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7 de dezembro de 2020

ERA UMA VEZ UM SONHO: o típico indivíduo do Americam Way of life

 O novo filme de Ron Howard ficou disponível em novembro de 2020 na Netflix, e conta a história de um rapaz do interior, estudante de direito, que tenta "vencer na vida" mesmo vindo de uma família completamente disfuncional. História baseada em fatos reais.


Fazendo uso até que eficiente de uma série de flashbacks (que em nenhum momento tornaram o filme confuso), a grande verdade é que provavelmente você já viu essa história antes. O rapaz quase se "perde na vida", dada a relação problemática com a mãe (uma viciada em heroína). Para completar, o rapaz é forçado a ir morar com a avó, tendo apresentado rendimento escolar medíocre e amizades que quase o levam para o buraco. Mas é quase. No fundo, o filme defende uma espécie de meritocracia e exalta o American way of life, reforçando o fato de que escolhas individuais, mesmo considerando as influências de grupos primários (escola e família), são os que dão peso a uma vida de sucesso.

Importante destacar aqui que, mesmo contando com Amy Adams e Glenn Close, em atuações excepcionais, o filme é mesmo de J. D (Gabriel Basso), não pela atuação, mas pelo tema central mesmo, e ainda considerando que é baseado na sua autobriografia. As mulheres são apenas invólucros para a camada central, que reside em acompanhar como J. D conseguiu superar traumas e o quanto sua vida adulta carrega este legado. Aliás, destaque para o ator mirim de J. D, excelente. 

Eu costumava ser crítico demais a esse tipo de enredo. Lembro de ter detestado o cultuado "À procura da felicidade", de Will Smith, um filme que é bem mais trabalhada a humanização dos personagens e sua caracterização e motivação de vida, porém, em essência, não foge ao visto em "Era uma vez um sonho": o despertar do indivíduo em frente ao caos. Filmes como esses podem enterrar um apuro sociológico e enaltecer uma falsa meritocracia.

Contudo, o ano é 2020. As dificuldades foram postas a todos, ainda que, obviamente, o peso das desigualdades torne tudo mais desequilibrado do que se supõe. E talvez porque eu tenha saído de casa cedo e ido morar em outro estado, ou seja, ter me identificado com o protagonista, que ter visto o rapaz se balançando entre seu dever profissional e a família descompensada, tornou-se pra mim uma marca muito pessoal para simplesmente deixar de lado. Além disso, essa escolha entre um lado e outro se revela uma falsa dicotomia, afinal, como o próprio filme menciona em certa ocasião, nossa identidade é um amontoado de influências compartilhadas.

Deste modo, por mais que o American Way of Life esteja lá berrando, de forma não discreta, é inegável o poder que o filme pode proporcionar por quem se deixar levar por acompanhar os percalços daquela família e ver como tudo estava indo por água abaixo, mas foi salvo. 

Repito: há histórias de superação muito melhores, muito mais emocionantes, muito mais relevantes. Mas num ano carente por esperança, achei bem vinda a mensagem da projeção, ressaltando o quanto é importante valorizarmos nossos entes queridos, mesmo passando por uma série de sofrimentos e percalços, compreendendo que eles fazem parte da nossa história.




6 de dezembro de 2020

ESTOU PENSANDO EM ACABAR COM TUDO: digressão acima da média da Netflix

"Estou pensando em acabar com tudo", filme lançado em 2020 na plataforma Netflix, traz novamente a mente engenhosa de Charlie Kaufman (roteirista de "Brilho eterno de uma mente sem lembranças") às telas, baseado no livro escrito por Iain Reid. E diga-se: o filme é melhor.


Não é um filme fácil. O trailer entrega praticamente uma história soft, que brinca com o duplo sentido do titulo: acabar com o relacionamento ou com a vida? 

Inicialmente, vemos o casal principal em uma espécie de road movie, e embora sejam recém-namorados, já é possível sinalizar o início de uma "crise" entre eles. E de fato, quando o casal protagonista está no carro do rapaz, em sua primeira viagem para conhecer os pais dele, tudo parece se tratar de um filme cujo mote será o deslocamento e pessimismo da jovem em relação ao namoro, questionando sua identidade e sua potencialidade em estabelecer afetos, no entanto, o filme é muito mais do que isso.

ATENÇÃO PARA SPOILERS!!

