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7 de maio de 2020

"O poço" x "Expresso do Amanhã": um acerto distópico disponível na Netflix

Passado alguns dias de ter assistido ao filme "O poço", sucesso na plataforma da Netflix (embora não seja uma produção original da empresa), a única certeza que tenho é que é sim um grande filme. Há alguns problemas na narrativa, mas com certeza nada que atrapalhe a experiência, que me lembrou outras tantas histórias, especialmente a sul-coreana "Expresso do amanhã". Neste texto, farei uma comparação entre ambos os filmes.


Primeiramente, é preciso falar de um conceito muito importante: distopia. Esta pequena palavra, segundo o dicionário, "é o lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero, privação". Não é algo novo. Na literatura, por exemplo, temos o "1984" de George Orwell, ou "Admirável Nundo Novo" de Aldous Huxley, isso para citar os mais famosos.

No cinema, também é muito comum retratar ambientes distópicos, poderíamos citar aí "Laranja mecânica" (que também é baseado em livro) como o meu favorito, mas gostaria de falar dos mais recentes, tipo "Jogos vorazes" ou "Maze Runner", que são produções voltadas ao público mais jovem, mas que trabalham muito bem esse conceito. Todos partem de algo em comum: apresentam personagens cujos desafios ligam-se a um sistema opressor, um tanto quanto fascistas e autoritários. 

Só assim é possível compreender esta produção espanhola que vem acumulando muitos acessos na Netflix. "O poço" conta a história de um homem que é preso num poço, que mais parece uma torre: o poço possui vários andares, e faz parte de uma experiência com humanos, experiência esta que é ligada à estratégia de sobrevivência com a alimentação restrita dada aos presos, pois a comida é posta no centro do poço, e vai descendo progressivamente, sendo que, obviamento, os presos do primeiro andar tem a vantagem de ter a mesa intacta, ao passo que à medida que a mesa vai descendo, cada vez menos comida sobra aos demais.

O primeiro grande questionamento que fazemos, além de nos perguntarmos do porquê existir uma prisão tão macabra e de como o protagonista fora parar lá, é se é possível racionalizar a comida para todos os humanos do poço. Esta é uma pergunta crucial, bem como o modo de fazê-lo. Mas antes de aprofundarmos, gostaria de falar sobre o outro filme, "O expresso do amanhã", do cultuado diretor Jong Bong-Hoo (que levou Oscar pelo trabalho de "Parasita").

Tal qual no filme "O poço", em "O expresso do amanhã" os personagens também são encarcerados, mas em um trem. Os últimos vagões cabem ao povo das classes inferiores, trabalhadores, muitos dos quais sustentam a engrenagem da locomotiva, e à medida que se avança nos vagões, vê-se uma população mais abastada, uns até vivem de luxo (sustentados, claro, pelos outros humanos dos vagões "inferiores"). É como fosse a estratificação da sociedade fosse de forma horizontal, ao passo que "O poço" é uma estratificação mais "vertical".


Ambos tem uma fotografia escurecida para retratar esse submundo, ainda que, em "o expresso", a fotografia vá ficando cada vez mais clara à medida que se progrida nos vagões (sendo que é particularmente feia no início, fato que compromete até a visualização na tela). Mas a grande questão aqui é perceber essa diferença sutil das produções: enquanto que em "o poço" os personagens são parte de um experimento, sendo controlados por quem os fez prisioneiros, ou seja, o sistema que os manipula está EXTERNO àquele ambiente, em "O expresso" o sistema está INTERNO ao contexto, isto é, todos estão no MESMO trem, com a diferença que a classe controladora ocupa os vagões mais à frente.

Esta é uma diferença importante, pois acredito que, socialmente falando, a representação em "O expresso" faz mais sentido. Não tem como isolar sistematicamente, oprimidos e opressores. Embora possamos falar de claros papéis sociais (numa leitura marxista, por exemplo, uns teriam e outros não os meios de produção), é impossível um viver sem o outro, ou apartado do outro. Neste sentido, o filme do Bong faz mais sentido, pois apresenta as classes convivendo em uma mesma estrutura (o trem), sendo que uns exploram o outro para continuar movimentando a engrenagem (o trem não pode parar, pois lá fora o ambiente está congelante, dado o resfriamento da terra). 

Esmiuçando, cabe perguntar: como o trem consegue suprir sua energia material para mantê-lo em movimento? Sim, porque não apenas de trabalho é movida essa estrutura, é necessário energia solar, ou mineral, enfim, o filme, tenta explicar isso, embora de maneira bem superficial. 

