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21 de fevereiro de 2015

Positivo

É como se meu mundo todo tivesse ruído. E, de repente, as frias calçadas de concreto não conseguissem segurar meu corpo, já devastado. Estou sozinho nas ruas, no feriado da quarta-feira de cinzas. Talvez, anteriormente minha vida fosse carnaval, ao passo que agora já se desfez. Triste.

Ouvi de uma senhora anônima que ela planejava passar as bodas de ouro com o marido em Nova York, mas ele se recusava a viajar à Terra do Tio Sam (mas também do Woody Allen, pensei!), de modo que o impasse do casal se resumia a escolher entre a cidade do jazz e uma tal de Amsterdã. Não sei se choro de comoção, do quanto queria viver um casamento tradicional, regado a discussões sobre qual carimbo marcar no meu passaporte.

Estava num banco de praça. Latido de cães passeando com seus donos, crianças correndo, vendedores de água de coco, sorvetes e refrigerantes tentavam, cada um à sua maneira, chamar a atenção dos transeuntes, ainda que o mais radiante no meio dessa balbúrdia, o seu Zé, fosse o vendedor de suco de laranja natural mais brejeiro de todos. Mas não estava com sede, nem fome, nem me sentia vivo. Eu só queria um sentido para toda essa alegria espontânea dos outros.

Estava a caminho de casa, mas tive que parar neste banco de praça. Desconectei a Internet de meu smartphone, e fiquei por alguns minutos a contemplar a paisagem. Daqui pra frente nada será a mesma coisa. O algodão-doce cor-de-rosa, ainda que permanecesse doce e rosa, teria outro gosto e outra cor. E o pior de tudo, que mal consigo me lembrar das palavras da assistente social, quando ela finalmente revelou o resultado que não esperava escutar. Sim, o teste de HIV deu POSITIVO.



Tive de conter as lágrimas naquele instante. Eu precisava me mostrar forte, aguerrido. Mas as pernas já estavam pesando, ao mesmo tempo em que minha cabeça rodava a uma velocidade incalculável. Estava em minhas mãos continuar me arriscando ou simplesmente continuar vivendo.

Namorávamos há oito meses. E durante todo esse tempo, jamais transamos sem preservativo. Até porque, não foram muitas às vezes em que precisávamos usar. Havia noites em que o vinho ou os filmes de terror nos acompanhavam, e outras em que uma pizza gordurosa ou rodadas de videogame com os amigos nos preenchiam. Tínhamos o tempo necessário para valorizar a presença um do outro das mais diferentes formas. Às vezes, quando eu tinha um dia difícil na faculdade, queria apenas um breve sorriso dele, nem que fosse por alguns segundos, o suficiente para valer pelo dia todo. Era incrível a capacidade dele de sempre estar bem humorado, e bom humor contagia.

Meu namorado trabalha como vendedor em uma grande loja de conveniências. Apesar de estressante para os meus padrões, considerando que minha rotina se resume aos compromissos da faculdade, era ele quem me reconfortava, me reanimava, introjetava aquela lasca de vigor tão necessária ao cotidiano de cada ser humano. Não se preocupava com dietas, nem com academia. Era amante de Virgínia Woolf e de filmes japoneses de animação. Francamente, onde se encontra hoje um homem nerd feminista? Ele queria fazer letras, mas tirando a literatura, não se saía bem em todas as outras disciplinas. Talvez arranhasse na Gramática e na História. Talvez.

Mas agora, não sabia o que fazer. Não sei dizer se o amo. Oito meses parecem muito pouco para tal definição. Só sabia dizer que ainda não era o momento para me afastar dele sem provocar o mais intenso dos sofrimentos. Mas eu precisava me decidir.

Foi escurecendo. Alguns garis da prefeitura ainda limpavam a rua. Eu me levantei do banco com o choro preso. Não conseguia derramar as lágrimas, ainda que parecesse prestes a desabar. Voltei pra casa.

Não tive como encarar meus pais, mesmo sabendo que eles poderiam ser a força de que precisava. A única coisa que queria era adormecer num travesseiro mágico, daqueles que, ao repousar, fizessem apagar da sua memória todo o dia vivido, de modo que o amanhecer trouxesse uma nova chance, como se o dia anterior jamais tivesse existido. Obviamente não foi o que aconteceu. Depois de uma noite pessimamente dormida, a única vontade que tinha era de correr aos braços do meu namorado. Foi o que eu fiz.

Saí de casa e mal tomei café. Queria encontrá-lo antes dele iniciar sua jornada de trabalho, ainda que tivéssemos combinado de nos ver somente depois do expediente. Na verdade, estávamos juntos quando recebemos o resultado do teste, no dia anterior, e desde então, de forma instintiva se fez um silêncio tácito entre nós.

Passei rapidamente na farmácia para lhe comprar um presente. Fui até o trabalho dele, mas ainda restavam alguns minutos para que ele começasse a trabalhar, até que o avistei.

Ele usava um óculos escuro, provavelmente para esconder os olhos vermelhos. Poderia, inclusive, ser dispensado do trabalho, mas não queria se entregar. Demo-nos um forte abraço um no outro, sem saber calcular o quanto o movimento rotacional da Terra deve ter parado para nós.

- Estou aqui. – eu disse.