Nas casas dos pais dele, não demora muito a começar a jorrar em tela os primeiros sopros surrealistas: os pais mudam de aparência de uma cena a outra. Antes disso, alguns frames rápidos de um zelador aparecem repentinamente (o zelador retornará nas cenas finais). Durante o jantar, à medida que vamos conhecendo Jake e sua namorada (detalhe, ela não tem um nome certo, é chamada de muitos nomes durante a projeção), percebemos, ao mesmo tempo, uma simbiose e um estranhamento dela com Jake, cena mais evidente quando ela entra no quarto dele ou no porão. Há algo muito estranho ali: fotos, poesias, quadros, que misturam um e outro personagem. O que eles são e fazem vão, progressivamente, se imiscuindo.

A tensão é construída milimetricamente, tornando o filme às vezes arrastado, mas quase tudo é absolutamente necessário. Avançando nas cenas, lembranças de um celeiro na infância, um mal estar com os pais, a volta para casa, a parada numa sorveteria mesmo durante a nevasca, cujas garçonetes chegam a dar avisos macabros, tudo isso vai sendo construído com um clima de suspense. Seria o sinal de que algo muito pior ou muito sinistro estará prestes a acontecer? Na estrada, o casal para o carro com o objetivo de jogar fora os copos do sorvete não tomados, iniciando um terror claustrofóbico muito bem arquitetado.

Muito mais horripilante do que se o filme descambasse para um feminicídio, já que o roteiro entrega todos os indícios, com um protagonista perturbado, uma conversa de estupro, uma parada numa escola que parece estar abandonada (lembram do zelador?), a imagem da cesta de lixo, cheia de inúmeros copos de sorvete... Mas na verdade, o longa é muito mais horripilante do que isso. 

Em determinada passagem do filme, a jovem afirma que o pensamento é mais real que a ação. Diversas cenas desconexas mas que entregam uma experiências sensorial, e que parecem arraigadas a fortes memórias, criam um tipo de horror baseado nas lembranças da vida e daquilo que foi ou que poderia ter sido. A "não-vida" pode tornar-se um pensamento poderoso, muito mais do que a ação vivida. Em síntese, o filme é sobre relacionamentos vividos ou não vividos, em especial os platônicos, sobre nossas frustações, sobre o peso de envelhecer, sobre lembranças, sobre a relação com namoradas ou com a família, e abre espaço até mesmo para sugerir relacionamentos abusivos, mostrando as marcas que ficam não apenas nas vítimas, pois tudo isso é na mente de Jake, não da garota.

Portanto, o filme dialoga com a masculinidade do homem moderno: mesmo Jake tendo o potencial de ser um homem de sucesso, com uma infância marcada por pequenos prêmios (que não indicam absolutamente nada à vida adulta), teria ele virado um zelador apático? Teria ele vivido relacionamentos infrutíferos e se decepcionado com várias namoradas? Aliás, ele teve relacionamentos? Ou pior, ele chegou a ser um homem abusador? e sua relação com os pais?

Note que é um filme que trabalha com simbolismos, portanto, não há respostas. Inclusive, está aberto a inúmeras interpretações. Mas é muito mais assustador do que simplesmente descambar para, por exemplo, ser um filme de serial killer. Ele subverte nossas expectativas para falar sobre a vida e seus rumos incertos, sobre o navegar pelas desilusões ou pequenos prazeres, como a poesia ou a pintura, ou tomar um sorvete, e ainda assim não sentir-se pleno. É um filme sobre incerteza. A única certeza mesmo, é que estamos diante de mais um filmaço de Kaufman.


4 de dezembro de 2020

MANK: o outsider dentro da engrenagem de Hollywood

 


9/10

David Fincher tem uma ótima mão para biografias, e assim como fez em "A rede social", em que estava mais interessado nos bastidores da história sobre o criador do Facebook, em "Mank" o diretor também conta o que há por trás do responsável por um dos maiores filmes já realizados no cinema: retrata a história do roteirista que escreveu o clássico filme "Cidadão Kane", Herman Mankiewicz.

Você não precisa ter visto o filme de 1941 para compreender esta obra de Fincher, no entanto, ter assistido ao clássico vai lhe render uma experiência mais agradável, especialmente porque grande parte da trama gira em torno das "coincidências" que supostamente o roteiro tinha com personagens reais retratados em "Mank", além de que Fincher resgata uma discussão política no filme que é muito bem vinda no clima polarizado de 2020.

O filme, rodado em preto e branco, demora a engrenar, e isso em parte é positivo, mostrando uma excelente construção de personagem. Embalado por uma trilha pulsante, que consegue segurar a tensão e a sensação de que algo importante sempre vai acontecer, é bem verdade que pode ser enfadonho para alguns, em especial quando há uma explosão de nomes e pessoas. Fincher, no entanto, vai centralizando sua história na relação que  o personagem principal tem com o casal Marion Davies (que seria uma espécie de subatriz) e William Randolph Hearst (chamado muitas vezes de Willie), um empresário e jornalista, que teria se aventurado na política pelo partido democrata, anos antes, mesmo sendo conservador. É desses personagens que se supõe que houve a influência para escrever "Cidadão Kane".