Já em "O poço", o enredo se preocupa mais com a distribuição da comida. A questão da sua PRODUÇÃO na verdade nem é uma questão (ou estariam aquelas pessoas sendo testadas para um futuro de escassez?). O fato é que o filme quer passar a sensação de que é possível discutir estrutura social baseando-se na distribuição tão somente, ou seja, refletindo sobre o posicionamento dos homens, que eles sejam mais responsáveis, altruístas, benevolentes com seus irmãos, que consigam repartir melhor. Ok, isso é muito importante, mas como falei, é limitado, pois não leva em conta a produção, e como eu tenho um pé na economia, fica mais fácil perceber esse deslize.

Mas o filme não é sobre economia propriamente, e ainda que seja um ponto de vista limitado, é super válido também! De fato, melhoraríamos muito como sociedade se soubéssemos dividir melhor. Por isso o filme é tao bom. Abre espaço também para questões morais e até religiosas: se os recursos distribuídos são escassos, o que fazer? Canibalismo é uma opção? Daí a trama segue para tentar de alguma forma acabar com aquilo, ainda que seja meio incômodo, pois o personagem principal se pôs voluntariamente em tal situação. Também há várias camadas que nos fazem pensar sobre essa situação, como o fato de que todas as pessoas do poço responderam, antes de entrar lá, qual era sua comida favorita, sendo que de fato, inicialmente na mesa, essa comida era posta. Então como é possível não sobrar comida para todos? Tudo bem que ninguém sobreviveria dia após dia comendo um único tipo de prato, mas será mesmo que não é possível racionalizar? Aliás, vendo o nosso mundo real, será mesmo que somos racionais nessa distribuição?

Eu particularmente adorei as metáforas enigmáticas do filme "O poço", a criança ao final revelaria uma certa esperança? Até que ponto essa mensagem dialoga com o Evangelho? Em paralelo, no filme "O expresso do amanhã" eles conseguem pular do trem para tentar viver fora. Poderiam conseguir? O urso polar que aparece no filme de Jong, seria um sinal de esperança ou de um fim trágico?

A natureza é muito importante para a nossa sobrevivência, e se pensarmos que o conceito de natureza também engloba a própria natureza humana, faz sentido as reflexões de ambos os filmes. A natureza contém perigo sim, claro, conceitos como desenvolvimento sustentável (mais explorado em "o expresso") só fazem sentido quando inserimos o homem na equação, e racionalizar nossa produção e nossa distribuição nos fará ter um sistema melhor, sem dúvidas, mas essa racionalização deve suprir nossas liberdade? Afinal, até aqui na nossa história, experiências de controle não deram muito certo (eu particularmente sou um crítico ao socialismo ditatorial), sendo inegável os avanços de uma sociedade livre e de mercado, no entanto, até que ponto essa liberdade não acaba por construir estruturas terríveis de desigualdade?

São duas grandes obras que apresentam cenários distópicos e reflexões sobre a estrutura social em que vivemos. Eu gostei muito de ambas. E você?







FILME "OS IRMÃOS WILLOUGHBYS" DA NETFLIX É VISUALMENTE RUIM, MESMO COM BOA MENSAGEM

3/10

Não creio que as animações, no geral, sejam apenas infantis. Ainda que seja possível ver que muitas animações se destinem a esse público como alvo, mesmo aquelas com abordagem lírica infantil conseguem sim agradar ao público de mais idade. Veja, por exemplo, animações como a série "Toy Story", ou japonesas como "A viagem de Chihiro", são filmes que agradam a todos.

Então essa minha crítica em nada tem a ver com a perspectiva geracional. Acontece que essa nova produção da Netflix tem muitos méritos, no entanto, tem muitos defeitos também (e gritantes!).


Conta a história da excêntrica família Willoughby, que inicia somente com o casal adulto, sendo que os filhos nascem logo no início do filme, apresentados em um casarão onde moram. Começa aí 2 problemas gritantes da obra. Primeiro, a coloração da casa, num tom avermelhado, me incomodou em muito. Até aí tudo bem, é questão de gosto. Agora a construção e apresentação apressada dos personagens é algo sim, que atrapalha demais o nosso envolvimento com eles, comprometendo o saldo da obra.

