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28 de outubro de 2014

Filme: Indomável Sonhadora (2012)

Quando a pobreza e a imaginação de uma garotinha surgem na tela, de forma bela e acessível, o que poderia ser um filme totalmente chocante, de fácil teor apelativo, torna-se, na verdade, um retrato poético singular da realidade. E aqui, o estreante diretor Benh Zeitlin abusa de vários artifícios estéticos, ainda que, muitas vezes, repetitivos e sem a empolgação necessária (faltou-lhe o tato de um Dom Quixote).



O roteiro gira em torno das dificuldades da pequena Hushpuppy (Quvenzhané Wallis), numa impressionante atuação, merecedora de sua indicação ao Oscar. Ela e o pai passam por maus bocados, além da pobreza extrema, há complicações de saúde, inundações, marginalização e toda uma estrutura social que nada contribuem para garantir-lhes o mínimo. O que lhes resta é o convívio com pessoas que se encontram na mesma situação de vulnerabilidade, e a imaginação de Hushpuppy, criando diversas alegorias ao longo da projeção.

Nota-se que as bestas do filme podem ser atribuídas ao Estado, ou ao sistema social excludente, representando o perigo iminente (e real) que cerca pessoas em condições de vulnerabilidade. No entanto, toda essa encenação, as geleiras congelando (ação do homem?), nada disso, enquanto causa real, está inserido de forma consciente nos protagonistas. É preciso cautela para inserir-se no mundo, e principalmente uma visão crítica da realidade, eis o aspecto dúbio e interessante, na verdade, do roteiro. A sobrevivência deles se agarra a outros elementos, notadamente os aspectos de sociabilidade, de harmonia com a natureza, de poesia, de fuga à realidade crua. E não quer dizer que sejam fracos.

É redundante afirmar, neste tipo de projeto, que a fotografia é belíssima: toda a pobreza está diante dos olhos, é visível, e ao mesmo tempo é límpida e palatável. No entanto, o roteiro é falho em diversas vezes... as cenas das geleiras congelando se repetem mais do que o esperado, e as bestas são as únicas alegorias de peso no filme (e não empolgam o suficiente), deixando mesmo a sensação de querer mais.

Além disso, há outro perigo no roteiro: a conscientização das classes subalternas passa pela aceitação da condição, ainda que se utilizando de escapes fantasiosos, ou pela sua análise crítica e aprofundada sobre o meio em que vive? Ou somente se dá através de sua efetiva superação? Ora, o mundo particular de Hushpuppy se choca com o possível superficialismo em que foram retratadas as condições materiais em que vive. Subterfúgio que pode não ser o suficiente, mas talvez seja o necessário para alcançar outros patamares, e neste sentido, a obra se torna mais completa, inserida num contexto mítico e visto enquanto potencial a desenvolver-se, dando voz aos oprimidos sob a ótica deles próprios.

Assim, se inseriu muito bem a narração em off da pequena, pois do contrário restariam ainda mais dúvidas sobre a força da protagonista em superar tal condição alienante. Esta força é resumida nas tocantes palavras ao final do filme: “Quando tudo fica quieto atrás dos meus olhos, vejo tudo aquilo que me fez voando em pedaços invisíveis. Quando presto muita atenção, tudo some. Mas quando tudo fica quieto, vejo que eles estão bem aqui. Vejo que sou um pedacinho de um universo imenso, e isso faz tudo ficar bem”. É uma bela forma de seguir em frente, afinal, ou apenas o começo dela.

26 de outubro de 2014

FILME: Uivo (2010)

NOTA: 9/10


O filme “Uivo”, uma grata surpresa nessa nova cifra de filmes temáticos LGBTs, os quais saem do lugar comum dos filmes independentes ou dos discursos tão enganosa e politicamente corretos, feitos para agradar (e não incomodar), acerta em todos os seus tons: desde a decisão de pôr em destaque não a pessoa do poeta Allen Gilsberg (James Franco), mas sua polêmica obra “Howl”, ou até mesmo a sábia decisão de narrar o poema a partir de uma animação deliciosa, com uma declamação entoada na medida certa.



Em clima quase documental, este filme ganha seu espaço por se deixar fluir à vontade, fala de homofobia sem ser clichê, não evoca os mesmo argumentos de sempre para o discurso discriminatório (como a religião), muito menos enfatiza o homossexual e a sexualidade em si: na verdade, situa a sexualidade numa área tênue, entre a naturalidade de sua concepção e seu ponto transgressor. Faz pensar. 

A história é baseada em fatos reais, sobre o julgamento do poema “Howl”, na Califórnia, em plena década de 50 do século XX. Mas o que interessa mesmo , e o roteiro acertadamente nos incita a tal, é compreender as linhas tortuosas daquele grito humano que é o poema. Tanto é assim que as sessões no julgamento são muito mais interessantes quando o recitam. Ainda bem que as falas e interpretações dos personagens sobre o poema foram muito bem colocadas, apenas um pequeno maniqueísmo pode ser notado no discurso homofóbico (como na fala do advogado de acusação do poema), mas logo corrigido por outras testemunhas, que realmente expõe discursos interessantes, especialmente quando discutem a validade literária da obra.

