Passado alguns dias de ter assistido ao filme "O poço", sucesso na plataforma da Netflix (embora não seja uma produção original da empresa), a única certeza que tenho é que é sim um grande filme. Há alguns problemas na narrativa, mas com certeza nada que atrapalhe a experiência, que me lembrou outras tantas histórias, especialmente a sul-coreana "Expresso do amanhã". Neste texto, farei uma comparação entre ambos os filmes.
Primeiramente, é preciso falar de um conceito muito importante: distopia. Esta pequena palavra, segundo o dicionário, "é o lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero, privação". Não é algo novo. Na literatura, por exemplo, temos o "1984" de George Orwell, ou "Admirável Nundo Novo" de Aldous Huxley, isso para citar os mais famosos.
No cinema, também é muito comum retratar ambientes distópicos, poderíamos citar aí "Laranja mecânica" (que também é baseado em livro) como o meu favorito, mas gostaria de falar dos mais recentes, tipo "Jogos vorazes" ou "Maze Runner", que são produções voltadas ao público mais jovem, mas que trabalham muito bem esse conceito. Todos partem de algo em comum: apresentam personagens cujos desafios ligam-se a um sistema opressor, um tanto quanto fascistas e autoritários.
Só assim é possível compreender esta produção espanhola que vem acumulando muitos acessos na Netflix. "O poço" conta a história de um homem que é preso num poço, que mais parece uma torre: o poço possui vários andares, e faz parte de uma experiência com humanos, experiência esta que é ligada à estratégia de sobrevivência com a alimentação restrita dada aos presos, pois a comida é posta no centro do poço, e vai descendo progressivamente, sendo que, obviamento, os presos do primeiro andar tem a vantagem de ter a mesa intacta, ao passo que à medida que a mesa vai descendo, cada vez menos comida sobra aos demais.
O primeiro grande questionamento que fazemos, além de nos perguntarmos do porquê existir uma prisão tão macabra e de como o protagonista fora parar lá, é se é possível racionalizar a comida para todos os humanos do poço. Esta é uma pergunta crucial, bem como o modo de fazê-lo. Mas antes de aprofundarmos, gostaria de falar sobre o outro filme, "O expresso do amanhã", do cultuado diretor Jong Bong-Hoo (que levou Oscar pelo trabalho de "Parasita").
Tal qual no filme "O poço", em "O expresso do amanhã" os personagens também são encarcerados, mas em um trem. Os últimos vagões cabem ao povo das classes inferiores, trabalhadores, muitos dos quais sustentam a engrenagem da locomotiva, e à medida que se avança nos vagões, vê-se uma população mais abastada, uns até vivem de luxo (sustentados, claro, pelos outros humanos dos vagões "inferiores"). É como fosse a estratificação da sociedade fosse de forma horizontal, ao passo que "O poço" é uma estratificação mais "vertical".
Ambos tem uma fotografia escurecida para retratar esse submundo, ainda que, em "o expresso", a fotografia vá ficando cada vez mais clara à medida que se progrida nos vagões (sendo que é particularmente feia no início, fato que compromete até a visualização na tela). Mas a grande questão aqui é perceber essa diferença sutil das produções: enquanto que em "o poço" os personagens são parte de um experimento, sendo controlados por quem os fez prisioneiros, ou seja, o sistema que os manipula está EXTERNO àquele ambiente, em "O expresso" o sistema está INTERNO ao contexto, isto é, todos estão no MESMO trem, com a diferença que a classe controladora ocupa os vagões mais à frente.
Esta é uma diferença importante, pois acredito que, socialmente falando, a representação em "O expresso" faz mais sentido. Não tem como isolar sistematicamente, oprimidos e opressores. Embora possamos falar de claros papéis sociais (numa leitura marxista, por exemplo, uns teriam e outros não os meios de produção), é impossível um viver sem o outro, ou apartado do outro. Neste sentido, o filme do Bong faz mais sentido, pois apresenta as classes convivendo em uma mesma estrutura (o trem), sendo que uns exploram o outro para continuar movimentando a engrenagem (o trem não pode parar, pois lá fora o ambiente está congelante, dado o resfriamento da terra).
Esmiuçando, cabe perguntar: como o trem consegue suprir sua energia material para mantê-lo em movimento? Sim, porque não apenas de trabalho é movida essa estrutura, é necessário energia solar, ou mineral, enfim, o filme, tenta explicar isso, embora de maneira bem superficial.
Já em "O poço", o enredo se preocupa mais com a distribuição da comida. A questão da sua PRODUÇÃO na verdade nem é uma questão (ou estariam aquelas pessoas sendo testadas para um futuro de escassez?). O fato é que o filme quer passar a sensação de que é possível discutir estrutura social baseando-se na distribuição tão somente, ou seja, refletindo sobre o posicionamento dos homens, que eles sejam mais responsáveis, altruístas, benevolentes com seus irmãos, que consigam repartir melhor. Ok, isso é muito importante, mas como falei, é limitado, pois não leva em conta a produção, e como eu tenho um pé na economia, fica mais fácil perceber esse deslize.
Mas o filme não é sobre economia propriamente, e ainda que seja um ponto de vista limitado, é super válido também! De fato, melhoraríamos muito como sociedade se soubéssemos dividir melhor. Por isso o filme é tao bom. Abre espaço também para questões morais e até religiosas: se os recursos distribuídos são escassos, o que fazer? Canibalismo é uma opção? Daí a trama segue para tentar de alguma forma acabar com aquilo, ainda que seja meio incômodo, pois o personagem principal se pôs voluntariamente em tal situação. Também há várias camadas que nos fazem pensar sobre essa situação, como o fato de que todas as pessoas do poço responderam, antes de entrar lá, qual era sua comida favorita, sendo que de fato, inicialmente na mesa, essa comida era posta. Então como é possível não sobrar comida para todos? Tudo bem que ninguém sobreviveria dia após dia comendo um único tipo de prato, mas será mesmo que não é possível racionalizar? Aliás, vendo o nosso mundo real, será mesmo que somos racionais nessa distribuição?
Eu particularmente adorei as metáforas enigmáticas do filme "O poço", a criança ao final revelaria uma certa esperança? Até que ponto essa mensagem dialoga com o Evangelho? Em paralelo, no filme "O expresso do amanhã" eles conseguem pular do trem para tentar viver fora. Poderiam conseguir? O urso polar que aparece no filme de Jong, seria um sinal de esperança ou de um fim trágico?
A natureza é muito importante para a nossa sobrevivência, e se pensarmos que o conceito de natureza também engloba a própria natureza humana, faz sentido as reflexões de ambos os filmes. A natureza contém perigo sim, claro, conceitos como desenvolvimento sustentável (mais explorado em "o expresso") só fazem sentido quando inserimos o homem na equação, e racionalizar nossa produção e nossa distribuição nos fará ter um sistema melhor, sem dúvidas, mas essa racionalização deve suprir nossas liberdade? Afinal, até aqui na nossa história, experiências de controle não deram muito certo (eu particularmente sou um crítico ao socialismo ditatorial), sendo inegável os avanços de uma sociedade livre e de mercado, no entanto, até que ponto essa liberdade não acaba por construir estruturas terríveis de desigualdade?
São duas grandes obras que apresentam cenários distópicos e reflexões sobre a estrutura social em que vivemos. Eu gostei muito de ambas. E você?