Será mesmo que precisamos de tanta correria assim? Seria esse um sinal da modernidade e estou sendo um velho chato desatualizado? Duvido muito. É preciso aqui separar ritmo de ambientação. O ritmo frenético e agitado é bem vindo, e este deve concorrer para que gostemos dos personagens, e não ao contrário. Em poucos minutos a trama já começa, um narrador (um gato de rua) deslocado que depois se insere à família vai nos contando a história, e uma série de reviravoltas e acontecimentos atropelados são apresentados, como se o roteiro despirocado tivesse muito pouco tempo pra tudo, personagens secundários vem e vão a uma velocidade que você se pergunta "o que diabos esse filme quer mostrar?". Uma ambientação que mais te afasta do que aproxima, e isso é um tiro no pé em um longa que aposta no sentimento ao seu final.

Vencida a primeira metade do longa, se ainda lhe restar interesse, as coisas enfim começam a melhorar, com destaque para a amizade dos irmãos. Como já falei, visualmente o filme é ruim, e esse aspecto fica mais evidenciado quando além da casa, são mostrados outros lugares. A indústria ao final do arco-íris, por exemplo, tem umas colorações berrantes bem feias, e o homem que cuida do lugar, um desenho... bem... estranho (no mínimo). Isso passa ao largo se ao menos os personagens fossem interessantes, mas como também já falei, uma enxurrada deles passa pelo filme, e ainda bem que os dois irmãos mais velhos são bem legais, uma pena que não diria o mesmo dos gêmeos mais novos, praticamente nulos.

Já para o final, é possível sentir a reviravolta que o filme terá, e isso não necessariamente é ruim, pois o filme desacelera mais e tenta captar o telespectador. Veja que para gerar este envolvimento, foi preciso conter a correria. Se o filme trabalhasse melhor esse aspecto emocional e a personalidade dos personagens no início, com certeza o resultado seria melhor. Parecia mais um episódio de desenho animado com personagens que já conhecíamos, e isso não pegou nada bem para obra. Uma pena, pois os minutos finais trazem uma mensagem poderosa sobre o poder da família (não necessariamente família de sangue).

Apressado e visualmente de mau gosto, mas com uma mensagem muito necessária. Você pode se emocionar no final, mas terá que aguentar uma montagem e um roteiro bem maçante até lá. Boa sorte! 








6 de maio de 2020

"RESGATE": AÇÃO DA NETFLIX DA MAIS ALTA QUALIDADE

8,5/10

É inegável o poder da Netflix em época de pandemia, capaz de manter nossa sede insaciável pelo consumo de séries e de filmes (este último em especial por conta do fechamento dos cinemas tradicionais), tornando-se, além de distribuidora de streaming, uma grande PRODUTORA de conteúdo.

Deste modo, a empresa acaba recebendo os holofotes das grandes estreias, o que pode potencializar o favorecimento da visão que temos de seus lançamentos, claro, mas também não dá pra negar a qualidade de alguns de seus materiais, ainda que a maioria seja de fato descartável. Mas em "Resgate", para nosso deleite, há sim uma boa história a ser vista (não exatamente a ser contada,já que o roteiro se apóia mais na movimentação no que nos diálogos).

Mas o fato inegável é que estamos diante de um ótimo produto, não exatamente pelo roteiro, mas principalmente pela construção de ótimas cenas do estreante em longas, Sam Hargrave.

Estrelado por Chris Hemsworth ( o queridíssimo "Thor"), o longa entrega o que promete: cenas de ação de tirar o fôlego, com grande destaque a um plano sequência de perseguição, filmado de forma magistral. O protagonista vive o papel de Tyler, um mercenário contratado para fazer o "resgate" do filho de um poderoso narcotraficante da Índia, que fora raptado por outro igualmente poderoso narcotraficante, de Bangladesh.



Certamente você já deve ter visto este roteiro em algum lugar, com um homem fodão dando conta de vários e vários caras. Sem partir para muita explicação, o filme o lança na ação, o que pode ser bom, mas também pode receber as críticas de quem espera uma história mais amarrada. No entanto, as cenas não deixam a desejar, e isso pra mim já vale a sessão, já que se trata de um filme de ação (!).

Mas tecnicamente, além do plano sequência, há diversas camadas sim, como a fotografia meio amarelada de Bangladesh, conferindo-lhe ar sórdido, ou a trilha que mantém a tensão, ou mesmo certo lirismo no personagem principal, que permanece misterioso e com cenas que reforçam a sua personalidade introspectiva.

Se você for atento, o final não é exatamente uma surpresa, podendo senti-lo a quilômetros, mas o fato é que a construção até ele é até mais interessante. As cenas nas ruas são magníficas, assim como a cena na ponte, enfim, quase tudo funciona nesse filme.