O filme acerta em cheio ao transpor às telas, literalmente, toda a carga narrativa do poema. Não espere ver um estudo biográfico sobre o autor de “Howl”, nem de suas relações abertas, seus conturbados relacionamentos com outros homens, sua passagem no hospício... O ponto nevrálgico do longa, e o roteiro deixa claro desde o início, é mesmo nos inebriar com poesia. É, na realidade, um filme muito mais literário do que biográfico.

Obviamente, aqui e ali se conhece um pouco da vida de Allen, mas ele nunca é o protagonista. E como se não bastasse, o longo poema “Howl” é recitado na íntegra ao longo da projeção, permeado por uma animação de tirar o chapéu, embora o poema seja tão, mas tão forte, vivo, dinâmico e atemporal, que as imagens sempre parecem estar abaixo do verdadeiro sentido que o poema quer transmitir.

É como ler uma poesia em pura linguagem cinematográfica. Delicie-se, então.

Publicado no site http://www.cineplayers.com/comentario/uivo/38376

FILME: A Nação do Medo (1994)

“A nação do medo” é o tipo de filme que usa de um artifício fantasioso sem deturpar certos fatos, isto é, sem abandonar algumas verdades históricas. A premissa é simples: os aliados perdem a II Guerra, e a Gestapo toma o Estado alemão, o Japão também é bem sucedido no confronto com os EUA, e assim temos um cenário que, a partir de 1944, é todo construído em cima da vitória do Eixo, considerando tudo o que aconteceu até ali.



Ocorre que esta premissa básica não adota projeções inimagináveis, ou seja, não se utiliza de mirabolantes hipóteses do que viria a ser o futuro. Tudo fora simplificado. O Estado alemão se volta à intensa economia de mercado, mas politicamente fechado, e tenta a todo custo estender suas relações internacionais. O ponto do filme é a visita do presidente norte-americano Kennedy ao país alemão, numa visão sarcástica/dúbia do que essa aliança representaria.

E assim, a película vai dando aula de como circulam ou circulariam as informações no meio do século XX, por exemplo, a Gestapo detém informações secretas sobre os horrores da Guerra, seus líderes internos oposicionistas são perseguidos, até mortos, e todo um aparato de censura é criado diante do gigante Ministério das Comunicações.

É aqui que entra a jornalista americana Maguire (Miranda Richardson), filha de um influente diplomata, sobre a qual líderes alemães influentes depositam as esperanças de terem, ao menos, uma porta-voz. Em troca, por exemplo, da influência política de Maguire em lhe fazer deixar a Alemanha junto com a amante, um dos líderes da Gestapo revela segredos ocultos da Guerra.

Bem, é interessante notar que esses segredos, mostrando-se ser o extermínio de judeus enviados aos assentamentos na Ucrânia, não são tomados pelo roteiro como grande revelação. Isto porque, a sensação é de que já sabíamos, em uma análise pós-fato, de todas as atrocidades nazistas. O exercício imaginativo então, se desloca: o filme não é sobre o que aconteceria se Hitler e sua corja vencesse a Guerra, mas como as informações seriam disseminadas a partir de tal fato. Isto é, o filme passa de uma categoria de hipótese histórica para uma teoria da comunicação em um estado ditatorial... Em certo sentido, esse nuance pode frustrar algumas expectativas sobre o roteiro, ainda que tenha sido bem sucedido em sua execução.

Outro ponto negativo é que ainda persiste certo maniqueísmo, superado em trabalhos como “Arquitetura da Destruição” (filme sueco de 1989) ou mesmo em “A queda”. Assim, quando a verdade é revelada, de abrupto, o personagem de Rutger Hauer, o policial March, que ajuda a jornalista, de súbito se vê contribuindo a um sistema burocrático alienante. Essa percepção de si mesmo não convence (“o que meu filho pensará de mim se souber que servi a assassinos?), feita minutos após ele perceber o que representou o partido a qual serve, só mostra a urgência, a pressa do roteiro, pois é falho justamente quando se confronta à sua premissa de montar toda a estrutura que interfere na percepção do indivíduo: o Estado alemão como principal cenário e produtor das mentes de seus conterrâneos.

No mais, a fotografia escura de Berlim passa todo o clima esperado, assim como as cenas finais do encontro entre Hitler e Keneddy. Faltando audácia ao roteiro, mas se imbuindo de uma interessante premissa, não espere um filme lotado de situações históricas inverossímeis.  Apela para o sentimentalismo do filho de March, o qual em narração em Off, perdoa o pai, já perdoado de pronto pelo roteiro.


E sem apelar para teorias da conspiração imaginativas demais, todo o filme acaba passando a credibilidade necessária para fazê-lo acompanhar até o final de sua projeção, já que a revelação é sobre fatos que realmente convencem o expectador de que poderiam ocorrer, e o roteiro não se arrisca em demasia para ornamentar o Estado antidemocrático alemão. Isso quer dizer que é um filme maduro, que embora se utilize de uma falsa premissa, acaba sendo mais verossímil do que muitos filmes baseados em fatos.

Pleasure: o hedonismo e o estoicismo degladiando-se

Dirigido por uma diretora feminista, a sueca Ninja Thyberg, podemos afirmar que "Plesure" fica no limiar entre o filme denúncia e ...