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10 de junho de 2015

Dia das Namoradas


Ela estava encostada à porta da frente, solitária e pensativa. Um rabo de cavalo preso com a graciosidade de quem outrora ousava em tal visual para chamar a atenção. Era só um arremedo na tentativa de se sentir bem consigo mesma: estava no limite, prestes a desabar. Deu um bom dia arrastado ao porteiro do prédio, como se o sol ainda não tivesse lhe tocado a face, como se seu sorriso jovial fosse tudo menos a verdade que gostaria de carregar consigo. Na verdade, por mais meiga que fosse por fora, sua alma conseguia se esconder de forma impávida, mas com esforço. Era realmente necessário ter força.

Dia das namoradas. Ela mal conseguia lembrar-se do ano anterior. Foram seis anos uma ao lado da outra. Lembrou-se do primeiro dia das namoradas em que passaram juntas, em que foram jantar num restaurante italiano e tiveram que contar as moedas para poder, em paz, fazer o pedido do prato mais barato do menu. E estavam alegres, compartilhando os até então três meses de namoro, que logo se transformariam em um noivado, numa promessa que fizeram mais aos pais do que a si mesmas. Lembrou-se de como o garçom sorria para a sua namorada, como se a estivesse paquerando, e de como decidiram, naquele momento, sem dizer uma palavra, mas apenas com o olhar mútuo, dar o primeiro beijo em público. A cara do garçom misturava surpresa com um certo desejo velado, mas elas não se importavas. Tinham conseguido se interpretar em sinais.

E em três anos de convívio e relação mútua, onde uma simples respiração descompassada já lhe indicava um mínimo de sensibilidade, “hoje você não está bem”, relatavam com frequência, foram mais do que suficientes para decidirem compartilhar o mesmo espaço. Passaram a morar juntas.

Ah, conviver... Lembrou-se também das inúmeras taças de vinho. Era comum, às sextas-feiras, serem embaladas por iguarias suculentas e adiposas, como pizzas de bacon, embora saboreadas com um vinho portenho doce e suave. Desta vez, já empregadas,professora de literatura e nutricionista, planejavam oficializar a relação assim que a primeira terminasse o mestrado. Ideias e ideias. Nada disso vingou.

Agora ela estava ali, com o diploma na mão e com o coração vazio, esperando sua ex-noiva visitar (talvez pela última vez) o apartamento em que ambas compartilharam mais do que segredos: compartilharam seus melhores anos de juventude e vigor.

A tarde, ainda que ensolarada, se inebriava de um ar nublado e de rubros corações em bexigas esvoaçantes, deslizando pelos transeuntes na praça em frente ao prédio. Tanto riso fácil e tantas palavras de otimismo serão trocados neste dia 12 de junho, que a vontade que ela tem é de correr pelas ruas e fazer desacreditá-los. “Não dura para sempre”, berrava seu coração. E ela ali, consciente de que era objeto de desejo de alguns vizinhos, que poderia simplesmente soltar os cabelos ao vento, lisos e sedosos, e transfigurar-se na mulher que sempre fora. Mas preferia manter-se menina, recatada, vítima de um destino sobre o qual não se preparara.

Era muito duro receber a visita de sua ex justamente no dia das namoradas. Mas era a data em que ambas estariam disponíveis. Já fazia uma semana que não se viam, soubera por uma amiga em comum que a clínica de orientação nutricional da sua ex estaria prestes a inaugurar, em parceria com diversas academias que pipocavam na cidade. Não saberia ao certo como ela poderia ser tão competente em prescrever dicas dietéticas, em como ela era eficiente em cuidar do corpo, embora fosse um desastre para cuidar da alma.

Desgaste talvez não fosse a palavra certa, nem rotina. Era o que mais queriam, afinal! Aquele cheiro de café durante a correria da manhã, os discos da Adriana Calcanhoto em um fim de tarde chuvoso, a receita mais fajuta em dia de visitas, tudo isso num clima harmonioso, que simplesmente some. Desaparece. Tanto que, por mais que fizesse um esforço, não conseguia se lembrar do ano anterior, talvez aquele dia das namoradas fora esquecível pela viagem programada que não acontecera. Talvez.

É angustiante quando não se consegue apontar motivos, ainda que tal situação enseje um número desordenado de acusações. Se pelo menos houvesse uma terceira pessoa, o foco estaria ali, mais claro, mais nítido, e perfeitamente mais vulnerável. Ocorre que os fantasmas assustam bem mais. O que não se sabe, o que está por trás de um relacionamento que se esgota sem um motivo aparente, é muito mais assombroso. Torna as duas, vítimas e algozes de seus próprios destinos e sentimentos.

Perdeu a conta dos litros chorados, não pela partida ou pelo fim, mas pela certeza de que não haveria mais volta. Tudo isso é pesado demais, uma tonelada que se forma inicialmente depois de ter ficado claro que não existia mais nada a aquecer o coração, a não ser a saudade e a vontade de voltar a ser aquecida. Afinal, não é sobre não ter a pessoa em si, mas sobre o medo de ter somente a solidão. Nessas alturas, é como você se indignasse por dentro, pensando o quão pode ser tão pessimista, porque de fato é uma sensação de derrota que precisa ser superada. E vai sendo superada, aos poucos, em doses homeopáticas.

