abraça de forma tão apertada e lúcida que não deixaria dúvida alguma quanto à família que somos. Que mundo estranho esse, que é preciso confirmar o amor. Mas estamos apenas ali, nos despedindo, com o choro entalado pelo “eu amo vocês, sempre vou amar” que ouvimos da boca de um filho criado com tanto carinho. Não há nada que possa nos derrubar. Mesmo que o tempo nos castigue, que os filhos saiam de casa, e que a roda da vida não pare, não há nada mais forte que o amor. Nada.

O Estado Laico é um embuste

Já um tempo venho me posicionando deslocadamente em relação ao movimento LGBT. Creio que, aos poucos, vou me tornando uma pessoa não quista, e com certa razão: trata-se de um movimento político, portanto, ideais devem ser bem seguidos e defendidos.

Falo isso em relação a um tema que, quanto mais eu leio, mais (re)afirmo minha convicção: o Estado Laico é um embuste. Sim, porque essa história de defender que religião não se deve misturar à política, é uma demagogia tremenda. Ora, por que não? Por que eu não posso levar ao Estado as demandas provenientes de uma moral que eu ache certa?

O problema é que a religião cristã é uma farsante. A bancada evangélica, com o perdão do termo, só existe para conseguir voto dos cordeirinhos, não apresentam nada interessante. Antes fosse uma Teologia da Libertação que fizesse eco no Congresso. Aliás, está lá para barrar projetos de Lei liberais e progressistas, em favor da “família” e dos “bons costumes”. Então, meus caros, veem se entendem: a democracia pode sim aceitar as vozes religiosas, mas não essas que estão aí, que mais pregam o ódio, e não conseguem pensar além da condenação moral, especialmente em relação ao corpo.

É por isso que eu entendo perfeitamente o brado a favor do Estado Laico. É, na verdade, um brado contra o fundamentalismo religioso. É o escudo que se tem, é a defensiva, é o contra-argumento. Mas o Estado Laico que se brada, na verdade se assenta contra o proselitismo, a favor da pluralidade e da diversidade. Então não seria propriamente um Estado Laico, porque é um Estado Laico que se define enquanto perspectiva de Estado a favor da liberdade religiosa, ateísta, e também contrária a aceitar dogmas totalizantes. Ou seja, é uma definição, digamos, capenga e abrangente.

Resumindo: religião pode sim penetrar o Estado. Não há nada de mais. O que não se aceita é o fundamentalismo. Aí entra outra pergunta: seria a religião necessariamente fundamentalista? Duvido muito. Porém, fundamentalistas religiosos de fato não conseguem entender o que seja isso. Suas perspectivas de que determinado comportamento leva à salvação, ao bem comum, engole individualidades e formas de dispor sobre o corpo, sobre a sexualidade, sobre os prazeres que os deixam cegos. Eles acreditam fielmente que os LGBTs são um declínio moral, ao passo que tudo o que os casais mais querem é se tornar família tradicional.

Mas o fundamentalismo é assim mesmo. E é fácil explicar: se a religião X condena, por exemplo, a homossexualidade, os fundamentalistas vão querer que todos pensem assim. Quem pensar fora, está condenado, é ignorante, é cego. E veja bem, quando um homossexual busca seu direito, ele não fere o direito de nenhum hétero. Na matemática, ambos sairiam com direitos garantidos. É diferente, porém, quando se nega o direito a este mesmo homossexual, uma conta que dá direitos pra uns, mas exclui outros. Os pluralistas vão defender o bem-estar de todos. Os fundamentalistas vão defender sua moral e que sua moral seja a moral de todos. Não há lógica.


Só acho que a bandeira da diversidade e do pluralismo deve estar mais visível. Quando se brada a favor do Estado Laico, fica parecendo birra. Cria-se virtualmente um inimigo, e é justamente isso que os líderes religiosos querem, rivais. O que o movimento LGBT precisa entender é que a bandeira do pluralismo abarca todos. Se for isso o Estado Laico, então me dou por satisfeito. Mas na política, os termos nos engolem. E o nosso pensamento de revanchismo parece que não consegue se desenvolver sem fazer inimigos.

Pleasure: o hedonismo e o estoicismo degladiando-se

Dirigido por uma diretora feminista, a sueca Ninja Thyberg, podemos afirmar que "Plesure" fica no limiar entre o filme denúncia e ...