- Uma mulher!
Bee, vê se já aconteceu esta cena com você: corpos suados de
um lado a outro na academia,mapôs com suas calças de lycra, o magrinho que
passa mais tempo ao celular com fone de ouvido, o tiozinho que disputa os
maiores pesos... e, de repente, um corpo de boy chama a atenção. E que corpo!
Que boy! Morenaço, camiseta justa destacando o peitoral definido, gemido
intenso na carga máxima do supino, cara de macho. Eis que surge aquele velho
broto, colega de faculdade do boy-marombeiro-magia, que o cumprimenta
entusiasticamente, mas não mais do que o próprio: “Amigooo! Nossa, quanto
tempo! Arrasou com essa baby-look azul bebê, comprou onde?”
Pois é.
O Sr. Hulk da academia é, de perto, uma mulher maravilha!
Obviamente esta sua surpresa lhe faz um tolo, e uma pena que talvez esta não
seja a sua surpresa definitiva: sabe aqueles garotos, playboys, que você não
dava nada e que fazem o treino se revezando com os amigos nos aparelhos mais disputados
(o que, tecnicamente, dobre o tempo de permanência deles na academia, pois
vivem em grupo, já que a sociabilidade é o foco, não o treino), ora falando
sobre a última balada, ora sobre a balada seguinte? Então, nessa ternura de
camaradagem jovem, já no vestiário, você os ouve comentando sobre a pintosa
musculosa da academia, com ar de desdém, troçando daquele gênero deslocado.
Imagina o que devem falar de travestis e transexuais! São os mesmos que fazem
apologia a uma suposta discrição intimada: “Cara, uma mulher... nem acredito!”,
“ridículo, né? E parece homem...”, “Devia ter vergonha na cara”. A verdade é
que se são gays enrustidos, reprimindo internamente seus desejos, ou héteros
recalcados, pouco importa. A ironia do dia é que você se iguala a eles em sua
surpresa inconsciente sobre o bombadão de voz fina.
O que sua boca não diz, na tentativa de manter-se
politicamente correto e com seu discurso pronto e inabalável sobre sexualidade,
o seu pensamento em flash rápido o revela. Pensar para si mesmo: “Tô chocado
com essa mulher num corpo de boy”, revela mais da sua personalidade
internalizada do que parece. E aí você continua se chocando, mesmo diante de
saídas de armários banais como ter um professor gay ou de simplesmente
descobrir que seu padeiro é casado com outro homem.
Já na saída da academia, eis que o bonitão-machudo-feminino
surge lhe oferecendo carona. Você aceita e descobre que ele mora no mesmo
prédio que você, ouve MPB, é estudante de Odontologia, e trabalha como barman
em uma boate. Tudo parecia bem, até você descobrir que ele não gosta de Woody
Allen! “Como assim?”, você o pergunta, no que ele responde: “Um velho arrogante
metido a comediante. Gosto do Adam Sandler!”. E você se espanta, entra em
choque!
Ao chegar em casa, ri da situação. Pelo menos, dessa vez,
você aprendeu a se chocar pelos motivos certos.