Neste meio tempo, construíram um patrimônio juntas. Precisavam agora, friamente, exercer o dom da contabilidade e separar os pertences. Os objetos pessoais já não se restavam no apartamento. E, de repente, deu um riso nervoso, quando veio em sua mente o quão fragilizáveis estavam quando nem uma e nem outra assumiram a posse do DVD “Como esquecer”, protagonizado por uma Ana Paula Arósio em seu épico do cotidiano para esquecer um amor. Não, o orgulho as intimava para empurrar para a outra a dor que era de ambas.

Já meio cansada e com os olhinhos fechando, ela finalmente a avista. Alguns minutos se passam até que elas possam cumprimentar-se friamente no hall, não com medo das retaliações a que possam ser objetos, mas com a falta de entusiasmo que finalmente sentem que as condenou.

Ao entrarem no elevador, só se ouve um “Como vai o Hulk?”, “Vai bem”. E só. Hulk, o cachorrinho que fora levado do apartamento, talvez fosse o mais próximo que tiveram de uma cria. Elas entraram no apartamento e se deram conta de que não havia nenhum tapete à porta de entrada. Talvez tenha ido na caixa junto com os discos de vinil. Nada mais fazia sentido, nem tinha o porquê de ser coerente.

Então, quando trancou a porta, finalmente ela ouviu um “Como você está?”.

Engraçada a percepção, a pergunta veio no momento em que estavam compelidas a sentir o subterfúgio daquele apartamento, palco de juras e de planejamentos mútuos. Possuía certo rigor mítico, como se à espera de um futuro não concretizado, mas delineado.

Trocaram trivialidades, “eu estou bem”, obviamente como se diz a uma velha tia quarentona que não se veem há anos. Não sabiam nem o que sentir, muito menos verbalizar essa emotividade. O jeito era canalizar uma para a outra, que eram, afinal, a fonte de toda essa profusão de sensibilidade. Ora, elas estavam ali! Fortes e imponentes, aparentemente. Deveriam transparecer a segurança que sabiam não ter. E foi o que fizeram, com um bloco de anotações a listar móveis e eletrodomésticos que seriam retirados por um amigo em comum, dono de uma empresa transportadora.

Obviamente que ela não aceitou ficar para jantar, embora falsamente tenha emendado com o típico “adoraria”. Reparou como esse “adoraria” sempre vem acompanhado do “mas”? “Eu adoraria ficar para jantar, mas ainda tenho que resolver umas pendências da clínica”. E você percebe que algo mudou quando esta resposta, que evita prolongar o contato, é a que mais satisfaz.

Então, chegam até o quarto. Não há controvérsias quanto a penteadeira, embora não tenham como avançar mais. Era melhor deixar a cama e o guarda-roupa fora de cogitação. Mas então acontece o inevitável. Sua ex desaba na cama, como se estivesse, desde o princípio, a retrair aquele choro que vem como um dilúvio, e com sonoros pedidos de desculpa!

O que estaria acontecendo com aquele choro? Que confusão é essa em que terão que rever o pacto firmado para o término? Por que dificultar as coisas em momentos que pareciam tão derradeiros?

“Desculpa por isso, estou me sentindo péssima! Queria que fosse diferente. Queria que hoje fosse diferente.”

Ela deu ênfase ao “hoje” como se precisasse realmente desse esforço. A anfitriã, então, quebra a regra estabelecida do contato e a abraça. Mas não com aqueles braços maliciosos que esperam sempre o roçar dos seios. Não, foi um abraço de afago. Foi um abraço a dizer que ela não precisava se preocupar, pois ficariam bem. Foi um abraço de alguém que dizia saber que estava perdendo e ganhando uma nova oportunidade ao mesmo tempo.

E foi incrível como a segurança de uma contagiou a outra. “De certa forma, hoje está sendo um dia diferente”, rebate.

Sim, o dia em que perceberam que era melhor seguir adiante. Ela sabia que o choro que fora contido até o presente momento significava um pedido de perdão por não podê-la mais fazer feliz, e não um pedido de retorno para que insistissem num fardo que não se pode mais suportar.

E mesmo que a consciência de ambas estivesse determinada pelo fim, elas então se cumprimentam de forma amistosa, e decidem que é o momento certo pelo qual estavam ansiosamente aguardando: “tenho um presente pra você”, e a outra, com espanto e com um leve sorriso, já controlando as lágrimas que insistiam em cair, reponde de forma arranhada: “não acredito... eu também!”.

E elas enfiem sorriem. Nervosamente, mas sorriem. A professora, então, retira da estante o seu livro preferido e entrega à ex amante, ao passo que esta pega da bolsa o que parece ser uma caixa com uma imagem da sua santa protetora. “Quero que fique com você”, diz.