Decerto é meio chato você explorar clichês do gênero tendo como mocinho alguém com traços ocidentais bem acentuados, loiro, bonito, e os chefões serem, como sempre, os diferentes, malvadões. Mas a verdade é que nem há exatamente mocinhos, o próprio protagonista é um mercenário, e o destino dado ao personagem talvez corrobore a este aspecto. A esperança talvez resida nos jovens, e nem todos, pois o filme até mostra que alguns deles estão perdidos mesmo. Mas enfim, esse tipo de reflexão passa a largo. O que vale mesmo é o tiroteio. JOGUE-SE SEM MEDO!!

PS: JÁ FOI CONFIRMADO O 2 , POIS QUE VENHA ESSA CONTINUAÇÃO!!!






5 de maio de 2020

LIVRO: Crônicas de Nárnia - O sobrinho do mago

CONTO DE FADAS NÃO É SOMENTE PARA CRIANÇAS!

Clive Staples Lewis, mais conhecido como C. S. Lewis, foi um escritor britânico que escreveu os livros da coletânea "As crônicas de Nárnia" (são sete histórias sobre o mundo mágico de Nárnia).






Para começar, há 3 filmes que foram adaptados ("O leão, a feiticeira e o guarda-roupa", "a viagem do peregrino da alvorada", "o príncipe caspian"), sendo que um outro está em vias de lançar ("A cadeira de prata") , mas dessa vez me atinei a analisar os livros mesmo, e vou publicando aqui minha impressão à medida que vou lendo, na ordem do Livro cuja capa está acima, em volume único, que congrega as sete histórias em quase oitocentas páginas (portanto, as histórias não são assim tão longas). O primeiro da lista é este "O SOBRINHO DO MAGO".

Algumas pessoas me falavam que "As crônicas", ou melhor, que Lewis era demasiadamente cristão, permeando seu conto de aventura com uma série de referências bíblicas, quase o acusando de doutrinação. Outras pessoas falavam disso com tom de elogio, por valorizarem a visão cristã do mundo.

O fato é que este primeiro livro é muito bom, independentemente de suas referências. Conta a história de Digory e Polly, que acabam indo parar num reino misterioso que dá acesso, entre outros, a Nárnia. Eles acabam indo parar lá devido os encantamentos provocados pelo tio de Digory. É interessante notar que Nárnia é, portanto, apenas um dos vários mundos, claro que de longe o mais interessante, com animais falantes, poderosos, e um leão que esbanja superioridade e charme (seria o Leão a representação de Deus?).

Não sou tão afeto assim ao cristianismo, mas que bom seria se todos os  livros cristãos bebessem da Bíblia para apresentar aventuras como essas. Não sei se ao longo dos demais contos, de fato o tom doutrinário tome conta, porque até aqui, houve mais ação e aventura do que qualquer moralismo. Vamos ver...

Mas tem aqui várias alegorias bíblicas, como por exemplo a maçã, onde Digory quase é tentado pela feiticeira a provar do fruto que o Leão o proibiu de comer. Mas também tem por trás a busca pelos objetivos com foco, sem se deixar levar por um futuro incerto ou recompensas não altruístas. A tentação aparece nesse contexto de conflito do personagem consigo mesmo, fortalecendo sua missão heróica.

Neste sentido, o livro vale muito mais pela imaginação dos mundos e a forma de conduzir uma história relativamente simples e empolgante do que por qualquer acusação moral.

AHHHHH

Também espero esse ano ler o Tolkien (autor de "O Hobbit" e "O senhor dos anéis"), aliás, eles eram amigos. Eu declaradamente não gosto da saga do anel nos cinemas, mas quem sabe tenha uma outra opinião ao ler os livros.

Mas decidi começar pelas "Crônicas". Lewis também escreveu livros mais diretamente teológicos (ele era professor universitário em teologia), e talvez lá as mensagens cristãs sejam mais pesadas do que aqui, que é tão somente uma ótima aventura e inspiradora para muitas outras!!

OBS: a maçã que eu falei é plantada pelas crianças já no mundo real. Anos se passam e da madeira proveniente da macieira, se constrói um guarda-roupa, que será o portal utilizado para a próxima história, "O leão, a feiticeira e o guarda-roupa".

Pleasure: o hedonismo e o estoicismo degladiando-se

Dirigido por uma diretora feminista, a sueca Ninja Thyberg, podemos afirmar que "Plesure" fica no limiar entre o filme denúncia e ...