Ela estava
encostada à porta da frente, solitária e pensativa. Um rabo de cavalo preso com
a graciosidade de quem outrora ousava em tal visual para chamar a atenção. Era
só um arremedo na tentativa de se sentir bem consigo mesma: estava no limite,
prestes a desabar. Deu um bom dia arrastado ao porteiro do prédio, como se o
sol ainda não tivesse lhe tocado a face, como se seu sorriso jovial fosse tudo
menos a verdade que gostaria de carregar consigo. Na verdade, por mais meiga
que fosse por fora, sua alma conseguia se esconder de forma impávida, mas com
esforço. Era realmente necessário ter força.
Dia das
namoradas. Ela mal conseguia lembrar-se do ano anterior. Foram seis anos uma ao
lado da outra. Lembrou-se do primeiro dia das namoradas em que passaram juntas,
em que foram jantar num restaurante italiano e tiveram que contar as moedas
para poder, em paz, fazer o pedido do prato mais barato do menu. E estavam
alegres, compartilhando os até então três meses de namoro, que logo se
transformariam em um noivado, numa promessa que fizeram mais aos pais do que a
si mesmas. Lembrou-se de como o garçom sorria para a sua namorada, como se a
estivesse paquerando, e de como decidiram, naquele momento, sem dizer uma
palavra, mas apenas com o olhar mútuo, dar o primeiro beijo em público. A cara
do garçom misturava surpresa com um certo desejo velado, mas elas não se
importavas. Tinham conseguido se interpretar em sinais.
E em três anos
de convívio e relação mútua, onde uma simples respiração descompassada já lhe
indicava um mínimo de sensibilidade, “hoje você não está bem”, relatavam com
frequência, foram mais do que suficientes para decidirem compartilhar o mesmo espaço.
Passaram a morar juntas.
Ah, conviver...
Lembrou-se também das inúmeras taças de vinho. Era comum, às sextas-feiras,
serem embaladas por iguarias suculentas e adiposas, como pizzas de bacon,
embora saboreadas com um vinho portenho doce e suave. Desta vez, já empregadas,professora
de literatura e nutricionista, planejavam oficializar a relação assim que a
primeira terminasse o mestrado. Ideias e ideias. Nada disso vingou.
Agora ela
estava ali, com o diploma na mão e com o coração vazio, esperando sua ex-noiva
visitar (talvez pela última vez) o apartamento em que ambas compartilharam mais
do que segredos: compartilharam seus melhores anos de juventude e vigor.
A tarde, ainda
que ensolarada, se inebriava de um ar nublado e de rubros corações em bexigas
esvoaçantes, deslizando pelos transeuntes na praça em frente ao prédio. Tanto
riso fácil e tantas palavras de otimismo serão trocados neste dia 12 de junho,
que a vontade que ela tem é de correr pelas ruas e fazer desacreditá-los. “Não
dura para sempre”, berrava seu coração. E ela ali, consciente de que era objeto
de desejo de alguns vizinhos, que poderia simplesmente soltar os cabelos ao
vento, lisos e sedosos, e transfigurar-se na mulher que sempre fora. Mas
preferia manter-se menina, recatada, vítima de um destino sobre o qual não se
preparara.
Era muito duro
receber a visita de sua ex justamente no dia das namoradas. Mas era a data em
que ambas estariam disponíveis. Já fazia uma semana que não se viam, soubera
por uma amiga em comum que a clínica de orientação nutricional da sua ex
estaria prestes a inaugurar, em parceria com diversas academias que pipocavam
na cidade. Não saberia ao certo como ela poderia ser tão competente em
prescrever dicas dietéticas, em como ela era eficiente em cuidar do corpo,
embora fosse um desastre para cuidar da alma.
Desgaste talvez
não fosse a palavra certa, nem rotina. Era o que mais queriam, afinal! Aquele
cheiro de café durante a correria da manhã, os discos da Adriana Calcanhoto em
um fim de tarde chuvoso, a receita mais fajuta em dia de visitas, tudo isso num
clima harmonioso, que simplesmente some. Desaparece. Tanto que, por mais que
fizesse um esforço, não conseguia se lembrar do ano anterior, talvez aquele dia
das namoradas fora esquecível pela viagem programada que não acontecera.
Talvez.
É angustiante
quando não se consegue apontar motivos, ainda que tal situação enseje um número
desordenado de acusações. Se pelo menos houvesse uma terceira pessoa, o foco
estaria ali, mais claro, mais nítido, e perfeitamente mais vulnerável. Ocorre
que os fantasmas assustam bem mais. O que não se sabe, o que está por trás de
um relacionamento que se esgota sem um motivo aparente, é muito mais
assombroso. Torna as duas, vítimas e algozes de seus próprios destinos e
sentimentos.
Perdeu a conta
dos litros chorados, não pela partida ou pelo fim, mas pela certeza de que não
haveria mais volta. Tudo isso é pesado demais, uma tonelada que se forma
inicialmente depois de ter ficado claro que não existia mais nada a aquecer o
coração, a não ser a saudade e a vontade de voltar a ser aquecida. Afinal, não
é sobre não ter a pessoa em si, mas sobre o medo de ter somente a solidão.
Nessas alturas, é como você se indignasse por dentro, pensando o quão pode ser
tão pessimista, porque de fato é uma sensação de derrota que precisa ser
superada. E vai sendo superada, aos poucos, em doses homeopáticas.