Foi a única coisa que conseguir dizer naquele momento. Sabia que poderia cometer um erro, mas não poderia abandoná-lo naquele momento: meu namorado descobrira ser soropositivo, ao passo que eu não comportava tal condição. Apesar de ele ter jogado as responsabilidades na minha costa, se queria continuar ou não, e de eu não estar completamente seguro se deveria ir adiante, lhe dei o presente que havia comprado: uma caixa de preservativos, para usarmos.

Foi quando rimos e choramos ao mesmo tempo. E eu, que até então não havia derramado lágrimas, e que sempre recebia seu afago, estava, agora, lhe reconfortando, lhe devolvendo aquele belo sorriso no rosto pelo qual me apaixonei. Se vai dar certo, eu não sei. A única coisa que sabia era que, no final do dia, quando eu voltar da faculdade e quando ele sair do trabalho, iremos nos encontrar na praça, na mesma praça em que, ontem, havia passado horas a fio, mas desta vez iríamos tentar rir da vida, e decidir se mataríamos o tempo com sorvete, água de coco ou com o suco de laranja do mais simpático vendedor do bairro. Ou quem sabe comeríamos algodão-doce, daquele rosa, para enfim descobrir se seu gosto e sua cor permanecem tão doce e tão rosa, tão saborosos e tão vivos quanto antes...



7 de fevereiro de 2015

Crítica: Namoro ou liberdade


8/10

“Namoro ou liberdade” (That Awkward Moment, 2014) pode não ser uma das melhores comédias do gênero, aliás, na verdade, está longe disso. Também fica ligeiramente atrás, no quesito diversão, das mesmas produções do gênero, como as franquias “Se beber não case” ou “Quero matar meu chefe”. Entretanto, colocando na análise outros critérios além das piadas, este exemplar está surpreendentemente à frente dos filmes aqui citados.

Para começar, os três protagonistas estão todos ótimos. Obviamente o roteiro apela para a história do galã Zac Efron, vivendo o papel do simpático Jason, e o rapaz se sai dignamente bem. No entanto, em nenhum momento os outros dois parceiros deixam de aparecer e ter suas cenas bem encaixadas. Aliás, este entrosamento é percebido de forma tão natural nos créditos finais, que toda a sintonia da equipe durante o filme logo é confirmada. Que Miles Teller tem belo time para comédia é inegável, porém, foi extremamente gratificante ver o amigo negro da turma, Mikey, vivido por Michael B. jordan, adotar a linha mais introspectiva, sem perder o bom humor. Isto é, ele fugiu daquele padrão do negro como válvula de escape e palhaço da turma, e é dele as falas mais inspiradas em termos de reflexão, e que não soaram clichês.

O filme trata de relacionamentos, o eterno dilema entre o momento de dizer “sim” (ou não) a uma parceria estável ou curtir a vida de solteirice, assim como o momento tenso entre romper ou não um relacionamento. Talvez o filme tenha pecado em não ser tão adulto em alguns momentos, ocasião em que o poderia ser, por exemplo, se explorasse mais a vida profissional dos rapazes, e se explorasse menos algumas piadas de mau gosto. Entretanto, tentando atingir um público mais jovem, essa escolha pode até funcionar, pois ainda assim lembrou um “American Pie” menos escrachado e mais clean. 

O interessante é que a película poderia muito bem enveredar por esse lado mais maduro, pois os rapazes não adotam sentimentos infantis, nem foram idiotizados pelo roteiro, além de demonstrar certo equilíbrio e talento nos seus papéis. Mesmo porque, o dilema de passar de uma vida de liberdade a uma vida de compromissos demarca muito bem a passagem para esse amadurecimento. Aliás, o mais próximo que ocorreu em relação a essa vivência mais adulta foi com o personagem de Mikey, igualmente tocante a forma como o protagonista vivia um casamento e como se deu o seu desfecho.

Para completar a grata surpresa, a escalação das parceiras dos respectivos amigos soou não apenas natural, mas perfeitamente enquadradas às personalidades dos marmanjos. Todas elas aparecem em suas vidas e foram sutilmente construídas, não estão no lugar comum e apagado, pois da relação com cada um deles, há uma troca de sinergia estupenda, o que faz com que os rapazes acabem mudando ou se adaptando em função da experiência trocada com elas. E, afinal, a relação construída é sempre bidimensional, nunca o ponto de vista masculino se sobressai nessa construção.

Por essas e outras, contando com personagens excelentes e com a possibilidade de ter ido mais adiante (sim, pode parecer frustrante que o roteiro não tenha saído do superficial em alguns momentos) que considero este o melhor exemplar das, digamos, “comédias românticas protagonizadas por amigos héteros” dos últimos anos. Para a juventude que ainda tem um certo romantismo, tem mente aberta e pensa na estabilidade (ou não) dos relacionamentos, esta é uma boa pedida. Ainda que fique atrás de trabalhos mais reflexivos, afinal ainda carrega aquele tom de ser uma comédia enlatada, este filme pode sim apresentar boas sacadas, especialmente pra quem vive tal dilema. E sem perder o romantismo, ou seja, sem deixar de ser clichê. E que bom! Afinal, não se trata de idealizar o porvir dos relacionamentos, não é essa a proposta: o grande dilema do filme, o momento crucial mesmo, é o do início, é o do começar o relacionamento, e não seu desenrolar. Esta foi sua grande sacada, este momento tenso entre o romper, iniciar ou nem engatar um relacionamento, ou seja, That Awkward Moment.


Publicado também em: http://www.cineplayers.com/comentario/namoro-ou-liberdade/39155

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