"Cidadão Kane" foi indicado a 9 Oscars, mas acabou ganhando apenas 1: roteiro original. Portanto, méritos a Herman Mankiewicz. Mas qual o interesse de contar essa história em 2020? Simples: a tese defendida por Fincher é de que Willie se rendeu ao conservadorismo como meio de sobrevivência, expondo-o por intermédio do "Cidadão Kane" (portanto, uma ficção hollywoodiana de grande alcance), em que supostamente Willie, na verdade, tinha ideais democratas e mais liberais. O filme obviamente parte de uma ideia projetada e subjetiva que Herman Mankiewicz faz de Willie, construindo-o como um personagem que tenta sobreviver ao mundo burguês. Quase como uma espécie de "Gatsby", mas com mais pólvora no canhão, por comportar ideais de esquerda em uma sociedade que vivia o começo da segunda guerra, e começava a viver a Era de Ouro do cinema. 

É essa ambiguidade de Willie que não apenas vai ser decisiva em "Cidadão kane", mas também é ela que vai jogar os podres e a hipocrisia na cara da sociedade norte-americana pós crise de 1929, abalada pelo nascimento do Nazismo e com horror à alavancada progressista. Aliás, esse clima de austeridade política é muito bem perceptível nas falas dos coadjuvantes, citando Hitler, Mussolini, o medo aos comunistas. Há espaço até para celebridades irem às rádios defender ideias conservadoras baseadas em fake news. É importante essa revisita, pois temos a impressão que o clima polarizado e hostil nasceu no século XXI, quando já estava entranhado desde, pelo menos, a guerra civil americana, sendo a Era de Ouro apenas uma parte dessa faceta que põe lado a lado republicanos e democratas. Nota-se que as falas são sutis, evocando a propriedade privada e a família, nada muito diferente do que vemos hoje em dia pela direita dita "liberal".

Deste modo, Mankiewicz, mesmo sem levantar bandeira, claramente se afeiçoa à ala democrata e progressista, e o filme deixa isso clara quando os próprios personagens vivem um momento de discussões trabalhistas, de cortes salariais, de eleições, de mudanças estruturais dos estúdios. Esse cenário todo é útil para situar Mankiewicz em um lado do espectro político, mas aqui não há proselitismo, nem palanque. De fato, Mankiewicz navega entre ser um outsider ou ser uma peça da engrenagem hollywoodiana, pois ainda que conviva com seus vícios alcoólicos e tenha uma séria de falas irônicas à alta sociedade, afeiçoando-se às classes operárias (em contraste com a elite representada pelos donos das produtoras), ele não deixa de ser um roteirista de renome, ao qual Orson Welles (diretor de Cidadão Kane) contava para escrever seu novo filme, bem como não deixa de tramitar por esses espaços da alta sociedade da indústria cinematográfica.

Aliás, a relação tensa com Welles é um tanto maniqueísta, mas ainda assim poderosa quando explode na tela. Cobrando o devido crédito por "Cidadão Kane", já que Orson queria para si as glórias da história, é como se o personagem se livrasse da mesquinhez do dinheiro e se apegasse a uma virtude maior, mais sublime, devido o valor artístico que há por ser o criador de uma obra genial, vencedora do Oscar justamente pelo roteiro original.

Citando Willie como um Quixote prestes a dar o bote com seus ideais democratas, ficamos mesmo com a sensação que é Mankiewicz o personagem quixotesco do filme, lutando contra os barões do cinema, sobrevivendo contra Orson Welles e os produtores, sendo que sua gana por ser reconhecido como autor de uma obra-prima o eleva ao Olimpo, mostra um ar heroico de quem luta contra os "moinhos de vento da indústria cinematográfica". E ainda de quebra, expõe a hipocrisia da sociedade burguesa nessa nova indústria, quando começava o filme falado e que, cada vez mais, tornava-se técnica, expondo toda a contradição de sua "linha de montagem": na ponta, trabalhadores que faziam a arte acontecer, e é sobre eles que Mankiewicz se constrói.

Não é um filme fácil, e é mais falado do que a média. Com uma atuação na medida certa de Gary Oldman, temos aqui uma brilhante construção de época com muito caldo para pensar o presente. Um ótimo candidato ao Oscar.

OBS: o roteiro do filme foi escrito pelo pai de Fincher, já falecido. Será que teremos mais um Oscar de roteiro vindo aí?

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