Neste meio
tempo, construíram um patrimônio juntas. Precisavam agora, friamente, exercer o
dom da contabilidade e separar os pertences. Os objetos pessoais já não se
restavam no apartamento. E, de repente, deu um riso nervoso, quando veio em sua
mente o quão fragilizáveis estavam quando nem uma e nem outra assumiram a posse
do DVD “Como esquecer”, protagonizado por uma Ana Paula Arósio em seu épico do
cotidiano para esquecer um amor. Não, o orgulho as intimava para empurrar para
a outra a dor que era de ambas.
Já meio cansada
e com os olhinhos fechando, ela finalmente a avista. Alguns minutos se passam
até que elas possam cumprimentar-se friamente no hall, não com medo das retaliações a que possam ser objetos, mas
com a falta de entusiasmo que finalmente sentem que as condenou.
Ao entrarem no
elevador, só se ouve um “Como vai o Hulk?”, “Vai bem”. E só. Hulk, o
cachorrinho que fora levado do apartamento, talvez fosse o mais próximo que
tiveram de uma cria. Elas entraram no apartamento e se deram conta de que não
havia nenhum tapete à porta de entrada. Talvez tenha ido na caixa junto com os
discos de vinil. Nada mais fazia sentido, nem tinha o porquê de ser coerente.
Então, quando
trancou a porta, finalmente ela ouviu um “Como você está?”.
Engraçada a percepção,
a pergunta veio no momento em que estavam compelidas a sentir o subterfúgio
daquele apartamento, palco de juras e de planejamentos mútuos. Possuía certo
rigor mítico, como se à espera de um futuro não concretizado, mas delineado.
Trocaram
trivialidades, “eu estou bem”, obviamente como se diz a uma velha tia
quarentona que não se veem há anos. Não sabiam nem o que sentir, muito menos
verbalizar essa emotividade. O jeito era canalizar uma para a outra, que eram,
afinal, a fonte de toda essa profusão de sensibilidade. Ora, elas estavam ali!
Fortes e imponentes, aparentemente. Deveriam transparecer a segurança que
sabiam não ter. E foi o que fizeram, com um bloco de anotações a listar móveis
e eletrodomésticos que seriam retirados por um amigo em comum, dono de uma
empresa transportadora.
Obviamente que
ela não aceitou ficar para jantar, embora falsamente tenha emendado com o
típico “adoraria”. Reparou como esse “adoraria” sempre vem acompanhado do
“mas”? “Eu adoraria ficar para jantar, mas ainda tenho que resolver umas
pendências da clínica”. E você percebe que algo mudou quando esta resposta, que
evita prolongar o contato, é a que mais satisfaz.
Então, chegam
até o quarto. Não há controvérsias quanto a penteadeira, embora não tenham como
avançar mais. Era melhor deixar a cama e o guarda-roupa fora de cogitação. Mas
então acontece o inevitável. Sua ex desaba na cama, como se estivesse, desde o
princípio, a retrair aquele choro que vem como um dilúvio, e com sonoros
pedidos de desculpa!
O que estaria
acontecendo com aquele choro? Que confusão é essa em que terão que rever o
pacto firmado para o término? Por que dificultar as coisas em momentos que pareciam
tão derradeiros?
“Desculpa por
isso, estou me sentindo péssima! Queria que fosse diferente. Queria que hoje fosse diferente.”
Ela deu ênfase
ao “hoje” como se precisasse realmente desse esforço. A anfitriã, então, quebra
a regra estabelecida do contato e a abraça. Mas não com aqueles braços
maliciosos que esperam sempre o roçar dos seios. Não, foi um abraço de afago.
Foi um abraço a dizer que ela não precisava se preocupar, pois ficariam bem.
Foi um abraço de alguém que dizia saber que estava perdendo e ganhando uma nova
oportunidade ao mesmo tempo.
E foi incrível
como a segurança de uma contagiou a outra. “De certa forma, hoje está sendo um dia diferente”,
rebate.
Sim, o dia em
que perceberam que era melhor seguir adiante. Ela sabia que o choro que fora
contido até o presente momento significava um pedido de perdão por não podê-la
mais fazer feliz, e não um pedido de retorno para que insistissem num fardo que
não se pode mais suportar.
E mesmo que a
consciência de ambas estivesse determinada pelo fim, elas então se cumprimentam
de forma amistosa, e decidem que é o momento certo pelo qual estavam ansiosamente
aguardando: “tenho um presente pra você”, e a outra, com espanto e com um leve
sorriso, já controlando as lágrimas que insistiam em cair, reponde de forma
arranhada: “não acredito... eu também!”.
E elas enfiem
sorriem. Nervosamente, mas sorriem. A professora, então, retira da estante o
seu livro preferido e entrega à ex amante, ao passo que esta pega da bolsa o
que parece ser uma caixa com uma imagem da sua santa protetora. “Quero que
fique com você”, diz.
E elas se
presenteiam com objetos pessoais que lhe são valiosos, como a dizer que, na
verdade, uma só pode levar o que há de melhor da outra. E se despedem com um
beijo, não daqueles apaixonados, mas com a certeza de que a maturidade finalmente
lhes alcançou, num dia das namoradas marcado pela passagem de um amor que não
existe mais, simplesmente porque persiste para a imensidão do mundo que se abre
para elas.