E elas se presenteiam com objetos pessoais que lhe são valiosos, como a dizer que, na verdade, uma só pode levar o que há de melhor da outra. E se despedem com um beijo, não daqueles apaixonados, mas com a certeza de que a maturidade finalmente lhes alcançou, num dia das namoradas marcado pela passagem de um amor que não existe mais, simplesmente porque persiste para a imensidão do mundo que se abre para elas.





8 de junho de 2015

Sobre religião e estigma na Parada da Diversidade

Vamos imaginar que eventualmente você ouça uma música não muito boa, de um estilo que você curta bastante. ok, vamos exagerar, digamos que a música seja sofrível. ruim mesmo. certamente alguém conhece uma mpb, um rock, um jazz, que sejam intragáveis. agora vamos imaginar que esta singela experiência o faça maldizer todas as outras músicas de tal estilo, isto é, por um exemplar podre você odeia todo o restante. Muito radical, não é?


Imagine agora um filme terrível que você assistiu. Certamente você não desistirá do cinema em geral por ter visto uma comédia besteirol do Adam Sandler (mil perdões aos seus fãs, mas é este o tipo de filme que acho insuportável). Pois bem, certamente haverá outros filmes tão ruins quanto, ao passo que também existirão maravilhosas obras-primas da sétima arte lhe esperando para serem apreciadas. Por um filme ruim não se pode julgar todo o cinema, não é?


Então, tomei a liberdade desses exemplos esdrúxulos para dizer o que é um estigma. Estigma é quando você julga o todo por apenas um, sendo “esse um” geralmente o mais conveniente possível ao discurso de quem estigmatiza. Falo isso pois na parada Gay de São Paulo (07/06/2015) foi precisamente o que ocorreu com muitos discursos ao se depararem com exageros de umas poucas pessoas, envolvendo encenações religiosas do tipo: gays e lésbicas sendo crucificados pela homofobia nossa de cada dia (bela metáfora, eu diria), ou a encenação de um beijo gay envolvendo a figura de Jesus (de gosto duvidoso), ou crucifixos em órgãos genitais (de muito mau gosto), entre outras imagens, as quais foram o suficiente para os estigmatizadores de plantão julgarem todo o restante. Não adianta nem discutir, “gay é assim, querem afrontar”, pensam.


E como se enganam! Há LGBTIs dos mais diversos tipos, dos religiosos ao que curtem bate-cabelo, dos ateus aos que frequentam cultos evangélicos, dos mais afeminados aos que mais parecem protótipos truculentos de machos “alfas”, dos que frequentam parada gay àqueles que preferem ir a um jogo de futebol (e, diga-se, tipos não necessariamente excludentes entre si).


Agora imagine que um grupo de heterossexuais profane a imagem de Deus em pleno carnaval. Certamente ninguém falará: “esses héteros são uns sem-vergonha, ficam usando a imagem sagrada! Pecadores!” . Não, isso não ocorre. Não estamos acostumados a qualificar o heterossexual em função da sua sexualidade. Em outras palavras, não estigmatizamos o gênero decifrável. E que bom! Melhor seria se fosse assim para todos.


Vale lembrar que a parada hoje é chamada de “parada da diversidade”, compreendendo todas as possíveis formas de expressão, inclusive da heterossexualidade, ainda que essa normatividade não precise ser continuamente firmada, afinal. Isto só ocorre com os LGBTIs porque vivemos num paradoxo: entre o firmar uma identidade gay e, ao mesmo tempo, querer a igualdade que esta identidade representa. O “beijo gay” só estará livre de preconceitos quando se transformar em apenas “beijo”, momento em que todos poderão contemplar a beleza que é o beijo entre seres humanos que se amam. Mas enquanto o beijo gay não é naturalizado, fica difícil para certas pessoas considerá-lo apenas beijo, já que muitos ainda acham a cena mais abominável de uma novela, considerando uma com cenas de homicídios e lotada de infidelidades conjugais.


Além disso, na mesma parada da diversidade houve o manifesto de religiosos em favor da liberdade de orientação sexual. Logo, a recíproca é verdadeira: nem todo cristão é fundamentalista!


Por isso que, perante a livre encenação artística nas paradas da diversidade, não se pode atribuir nada ali a todo o restante. A diversidade abarca inclusive o terreno ideológico. Não se trata de julgar as pessoas LGBTIs, e sim de julgar aquela representação artística em particular, se agrada ou não, de acordo com seu conceito moral. No entanto, se o seu conceito moral for do tipo “LGBTIs são pecadores”, a sua mente é tão fechada que nem mesmo se os trios da parada entoassem a Sétima Sinfonia de Beethoven você os veria com bons olhos. E ainda bem que um Michelangelo, da Vinci, Cole Porter ou um Sócrates são lembrados mais pelos seus desempenhos em suas áreas do que pela sexualidade que praticavam (só espero que, depois dessa, não sobre pra Monalisa!).

Pleasure: o hedonismo e o estoicismo degladiando-se

Dirigido por uma diretora feminista, a sueca Ninja Thyberg, podemos afirmar que "Plesure" fica no limiar entre o filme denúncia e ...